sexta-feira, 27 de março de 2026

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Vivemos num mundo saturado de explicações. Ingenuamente, pensa-se que a explicação serve para aumentar a compreensão de quem a escuta. Isso, porém, é uma imagem idílica que provém dos tempos escolares, onde se contratava – e contrata – um explicador para aumentar a compreensão da matéria de uma certa disciplina por parte de um aluno em apuros. As explicações que nos assombram e assediam não visam aumentar a compreensão, mas multiplicar a confusão. Qualquer fenómeno político, económico, militar, social tem o poder de convocar uma multidão de explicadores, sob a designação de comentadores, que têm uma dupla pretensão: pretendem que compreendem aquilo de que falam e pensam que as suas palavras farão luz nos auditores que a elas se submetam. O resultado, porém, é que o auditório está cada vez mais confuso. Não é que os comentadores não se expliquem bem, mas o mais certo é que não compreendam aquilo de que falam, mas não têm coragem de ficar calados. A coragem reside no reconhecimento de que não se sabe, na douta ignorância. Assim, existem legiões de ignorantes que não se sabem enquanto tal e por isso não são doutos. Falam, falam, o silêncio aterroriza-os. Comentam como se tomassem ansiolíticos. Sempre que se vir alguém a comentar um caso político, militar, económico ou outro qualquer, podemos estar certos de que está a fazer terapia. Imaginam-se, por certo, que estão deitados no divã de um psicanalista e que falam como se estivessem a contar sonhos ou a entregar-se a associações livres. Só que o auditório não tem licença para fazer terapia. Fica mudo e os comentadores, pobres deles, nunca se tratarão. Este é o meu comentário para o dia de hoje.

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