Às oito a manhã chegou ao fim o primeiro terço deste Março de 2026. Não sei o que dizer destes dez dias e oito horas. Não encontro sequer um nome exacto para lhe atribuir. Byung-Chul Han, na página 142, da tradução portuguesa de Rostos da Morte – Investigações Filosóficas sobre a Morte, escreve: Se Heidegger tivesse tematizado o nome humano em Ser e Tempo, tê-lo-ia definido sem dúvida como simples ferramenta ou simples instrumento de designação que serve para designar um homem. Mas nada mais lhe seria atribuído além dessa utilidade. Fiquei demoradamente a meditar sobre o assunto. Claro, um nome é um designador. Podemos dizer, com Saul Kripke, que é um designador rígido. O meu nome, apesar do anonimato a que me remeto, é um designador rígido: em qualquer mundo possível onde eu exista, o nome continua a referir-se a mim, e não a qualquer outra pessoa ou narrador. Este persistência na designação presente no nome deve fazer-nos desconfiar da perspectiva atribuída a Heidegger. Os nomes tornam-se parte de nós, do modo como somos o que somos e como estamos no mundo. Se tivesse outro nome, seria outra pessoa. Quando pensamos em nome, num primeiro momento, vemo-lo como fruto de uma qualquer arbitrariedade (a escolha de quem no-lo deu), só uma demorada reflexão abre o caminho que permite perceber que sob a capa do arbitrário se esconde algo de mais essencial. Cada um, queira ou não, tem de fazer jus ao nome que ostenta. O nome, e não me refiro aos apelidos, não é imponderável. Tem um peso, uma gravidade, digamos assim. Um equívoco seria pensar que agirmos segundo o nome que nos foi dado é apenas um hábito, uma segundo natureza, como diria Aristóteles. Ele, porém, faz parte da primeira natureza, do ser que também, de modo arbitrário, nos foi dado. Existência e designação têm as suas raízes numa arbitrariedade e é isso que as funde e constitui o ser que somos. O meu problema, porém, é que não encontro um nome para dar ao primeiro terço deste mês de Março. Se o tivesse, saberia o que dizer dele, para comemorar a efeméride. Assim, resta calar-me.
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