O dia acinzentou-se, primeiro, e, depois, enegreceu. Isto não é uma descrição empírica do dia. É uma descrição do mundo. Também não. Já sei. É a descrição de um estado de espírito de alguém prestes a entrar pela avenida sem retorno de uma patologia mental. Também não. É apenas um conjunto de palavras lançadas num monitor que mimetiza a velha folha de papel. Uma modalidade de ocupar o espaço com texto, quando não se tem nada a dizer. Recordo-me do tempo em que escrevia os trabalhos da faculdade, ainda não lhes chamavam ensaios, numa máquina de escrever. Um suplício. Escrever num teclado com um monitor à frente é uma prova do progresso moral do mundo, um desmentido de que as coisas vão do cinzento para o negro. Progresso moral? Não será antes do progresso técnico? Sim, por certo, será uma evidência do progresso técnico, mas a verdadeira melhoria é de carácter moral. Com uma máquina de escrever, quem tinha paciência para fazer e refazer continuamente o texto? Ninguém. Tudo era pesado e lento. Agora, é só apagar e voltar a escrever. Escrever numa máquina era uma tortura, o cumprir de uma pena. Escrever num teclado é uma ascese, o exercício em busca de um texto virtuoso. Então, por que razão estes textos são tão desprovidos de virtude? Pergunta-me o homúnculo que habita na cave da minha mente. Encolho os ombros, bocejo e hesito em responder-lhe. Ele lança-me um olhar desafiador. Respondo: a vida virtuosa é um processo e não um resultado. O importante, continuo, não é que o resultado seja virtuoso, mas que eu me exercite em busca dessa virtude. Ele olhou-me e, sem se rir, afirmou: Sim, claro, o importante não é ganhar, mas jogar. Sim, disse eu, é isso mesmo. Se treinasses um clube meu, despedia-te agora. Seria a única acção virtuosa, acrescentou. Olhei pela janela e o cinzento do dia estava mais escuro.
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