segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Uma guerra

Lidar com os livros tornou-se um trabalho difícil. Uns, sem vergonha, diminuem a letra para zombar com os olhos. Outros, de onde o pudor e a contenção foram banidos, engordam, engordam de tal maneira, que mostram aos braços a falta de ginásio. Amigos de outros tempos, eles estão a tornar-se inimigos declarados, como se tivessem declarado guerra, apenas com o fito de humilhar. Não compreendo qual é o seu propósito. Noutros tempos, qualquer livro tinha por objectivo ser lido. Hoje, isso foi substituído por um desiderato estranho, o de me rebaixar, mostrando-me a falência do corpo e, esperam eles, do espírito. Tento negociar com eles. Riem-se. Peço-lhe que aumentem a letra. Respondem que, se o fizerem, ficam muito pesados, e eu não tenho braços para os segurar. Se lhes peço para emagrecerem, dizem logo que com letras tão magras, não serei capaz de ler uma linha. A solução, digo-lhes, é substituir livros em papel por livros electrónicos, onde se pode ter o melhor de dois mundos. As letras aumentam e os livros não engordam. Começaram a soprar como gatos assanhados. Encolhi os ombros. Perante a minha indiferença, tentaram outra táctica: e o prazer em tactear o papel, a contemplação das capas, etc., etc. Não me comovem, respondi, e, acrescentei, chegou a altura de pouparmos as árvores. Perante a minha firmeza, dois desmaiaram e uma pilha de uns trinta desabou. Agora, arruma, ouvi. Arrumei.

domingo, 18 de janeiro de 2026

Sol e urnas

Um dia de sol, Deo Gratias! Já há muitos dias que não caminhava. Aproveitei a boa disposição de S. Pedro. Saí de casa e antes de me pôr a caminhar, dei um salto ao pavilhão da escola aqui ao lado e depositei, depois das formalidades, o voto na urna. Enterrei-o, mas ele ressuscitará anónimo depois das dezanove horas para ser contado com todos os outros que, como ele, foram sepultados naquela caixa de esmolas cívica. Senti pena de quem estava nas mesas a assegurar o processo. Um pavilhão enorme, gélido, sem possibilidade de aquecimento comportável. Também eu estive em mesas de voto, mas isso foi há muitas décadas e o pavilhão – também era um pavilhão escolar – tinha chão de madeira e uma temperatura amena. Estar ali, naqueles dias, era uma festa, pois vivia-se um tempo novo, inesperado, feito de expectativa, como se fosse possível o advento de um mundo novo. Hoje não há expectativa de que chegue um mundo novo, esse Godot que atormenta as mentes fantasiosas e inexperientes. Por isso, para além de piedade pelo frio, senti uma dívida de gratidão por quem ali estava, independentemente das motivações. Saí do pavilhão e pus-me a caminhar. O mais espantoso foi perceber que, neste domingo, havia muito mais gente a fazer caminhada do que nos outros. O bom tempo chamou as pessoas e elas responderam. Só não encontrei os gatos que, numa certa rua, costumam estar a apanhar sol. Continuavam recolhidos, temendo que a luz que viam fosse apenas a fantasia de um grande simulador, o efeito do desejo humano, não a pura realidade. São mais sensatos do que os homens que esperam a luz de mundos novos.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Volubilidades

Durante a manhã o Sol – melhor, a luz solar – dignou-se mostrar o rosto para quem vive aqui. Brilhou, faceto e risonho. Agora, porém, escondeu-se atrás de umas nuvens escuras e ameaçadoras. A conclusão inevitável diz que a natureza é volúvel. Não sabe o que quer e, ao contrário das nossas expectativas, faz o lhe apetece, enquanto nós protestamos ou agradecemos, caso lhe tenha dado na veneta contemplar-nos com um ligeiro agrado. Por aqui ninguém diz veneta, mas, antes, vineta. Certamente, um linguista explicaria o caso, coisa que não consigo. Olho pela janela. Ao longe, o hospital apresenta-se de cara lavada, depois de ter sido pintado. A brancura actual contrasta com o cinza-negro dos fungos que cobriam as paredes. Mais perto, o bosque da escola vizinha ainda não cresceu o suficiente para tapar um anúncio luminoso de uma cadeia de hambúrgueres. Aguardo essa hora de ocultação. Nada contra as cadeias de fast-food, cada um come o que quer ou o que pode, mas perturba-me um pouco a poluição visual. Não tarda, terei de sair para um encontro com a realidade. É desagradável, mas não podemos viver continuamente num mundo sem realidade, um mundo sofredor de uma falha ontológica capital, um mundo que não exista. Por isso, por muito que custe, uma vez por outra há que entrar pela realidade dentro e lidar com ela, como se lida com um animal selvagem. Este é o meu problema, nunca lidei com animais selvagens e mesmo com os domésticos, não tenho grande currículo. Também é verdade que um narrador não tem currículo de coisa alguma, a não ser das narrações que faz. E essas são o que são. Não há como uma tautologia para concluir um texto. Pelo menos, aos sábados.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Parágrafos e ocorrências

Deverias escrever de outra maneira. Por exemplo, usar parágrafos. Não me agradou o imperativo – o deverias – e, muito menos, a sugestão. Uma regra desta casa é não haver parágrafos. Os parágrafos existem para organizar ideias, separando-as e hierarquizando-as. Contudo, estes textos não têm ideias. Como é que se pode separar e hierarquizar aquilo que não existe? Não pode. Se não são ideias, então o que é aquilo que ocorre nestes textos? Franzi o sobrolho e respondi: isso mesmo, ocorrências. Destes textos pode dizer-se aquilo que nos noticiários é dito após um dia ou uma noite de temporal: a protecção civil contabilizou mil quatrocentas e vintes e três ocorrências entre as dezoito horas de ontem e as doze horas de hoje. A diferença é que estes textos não são tempestuosos, por isso têm muito menos ocorrências. Há dias que só têm uma ocorrência e, em outros, amontoam-se três ou quatro ocorrências, o que está longe de ser digno de referir como tempestade. Ideias implicam uma delimitação e  uma clareza daquilo que é pensado e transposto pela linguagem para o espaço público. Ora, naquilo que aqui é escrito não há delimitação, nem clareza, nem distinção. Há impressões, sugestões nascidas na imaginação, na memória ou na sensibilidade – isto é, nos sentidos – mas não há argumentos, tão pouco conceitos. Ocorrem frases como ocorrem ventanias. Ocorrem palavras como ocorrem trovões e relâmpagos. Só isso e para isso é dispensável qualquer parágrafo. Nada do que aqui é dito merece uma hierarquia e tão pouco uma organização. As palavras amontoam-se ao acaso, mas o acaso, sendo benévolo, faz parecer, por vezes, que elas se organizam em frases e que estes têm sentido. Uma aparência.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Efemérides e tautologias

Como foi possível a alguém tão dado a efemérides ter passado em branco uma de grande dimensão? Mistérios que se ocultam na cave da consciência. A efeméride só me chegou à mente quinze dias depois, exactamente hoje. Deve haver algum problema nas vias de comunicação. A efeméride cumpriu-se no final do dia 31 de Dezembro de 2025. Está completo o primeiro quartel do século XXI. Já lá vai um quarteirão de anos e, para ser fiel à verdade, o mundo não parece ter melhorado. Pela minha parte, só posso ter piorado. Uma prova disso é ter usado o termo quarteirão. Não se aplica aos anos, mas, por exemplo, às sardinhas. Quero um quarteirão de sardinhas. Digo isto, mas sem experiência própria. Nunca comprei um quarteirão de sardinhas e, tanto quanto consigo recordar-me, nunca comprei sardinhas. A razão pela qual o quartel se aplica aos anos e o quarteirão às sardinhas é-me desconhecida, mas penso que as sardinhas não ficarão em pé de guerra se dissermos, na banca do peixe, «dê-me um quartel de sardinhas». Também os anos não passarão a nadar mais depressa se se disser o primeiro quarteirão do século XXI. Que modo tão estúpido de comemorar a efeméride do primeiro quartel do século XXI, pensará, e com razão, quem ler estas linhas. Quando o talento é escasso e o dia está sombrio, chuvoso, pouco amigo de ideias brilhantes, uma pessoa escreve o que escreve — passe a tautologia — e a mais não é obrigado. Além de efemérides, o autor — mas não eu, o narrador — tem uma inclinação por tautologias. Crê firmemente que toda a coisa é igual a ela própria: A é igual a A. «Pão, pão, queijo, queijo» é uma dupla tautologia, e quem a profere sente-se ufano, senhor de uma clareza — e, por certo, de uma clarividência — que lhe incha o ego e o afoga no mar morto do orgulho. Por mim, o pão é, ao mesmo tempo, não pão, bem como o queijo é não queijo. Também as efemérides contêm em si as não efemérides e, por isso, passam despercebidas. O mau tempo continua. Estou a precisar de fazer caminhadas, para clarear o espírito e não escrever o que escrevo. Chove!

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Circunstância

Por um acaso, como tantas vezes me sucede, esbarrei num artigo de José Régio, de Janeiro de 1947, no Mundo Literário. A leitura é penosa, não pela qualidade de escrita de Régio, tão pouco por ser um texto que caminha para os oitenta anos. A pena deriva de uma constatação simples: um indisfarçável provincianismo. Ainda por cima, esse provincianismo não é uma marca do autor, mas de um país. Aquilo seria o que de melhor se faria neste canto esquecido da Europa. Apesar de ser um artigo sobre literatura e crítica literária, o país que éramos, com as suas tricas irrelevantes e a sua pequenez, estava ali todo, como se cada linha fosse o símbolo de um ensimesmamento limitante a que se estivesse irremediavelmente condenado. E Régio não era um escritor de segunda ordem. Pelo contrário. Numa obra de 1914, o espanhol Ortega y Gasset escreveu a sua mais célebre frase: Eu sou eu e a minha circunstância; e, se não a salvo a ela, não me salvo a mim. O provincianismo que se manifesta no texto de Régio – e em tantos outros da época ou posteriores – é que Régio era ele e a sua circunstância, e esta tinha mais peso no que escrevia do que o próprio autor. Régio não salvou a sua circunstância, mas o problema não residirá tanto nele, mas na ilusão que pulsa na frase de Gasset. Ninguém salva a sua circunstância. Interage com ela, mas é-se mais paciente do que agente nessa relação. Um dia – por vezes, como se fosse um milagre – a circunstância muda e os homens entoam loas a si mesmos, imaginando-se como agentes dessa mudança. Uma fantasia. Melhor explicação seria dizer que a velha circunstância se cansou de si mesma e deu lugar a uma outra. Voltando ao texto de Régio: Eis por que até certo ponto me surpreende o relativo silêncio mantido à roda de dois livros notáveis, — dos mais notáveis que em seu género têm aparecido entre nós há um bom par de anos. Refiro-me a «O Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra», de José Marinho, e ao primeiro volume das «Reflexões sobre o Homem», de Augusto Saraiva. Passados estes anos, poucos sabem quem foi José Marinho e ainda menos Augusto Saraiva. A notabilidade dos autores vinha mais da circunstância do que deles próprios, e a circunstância era inequivocamente periférica, provinciana, a circunstância de um pequena tribo esquecida junto ao oceano.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Viajantes perdidos

Em Erfahrung und Armut (Experiência e Indigência, na tradução de João Barrento), Walter Benjamin, a certa altura, como estratégia retórica, coloca uma série de questões. Deixemos a série de lado e fiquemos com uma, e apenas uma: um provérbio serve hoje para alguma coisa? O pensador alemão sabe que, já no seu tempo (1892–1940), não servia para grande coisa. Hoje serve para menos, muito menos, pois o grau de mudança é muito mais vertiginoso. Um provérbio é uma condensação de uma sabedoria antiga, que se transmitia de geração em geração. Isto pressupunha que as variações na vida quotidiana eram muito lentas e que a própria moralidade era eterna. A contínua revolução tecnológica torna obsoleto o saber de ontem e, como fruto disso, cria a ilusão de que as regras morais são elas mesmas substituíveis por novas, mais adequadas ao espírito do tempo. Ora, isto torna-nos não apenas desenraizados, sem contacto com os que nos precederam, mas exploradores de um mundo que não compreendemos e que nunca viremos a compreender, pois dele foi erradicada a lentidão que nos dava a aparência de que tudo era permanente. Somos, ao mesmo tempo, exilados num país estrangeiro e viandantes perdidos no caminho, peregrinos que desconhecem a que santuário se dirigem ou se existe mesmo um santuário.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Guardas-nocturnos

As horas deslizam tão depressa que nem se dá por elas. Ainda há pouco era manhã e, agora, a noite cerrou-se sobre a cidade, fechou as portas por onde os raios solares entravam e entregou o território aos guardas-nocturnos. Não se trata, porém, de guardas-nocturnos de carne e osso, mas de anjos que, sem ocupação momentânea, vigiam, do cimo dos prédios, o que se passa pelas ruas. Não se pense que eles, apesar de o poderem fazer com a sua terrível visão, perscrutam o que acontece dentro de casa, as desavenças, os dramas, as horas de felicidade. Tão pouco as cenas de amor, onde os corpos se entregam numa ânsia de se devorarem, se ânsia ainda existe, os atraem e os torna voyeurs, apesar da mal disfarçada curiosidade que sentem por aquilo que tanto atormenta o espírito dos humanos. Limitam-se a vigiar as ruas, a certificarem-se de que a noite está ali bem aconchegada, a ver deslizar, também eles, as horas, para que venha a aurora e uma outra missão lhes seja entregue. Pois os anjos não dormem.

domingo, 11 de janeiro de 2026

Cinzento sobre cinzento

Como o mundo, o domingo está triste e cinzento. Não é que falte colorido ao mundo. Pelo contrário, existe nele uma paleta de cores exuberante, mas, quando todas essas cores que por aí pululam chegam ao cérebro, por uma obscura alquimia, transformam-se num cinzento pastoso e ameaçador, o prelúdio das trevas. Quanto ao domingo, este é muito menos dramático. É cinzento porque lhe falta luz, e uma chuva fina, sem intermitências, cria uma barreira sólida ao papel dos raios solares. Para que a preocupação não desça sobre mim, escolho o cinzento do domingo ao cinzento do mundo. Assim, posso fazer melhor a digestão do almoço, enquanto o mundo caminha preso a uma lógica que parece estar a tornar-se imparável. Uma lógica que não anuncia o melhor dos mundos possíveis. Pelo contrário. Tenho de sair e enfrentar o clima, embora o sacrifício não seja grande ou sequer exista. É verdade que não me apetece levantar do sítio onde escrevo, mas há coisas piores na vida. O mais extraordinário, porém, é que, por piores que sejam as coisas, sempre haverá outras piores, num declive escorregadio infinito. Dir-me-ão que, também perante as coisas boas, sempre se descobrirão outras melhores, numa escala infinita. A grande diferença é que, para atingir as piores, é só uma questão de descer, enquanto, para alcançar as melhores, há que subir. E subir é infinitamente mais difícil do que descer. Ite, missa est.

sábado, 10 de janeiro de 2026

Habitus

Passado mais de um ano da morte da mãe, estive a desfazer a casa dos pais. A frase surpreendeu-me. A surpresa conduziu-me a uma pergunta: Que tipo de narrador sou? Um narrador tem uma existência meramente literária, respondo-me. Não existe qualquer narrador de carne e osso. São todos seres imaginados, criações de imaginações delirantes. Sendo assim, a frase inicial é falsa. A surpresa, porém, está na forma do enunciado, a ausência de pronomes possessivos para mãe e pais. Um habitus linguístico que é, ao mesmo tempo, um habitus social. Como se o narrador pertencesse a uma certa classe social que simula o afastamento dos pais para parecer que está a fazer um relato objectivo, ocultando a dimensão afectiva presente no uso dos possessivos. Contudo, esta objectividade é um dispositivo retórico que visa a hiperbolização do pai ou mãe referidos. Essa mãe ou esse pai deixam de ser mãe ou pai particulares, limitados e finitos, mas, através da enunciação, passam a ser mãe e pai universais, dotados de um poder de fecundidade que os tornam pais de toda a humanidade, uma encarnação de Adão e Eva, mas infinitamente mais potente. Enquanto os membros das classes populares possuem pais próprios, os das elites sociais – fundamentalmente, as letradas e tradicionais – têm de partilhar a filiação com toda a humanidade, sem que isso, porém, tenha impacto na herança. Tem-se o melhor dos dois mundo: uma parentalidade universal e uma herança particular. Caso me perguntem – o que não acontecerá – o que me levou a escrever isto, a única resposta séria é dizer que já não me lembro. O esquecimento não é um alibi que permite escapar a perguntas indelicadas, mas uma deficiência ontológica, trazida pelo tempo, da memória. Isto no caso de a memória possuir ser. Um dia, espero ter paciência – infinita, sublinhe-se – para suportar, enquanto narrador, as idiotices que o autor me obriga a assumir como minhas.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Patati patatá

Estes dias têm sido de tal modo ocupados que só me sento no escritório depois de jantar, mais morto do que vivo. Eis uma expressão que parece uma hipérbole, mas que, na verdade, não passa de uma atenuação da natureza existencial de tudo o que é vivo. A frase parece significar que se está mais morto do que vivo numa dada circunstância particular, devido a um cansaço extremo. A realidade, porém, é outra. Qualquer ser vivo — onde os homens se incluem, apesar de nem sempre parecer, assemelhando-se antes a matéria inanimada — está sempre mais morto do que vivo, pois a morte é muito maior do que a vida. Nem vale a pena recorrer à dramatização heideggeriana do Dasein como ser-para-a-morte, o estar projectado para a finitude, patati, patatá. É apenas uma questão contabilística e talvez geográfica, caso se pretenda metaforizar: cada vida é uma minúscula ilha rodeada por um infinito e tenebroso mar de morte, que não devemos confundir com o Mar Morto. Voltando aos dias, o de hoje é só semi-ocupado. Só a tarde estará realmente ocupada, o que me permite ter a manhã para escrever disparates, pensar em coisas inúteis e, sabe-se lá por que razão, sentir o desejo infantil de voltar a ler a Alice no País das Maravilhas e a Alice do Outro Lado do Espelho. O autor, Lewis Carroll, tinha vários defeitos — ser um lógico e um matemático, por exemplo — e uma virtude: a de explorar o ilógico, o absurdo, o non-sense. E, neste caso, a fama compensou a virtude e castigou o vício. Quem se lembra do matemático ou do lógico? Mas toda a gente sabe quem é o autor de Alice, onde ele explora a galáxia do ilógico, do absurdo, do non-sense. Que eu tenha tido este súbito apetite de retornar à infância — mas, confesso, também li as Alices enquanto estudava lógica e me entretinha a fazer demonstrações de teoremas, sabe-se lá para quê — talvez seja o sinal do absurdo em que tenho ocupado estes dias.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Flatus vocis

Pensei que me tinha aposentado da realidade. Ora, este foi além de um cálculo sofrível, uma suposição inútil e sem fundamento. Esqueci o outro lado da relação, a própria realidade. Ela não se aposentou de mim e está sempre disposta a visitar-me, retirando-me do sossego trazido pelo devir e o consequente acumular dos anos, para me obrigar a olhá-la nos olhos. Não tive outro remédio, e, como é habitual, sempre que se olha para a realidade, apesar de ser um nome feminino – noutro tempo dizia-se substantivo feminino – não é uma bela mulher, mas uma megera desdentada. Tenho, no entanto, uma pequena consolação. A evolução da nomenclatura gramatical trouxe à realidade uma despromoção. Como disse acima, eu aprendi – pelo menos, é o que imagino – que ela era um substantivo, isto é, referia-se a uma substância. Agora, porém, não passa de um nome. Trata-se de uma vitória na secretaria do nominalismo sobre o realismo, uma vitória copiosa, pois quando nominalistas e realistas terçaram armas, o que estava em jogo eram os universais, como humanidade, vermelhidão, justiça, igualdade, etc. Os realistas diziam que estes universais possuem algum tipo de realidade independente dos particulares que as compõem. Os nominalistas negam a existência de universais. São meros nomes, não são substâncias. Agora, até o gato da minha vizinha – caso eu tenha uma vizinha e ela, um gato – não passa de um nome. Uma vitória exuberante do nominalismo através da gramática, uma vitória que nos diz que tudo é nome. Quando a velha desdentada não passa de um flatus vocis, apesar de incomodativo, caímos no mais puro niilismo.

domingo, 4 de janeiro de 2026

Um dia

Hoje, o novo ano arrependeu-se daquela sua face cinzenta, fria, quase iracunda. Quando despertei, descobri-o jovial e convidativo. Fui caminhar neste primeiro domingo e as poucas pessoas com que me cruzei pareciam, também elas, estarem num domingo. Um acontecimento raro, este acordo de cataduras. A norma é que, por exemplo, num domingo, existam pessoas com feições de sábado, ou de quarta-feira, ou de sexta-feira, ou de qualquer dia da semana excepto aquele que o calendário indica. Um traço cultural persistente, não respeitar as indicações do calendário. É um facto que, durante a semana, as pessoas respeitam essa indicação. Contudo, estamos perante aparências. O que as move é o medo do que lhes pode acontecer se, estando em plena terça-feira, aparentem estar, no sítio onde exercem funções para enfrentar as necessidades da vida, num sábado ou num domingo. A humanidade rodeou-se de calendários, mas detesta-os. É um traço arcaico, geneticamente proveniente do tempo em que os seres humanos ainda não se tinham enrodilhado nas redes desses calendários. Para eles, nossos antepassados, não havia dias da semana, pois cada dia limitava-se a ser aquilo que era: um dia.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Da certeza e da falsidade

Sobre coisas incertas, não deveriam os homens fazer afirmações categóricas. Veio isto a propósito de umas linhas lidas num prestigiado ensaísta – pelo menos para certas correntes, pois, nesta coisa de ensaios, cada um prestigia o que lhe apetece – que deixou a vida a 10 de Janeiro de 1925, portanto, há quase 101 anos. Ora, num dos seus ensaios, fazia juízos categóricos que o tempo se limitou a mostrar como falsos. Podemos afirmar categoricamente que algo é água se, e só se, for H2O. Quando se entra em campos movediços como a moral, a política, a economia, o melhor é moderar o entusiasmo e admitir possibilidades em vez de proclamar necessidades. É claro que neste sítio se fazem não poucas afirmações peremptórias, mas todas elas – com excepção de que água é H2O – são falsas a priori. O que torna estes escritos particularmente tranquilizadores e mesmo pacíficos. De tal modo pacíficos, que o autor mereceria o Prémio Nobel da Paz, mais do que muito dos contemplados. Isso, porém, não são contas do rosário deste narrador. Sempre que se afirma algo por aqui, sabemos que é falso. Logo, não há necessidade de perder tempo em refutar os ditos. Não se pense, contudo, que só afirmações científicas são intrinsecamente verdadeiras. Há outras que, não sendo científicas, são necessariamente verdadeiras. Para descansar de tantas afirmações falsas feitas ao longo dos anos, deixo algumas necessariamente verdadeiras: “Todo o solteiro é não casado”.Toda a promessa é um compromisso.” “Todo o efeito tem uma causa.” Para concluir, aquela de que mais gosto: “Todo o mentiroso diz o que não é verdadeiro.” O problema destas afirmações reside no seguinte: os solteiros podem casar-se, as promessas podem não ser cumpridas, as causas podem recusar-se a ter efeitos (é inverosímil, mas foi o que me ocorreu) e o mentiroso, por engano, pode dizer a verdade. O que não foi ainda o caso.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Humores

Já estamos no segundo dia de 2026 e ainda não consegui perceber qual a diferença com os dias de  2025, para que o ano tenha direito a um novo nome. Os nomes servem para diferenciar e quando algo não é diferente, então não se lhe deve reconhecer a diferença com nova designação. Aqui chegados, podemos entrar na velha polémica entre os seguidores de Heraclito (Heraclito e não Heráclito) e os sequazes de Parménides. Os primeiros gritarão que tudo muda, ninguém se pode banhar duas vezes na mesma água do mesmo rio. Os outros encolherão os ombros e erguerão cartazes dizendo o devir é uma ilusão, o ser é e não pode não ser. Quando me sentei para escrever o que estou a escrever decidi ser um correligionário, por hoje, do velho eleata, isto é, de Parménides. Amanhã, cansado da imobilidade do ser, talvez me converta à doutrina do efésio, ao πάντα ε (tudo flui). Assim, hoje nego a mudança do ano, porque nada flui. Amanhã, recomposto destes dias, reconhecerei que afinal estes dias de 2026 são mesmo diferentes dos que deixámos em 2025. Ofereço, deste modo e para comemorar o Ano Novo, uma grande tese ao mundo: a filosofia é uma questão de humores. Ora, como estes são volúveis, a mesma pessoa pode ter diversas filosofias, para usar, como o corpo usa diversas camisas, em conformidade com estado desses humores, ou do clima, ou de outra coisa qualquer à sua escolha. Contudo, há aqui um problema. Os humores, como se sabe desde a antiguidade, são líquidos orgânicos – sangue, bílis, atrabile e fleuma – e todos os líquidos têm uma queda para o fluxo e para o movimento. O que implicaria que possuir um humor parmenídio seria uma contradição. Era como se afirmasse que tudo flui imóvel. Há, porém, uma explicação que salva esta contribuição para o bem da humanidade. Por vezes – quem nunca sentiu isso? –, a fleuma congela e até o temperamento mais bilioso se imobiliza como o Ser de Parménides. Nessa hora, ninguém crê no movimento, nem tem pressa para chegar a qualquer sítio, pois não há sítio para ir. É o que acontece comigo no dia de hoje. Sou um adepto da imobilidade, fustigo as ilusões dos sentidos e concordo com a razão quando esta afirma que toda a coisa é igual a ela mesma. Coisa em que, noutros dias, não creio por um instante sequer.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Começos

O carrocel do ano começou uma nova viagem. Estas jornadas têm sempre o mesmo objectivo, chegar ao fim e dar de imediato sinal de partida para outra. Síndrome iterativo do calendário seria um nome excelente para esta patologia. Se fosse uma expedição sem destino marcado não se saberia onde seria a meta. Contudo, esta viagem nunca é isenta de surpresas, e quanto a estas, como se sabe, o melhor é não as haver, pois o saldo entre as boas e as más tende a ser desvantajoso para o surpreendido. Esta visão das coisas, em particular do calendário e da doença que existe no seu ser mais íntimo, é uma ontologia pessimista, o que fica sempre bem ostentar, ao modo de emblema, na lapela, como certos políticos por esse mundo fora usam, para enfeitar, a bandeira pátria na banda do casaco, provavelmente porque não a sentem no coração. Alguns argumentam que ter a pátria no coração desequilibra o ritmo cardíaco e pode causar um enfarte do miocárdio. Isto, porém, não são contas do rosário deste blogue, cujo narrador – eu – está proibido pelo autor – um tirano sem nome – de derramar a sua verve, enorme e sábia, sobre assuntos políticos. E como narrador timorato, receia, temente e tremente, que uma constatação dos costumes da tribo seja tomada como incursão em território vedado. Por isso, recua rapidamente, antes que os guardas-fronteiriços disparem à queima-roupa e passe de narrador vivo a narrador morto, o que, para ser rigoroso, é uma impossibilidade ontológica: se se está morto, não se narra seja o que for; se se narra alguma coisa, então não se está morto. Embora muitas narrativas, incluindo as deste espaço, tenham menos vida que aquela que existe num morto. Este primeiro texto do ano não augura nada de bom. Não em relação ao mundo ou mesmo ao calendário e às suas patologias, mas aos textos que poderão vir. O problema reside no desacerto entre narrador e autor. Jogam em clubes diferentes, votam em partidos diferentes, até casaram com mulheres diferentes. Eu bem queria que estes textos fossem o meu Livro do Desassossego. Quase que adopto o nome de Bernardo Soares, mas o autor, cujo talento é ridículo, tem a honestidade de não se fazer passar por Fernando Pessoa. Disse-me um dia, à laia de desculpa, que odiava o nome de Fernando, que está grato aos pais por lho não terem posto, e quanto ao apelido Pessoa é uma coisa equívoca, por causa das ressonâncias com o pronome indefinido personne francês – ninguém – e com a persona grega – máscara. Que para mascaradas basta o que basta, acrescentou ele, sem que eu tenha percebido o que queria dizer com aquela frase enigmática.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Destinos

Uma coisa boa trazida pela idade é o desinteresse pelos balanços do ano que finda e pelas profecias sobre o que está a chegar. Há umas décadas, dava algum tempo para ler, nos jornais que então comprava, e eram alguns, essas prosas feitas sobre o que o ano fez ao mundo e aquilo que o que vier há-de fazer. Olhava para trás e olhava para diante. Imagino agora que essa literatura não seria particularmente interessante. A única prova – e é uma prova enviesada – é que fui deixando de a ler. Há uma outra alternativa para explicar essa desistência: o medo. Sim, o medo de ter um destino como a mulher de Lot, por um lado, e como o de Actéon, por outro. A Lot foi dito para abandonarem Sodoma, mas que não olhassem para trás. A mulher não resistiu e foi transformada em estátua de sal. Pior destino teve o pobre Actéon. Olhou para a frente e viu Diana despida. A deusa não gostou e transformou-o num cervo. Ora, os seus cães, ao avistá-lo e vendo nele o cervo que agora era, não hesitaram e estraçalharam-no. Se posso dar um conselho, neste último dia do ano, é o de não se preocuparem com o ano que passou, para não se tornarem em estátuas de sal, nem tentem olhar para o que aí vem, não seja o caso de estar alguma deusa nua que condene o voyeur à condição de presa da sua própria matilha. Há que ter cuidado com o destino. De resto, um bom ano.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Uma tarde

A tarde passou num instante. Um jogo de Xadrez com o meu neto. Depois, uma rápida saída, com ele, ao supermercado para fazer umas pequenas compras. Deixadas estas em casa, fomos visitar a Letrinhas. Não por minha iniciativa, mas dele. A Letrinhas é a gata da livraria do outro lado da rua. Ele confraternizou com a gata, não muito, pois ela nem sempre está pelos ajustes. Resultado: comprei-lhe dois livros da Enid Blyton. Imagino que não sejam dela, mas adaptações com imagens coloridas e texto curto e com letras de dimensões próprias para idade do contemplado. Uma adaptação das aventuras dos Cinco. Já não me recordo a idade em que li essas aventuras, mas era, por certo, mais velho do que ele. Conheci um advogado que ainda na casa dos cinquenta lia as aventuras dos cinco. Dizia-o com orgulho, como se fosse uma idiossincrasia digna de se ostentar. E talvez fosse. Não tenho propensão para esse retorno à casa de partida, mas nunca se sabe. Agora, ele foi-se embora, depois de ver não sei quantos episódios da Pantera Cor-de-Rosa. Na minha companhia, pois se as aventuras da Enid Blyton são coisas enterradas na infância, ainda me rio com os desmandos da mais inteligente pantera que este mundo – e talvez outros – viu em acção.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Um moralista falhado

Observemos os seguintes começos de romances: “Eu andava, aquele Inverno, sacudido por abstractos furores.”; “Erica chegou à grande cidade no final duma guerra. Era Inverno, fazia frio e as fontes das praças estavam geladas.”; “O Inverno de 44, em Milão, foi o mais calmo que tinha havido desde um quarto de século...”. O primeiro começo pertence a Gente da Sicília; o segundo, a Erica e os Irmãos; o terceiro, a Os Homens e os Outros. Estes começos têm duas coisas em comum: pertencem a romances escritos por Elio Vittorini e, como se terá reparado, referem, todos eles, o Inverno. Disto nasce um enigma: o Inverno será uma estação universalmente propensa a figurar no início de um romance ou será apenas uma idiossincrasia de Vittorini? Contudo, o enigma não me motivou para qualquer investigação. Preferi levantar-me e ir comer uns quadrados, em forma rectangular, de chocolate preto com amêndoas. E esta é a minha lição moral de hoje: sempre que um enigma se ponha à porta da consciência, o melhor a fazer, para não desvendar os segredos que nascem no inconsciente, é comer chocolate. É uma modalidade prática e quase sem custos para manter os enigmas no seu estado enigmático. Não há nada de mais infeliz do que ver um enigma deixar de o ser; não apenas aquilo que é enigmático se trivializa, como essa trivialização contamina aqueles que viam o enigma como tal. Devia ter feito vida — penso-o agora que é demasiado tarde — de moralista. Percorreria o país, talvez o mundo, a dar lições de moral, distribuindo injunções, mandamentos, preceitos, prescrições e imperativos. Seria, estou certo, um moralista completo, e quem me escutasse haveria de tornar-se num ser moral. Das coisas mais triviais ou das mais absurdas haveria de extrair uma lição e mesmo uma máxima. Não me ocorreu, enquanto era tempo, a possibilidade. Talvez tenha falhado a existência, mas também não é todos os dias que se encontram três romances do mesmo autor com o Inverno dentro do começo. E o Inverno é uma óptima estação para moralizar. Ou talvez não, quem sabe.

domingo, 28 de dezembro de 2025

O céu estrelado

O ano espraia-se em lenta agonia, agora que o porto está próximo e da amurada do navio já se avista o cais e a nova pátria a que todos os nós, migrantes no tempo, ansiamos chegar. Que conversa mole, pensei. Depois, o pensamento rodopiou, caiu aqui e ali e ficou-se, por instantes, numa experiência cada vez mais rara. Contemplar o céu nocturno sem que a poluição luminosa interfira com o olhar, deixar-se envolver pelo tremendo espectáculo estelar. Como um macaco mal amestrado, a mente saltou de imediato para uma passagem, de tonalidade lírica, de Kant, no início da Conclusão da Crítica da Razão Prática: Duas coisas enchem o ânimo de admiração e veneração sempre novas e crescentes, quanto mais frequente e persistentemente a reflexão nelas se ocupa: o céu estrelado sobre mim e a lei moral em mim. Não devo buscar ambas como se estivessem envoltas em trevas ou no transcendente, fora do meu horizonte, nem apenas supô-las; vejo-as diante de mim e ligo-as directamente à consciência da minha existência. Talvez por ter sido educado – educado filosoficamente – na rigorosa disciplina de Kant e do Idealismo Alemão, estas palavras do filósofo de Konigsberg nunca deixam de me surpreender. Sim, é inverosímil que um animal traga em si os ditames da lei moral, que somos mais do que a matéria de que somos feitos e haveremos de entregar à Terra de onde foi retirada, e esse mais manifesta-se na posse da lei moral. Contudo, o céu estrelado sobre mim é uma experiência decisiva. Como Kant sublinha, olhar para uma multidão inumerável de mundos aniquila, por assim dizer, a minha importância como criatura animal. É essa experiência de aniquilação do eu que tantas vezes procurei na vertigem de olhar, na escuridão da noite, o céu estrelado, a multidão inumerável de mundos, a impotência de os perscrutar e de saber deles mais do que as poucas trivialidades – embora grandiosas – que a Astronomia deles me pode dizer. O fim do ano aproxima-se, o que não se aproxima é esses mundo incontáveis, com os seus mistérios e o mistério de todos os mistérios: por que razão tudo isto, comigo incluído, e não o nada, a pura ausência seja do que for, isto para voltar à decisiva questão posta por Leibniz, Cur magis est aliquid quam nihil? (Por que existe algo em vez de nada?), que Heidegger retomou, não sem dramatismo, no século XX. Talvez a pergunta tenha perdido sentido, não porque ela não seja a mais importante, mas porque já não vemos o céu estrelado sobre nós ou porque o que importa seja as festividade de passagem de ano; o que, do ponto de vista pragmático, será o mais sensato.

sábado, 27 de dezembro de 2025

Antigas angústias

Pior do que a angústia do guarda-redes no momento do penalty, era a do bebedor de café nos dias de Natal e de Ano Novo. Naqueles tempos em que se frequentava cafés, estes tinham uma prazer sádico em fecharem as portas nos dois dias em que eram mais necessários. Numa vila de província, o que então esta cidade era, havia um desporto. Encontrar um café que tivesse rompido a concertação dos proprietários e oferecesse aos seus clientes – e aos dos concorrentes – a oportunidade de tomar um café a sério, e não aquele que se podia beber em casa, por melhor que fosse o lote e a cafeteira Bodum, passe a publicidade, e outras engenhocas como cafeteiras de êmbolo, sistemas de filtro, cafeteiras de balão ou vácuo. Sim, o café era excelente – quando era –, mas nada que se comparasse a um café no café, que naquele tempo dava pelo nome de bica, aqui para estes lados, e, lá para cima, de cimbalino. É verdade, tomei bicas e até cimbalinos. E resisti. O pior era encontrar naqueles dias um sítio que abrisse as portas e os servisse. Isto é a minha experiência de habitante de uma pequena vila, de um vilão, para ser mais exacto. Depois, nem Deus sabe a razão, a vila foi elevada a cidade. Houve uma metamorfose, embora seja imprecisa a sua natureza: os cafés terão começado a abrir naqueles dias aziagos ou terei deixado de ir ao café? Talvez as duas coisas, mas não consigo precisar o que aconteceu. Os tempos mudaram, os próprios guarda-redes deixaram de se sentir angustiados no momento do penalty, e eu bebo café em casa, numa daquelas máquinas que mói o café e oferece uma bebida digna de ser bebida com devoção, dependendo do lote, da angústia do bebedor e do penalty ser a favor ou contra a sua equipa. Sim, os guarda-redes já não sentem angústia, mas o adepto sente. O que não é o meu caso. Sou um adepto não praticante, e mesmo o café bebo com moderação, não vá o árbitro mostrar-me cartão vermelho. O que me custa é que a cidade não seja promovida a vila, coisa que era no tempo da fundação da nacionalidade, que eu seja considerado um citadino, conquanto a minha alma continue a ser a de um vilão, que um dia bebeu bicas e cimbalinos e sentiu, na busca por um café aberto, a angústia do guarda-redes no momento do penalty, isto para dar um ar de erudito e citar Peter Handke.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Encerrado para balanço

Em tempos, talvez há muitos anos, não me lembro se entre o Natal e o Ano Novo, se após o Ano Novo, os estabelecimentos comerciais ostentavam na porta uma comunicação ao público: Encerrado para Balanço. E assim ficavam uns dias, embora nunca tenha descoberto como, dentro dessas casas respeitáveis, proprietários e empregados se balanceavam, ou qual a intensidade do balanceamento para que tão distintas empresas tivessem de estar encerradas, privando a estimada clientela dos seus serviços. É possível que aqueles que nelas trabalhavam ou mandavam rodopiassem a grande velocidade, o que não lhes permitiria ter as portas abertas, não fosse alguém projectado pela porta e atingisse um estimado cliente que, de susto ou com a violência do choque, pudesse ir parar ao hospital em estado comatoso, com prognóstico reservado e com possibilidade de aí a uma semana lhe estar a ser rezada por alma a missa do sétimo dia. Imagino que essa tradição de encerramento para balanço e as respectivas actividades de balanceamento tenham sido abolidas, pois, por mais que procure, não encontro estabelecimento com a velha frase. Talvez o perigo que nelas havia tenha levado algum grupo parlamentar preocupado com a saúde de proprietários e empregados, bem como com a segurança da estimada clientela, a legislar no sentido de proibir a actividade, no que, num momento raro, foi secundado por todos os outros grupos parlamentares, que, após a aprovação do diploma de proibição, se aplaudiram uns aos outros, esquecendo não apenas rivalidades pessoais como diferenças ideológicas irreconciliáveis. Terá sido uma verdadeira união nacional, muito mais verdadeira do que aquela que existiu no século passado. Agora está sempre tudo aberto, ninguém faz balanços nem se balanceia, nem aborrece a estimadíssima clientela que nunca se lembrava de que o estabelecimento fecharia para balanço e, não poucas vezes, batia com a nariz na porta, fracturando o septo nasal e entupindo as urgências dos hospitais e dando trabalho a uma legião de cirurgiões.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Tempo de Natal

Não tarda e a noite de Natal estará consumada. Depois, virá o dia de Natal, que também passará após vinte e quatro horas, entre uma e outra meia-noite. É sempre assim, mas devo sofrer de um problema de adaptação à realidade, pois, dentro de mim e apesar de saber que nada mudará, tenho sempre a esperança de que o tempo de Natal se dilate. Não por causa das festividades, almoços e jantares, mas para abrir uma clareira temporal para que possa compreender o que é, na verdade, o Natal. A mistura deste com a temporalidade comum retira-lhe aquilo que tem de diferente. O tempo, porém, resiste à dilatação, passa a galope, desejoso de chegar ao fim do ano e entrar, de novo, na realidade. Estou a ser impreciso. O tempo não se desvia da realidade. São os homens que, nestes dias, se desviam da realidade, mas lá estará o 2 de Janeiro para lhes lembrar aquilo que é. O que se passa por aqui com o Natal, passar-se-á noutros lugares com outras festividades. Também aí haverá quem espere a dilatação do tempo para compreender o que se vive, mas este terá um comportamento absolutamente democrático e frustrará a esses aquilo que me frustra a mim. O tempo não tem religião, cultura ou visão do mundo. Limita-se a passar. Caso exista, coisa que que não é clara.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Palavras equívocas

Resisti a comprar uns livros do filósofo francês Alain Badiou. A resistência é uma modalidade de se relacionar com a tentação. Que outras modalidades haverá? Talvez existam mais do que se possa pensar. Isso, porém, é assunto que não me interessa no anoitecer deste dia. O que me interessa é a distinção entre verdadeira e real. Ainda por causa de Badiou. Estava a percorrer a listagem dos seus livros, numa venda online, e deparo-me com uma edição portuguesa com o título Metafísica da Verdadeira Felicidade, mas logo de seguida apareceu-me a edição francesa:  Métaphysique du bonheur réel. Isto mostra a elasticidade do termo verdadeira. Pode designar que uma certa afirmação está de acordo com os factos. Por exemplo: Lisboa é a capital de Portugal. Como pode designar que uma certa coisa tem realidade. Como não conheço o livro, não sei se a tradução de réel por verdadeira está ajustada ao conteúdo. Todavia, caso fosse eu o tradutor manteria o título o mais próximo possível do original: Metafísica da Felicidade Real. Qual o motivo? Já o título original tem três palavras e todas elas são bastante equívocas, a começar por metafísica. A troca de real por verdadeira acrescenta equivocidade à equivocidade. Soa bem em português, mas imagino que num tratado de filosofia não seja o som que esteja em causa, mas o sentido, isto para usarmos essa feliz expressão som e sentido que alimentou, em forma de querela, não pouco debates no campo da poesia.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Cromos da bola

Acontece a muitos filósofos – dos mais importantes – aquilo que acontece às pessoas comuns que evitam dedicar-se à filosofia: com a idade, mudam de ponto de vista. Isto devia fazer suspeitar aos filósofos que as suas teorias são fruto da idade, o que introduz o mais terrível dos relativismos. Ora isto pode levar-nos para uma mar tumultuoso. O que pensaria Platão aos 120 anos? E Kant, aos 150, ainda aceitaria a fase crítica, aquela que lhe trouxe a glória e um lugar especial no altar da capela filosófica? Fala-se no primeiro e no segundo Wittgensteins. Também existe um primeiro Heidegger e um segundo. Mas se eles vivessem 250 anos, quantos haveria? Seriam tantos quantos os heterónimos de Fernando Pessoa? Não o podemos saber, mas temos direito a desconfiar que seriam legião, caso os filósofos fossem verdadeiros matusaléns, com direito a quase mil anos de vida. Mudariam, pelo menos, vinte vezes de posição. O que lhes valeria é a existência de um secreto armazém onde se guardam milhares de milhões de posições filosóficas possíveis. Portanto, não haveria perigo de o mercado se esgotar, desde que houvesse talento para as descobrir, abandonando, sem piedade, as anteriores. Renegando-as, caso fosse necessário. Uma pessoa comum, como este narrador, não precisa de se dedicar à filosofia, para mudar de ponto de vista. Basta acordar com o desejo de ver as coisas de outro modo. Procuro no armazém e passo a ver as coisas de outra maneira. O mais interessante, porém, é que as coisas são de grande cordialidade. Não se revoltam, nem sequer protestam. Aceitam impávidas e silenciosas as minhas idiossincrasias, e ainda mais as dos filósofos. Esta falta de temor das coisas radica numa certeza que as habita: os humanos podem mudar mil vezes de ponto de vita sobre nós, isso, porém, não altera um grama aquilo que somos, coisa que nunca saberão. Que envelheçam a coleccionar pontos de vista como, antigamente, os rapazes coleccionavam cromos da bola.

domingo, 21 de dezembro de 2025

Um texto solsticial

Este é o dia mais pequeno do ano. Também este deve ser o texto mais pequeno, não apenas em dimensão, mas na relevância dos assuntos. É um texto solsticial de Inverno que tem a energia de nada dizer. Deixa que as palavras a escrever soçobrem no silêncio, como a luz se dissolve nas trevas. A matéria do mundo e o espírito extramundano calam-se, como se tudo estivesse para acabar na sonolência do crepúsculo.

sábado, 20 de dezembro de 2025

Tábua de salvação

A suspensão voluntária da descrença proposta por Coleridge, como uma espécie de fé poética, seria aquilo que permitiria ao leitor acompanhar a leitura de obras com personagens fantásticas como se estas fossem reais; um pacto tácito entre autor e leitor. A expressão teve – e tem – um enorme sucesso, tendo-se transferido do terreno da literatura fantástica para outros géneros fantásticos, como a ficção científica, mas também para a ficção literária. Não seria descabido, todavia, pensar que, para ler, por exemplo, livros de História baseados em investigação séria, também é preciso suspender voluntariamente a descrença, descrença aqui baseada na desconfiança na possibilidade de recuperar, através da investigação, o passado – melhor, de construir uma imagem ou representação exacta desse passado. Todavia, essa não será ainda a utilização mais proveitosa e corrente que se faz da tese de Coleridge. Onde ela é mais eficaz é na nossa relação quotidiana com a realidade, tanto a natural como a social e a individual. Vivemos segundo um conjunto de crenças sobre essas realidades que estão muito longe de terem fundamento. Ora, se procurássemos o fundamento dessas crenças, a vida tornar-se-ia impossível, pois ficaríamos presos em investigações que nunca teriam fim. A educação é o processo em que aprendemos a suspender a descrença sem que nos apercebamos disso. Formamos crenças sobre a ameaça da descrença, mas esta, pelo hábito em que somos formatados, está suspensa. Voluntariamente? Não, se se olha do ponto de vista do indivíduo; sim, se se observa a partir da espécie. A espécie humana é aquela que aprendeu a suspender a descrença para poder persistir. Só de modo muito limitado e controlado é que se permite o questionamento das crenças e se põe de lado essa suspensão voluntária da descrença, que é a tábua de salvação de uma espécie que teve por destino ser dotada de razão.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Lassidão

Numa da estantes, estava um pequeno caderno de capa dura. Na prática, um bloco-notas. Terá já uns anos, apesar de parecer novo. O que desmente essa plausível juventude é o elástico que se apresenta lasso e incapaz de cumprir a sua função de manter o caderno fechado. Está em branco, com a excepção da primeira página, onde descubro uma lista de nomes, escrita com a minha letra, mas cujo nexo não consigo entender. Seis desses nomes eram-me desconhecidos. Os outros dois eram os romancistas László Krasznahorkai, o Nobel da literatura deste ano, e Elsa Morante, autora do romance A História. Os outros nomes, fui pesquisar, eram de um mestre zen japonês, de dois místicos medievais, de um autor, também medieval, de legendas de santos, de um psicólogo norte-americano e de um historiador holandês. Gostava de saber duas coisas: há quantos anos escrevi essa lista; o que estava a fazer aquela gente junta. Depois do nome de László Krasznahorkai estão, entre parêntesis e separadas por ponto e vírgula, duas palavras, mas não consigo decifrar nenhuma. Há uma lição, porém, que é evidente. Muitas das coisas que fazemos, se não a maioria, morre sem dar qualquer fruto. Nem tentativas são, apenas esboço que, por certo, não chegou ao estatuto de ideia. Olho o bloco-notas, a sua bela encadernação e apiedo-me dele, pelo elástico castanho bambo e pela página conspurcada pela minha letra, sem que disso tenha havido qualquer resultado. Também os objectos não devem ser usados em vão.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Docta ignorantia

Mais uma semana e estar-se-á naquele dia de azáfama preparatória que culminará com o jantar da noite de Natal. Uma semana talvez seja suficiente para a preparação dessa noite. Tal como no futebol – pelo menos, no de antigamente, que é aquele que conheço – havia uma semana para preparar um jogo que estava liquidado em menos de duas horas. Hoje, nada sei de futebol, embora ainda vá sabendo alguma coisa de noites de Natal, mas mesmo nesta sabedoria estou a caminho da docta ignorantia. Não sobre Deus, que era a douta ignorância de Nicolau de Cusa. Este sublinhava, assim, a limitação da razão humana para conhecer o absoluto. A minha, porém, é sobre as coisas mais triviais que os homens têm a pretensão de conhecer, seja com a razão, seja com os sentidos. Sou mais radical que o velho Cusano. A minha ignorância é, ao mesmo tempo, infinitamente grande e infinitamente pequena. Um problema de coincidentia oppositorum. No caso deste narrador desprovido de veia narrativa, a ignorância é sobre o infinitamente grande, sobre o infinitamente pequeno e sobre aquilo que fica entre os dois. O que perfaz uma verdadeira coincidência de desconhecimento. Um agnóstico. Mesmo o que sabe sobre as noites de Natal é mais ignorância do que sabedoria. Resta a sabedoria do futebol de antigamente, mas também essa não é uma autêntica sabedoria histórica, mas um conjunto de memórias que insistem em não ser apagadas com a passagem dos anos. Por vezes, entro por dentro de um discurso e descubro que ele é um labirinto. Descubro também que Ariadne se esqueceu de me dar o fio que me traria a bom porto. Perco-me e perder-se é ainda uma forma de ignorância, mas pouco douta.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

No princípio, era a onomatopeia

Ao ler um verso – levando a mão à boca entoei a canção inteira das onomatopeias – de Herberto Helder, ocorreu-me que todas as palavras que usamos podem ter a sua origem remota em onomatopeias, em imitações de sons naturais. O problema, porém, é se esta imaginação foi agora produzida por mim ou se é o resultado de uma leitura antiga que o tempo apagou. Sei que há quem pense que as palavras que usamos são metáforas mortas, que estando mortas passam a ter uma significação corrente, vulgar, que permite a comunicação entre nós. No princípio estava a poesia, que o tempo transformou em prosa. Contudo, a hipótese onomatopaica da origem da língua talvez seja mais interessante: seria a natureza a falar através do aparelho de fonação humano. Com o correr dos séculos, aquilo que era uma expressão criada por uma imitação directa dos sons naturais, perdeu o contacto com essa natureza, autonomizou-se e ficou submetido à memória e às regras humanas do uso da linguagem. Isto que estou a imaginar, porém, já deve ter sido pensado por alguém, mas desconheço quem, ou não me lembro por quem. Pensemos na palavra árvore. Quase ouvimos o vento passar entre os ramos, mas esta é uma palavra muito tardia, descendente da latina arbŏre. Esta terá tido um antecedente indo-europeu, e este outros que nem reconstruídos conseguimos imaginar. Deixemos esta arqueologia para os arqueólogos da linguagem. Se for aceitável a origem onomatopaica de todas as palavras, o poeta não podia ter cantado a canção inteira das onomatopeias. Faltar-lhe-ia o fôlego para projecto tão hiperbólico. Talvez ele quisesse impressionar o leitor. E o verso seguinte, separado não apenas pela mudança de linha, mas também por um ponto e vírgula, parece confirmar este desejo de impressionar o leitor ao escrever: era guerra. Como se caça uma fêmea com tanto sangue entre as ancas? Um problema impressionante e difícil de resolver. Pelo menos enquanto não soubermos que onomatopeias estiveram na origem de palavras como guerra, caça, fêmea, sangue e, de modo especial, ancas. Tivesse eu acesso a essas onomatopeias – as primeiras que saíram da boca humana – logo explicaria a estratégia de caça. Assim, limito-me a esperar que alguma fêmea me cace, enquanto procuro o arco. Elas são nisso muito melhores do que os machos, apesar destes pensarem o contrário. Elas conhecem a origem onomatopaica da linguagem, mas recusam-se a partilhá-la, a não ser com as suas filhas fêmeas, para que estas sejam, também elas, caçadoras, cheias de onomatopeias prontas a lançar do arco das suas bocas.