A tarde de voz rouca e agreste desfila como se fosse um
girassol entontecido pela luz. Frases destas enfureciam uma certa seita de
filósofos. Destituídas de sentido, diriam os pensadores tomados pela raiva,
dedos apontados, acusação sem direito a defesa. Como eu os compreendo. Também
os sons da bateria vindos de algum evento festivo aqui perto me chegam
destituídos de sentido. Pressinto o esforço do baterista, o movimento dos
músculos, a cadência das baquetas ao chocar contra pratos e tambores.
Definitivamente, a percussão nem sempre me cai bem. Acontecem as coisas mais
estranhas nesta terra onde nada acontece. A semana desenovela-se com
indiferença. Já esqueceu a segunda e a terça, não tarda aniquilará a quarta. O
baterista ensaia um solo, mas logo desiste. Há pouco corria uma aragem fria,
agora é uma nuvem que tapa o sol. Os músicos insistem e imagino que os ouvintes
resistem. Tocam êxitos do rock dos anos sessenta ou setenta, e eu, suspendendo
o meu ressentimento e incómodo, fico extasiado perante o engenho de quem tenta
parar a roda do tempo e imagina que tem vinte anos e uma vida pela frente. Não
tem, mas também não se cala.
quarta-feira, 5 de junho de 2019
terça-feira, 4 de junho de 2019
Grafias
Olho a capa de uma velha revista e, de súbito, revela-se toda
a perfeição encoberta no limbo do passado. Não por acaso há pretéritos
perfeitos e até mais que perfeitos, apesar de também os haver imperfeitos, como
certas capelas na Batalha. Todas as famílias têm as suas ovelhas negras, foi, à
falta de melhor, a explicação que me ocorreu. A revista, publicada em MCMXXX
pela Litografia Nacional, tem por título Monumentos de Portugal – Cintra. Aí
está toda a perfeição. Que diferença entre a velha Cintra e a Sintra de hoje. O
leitor pode objectar, não sem alguma razão, que a actual é marcada pela dupla curvatura
da linha, ora para trás ora para a frente, de um esse que se contorce, como se
a vila quisesse, nestes tempos de funâmbulos, moldar-se à instabilidade acidental
de qualquer turista. A concavidade da velha Cintra tem, porém, outro carácter.
O cê está ali disponível para acolher dentro de si todas as outras letras e
fechar-se num mistério insondável, que nenhum intruso pressentirá. Enquanto
oiço a algazarra vinda de uma das escolas que há por aqui, medito que só os desavisados
pensarão que a grafia das palavras é coisa neutra, destituída de significado e
das mais terríveis consequências.
segunda-feira, 3 de junho de 2019
Agustina Bessa-Luís
Afinal, também os imortais morrem. Foi o que me ocorreu ao
tomar conhecimento da morte de Agustina Bessa-Luís. Em tempos, tive com os
livros dela uma relação complexa, um misto de fascínio e ódio. Há na sua
escrita uma crueldade enorme que coloca o leitor de cócoras perante o seu
talento. Lê-la era ao mesmo tempo um grande prazer e um exercício de
humilhação. Ao voltar da página, na luz de uma frase, brilhava um estilete que
deslizava sobre a pele do leitor para se enterrar no lugar de onde brota a
vaidade. Há uns anos conheci alguém que vociferava contra todos aqueles que,
como o inútil que escreve estas palavras, julgavam a escritora genial. Uma
idiotice, asseverava. Como é possível julgar genial alguém que não passava de
um Camilo requentado, uma escritora do século XIX? Esqueci o nome e o rosto
dessa pessoa e nunca dei por que tivesse dado à luz a escrita que haveria de
iluminar o século XXI. Um dia destes voltarei aos romances de Agustina, agora
que as ilusões juvenis murcharam e a realidade crua desceu sobre mim. Por
certo, já não os jogarei ao chão e à parede, como, despeitado e preso ao
feitiço da sua escrita, cheguei a fazer. Mesmo quando os pássaros meus
vizinhos cantam, Junho é um mês difícil.
sábado, 1 de junho de 2019
Tagarela
O culpado de tudo isto é o pobre do Coleridge, caturrei,
que ensinou aos leitores que deveriam suspender a descrença quando lêem qualquer
ficção. Um péssimo trabalho, o do poeta inglês, que gerou mais equívocos do que
qualquer outra patranha que a literatura inventou. Agora tendem a confundir-me com
quem escreve estes textos e atribuir-lhe os pensamentos que são meus. Entre mim
e o autor há uma desconformidade tal que há dias e dias que passamos um pelo
outro e nem trocamos um olhar quanto mais uma saudação. Desconfio que o tipo
nem me suporta. Eu, para dizer a verdade, dispenso de bom grado o convívio, mas
é triste para mim esta confusão, rouba-me a identidade e atribui ao tolo do
autor as descobertas, sensações e exalações que são minhas. Se fosse ele a arvorar-se
dono do que digo e sinto ainda o acusava de plágio, mas ele é burro velho e não
cai na esparrela. Remete-se ao silêncio e deixa-me tagarelar. Tagarela, foi
assim que ele me criou.
sexta-feira, 31 de maio de 2019
Assim-assim
Há por aqui um desassossego pouco habitual numa terra que
caminha lentamente, dobrada ao peso dos séculos, ao correr dos anos sob a
sombra do castelo. Para combater a artrite, o reumático e os sintomas de
alzheimer da cidade, inventaram uma coisa a que chamam feira de época e não
falta quem para lá se apresse, corra, se precipite, fingindo que faz uma
revisitação do passado por meia dúzia de patacos. E é esta ficção pouco
imaginativa que traz em polvorosa locais e forasteiros, aumenta o trânsito e
parece trazer alegria e, segundo dizem, coloca a antiga vila no mapa das festas.
Como se sabe, não há coisa melhor que uma terra animada. Tudo isto faz-me
lembrar aquela história de John Stuart Mill que se conta aos adolescentes sobre
a divisão dos prazeres em superiores e inferiores. Estas festividades, ou muito
me engano, não cabem nessa sábia divisão. Nem são tão rasteiras que degradem
quem nelas participe, nem tão elevadas que permitam alçar o espírito de
quem por lá se perde. São uma espécie de assim-assim que vem e logo se vai, sem
que daí venha grande mal ao mundo. Sobre tudo isto que me rodeia não tenho mais
palavras nem sequer pensamentos. A minha mente também ela é uma espécie de
assim-assim.
quinta-feira, 30 de maio de 2019
Quinta-Feira de Ascensão
O dia da espiga deslizou na mansidão do calor e prepara-se
para se entregar como oblação aos poderes da noite. Por aqui, é feriado
municipal e as pessoas devotaram-se ao ronronar das horas esquecidas dos
antigos rituais. Haverá quem dê uma saltada à Chamusca, terra que combina
espigas e toiros, talvez uma festa arcaica vinda sabe-se lá de onde. Eu fiquei
em casa perdido entre pilhas de papéis, protegido contra o império do sol. Não
me posso queixar de falta de rendimento do dia. Foram inúmeras as inutilidades
que fiz. Há quem diga que estou a ficar demasiado velho, tal o cinismo com que olho
o mundo. Há pessoas muito dadas à hipérbole, é o que eu digo. O mundo é o mundo
e confundi-lo com o paraíso é não ter medida das coisas. Apesar de o vituperar
por desfastio e falta de assunto, tremo só de pensar que há quem queira
transformá-lo num paraíso. Se o mundo fosse um paraíso, hoje não era
Quinta-Feira de Ascensão.
domingo, 26 de maio de 2019
Ai que prazer
Não posso dizer que o cumprimento do meu direito e dever de
votar tenha sido particularmente espinhoso. Bastou-me sair do prédio, atravessar
a avenida e entrar na escola onde me esperava a urna e o boletim de voto, onde
havia de expressar a minha escolha do produto que decidi comprar no mercado
eleitoral. Eu sei que não devia contaminar as nobilíssimas questões cívicas com
o tagarelar rude e interesseiro da economia, mas hoje acordei com aqueles
versos do Pessoa que dizem: Ai que prazer
/ Não cumprir um dever. Votar, votei, mas agora desforro-me com estas
contaminações despropositadas. O dia está quente e as pessoas das secções de
voto parecem ter inscrita nos rostos a saudade da beira-mar. Somos um povo
atlântico e é com grande sentido de dever que há quem troque o oceano pelos
cadernos eleitorais, o abrir e fechar daquela fina ranhura por onde o nosso
voto entra para se despenhar no buraco negro das contagens eleitorais. Também
eu, há muitas décadas, fiz parte das mesas das secções de voto. Depois,
evaporei-me, embora as visite sempre com ar sério e não sei se compungido. Saí
da secção de voto como quem sai de um confessionário, com alma limpa e pronto
para a penitência.
sábado, 25 de maio de 2019
Cegueiras e prerrogativas
Ao ver uma fotografia antiga, assaltou-me a ideia de quão
rude era a vida naqueles dias. De imediato, pensei que quem então vivia não
sentia essa rudeza, que só se torna visível aos olhos dos que chegam muito
depois. Também nós somos cegos para a rudeza em que vivemos, para a existência
fruste que nos cabe, e essa cegueira é a moeda com que pagamos o vinho das
nossas alegrias. Tudo isto foram pensamentos que me acudiram de manhã. Depois,
veio a tarde e atravessei a cidade para uma visita familiar. O sol não
transformara as coisas e elas continuam a ser o que sempre foram. Não sei se
isso me alegrou ou entristeceu. Há dias em que já não consigo distinguir alegria
e tristeza. Talvez essa capacidade de distinção seja uma prerrogativa dos
verdes anos. Agora, sento-me e, enquanto vou escrevendo, deito olhares
enviesados ao mundo lá de fora. O vento toca ao de leve o folhedo das árvores
e, por mais que me interrogue e medite, não consigo perceber por que razão a
Terra há-de ser um planeta habitado.
sexta-feira, 24 de maio de 2019
Do cansaço da milícia
Sei bem que não sou dos melhores frequentadores da cidade.
Tenho com ela uma relação esquiva que o passar dos anos acentuou. Não sei se
será por isso ou por outro motivo que só os deuses conhecerão, a verdade é que,
nestes dias de campanha, nunca me deparei com aquelas acções litúrgicas que
os partidos políticos, em ano de jubileu, organizam para ganharem as nossas
indulgências plenárias. Talvez tenham desistido de conquistar um lugarzinho no
céu ou andem cansados, como eu, devido à inconstância do tempo. Ou talvez veja
mal ou ande distraído, mas foi o que me ocorreu nesta tarde batida pelo vento,
quando fui obrigado a palmilhar umas escassas centenas de metros para obter sábio
conselho sobre um esotérico assunto fiscal. Não fora eu conhecer esta terra,
até pensaria que estava num daqueles países ultracivilizados onde se dispensam procissões e fogo de artifício para
conquistar a benevolência de cada um. Não estamos. Aqui também é a Europa do
Sul com a sua inclinação para a tragicomédia. Resta a hipótese dos actores
locais estarem cansados e já não suportarem o peso da máscara que põem sempre
que precisam de entrar no palco. A glória das coisas do mundo é transitória ou,
para parecer culto e usar um latinismo em forma de analogia, apanhado no
rabisco da internet, ut flatus venti, sic
transit gloria mundi. Faço apenas notar que o flato é do vento, para que
não se pense que, invejoso, misturo a glória mundana e certos odores originados
nas catacumbas do corpo.
quinta-feira, 23 de maio de 2019
É preciso paciência
As coisas são o que são e há que ser condescendente até, ou principalmente, consigo mesmo. Eu sei que estes dias não têm sido fáceis, tal a azáfama que se intrometeu na minha pacata existência quando Maio começou a declinar. Quando vêm limpar o escritório eu tenho um inevitável tique pequeno-burguês – como disse no começo, as coisas são o que são – de ter a secretária arrumada, o que por certo permitirá manobras de higiene executadas não só com mais precisão mas também com mais facilidade. Dito de outro modo, sou um facilitador. Impulsionado por este sentimento, arrumei dois livros que estava a ler. Procuro-os há mais de 24 horas e não faço a mínima ideia onde os coloquei. Eu sei que sempre posso colocar anúncios e até oferecer recompensas, e agradeço antecipadamente a todos os que me iriam sugerir tal expediente, mas há um pequeno problema. Não só não sei onde coloquei os livros, como não me lembro dos títulos e dos autores. Sei que são dois, que um é um romance e o outro talvez seja um livro de ensaios, mas não faço ideia o que se ensaiava por lá. Lentamente, lá me há-de vir à memória o conteúdo, depois os títulos e os autores. Por fim, hei-de descobri-los no sítio mais óbvio onde os poderia colocar. Tenho de ter uma infinita paciência.
domingo, 19 de maio de 2019
A lado nenhum
O domingo cheira como uma grande hesitação escondida num
caminho da floresta. Na encruzilhada, nunca se sabe que senda seguir. O
desconchavo destas frases e a sua falta de textura lógica – e aqui também eu,
como o domingo, hesito, sem saber se poderei associar uma textura com a ideia
de lógica – deixam-me infeliz. Nunca é motivo de júbilo a constatação do vazio
que nos habita e, quando, como é o meu caso, se é levado, por um qualquer
impulso soprado pelas forças do mal, a escrever palavras atrás de palavras,
estas sejam destituídas de nexo, coloridas de inutilidade, maculadas de
esquecimento. À minha frente, tenho a nova edição revista da Ilíada, na
tradução de Frederico Lourenço. Abro-a ao acaso e leio: Caminharam ao longo da praia do mar marulhante, / rezando muito ao
Sacudidor da Terra, que a segura, / para que facilmente persuadissem o grande
espírito Eácida. E eu de imediato vejo a delegação, capitaneada pelo divino
Odisseu, a pisar as areias e oiço o bruaá do mar e a oração dos homens, como se
tudo ganhasse vida na abstracção das palavras, mesmo se traidoras, por
estrangeiras, do pensamento que as eleva. Fecho a Ilíada e contento-me com os
caminhos da florestas, caminhos esses, como se sabe, não levem a lado nenhum,
que é também o sítio para onde me dirijo.
sexta-feira, 17 de maio de 2019
Dias aziagos
Que estupor, exclamei de súbito. Referia-me a mim, mas não
se pense que me acho particularmente malcomportado ou falho de senso moral. Não
sou, porém (que prazer as adversativas), bom juiz em causa própria. Estupor não
no sentido do que sou mas no de estado em que me encontro. Em estado de
estupor. Estamos no âmbito da patologia e, logo, da medicina. Sentado e imóvel,
como se tivesse suspendido toda a actividade física e psicológica. Um zombie,
para atalhar razões. Foi assim que cheguei à tarde de sexta-feira e nem a
iminência do fim-de-semana parece oferecer um colírio para me retirar da
suspensão em que me arrasto. Como em tudo o que escrevo há uma inclinação para
a hipérbole e o melhor é franzir o cenho e duvidar do que digo. Acabei de
receber um telefonema a confirmar se eu mantinha a inscrição numa acção de
formação. Respondi que sim, claro. Não há nada como formações para nos
modernizarem. Se fosse uma consulta no dentista talvez aproveitasse a ocasião
para me escapulir, sendo uma oportunidade de ser amodernado não vejo como optar
pela fuga. Depois veio-me ao pensamento o quão bom e glorioso é viver numa
sociedade que trabalha arduamente para transformar um cansado e estuporado
conservador no mais rutilante dos inovadores. São aziagas as sextas-feiras,
diziam os antigos. Eles lá o sabiam.
quinta-feira, 16 de maio de 2019
O crepúsculo dos ídolos
Passo, não sem fastio e longos bocejos, os olhos pela
imprensa. Há um tal grau de exaltação que parece estarmos em pleno crepúsculo
dos ídolos. Tudo o que acontece é enfadonho e, como sempre, repetitivo. Durante
muito tempo gastaram-se toneladas de incenso em louvor de cada candidato a
bezerro de ouro surgido nem o diabo sabe de onde. Os incensados adoravam o
cheiro e pavoneavam-se diante da turbamulta extasiada. Enquanto os turíbulos rodopiavam
nas mãos de diáconos zelosos, os bezerros mugiam e tratavam da vida, ruminando
a erva que os dourava. Agora, parece que há por aí uma legião de amantes
traídos, todos dispostos à comédia italiana. O que vale é que o decoro nunca foi
uma virtude pátria. O melhor é abandonar esta conversa e falar do tempo. Não há
nada como dissertar sobre o tempo quando, como é o meu caso, não se tem nada
para dizer e se sofre de uma imaginação amputada. A tarde esvai-se triste e
insegura, levada pelas investidas do vento. Espera-me o jantar.
quarta-feira, 15 de maio de 2019
Coisas do destino
Sento-me à secretária e sou confrontado com as imensas
coisas por acabar. Na escola ao fundo da rua, prepara-se o final do ano
lectivo. O grupo musical ensaia músicas dignas dos bailes, matinées e chás
dançantes de há umas décadas. Não deixo de ficar embevecido com a obstinação
das coisas no tempo. Talvez fosse isso que Dali quis pintar em A Persistência da Memória. Os dias estão
quentes, mas anuncia-se uma descida acentuada da temperatura. E eu acredito no
prognóstico. Sinto desde ontem as velhas dores que chegam com a mudança do
tempo. Deveria ter ido para ajudante de meteorologista, penso. Uns adivinham o
destino pela conjugação dos astros e eu adivinharia o tempo pelas metamorfoses
do corpo. Haveria ofícios piores e menos dignos. Maio já cumpriu metade da sua
corveia. Não tarda, faz as malas e vai jornadear para o obscuro buraco de onde
regressa todos anos. A música calou-se, mas os pássaros meus vizinhos, talvez
levados por um estranho mimetismo, trilam em arroubos cujo significado será
melhor não decifrar. Há que preservar os bons costumes.
domingo, 12 de maio de 2019
Restos de colecção
Vejo flutuar nos ares aquele algodão que se desprende do arvoredo e penso que o tempo é propício para alergias. Ao escrever isto afundo-me na consciência da minha inaptidão, no vergonhoso recurso a metáforas e generalidades por incapacidade, devido a uma ignorância contumaz, de designar os objectos deste mundo. A verdade é que o algodão não é algodão e o arvoredo é composto por múltiplas árvores cujo nome nunca consegui conservar na triste memória. O que me vale é que não sou dado a alergias, murmuro, enquanto me recordo dos dias em que, na avenida marginal pejada de algodão, lançávamos fogo a essa penugem esbranquiçada e ficávamos a ver corredores de chamas entre as lajes irregulares que cobriam a terra, que, depois de cintilarem por instantes, morriam exaustas. Nesses tempos, um dos quiosques da avenida tinha um serviço de aluguer de barcos a remos. As pessoas davam curtos passeios pelo rio, aventuravam-se por baixo da ponte e os domingos de então passavam tão calmos como os de hoje. Julgo que não há algodão para incendiar nem barcos no rio. A nódoa do declínio nunca deixa de habitar aquilo que é grandioso.
sábado, 11 de maio de 2019
O declínio da Primavera
A cidade começa a aquecer, mas as ruas ainda não ostentam o vazio dos grandes dias de calor. Por elas vão viandantes solitários, pequenos grupos a quem um destino aguarda, cães há muito esquecidos do lobo que houve neles. Também eu circulo por ali, o carro a ronronar – pois o que há-de fazer, num escrito como este, um carro senão ronronar? –, o coração desvalido pelas ruínas em que a memória se transformou, o pensamento vacilante perante a auréola de fogo que espreita dos céus. Na avenida, sob o olhar circunspecto do castelo, os castanheiros em flor mostram uma exuberância que a cidade não justifica. Paro no semáforo. Como sempre, a Antena 2 perde o sinal, e, como sempre, irrito-me, mas logo me apaziguo reconciliado com a imperfeição da técnica e a finitude dos recursos. Os sábados na província exigem uma grande perícia ao manobrar os elementos. A reminiscência dos tempos da lavoura ainda os segura, puxando-os para o passado, grudando-os à terra. Um pássaro perdido passa rente à minha sombra e eu admiro-lhe o voo rasante. As paredes começam a sangrar em silêncio esquecidas da estridência das grandes chuvas que lhes acalmaram a dor. Tudo se inclina para o Estio, como se não houvesse sobre a Terra um mistério para nos atormentar a alma.
sexta-feira, 10 de maio de 2019
O mês de Maio
Leio que as máximas se preparam para chegar aos 37 graus e estremeço. A culpa – culpa e não causa – é, segundo sou informado, de um anticiclone. Vivemos num país de impunidades globais. Por maior que seja a devastação, nem o anticiclone há-de ser castigado. Num dos livros da escola primária, talvez o da primeira classe, havia uma lição laudatória do mês de Maio. Associava-o aos lírios, se a memória não me falha, e à Virgem Maria. Hoje fico espantado com a inocência que me levava a crer na bondade de tão insidiosa folha do calendário. Nela, o Verão experimenta as garras com que há-de devastar a terra e crestar esperanças e vontades, afia o punhal que me há-de derrotar. As escolas aqui à volta parecem casas assombradas, povoadas apenas por terríveis espectros, habitantes do silêncio e da névoa. Tamborilo o tampo da secretária, mas não oiço o mais leve rufar. Também eu sou um fantasma, uma assombração perdida numa floresta de símbolos, um espírito incongruente que se passeia por aí envolto no lençol da sua inutilidade.
quinta-feira, 9 de maio de 2019
Ortografias
Comprei há dias um romance de 1926, Volupia que salva, de um autor de que nunca ouvira falar, Tomás de
Noronha, que assina modestamente por T. Noronha. O exemplar pertence à segunda
edição, presumo, referida como 2.º milhar. No fim do livro, consta a informação
que este se acabara de imprimir no ominoso dia 28 de Maio de 1926. O mundo está
cheio de coincidências, pensei. Na rua tremula uma chuva fina, delicada, que
parece aspergida para não ferir os mortais que vivem sobre a terra. Folheio o
livro e vejo nele um sabor arcaico, um gesto de resistência ao passar do tempo,
uma fidelidade à tradição. E não sabendo nada dele já me sinto disposto a reverenciá-lo.
Não passo de um preconceituoso. A ortografia é a anterior à republicana simplificação
de 1911. Não é pouco o prazer de observar a elegância do ele geminado em n’aquelles, ou o insidioso agá que se
deixa ficar na sua mudez enquanto emana uma
última exhalação. E o que dizer do
lúbrico ípsilon mancomunado com o parzinho indiscreto tê e agá no fulgor de uma
hypothese? Tudo isto sem esquecer
esse sempre emocionante encontro gráfico entre o passivo pê e o sempre volúvel
agá com que a divina Aphrodite nos
abençoa. O que há-de pensar uma pessoa, se está chover e a imaginação não lhe
dá para mais?
quarta-feira, 8 de maio de 2019
Falta de assunto
Pontes não passam de promessas de vitória sobre armadilhas que a natureza decidiu pôr no caminho dos homens. Com elas, é verdade, enganamo-la
e esquecemos que as nossas vitórias, todas elas, são transitórias. Ocorreu-me
que deveria evitar a tentação da ênfase, mas ninguém é perfeito. Numa qualquer
margem estará a derrota que nos espera. Era nisto que há pouco pensava quando
atravessei uma velha e pequena ponte de madeira que liga a esconsa Rua de Trás
os Muros ao jardim da avenida. Há tanto tempo que não passava ali que a tinha
esquecido. Enquanto pisava a madeira periclitante olhava as águas do rio e
achei-as iguais às que por ali corriam há trinta ou quarenta anos. Talvez
Heraclito estivesse errado. Talvez os meus olhos me enganassem. Chegado a casa,
na caixa do correio, esperava-me um livro que, num impulso de nostalgia,
comprei. Há muitos, muitos anos vi um filme, não sem prazer, com o inusitado
nome Um Táxi Cor de Malva. Descobri
que a Bertrand traduzira o romance que o originara e não hesitei em correr o
risco de me decepcionar. Na província, há poucas coisas para pensar. Ou então nunca
me ocorrem.
terça-feira, 7 de maio de 2019
Concordância
A luz, dócil e temerosa, reclina-se suavemente sobre o asfalto. Pequenos lençóis de água reverberam, enquanto o vento sacode o dorso das persianas, repercute nas frinchas e um tamborilar contínuo toma-me de assalto os ouvidos, prende a atenção e inclina-me para o estranho código Morse que assobia na janela e espera um decifrador, o áugure que saiba ler os segredos da ventania e os prognósticos dos deuses. O dia resvala vagaroso, toldado pela poeira das nuvens. Uma mulher arrasta um saco e entra na lavandaria. O café ao lado está vazio. Um gato caminho furtivo pela praceta. Pára e especado olha para algo que só ele vê. Também eu, se fosse um gato, ficaria a olhar para alguma coisa que só eu visse. Assim, olho para o que toda a gente vê e sigo caminho. Não me foi dado o dom da profecia nem a graça da erudição. Olho as ruas, encolho os ombros e rio-me sem causa nem motivo. És o maluquinho da aldeia, diz-me a consciência infiel. Não deixo de concordar.
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