sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

S. Valentim

Por vezes sou brindado por certas iluminações. Não se pense que se trata de ficar exposto à acção de um qualquer holofote. Podia ser, mas não. É aquilo a que os anglo-saxónicos chamam insight. Não sei como, mas acontece-me, muitas vezes depois de uma refeição, ter um insight. Há quem sugira que o álcool pode ajudar. Não o creio e devemos evitar dar ouvidos à ironia de vozes que não sabem calar-se. Ao sentar-me passei os olhos pela imprensa, observei o estado do mundo e uma luz acendeu-se em mim. A vida em sociedade é uma enorme manta de irracionalidades. O fundamental é que alguém saiba dirigi-las de maneira a que se anulem entre si. Julgo que seria a este trabalho de maestro e tecelão que se dava o nome arte política. Não é um brilhante insight, mas como se sabe também as lâmpadas têm potências diferentes, iluminando umas mais e outras menos. A minha serve apenas para luz de presença. Respiro fundo, depois faço uma longa expiração, enquanto tapo os ouvidos. O parque infantil foi invadido por bandos de crianças com as suas vozes de estilete. Faltam ainda algumas horas para que chegue o fim-de-semana. A pátria dorme uma sesta desconsolada, enquanto os seus filhos dilectos comemoram o dia de S. Valentim, essa antiquíssima tradição que uniu os corações de Pedro e Inês e pela qual D. Sebastião se perdeu em Alcácer-Quibir. Se não acreditam, não esperem de mim a luz que vos convença da verdade. O que me aborrece mesmo é não poder ir jantar fora sossegado, tão ocupados estão os restaurantes com os Pedros e as Ineses, elas tão puras e castas e eles tão firmes e pétreos.

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