domingo, 22 de março de 2026

Melancolias

Olho para a rua e sinto, com não pouco espanto, a melancolia do domingo à tarde. Pensava que essas melancolias eram meramente subjectivas, uma reacção ao fim do fim-de-semana. Uma preparação para enfrentar os dias dedicados à realidade, depois de pouco mais de quarenta e oito horas de devaneio. Agora, que essa condição não se coloca, tenho de mudar de opinião. A melancolia do domingo à tarde tem uma fonte objectiva. São as tardes domingo em si, e não qualquer outro motivo, que provocam esses estados de agastamento melancólico. Uma maneira especial da luz cintilar, a forma como as pessoas pisam as calçadas das avenidas, o modo como os carros passam. Mesmo o bosque que avisto daqui se deixa contaminar por uma combinação de verdes e cinzentos. Tudo isso, que só acontece ao domingo à tarde, provoca no sujeito que observa o pathos da melancolia. Ou talvez não. O smartwatch decidiu mandar-me uma mensagem. Informa-me de que foi adicionada uma sesta, isto é, estive pouco mais de uma hora a dormir em frente ao computador. Acordei faltavam três minutos para as cinco da tarde. Talvez tenha tido um sonho melancólico e que aí esteja a fonte do estado de espírito que tomou conta de mim. Olho, de novo, para a rua e corroboro a primeira impressão, a melancolia dos domingos à tarde é uma propriedade da realidade e não o fruto onírico de um sono mal dormido.

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