Espreguiço-me devagar por dentro do sábado. A trama inesgotável do mundo cansa-me e há muito que desisti de esperar que alguma sensatez desça sobre a turbamulta. Esta gosta de ulular, o que, não fora o ruído, parece-me muito adequado. Na esplanada, duas mulheres em modo balzaquiano tagarelam de mesa para mesa, sem que cuidem de moderar o débito sonoro. A inevitável excelência das respectivas filhas não me espantou. Raras são as mulheres que, ao falar da prole, resistem à tentação da hipérbole. Se falam dos maridos são mais comedidas, quando não francamente omissas. Nessas alturas a retórica escasseia e a imaginação não encontra combustível com que se ateie. Isto é o meu cinismo a pensar alto sobre a comédia humana. Tento ler uma crónica do Expresso, mas bocejo. Salva-me a ideia de que no Douro alguém envelhece chá chinês em pipa de Vinho do Porto para o vender na China. O mundo é um lugar muito mais perfeito do que aquilo que estou disposto a admitir. O tempo escoa-se entre os dedos. Levanto-me, e as mulheres em modo balzaquiano ainda competem no encómio filial.
sábado, 10 de agosto de 2019
sexta-feira, 9 de agosto de 2019
Sextas-feiras de Agosto
São elusivas as sextas-feiras de Agosto. Acordam devagar, bocejam, espreguiçam-se e levantam-se como se fossem qualquer outro dia. Não vale a pena sentir-se afrontado com o desplante. Rapidamente, Agosto entregará a alma ao criador e as esquivas sextas-feiras logo perderão o traço fugidio com que agora se disfarçam. Hoje pude consultar a data em que, a partir dela, todas elas serão como as de Agosto. Faltam três anos e nove meses. Encolhi os ombros e fui tomar café a uma esplanada. Há que beber o cálice até ao fim, pensei. Colónias de turistas enchiam o ar com linguajares diversos. Fiquei por ali a ouvir aquela babel, enquanto olhava o horizonte em busca de sinais de chuva. As línguas diferem mais pelo ritmo do que pelas palavras, constatei mais uma vez. Uma tatuagem descia do ombro para o braço, e toda a harmonia e beleza que havia na jovem mulher tatuada se dissolvia ali, na pele maculada por cores soturnas e imagens gastas. Ao pensar nisso ri-me do meu gosto desajustado e conservador. Abri o livro, mas a prosa resistiu às minhas incursões. O concerto das nações impedia-me a leitura. Levantei-me, antes que o dragão da tatuagem se soltasse da mulher e lançasse sobre mim o fogo do seu desprezo.
quinta-feira, 8 de agosto de 2019
Da origem da homossexualidade
Estar de férias é uma possibilidade única para aumentar a
cultura científica. Faço os possíveis para não dissipar uma oportunidade. Até
ontem, infelizmente, nunca tinha ouvido falar do bispo cipriota Neophytus da
Igreja Ortodoxa Grega. Não fora o ócio, teria perdido o seu contributo decisivo
para a ciência. Confrontado com a vexata
quaestio da existência de gays,
acabou por dar uma das explicações científicas mais notáveis sobre o fenómeno (ver aqui).
Com modéstia, sua Excelência Reverendíssima explicou que a causa reside nos
pais. Se o pai, num momento desavisado de luxúria, se enganar no caminho natural
e sodomizar a mãe, o rapaz nasce gay.
É o que acontece com pais que sabem pouca Gramática e nunca ouviram falar de
homonímia. Confundem recto caminho com caminhar pelo recto (o sr. bispo
perdoar-me-á a brejeirice e o leitor, o fácil trocadilho). Seja como for, a
sabedoria do alto dignitário da Igreja Ortodoxa é um autêntico ovo de Colombo,
uma evidência mais evidente que a do cogito
cartesiano, uma inspiração para todos. Assim, nem preciso que sua
Excelência Reverendíssima venha explicar por que existem lésbicas. É óbvio, a
partir da sua sábia lição, que se o pai, ignorante em Geografia, perder o norte
e confundir a boca da mãe com a vulva e se se entregar, confuso e desorientado,
à prática da cunilíngua, a rapariga a nascer só pode ser lésbica. As lições
práticas de tal conhecimento científico são fáceis de extrair. Há que estudar Gramática
e Geografia para evitar a homossexualidade. O bispo pode ser Neophytus de nome,
mas não é neófito nenhum na via da ciência.
quarta-feira, 7 de agosto de 2019
A virtude da preguiça
Quanto mais depressa se aproxima a catástrofe mais rapidamente corremos para ela. Fiquei espantado com a minha sabedoria. É o que dá ler os jornais, essa oração da manhã do homem moderno. O que vale são as férias. Quer lá uma pessoa saber o que pode acontecer amanhã se agora se pode entregar ao exercício virtuoso da preguiça. A Igreja Católica, é certo, decidiu condená-la, mas é uma condenação espúria, para não dizer imoral. Que a Igreja tenha condenado a acídia, compreende-se. Só um espírito maligno pode ficar melancólico por receber bens espirituais, mas traduzir isso por preguiça e meter esta nobre virtude no rol daquilo que há-de perder eternamente uma pessoa é inaceitável. Há quem tenha feito um elogio da preguiça, mas tendo em conta o sogro do autor, o panegírico foi desprezado. A estultícia dos homens nunca acaba. Se estes fossem mais preguiçosos talvez as catástrofes fossem coisas mais longínquas, pensei. Não sei se foi da chuva da manhã, mas hoje só me ocorrem pensamentos sombrios e ideias sem sentido. Talvez não tenha nada para dizer, como é habitual, e o melhor é calar-me.
terça-feira, 6 de agosto de 2019
Fine-tuning
Pouco depois do almoço, antes de adormecer no primeiro sítio
em que me hei-de sentar, dei uma vista de olhos pelas vendas de livros que há
na Internet. Numa propunha-se A Noiva Despida, de autor anónimo, noutra A Viúva
Grávida, de Martin Amis. Não comprei nenhum, mas pude entregar-me a uma
benfazeja meditação. A ordem do mundo é uma das coisas que nunca deixa de me
surpreender e de me maravilhar. Pessoas influenciadas pelo indeterminismo
poderão dizer que tudo se deve ao acaso. Eu, pelo contrário, vejo nisto um
exemplo de fine-tuning, essa sintonia precisa que nos mostra não apenas a
harmonia que reina sobre o caos como a exactidão com que tudo é disposto neste
mundo, para que o desarranjo não leve a melhor sobre a arrumação. É claro que
num universo bem ordenado como o nosso, primeiro despe-se a noiva e só depois
se morre deixando-a grávida. Não faria sentido morrer deixando uma viúva e só
depois desse infausto acontecimento despir a noiva para a engravidar. Ela
poderia ficar perturbada e não conseguir conceber ou, então, o noivo já morto
ser vítima de um despropositado ataque de impotência. Evitemos o absurdo.
segunda-feira, 5 de agosto de 2019
Despoletar
Estava eu no café, tranquilo, a ler o jornal, quando oiço
alguém a despoletar. Eu sei que o prefixo des-
tem propriedades que o tornam errático nas bocas mais insuspeitas. É um prefixo
volúvel, inconstante, instável. Em suma, um cabeça no ar. Aquela mulher, talvez
por causa dos anéis que lhe cobrem os dedos ou das pulseiras que chocalham ao
vento, despoletou, tal como há quem destroque notas. De todas as leviandades do
prefixo, a que me causa mais engulhos é mesmo a do despoletar. Uma mania como
qualquer outra, a que se deve dar o devido desconto. Olhei para o telemóvel e a
aplicação que me controla o fitness –
meu Deus, a que graus de infâmia uma pessoa chega – pergunta-me se eu quero
aumentar de nível. Olho-a com desprezo. Ela insiste e propõe-me mais dez
minutos por dia de movimento. Em movimento? Levanto-me irritado com a sem-vergonha
da aplicação. Quem lhe terá dado confiança para fazer sugestões? Vou ao balcão,
peço para me destrocarem uma nota e despoleto o movimento que me há-de levar dali
para fora. Hoje é o quinto dia de Agosto e lembro-me de um verso de Eugénio de
Andrade: Ao inverno chega-se pela ausência de gaivotas.
domingo, 4 de agosto de 2019
As tarde de Agosto
Ontem as netas foram-se embora com os pais. Ao sair, a mais nova voltou-se e, misturando a ironia e o imperativo, disse: agora, os avós não vão chorar. Não sei o que admirei mais, se o atrevimento, se a capacidade para ficcionar, pois nunca os avós choraram quando elas se foram embora. Hoje, domingo, o almoço foi mais tardio. A verdade é que a casa ficou vazia, sem a agitação delas, os pequenos dramas das raparigas e a esperança toda que há dentro de crianças que caminham para adolescência. Também é verdade que deixei de ter bicicletas para levar a remendar furos, uma das minhas actividades nos últimos dias. Eu sei, eu sei, que sempre se podem reparar câmaras de ar em casa. Antigamente, não sei se hoje, havia os remendos Tip-Top, mas não sou dado ao exercício da bricolage e falece-me o talento para a mecânica. Arrumadas as bicicletas, o tempo cresce-me. Assim, posso banhar-me no silêncio e nadar em oceanos de palavras, lembrando-me dos Verões em que as tardes se dilatavam quase até ao infinito e eu lia o Ciclone e o Condor, o Falcão, onde o meu grande herói era o Major da RAF Jaime Eduardo de Cook e Alvega. Agora que o Major Alveja já não abate nenhum avião da Alemanha nazi, entretenho-me a ler as Memórias de um Morto. O tempo não está para gente tão viva quanto o piloto luso-britânico. Quando o meu neto crescer, hei-de falar-lhe do grande Major, o meu herói dos tempos da escola primária. Tenho que fazer os possíveis para não me esquecer.
sábado, 3 de agosto de 2019
Incongruências em Agosto
De que tecido serão feitos os sábados de Agosto? Não sei porquê, mas esta pergunta assaltou-me há pouco ao chegar a casa. Tenho dias assim, o meu cérebro, devido a algum desarranjo neuronal, dispara à queima-roupa perguntas incongruentes. A incongruência reconhecida da pergunta tranquilizou-me. Teria de lhe dar uma resposta sem sentido, como, por exemplo: os Sábados de Agosto são de popelina, enquanto os de Novembro são de repes. Assim estou dispensado. A rua de onde vim tinha um cheio a férias grandes, uma rua feita de sombras pesadas e ausências notadas quando chegam os dias oficiais para as pessoas se cansarem de tanto descanso. Estamos num tempo em que toda a gente acha que vai ler livros, dar grandes passeios, passar tardes admiráveis entre amigos. A realidade, porém, não há-de estar pelos ajustes. Eu recolho-me em mim e penso num eremitério onde me pudesse excluir da humanidade. Logo me vem à memória a frase o homem solitário ou é um besta ou é um deus. Nunca tendo dado pela existência em mim de um traço divino, inclino-me para a primeira possibilidade. É o que dá ser assaltado por perguntas incongruentes. Tanto quanto sei, mas sei poucas coisas, nunca Agosto fez bem a ninguém.
sexta-feira, 2 de agosto de 2019
Chocolate negro
Hoje atravessei a cidade de lés-a-lés. Estava modorrenta, ainda com menos gente do que é habitual, o casario, aquele mais antigo, não tinha melhorado de aspecto desde a última vez que o vi. Deveria sentir-me deprimido. É a obrigação de qualquer um que um dia a tenha visto vibrante na sua pequenez, a fervilhar de negócios e de gente, mas não me senti. Pelo contrário, estava bem disposto e cheio de bonomia. Até o que está decrépito me pareceu novo. Tudo se deve, porém, ao chocolate negro que por vezes, furtivamente, me tenta. O chocolate negro, informa-me um estudo, pode aumentar o bom humor e aliviar os sintomas de depressão. Eu caio de joelhos agradecido. Só tenho medo que o hábito faça passar o efeito. Ainda hoje, em consulta com o cardiologista, lhe disse que a substância hipotensora, quando a comecei a tomar, tinha um óptimo efeito sobre os meus estados de alma. Tudo o que me aborrecia e irritava deixou de o fazer. Se queriam que o branco fosse preto, eu queria lá saber. Com os anos o efeito passou e quando trocam o preto pelo branco fico irritado. O meu problema é se o efeito do chocolate negro também passa. De que valerá comê-lo se a realidade depressiva me parecer depressiva? Não há coisa pior que a realidade. Seja como for, acho que, nesta terra, toda a gente deveria comer chocolate negro.
quinta-feira, 1 de agosto de 2019
A libertação dos alienígenas presos
As notícias de Verão não deixam de ser espantosas e Agosto não começa nada mal. Leio que dois milhões de americanos acreditam que há extraterrestres presos numa base militar dos EUA e que um número não especificado quer invadir o lugar para libertá-los. São causas como esta que me fazem acreditar, e muito, na humanidade, no seu espírito generoso, embora as coisas possam não ser tão simples quanto isso. E se os extraterrestres forem inimigos, a sua libertação não configurará um acto de alta traição? Os americanos são assim. Um povo impulsivo. Propõem-se fazer coisas sem pensar nas consequências e não há quem os alerte. É evidente que eu também acho aborrecido que se prendam extraterrestres por dá cá aquela palha, mas como europeu pertenço a uma longa tradição marcada pela prudência, apesar das duas guerras mundiais, e faço parte daqueles que abominam a impulsividade. Se estão presos, os extraterrestre alguma fizeram. Esta é uma sabedoria lusa e, como toda a sabedoria lusa, é profunda. Ainda pensei sugerir aos libertadores tentarem a via judicial. Todo o preso terá direito a um advogado e a um julgamento justo e imparcial. Isto sou eu que o digo, uma pessoa crente no Estado de Direito, mesmo quando se trata de espécies alienígenas. Julgo, porém, que os libertadores se ririam na minha cara. O melhor é evitar humilhações, pois Agosto só agora começou.
quarta-feira, 31 de julho de 2019
Bolas de Berlim
Num sítio que no Verão costumo frequentar havia umas bolas de Berlim que me habituei a comer sem que a consciência me acusasse de qualquer delito. Alguém mais maldoso sempre pode censurar-me de ter uma consciência frágil, mas havia, claro, atenuantes. Só comia bolas sem creme e estas, apesar de fritas, pareciam que quase não tinham passado pelo óleo. Não há nada como a nossa capacidade para fantasiar. Eram muito boas, em resumo. Constou-me que o estabelecimento fechou e ao cerrar portas levou com ele as bolas de Berlim. Tudo o que é perfeito neste mundo acaba, foi o que constatei ao ouvir a notícia e daí extraí a conclusão que o paraíso não pode ser na Terra. Acontecem muitas coisas péssimas neste mundo, eu sei, mas agora nem sei se hei-de voltar ao sítio. Gosto imenso de praia, desde que não haja muito sol, pessoas e areia. No entanto, ainda não compreendi o que iria fazer a uma praia se o sítio das bolas de Berlim se finou, levado pela voragem do tempo, deixando-me a rememorar a glória de antigas expedições para incrementar o colesterol. A saúde é uma dura penitência.
terça-feira, 30 de julho de 2019
Lugares para medíocres
Estava a ler a apresentação de As Lojas de Canela, de Bruno Schulz, feita por Aníbal Fernandes,
quando deparo com a resposta que terão dado ao escritor polaco perante a oferta
que este fez dos seus préstimos literários à revista Novos Horizontes: “Não
precisamos cá de Prousts”. O engenho da estupidez humana, apesar de tudo, nunca
deixa de ser espantoso. Uma revista literária que não quer um Proust é como uma
equipa de ciclismo que só aceite quem mal saiba andar de bicicleta. A analogia
não é brilhante, eu sei. Que coisa essa de misturar as belas letras com um
desporto popular. Foi, porém, o que me ocorreu. Se eu tivesse capacidade de
fazer analogias soberbas seria um Proust. Com esta minha falta de talento, porém,
talvez tivesse sido aceite na revista onde Schulz foi rejeitado. Não há lugar
onde um medíocre não possa entrar.
segunda-feira, 29 de julho de 2019
Coisas de avô
Ao mexer no telemóvel deparei-me com uma fotografia minha com o meu neto ao colo. Eu olho para a câmara, um pouco formal; ele, para o lado, como se nos seus oito meses já soubesse demasiado do mundo e não estivesse para se submeter aos ditames do fotógrafo de ocasião. É a vantagem da inocência. Estar voltado para a frente ou para o lado é indiferente. O importante é que não o deixem cair e saibam que ele existe. Não sei se foi a visão da foto que desencadeou as saudades ou se foram estas que, sem eu dar por isso, me conduziram àquela. Ser avô é uma condição especial que, antes de se ser, é inimaginável. Mal se vêem, avô e neto estabelecem laços secretos de continuidade, que depois têm de ser cultivados com esmero e persistência, mas que são uma afirmação exuberante da vida. Aquela que começa a declinar sente-se redimida por aquela que acaba de chegar. Não se trata de uma espécie de justiça cósmica à maneira do célebre fragmento de Anaximandro, mas do estabelecimento de uma continuidade que rompe as densas paredes do futuro. Para o que me haveria de dar, por causa de uma fotografia? O melhor é fazer-me à vida. Enquanto os pássaros meus vizinhos continuam as suas cantatas nupciais, eu ponho o telemóvel no bolso, arrumo uns papéis e preparo-me para enfrentar o dia. Julho apresta-se para entregar a alma ao criador, não tarda receberá a extrema-unção e dará o último suspiro entregando-se nos braços descarnados e ressequidos de Agosto. Nesse momento, do herbário do tempo, cairá mais uma folha morta.
domingo, 28 de julho de 2019
Atrasos
Hoje acordei confuso. Havia uma ânsia em mim motivada, por certo, por um daqueles sonhos matinais que têm o condão de serem sonhados num estado em que vigília e sono se misturam, o que lhes dá uma mais forte aparência de realidade. Havia qualquer coisa para fazer, muito urgente, mas desconhecia o quê e o onde. Sabia apenas que deveria ser agora, mas agora estava na cama, despreparado para tarefa tão imperativa. Isso acrescentava desnorte à confusão. O barulho de uma sirene, porém, devolveu-me à realidade e pensei que era domingo. Suspirei e levantei-me. Tudo começou a entrar no grande castelo do esquecimento até que, ao chegar aqui, vejo uma velha fotografia de um jogo de futebol realizado muitos anos antes de eu nascer. Uma reminiscência, porém, começou a desenhar-se em mim e o sonho voltou-me à memória. A urgência de me levantar talvez estivesse ligada a esses tempos iniciais em que, ao domingo, tinha de ir à missa da catequese e, depois, a esta. O que tem isto a ver com a fotografia? Tudo. A partir de certa altura troquei as injunções à santidade do catequista pela visita ao campo que aparece na fotografia, onde rapazes um pouco mais velhos do que eu lutavam com denodo – e pouca santidade, diga-se – por uma bola de couro, que, por vezes, caía no rio. O que me entristece é não saber se, no sonho, estava atrasado para a missa ou para ir ver o jogo de futebol.
sábado, 27 de julho de 2019
Uivar à lua
Os dias de sábado nem sempre são dos mais promissores. A esplanada estava composta, na mesa ao lado uma família fazia-se ouvir. A rapariga não sem desenvoltura falava nos concertos a que queria ir. A maioria dos nomes eram-me desconhecidos, mas o que recebeu um maior ênfase foi o de Quim Barreiros. É universitária, pensei, não sem que uma sombra de tristeza me invadisse. Ao que se chegou, meditei, para que um universitário seja reconhecido por este tipo de gosto. Mais à frente, a conversa confirmou-me o prognóstico. Encolhi os ombros e abri o jornal. O mundo nunca nos desilude. É constante na sua venalidade. Houve um tempo em que se teve a ilusão de que uma maior educação tornaria as pessoas mais civilizadas, refinaria o gosto e, em momentos de maior fantasia, até se pensou que as tornarias melhores. A realidade, porém, resiste. A família continuava a declinar as suas preferências, com o orgulho de uma velha estirpe que rememora antepassados. Fechei o jornal, paguei e saí para o silêncio que há dentro de mim. Talvez tenham razão, porventura a realidade não será mais que umas brejeirices debitadas ao microfone. Um anjo passou. Dei por ele porque um cão começou a ladrar desaustinado. Também a mim me apetece ladrar ou uivar à lua.
sexta-feira, 26 de julho de 2019
On s'habitue c'est tout
“On s’habitue c’est tout”, foi isto que pensei enquanto
bebia um copo de sumo de toranja. Quando introduzi este ritual na minha pacata
existência, o sabor agreste – para não dizer amargo – da toranja era ainda uma
revelação que me dava um prazer especial. Os anos passaram, a cerimónia matinal
consolidou-se e, hoje em dia, confesso que o sabor do sumo começa a parecer-me
demasiado doce. Foi por causa disso que me lembrei do verso da canção de Brel.
Uma pessoa habitua-se e é tudo. Como sou um tipo anacrónico, quando era novo,
enquanto os outros rockavam por tudo e por nada, eu ouvia música francesa e,
entre todos os grandes da canção francesa, o de que mais gostava era do Brel,
que por acaso não era francês, mas belga. Ainda hoje gosto bastante, mas aquele
pathos do “ne me quites pas” não me comove
ou não cai bem com a minha disposição de ânimo. Tudo isto pertence a um tempo
em que eu tinha tão pouca idade que pensava que era existencialista. Lia os
romance do Sartre e do Camus, sonhava com a rive
gauche e achava que não poderia haver melhor coisa no mundo do que estar
condenado à liberdade. Isto alguma influência teve na minha vida, mas é melhor
nem pensar nisso. Agora, bebo sumo de toranja pela manhã e lembro-me de restos
de canções do Brel. “On s’habitue c’est tout”.
quinta-feira, 25 de julho de 2019
A nova santidade
O tempo não deixa de ser um motivo inesgotável de conversa.
Saber das suas metamorfoses talvez seja a mais alta sabedoria que se pode
adquirir. Hoje, porém, não vou falar dele. Não é que tenha outro assunto, não
tenho, mas não se deve dar demasiada atenção a S. Pedro. Parece estar a perder
as suas qualidades como gestor meteorológico. Compreende-se. Não é só o peso da
idade. São todas as outras actividades que são distribuídas aos santos. Tendo
em conta o elevado número de pecadores e o diminuto número de santos, até almas
pouco caridosas perceberão que eles, os santos, sempre dados ao sacrifício,
estão à beira do burnout. Deixemo-los
então em paz. Hoje de manhã pus-me a caminhar. Consta que faz bem, o
cardiologista recomendou-me, embora eu não tenha percebido lá muito bem o
sorriso escarninho que arvorou. Ajuda a controlar a tensão arterial, combate o
colesterol, elimina os males provocados por uma vida sedentária, escutei. Incrédulo,
diga-se. Animado pela bondade do exercício, mas sem amor por ele, lá pus os pés
ao caminho. De vez em quando passavam por mim crentes da mesma religião, um
sorriso seráfico e a esperança de chegar ao céu da boa saúde. Só espero que eu
não ostente tal estado patético na cara. Já basta o que ela é, quanto mais ter
nela estampada a beatitude dos altares. Enquanto caminhava, ia meditando sobre
esta nova religião. O pior são os radicais, disse para mim mesmo. Esses não
caminham. Correm, correm, de rosto contorcido, a língua de fora, um aparelho
ligado ao braço, parece que vão explodir. Esperarão também eles setenta virgens
quando chegarem ao paraíso? Sempre que via um desses candidatos a mártires, eu
abrandava o passo. Há que ter cuidado, já não tenho idade para me radicalizar.
quarta-feira, 24 de julho de 2019
O pedalador
Que dia este de Julho, exclamei para mim mesmo. Almocei tarde e deixei-me ficar em frente da televisão a ver a etapa do Tour. Um ciclista fugia, fugia, embrenhava-se estrada fora. Ia sozinho, como se um monstro tortuoso o perseguisse. Talvez a ideia de ser devorado por um dragão lhe desse forças nas pernas e lá ia ele, a subir e a descer, curva e contracurva, indiferente à paisagem, surdo para os incentivos, os olhos no futuro e um medo terrível do passado. Se fosse S. Jorge, por certo, esperava o dragão e matava-o, mas hoje não abundam heróis como aqueles que havia noutros tempos. Os heróis de hoje pedalam, que ped’alma, como escrevia o O’Neil. E enquanto o semideus pedalava eu adormeci em frente ao televisor, adormeci com o meu “passado a tiracolo”. Eu dormia e o ciclista, um italiano, dava às pernas, abandonado, afogueado, “com o provir na pedaleira”. Parecia que lhe tinham chegado fogo ao rabo. Talvez fosse uma baforada do dragão, admito agora que penso no assunto, e o pobre, que não era S. Jorge, toca de se despachar, para chegar à meta que deve ser uma espécie de coito, onde, a quem nele se abriga, nada pode acontecer. Terei sonhado? Terei ressonado? Não ouvi protestos. Quando acordei, lá estava o italiano no coito, protegido contra dragões, à espera que chegasse o camisola amarela, que tinha perdido o comboio e se atrasara vinte minutos, pois também os camisolas amarelas chegam tarde quando os comboios cumprem horário. O melhor é não sair de casa. Pode ser que apareça por aí um dragão e não tenho santidade suficiente para o enfrentar nem força para dar ao pedal, que a pedaleira está enferrujada e o passado a tiracolo pesa-me mais que o futuro.
terça-feira, 23 de julho de 2019
Generalizações precipitadas
A dado passo da entrevista, um historiador e agora romancista, diz que o D. Carlos era um esbórnia. Faria mais sentido dizer que andava na esbórnia, mas sejamos sensíveis às liberdades poéticas. Dado ou não à pândega, teve um destino cruel que sempre julguei imerecido. Quem parece que ficava muito bem no lugar de rei era o último incumbente. As raparigas estavam todas apaixonadas por D. Manuel, o que não deixaria de ser um sinal da sua capacidade política, embora seja possível pensar que há nesta frase uma generalização precipitada. Imaginemos as pobres camponesas do interior, aquelas que nunca puseram os olhos numa folha de jornal, como poderiam imaginar o jovem rei em uniforme militar para que o seu coração se enternecesse e, por causa de sua alteza, se entregasse, tremente, ao sonho melancólico de um amor impossível? A verdade é que todos nós gostamos de fazer generalizações. Pessoalmente, esse prazer nasce-me da inclinação para a hipérbole. Talvez o meu gosto em exagerar a realidade se deva a algum defeito de visão em que nunca tenha reparado. Nem sei por que motivo me pus a escrever sobre os últimos Braganças que ocuparam o trono deste país. Julho nunca é um mês fácil. Também ele é dado a hipérboles e o exagero será a sua razão de existir. Como eu, Julho também terá um secreto defeito na visão.
domingo, 21 de julho de 2019
Sonâmbulos
Os longos domingos de Verão. Os almoços tardios prolongavam-se pela tarde, o calor zunia e as pessoas enfrentavam com estoicismo os desmandos do lugar e do clima. Nesses estios inacabáveis tudo parecia mais perfeito. A inocência do olhar transformava as coisas mais simples em acontecimentos memoráveis. Depois, enquanto o olhar perdia a inocência, a realidade desfazia-se da perfeição, como se, para nos experimentar, um deus nos obrigasse a essa dupla perda. Será isso a que se dá o nome de queda. Olho para as minhas netas e ainda vejo nos seus olhos, tão ávidos de realidade, essa doce ilusão, aquela que faz de um simples nada um grande acontecimento. Também o almoço de hoje será tardio e elas hão-de lembrar-se dos domingos de Verão, dos seus almoços, dos pequenos nadas, das corridas de bicicleta, como eu me lembro de uma entoação de uma tia-avó, de uma sombra que a certa altura se desenhava no quintal da casa onde nasci ou do vento a soprar as folhas das roseiras que ali havia. Na infância, somos sonâmbulos, doença que a adolescência nos há-de curar. Depois, quando a vida começa a declinar tornamo-nos de novo sonâmbulos, evitando, sempre que for possível, que a realidade nos incomode em demasia.
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