Se me perguntarem qual o pensador com o nome mais complicado para pronunciar, direi: Erik Ritter von Kuehnelt-Leddihn. Este nobre austríaco não faz parte do cânone de pensadores proeminentes, mas tem um nome que seria memorável se não fosse tão difícil de memorizar. De certo modo foi um pensador político e tem uma obra que ainda hoje merece referência, tanto para quem concorda com ele como para quem discorda: Liberty or Equality – The Challenge of Our Times. Também escreveu romances, porventura com menos sucesso do que as suas obras de filosofia política. Kuehnelt-Leddihn, além de nobre, era católico, conservador, liberal e monárquico. Esta teia de filiações ideológicas é uma exigência do próprio nome. Quanto mais complexo é um nome, mais filiações exige. Por exemplo, Platão ou Aristóteles, na simplicidade das suas denominações, filiam-se apenas no seu próprio pensamento. Platão é platónico e Aristóteles é aristotélico. Embora, note-se, Platão não se chamasse Platão, mas Arístocles. Platão era uma alcunha, cuja razão de ser é disputada, e, por isso, omito-a aqui. Foi uma disposição do acaso acertada. Não seria muito agradável que se dissesse que os dois filósofos decisivos se chamavam Arístocles e Aristóteles. Uma cacofonia e para cacofonia já basta o Erik Ritter von Kuehnelt-Leddihn, que não é um pensador decisivo, embora ninguém saiba o que é um pensador decisivo e o que faz com que ele assim seja reconhecido.
sexta-feira, 3 de abril de 2026
quinta-feira, 2 de abril de 2026
Um mundo difuso
Ainda não acertei o passo com a hora de Verão, embora ela surja na Primavera. Ao acordar, se olho para o relógio fico confuso. Depois, durante todo o dia, transporto um sentimento de desacerto dentro de mim. Com a hora de deitar, as coisas não mudam. Vivo de forma anacrónica. O tempo em que vivo não coincide com aquele que está convencionado para esta época do ano. Não consigo recordar-me se este desarranjo é habitual ou se é uma coisa nova, uma oferta da idade. Depois, mas disso lembro-me de ser recorrente, estou a ser bombardeado pela astenia de Primavera. O que me apetece durante todo o dia é dormir, melhor, dormitar. Resisto ao apetite, mantenho os olhos abertos, mas a realidade não muda. Indiferente a este drama é o canto dos pássaros meus vizinhos. Já vieram há umas semanas, mas agora não se cansam de chamar a atenção sobre eles. Finjo que não os oiço, mas eles sabem muito bem que não é verdade. Por isso, continuam a cantar e esperam a minha gratidão. O desacerto horário e a astenia primaveril, porém, tiram-me a energia para lhes render homenagem. Que cantem, desde que não me incomodem. Eu também não os incomodarei. Vou ver um filme, talvez dormite uns instante e o mundo se torne um pouco menos difuso.
quarta-feira, 1 de abril de 2026
O mais cruel dos meses
Começa hoje, o mais cruel dos meses, aquele que gera lilases na terra morta e mistura memória e desejo. Esta é uma homenagem mais digna do que aquela que se prestava no dia um de Abril, declarando-o como dia da mentira. É provável que os órgãos de comunicação já não mantenham uma antiga prática de contar uma mentira que, no dia seguinte, era desmentida. Muitas vezes as mentiras eram de tal maneira infantis que se mostravam no que eram. Se a prática desapareceu, talvez a razão seja que contar mentiras passou a ser um exercício quotidiano e não uma graçola sem graça tratada como efeméride. Então, outrora, só se mentia a 1 de Abril? Não, claro que não. Mentia-se todos os dias. Contudo, essas mentiras chocavam com a ideia reguladora da verdade. Ainda eram uma homenagem à verdade. A mentira de hoje é diferente, pois não tem qualquer relação com a verdade. Aliás, esta deixou de ter qualquer interesse. Cada um crê no que lhe apetece e, geralmente, as pessoas gostam mais da mentira do que da verdade. Há uma clara razão estética para isso. A verdade é uma e só uma, o que introduz uma insuportável monotonia. Sobre o mesmo assunto, o número de mentiras é, em potência, infinito. Escolher a mentira preferida é uma agradável tarefa, que mobiliza a imaginação e confere a cada um uma sensação de realização, quase como se fosse um artista. Também T. S. Eliot estaria a mentir quando escreveu que Abril é o mais cruel dos meses, mas um poeta é um mentiroso, e mente tão completamente que… O resto toda a gente sabe, ou devia saber, o que, no registo de hoje, é a mesma coisa.