terça-feira, 9 de junho de 2026

Amores fáceis

Por norma, não sou um consumidor do tipo de ficção escrita pelo norte-americano H. P. Lovecraft. Descobri, no entanto, uma frase sua que não teria horror em fazer minha: Tudo o que amei está morto há dois séculos. Encontrei-a numa revista, cujo nome e natureza omito. Para acertar o passo com o escritor teria de escrever: Tudo o que amei está morto há três séculos. A frase não seria verdadeira, claro, mas teria impacto num eventual leitor de orientação conservadora. Viver antes do triunfo dos valores do Iluminismo não seria para mim e, provavelmente, para Lovecraft boa ideia. Os tempos eram duros para a maioria das pessoas e eu estaria, por certo, entre essa maioria. Muitos cultores do passado, não todos, fazem-no porque vivem num presente que lhes ofereceu a oportunidade de uma vida que esse passado lhes recusaria. Há nisto uma batota existencial. Diz-se amar uma coisa sem correr qualquer risco de ser confrontado com ela. A culpa disto é não haver viagens no tempo. Quem amasse, por exemplo, a vida do século XVII, seria enviado para esse tempo e para a condição social que então era a dos seus antepassados. Contudo, a realidade foi construída de modo a evitar que as pessoas amantes desses passados tenham de provar o seu amor. E assim podemos proclamar que tudo o que amamos está morto desde que a roda foi inventada.

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