domingo, 15 de março de 2026

Culto da indecisão

Tomo uma decisão, mas, passado um pouco, fico na dúvida se é uma decisão acertada ou realizável, o que significa que não tomei uma decisão, mas apenas disse a mim mesmo que o tinha feito. Neste mundo, há homens e mulheres decididos, uns ponderados, outros nem por isso. Decidem e executam as suas decisões, custe o que custar. Têm boa imprensa e promovem-se a si mesmos. Contudo, o mundo seria melhor se eles fossem indecisos. A indecisão torna o mundo mais habitável. Tem, porém, um problema. Seria necessário que todos os que se tomam por decididos se convertessem, ao mesmo tempo, à indecisão. Esta é habitada pelo medo, embora tenha uma dupla natureza. Uns têm medo de que a decisão lhes caia em cima e os fira. Outros temem ferir terceiros. Independentemente da etiologia, o efeito é o mesmo, e é benéfico, pois evita que a confusão no mundo se propague. Neste momento, o nosso pobre planeta está cheio de homens decididos. E quanto mais decididos estão, pior se torna o mundo. Não vale a pena dar exemplos. Qualquer um pode constatar isso, basta o sacrifício de dar três minutos de atenção aos noticiários. Que fazer? O melhor que temos a fazer é tomar a decisão de sermos e propagarmos a indecisão. Organizarmos um culto, com rituais e um sacerdócio hierárquico. Na categoria mais baixa, teríamos os Hesitantes. Na segunda, os Irresolutos e no mais alto patamar, como sumos sacerdotes, os Perplexos. Estes não existem no plural. Quando alguém chega a Perplexo é porque o Perplexo anterior tonou uma decisão e morreu. No culto, seria instituída a confissão. Quem tivesse tomado uma decisão, teria de se confessar ao Hesitante da paróquia. Cumpriria uma penitência e tomaria a decisão de nunca mais tomar qualquer decisão. Não seria o paraíso na Terra, mas as coisas melhorariam substancialmente. No início desde texto, tinha tomado uma decisão, mas o que salva do confessionário é que já não me lembro qual foi. Não há paciência para o Hesitante de serviço nesta freguesia.

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