domingo, 8 de fevereiro de 2026

Vida dominical

Por aqui — e o aqui é a velha capital de um antigo império, talvez mais imaginário do que real, embora os historiadores o possam assim classificar e cidadãos, mais ou menos dotados de imaginação, o desejem — por aqui, dizia, a manhã não esteve mal. Fui à rua, onde transeuntes, com ar de espanto, passeavam os seus cães domésticos, e outros se passeavam a si mesmos, abrindo a boca de admiração pela benevolência descida do céu: uns raios de sol. Depois de um tempo visceralmente indisposto, que, com a sua verruma de vento e água, abriu feridas difíceis de cauterizar — pois, nestas circunstâncias, os colírios necessários encontram-se sempre em um outro lugar, ou nem se sabe onde estão, o que traz uma demora que acrescenta dor à dor e desespero ao desânimo —, como se as almas sofressem de um quebranto trazido pelos vendavais dos últimos dias e com o atarantamento que grassou, uma espécie de efeito colateral da guerra desencadeada pelo clima. Ter-me-ei perdido, pois não queria escrever sobre as consequências da indisposição visceral do tempo, mas da sua suspensão. Olho, do sétimo andar onde me encontro, para a rua e vejo um homem que passeia um cão, enquanto transporta um bebé, toucado de branco, num marsupial, como eu o terei feito, em tempos, embora sem a companhia de um cão. Ele vai feliz, imagino, pela sua paternidade e também pelo animal, que é impedido de exercer, demasiadas vezes, o livre-arbítrio, nessas estranhas decisões de cheirar cada canto da rua para, em sítios que só o animal saberá, erguer a perna e deixar a marca da sua passagem, como quem envia um e-mail para uma entidade metafísica, que apenas se torna física na hora em que lê a comunicação. Agora, é uma jovem mulher que passa com o cão, mas ao pescoço traz apenas um lenço e não um marsupial com uma criança. Sinto, por ela, uma leve tristeza, mas depois o sol brilha e penso que, um dia destes, terá uma criança para marsupializar, enquanto arrasta o cão. Na passadeira, um peão aguarda o sinal verde, enquanto vê passar os carros. Atravessa agora, sem criança e sem cão, apenas com um saco de compras. Fico a olhar a rua, tranquilo por ter votado antecipadamente e por o sol cintilar nos vidros dos carros. Hoje é domingo e, aos domingos, falha-me o motivo para escrever e a motivação para o encontrar.

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