Com estas chuvas talvez o estado dos campos tenha melhorado, pensei ao ver a bátega de água ressaltar no vidro da janela. Chegámos a quarta-feira de Cinzas, mas isso já não quer dizer nada. Perdemos o sentido dos dias, arrancámos-lhes as raízes, a história e o encanto, para tudo reduzir a dias de ócio ou de trabalho, azáfama de prazeres e de desprazeres. Que meditação melancólica, disse-me a minha consciência, ainda não refeita da brusca transição entre o Carnaval e a Quaresma. Bem precisavas, continuou ela para disfarçar, de te entregares à penitência e oportunidades não te hão-de faltar, ameaçou. Cada vez suporto menos a minha consciência e sua infinita tendência para moralizar. Ao menos, o estado dos campos é uma coisa objectiva, murmurei. Pena é que não me interesse por aí além. Vivo na cidade e nunca tive uma alma campestre. Se a tivesse talvez escrevesse poemas bucólicos ou, melhor, não escrevesse nada, que é a única coisa que deveria fazer e não faço.
quarta-feira, 6 de março de 2019
terça-feira, 5 de março de 2019
Livros
Está a ficar um caos, assenti. Como os coelhos, os livros têm uma capacidade reprodutora inimaginável e com facilidade geram as agruras dos lugares sobrepovoados, o que produz inevitáveis problemas de habitação. Que analogia tão reles, pensei para mim. Por muito que se invista em novas bairros, acrescento em voz alta, os sem-abrigo não hesitam em empilhar-se por aqui e por ali, sem o pudor que um lugar estável numa estante sempre oferece. Crescem em número e ameaçam a ordem com as suas faces de mendigos à espera de esmola. O dia está cinzento, passam pessoas com guarda-chuvas na mão e não diviso no horizonte foliões espontâneos. Os pátios da escola ao fundo da rua estão vazios, os campos de jogos abandonados e não se ouvem as interjeições com que a adolescência rasga o denso véu da vida. Nada disto tem a ver com livros, mas a maior parte das coisas que me passam pela cabeça não têm a ver com nada. São borbulhas que vêm e logo rebentam. Não me foi dada a vocação das coisas profundas nem a inteligência da continuidade. Vou ver se ponho um pouco de ordem no caos, já que não comprei serpentinas para as jogar janela fora.
segunda-feira, 4 de março de 2019
Medida
A manhã desfila perante os meus olhos. Vai num carro alegórico onde a tristeza é rainha e se cobre com véus de seda e nuvens de cinza batidas pelo sol. As pessoas passam desamparadas pela avenida, caminham com faces de percalina e gestos sem cintilação nem aspirações ao infinito. O que se perdeu nestes tempos, medito em silêncio, foi esse sonho do que não tem fim, sendo a medida de tudo dada pelo metro inexorável da morte. Na secretária, esperam-me os trabalhos e os dias, mas eu resisto e deixo-os a maturar. Uma mulher pára, leva a mão à cabeça e ajeita o cabelo, logo retoma a caminhada para se perder ali onde a minha vista já não alcança. Como um relâmpago, um raio solar fende a parede de nuvens que separa o céu da terra. Ilumina por instantes o prédio da frente, mas logo desaparece engolido pelo esquecimento. Um sinal no telemóvel rouba-me à contemplação. É uma fotografia do meu neto. Ri-se e eu deixo-me levar e rio-me, insensato, com ele, como se ele estivesse aqui, a meu lado, e não a mais de cem quilómetros de distância. Talvez o espaço não exista, penso, e logo torno a rir do pendor que tenho para me iludir e perder a noção de toda a medida.
domingo, 3 de março de 2019
Profecias
Se eu fosse uma pessoa razoável, evitaria comprar certos livros. O mais sensato seria mesmo deixar de os comprar. Não o sou, não resisti e adquiri um livro com o estranho título de O Futuro do Comunismo Soviético. O meu grau de desfasamento da realidade não é tal que eu julgue que ainda existe o comunismo soviético. Caminho alegremente para a segunda infância, mas ainda não troco, por completo, as datas históricas. Por enquanto. O que me interessou foi a profecia. Há dias como os de hoje, em que o sol magro da tarde se combina com a tristeza de um domingo de Carnaval – meu Deus, nunca mais chega a quarta-feira de Cinzas –, que o meu espírito é atravessado por singulares sugestões vindas sabe-se lá de onde e que cedo à tentação dos profetas. O original, publicado na Alemanha é de 1975, e a tradução brasileira que adquiri é de 1977. O espírito arde-me de curiosidade para saber se o profeta profetizou o futuro ou expeliu em forma de letra os seus desejos ou temores, que são outra forma de desejos. Também eu gostava muito de profetizar. Desisti da ideia quando descobri que nem sobre o passado era capaz de vaticinar quanto mais sobre o futuro. Vou apanhar sol enquanto não chega a chuva que a meteorologia prognosticou.
sábado, 2 de março de 2019
A minha tradição
Levantei-me tarde para os meus hábitos. Tornei-me com o tempo um bicho
madrugador. Nisto, não há virtude alguma, apenas a incapacidade de dormir que o
passar dos anos trás. Agora, preparo-me para sair e espero ir ver o Tejo num
certo sítio onde ele corre manso e solitário. Sempre que olho aquelas águas,
que nunca são as mesmas, bem o sei, sinto-me pertencer a uma cadeia de gerações
ou àquilo a que se pode chamar uma tradição. Não daquelas tradições, hoje muito
em voga, que começaram há dez anos, se não mesmo há dois ou três. Não, não se
trata dessas tradições modernas, mas de outra mais antiga, vinda dos fundos do
tempo, a daqueles que se dão à contemplação. Sentam-se e deixam o olhar
repousar sobre as águas. Estas passam e eles olham. E nisto está a toda a sua
verdade, que também é a minha. Ou inutilidade, dirão almas menos caridosas e
mais dadas às bravatas da acção e à fortuna do desassossego.
sexta-feira, 1 de março de 2019
Revelação
Sexta-feira de Carnaval. A tarde entristece sob um manto de
nuvens escuras e rajadas de vento frio vindas da serra. De manhã, quando
atravessei a cidade, havia desfiles carnavalescos de crianças da escola
primária. Lembrei-me dos dias em que a frequentei. Não havia desfiles, nem
alunos foliões. Os professores eram gente sisuda com pouco ar de saberem
sequer que o Carnaval existia. Talvez não existisse. Havia o entrudo e alguns
pobres mascarados espalhavam a tristeza pelas ruas. Eu ficava fascinado com as
serpentinas, as pistolas de água e os estalinhos, talvez com alguma caraça de
papelão, que então se vendia nas papelarias. Mais tarde aprendi a mascarar-me. Foi
uma revelação. De tal maneira que nunca mais deixei de o fazer, faça frio ou
calor, seja Verão ou Inverno. Quem precisa de três dias de Carnaval se o tem
durante o ano inteiro?
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019
Cicatrizes
Uma das árvores perto de casa tem uma longa cicatriz.
Imagino a fenda que lhe deu origem, a seiva a deslizar vagarosa,
quase hesitante, pelo tronco, para se ocultar no interior húmido da terra. Depois,
o trabalho da natureza para cerzir o rasgão e a marca da imperfeição que ali
está, eterna e transitória, perante os meus olhos. Como as árvores, também os
homens, pensei então, têm as suas cicatrizes. Umas nasceram de feridas que
sangraram, outras nem tanto. Pergunto-me se terá cicatrizes a mulher que mora
no prédio da frente e que todos os dias vejo, solitária e inquieta, a correr
para o carro. Pior são as cicatrizes invisíveis, aquelas que costuram o lençol
rasgado da alma. Se tivessem sangrado não passariam agora de um leve risco
incerto na superfície da pele. As pessoas sentam-se na esplanada e cultuam o
sol desmaiado do início da tarde. Talvez não tenham cicatrizes ou tenham
perdido a alma nalguma das rotundas que florescem por aí.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019
O sentido da história
Envelhecer é ler coisas que outrora levámos a sério, como se fossem mercadoria da melhor qualidade, e que hoje apenas nos fazem sorrir. Leio que determinado pensador proclamava ter descoberto um significado no curso da história. Rio-me, acabo de beber o café e vou até à janela. Um casal vai pela avenida fora. Ele à frente e ela atrás, e no hiato que os separa está todo o sentido da sua vida. Ele não pensa, por certo, no enigma da História e ela, quase lhe oiço os pensamentos, rumina as tarefas que a aguardam, e das quais não espera nada a não ser a insignificância. Se eu descobrisse um significado na história, evitava proclamações, calava-me bem calado e talvez pensasse encontrar uma mulher que quisesse andar atrás enquanto eu seguia seguro e silencioso na frente, como um timoneiro cego que finge saber para onde vai.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2019
Castigo
Um motivo que não vem aqui ao caso levou-me a chocar de frente com um pequeno texto de Tomás de Aquino com o título A legitimidade do recurso à astrologia. Não é que o tema me interesse, mas os seres humanos são habitados por uma curiosidade mórbida. O angélico doutor argumenta que recorrer aos astros em matérias puramente físicas não só é legítimo como faz todo o sentido. Poupo aos leitores explicações e exemplos. Seria, porém, uma falta muito grave, argumenta, recorrer aos decretos dos astros para determinar a vontade humana. Isso implicaria que não seríamos livres. E como o texto é de um santo ocorreu-me logo que talvez tenha sido esse o maior castigo que Deus impôs ao homem, quando o expulsou do paraíso por causa daquela histórica, nunca bem contada, do pecado original. A partir de agora és livre, arcas com o bem e o mal que fazes, e zás, toca de fechar o Éden a sete chaves. Se isto não é um castigo, essa obrigação de andar sempre a ponderar para que lado da balança cai o que se pensa, diz ou faz, então não sei o que é um castigo.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019
Estações do ano
Abro um livro já antigo e as folhas começam a cair, seca a cola que as prendia à lombada. Também os livros possuem as suas estações do ano. Este ainda não chegou ao Inverno, mas o seu Outono já vai adiantado. O pensamento tornou-se então sombrio. O que vai acontecer aos meus livros quando o meu Inverno descer por completo sobre mim? E de súbito fui tocado por uma onda de alegria. Ficarão livres de mim e seguirão o seu caminho e eu ficarei livre deles. Há amores que só a morte separa, libertando amante e coisa amada. Na escola ao fundo, um bando de adolescente joga à bola. A Primavera deles ainda lhes esconde o peso do Outono e o sentido do Inverno. Só a bola que entra na baliza conta.
domingo, 24 de fevereiro de 2019
Sol de Fevereiro
É cruel a luz de domingo. A frase ficou a dançar na minha cabeça enquanto atravessava a rua. A proximidade do almoço resguardou as pessoas em casa e não encontrei vivalma. Como sempre em tudo o que escrevo há uma hipérbole, como se eu tivesse feito um contrato com o exagero ou uma promessa de deformar os factos. Na verdade, aqui e ali via-se alguém, mas nem pessoas pareciam. Apenas sombras vergadas ao peso do sol de Fevereiro, ajoujadas por uma luz a transpirar lâminas. No estabelecimento onde entrei, alguém comentava com um conhecido meu o tempo. Isso devolveu-me à realidade. Não há como o tempo para juntar as pessoas e dar-lhe, à falta de melhor, assunto de conversa. Eximi-me à meteorologia, mas fiz um cumprimento rasgado. Ao sair, tornei a sentenciar sobre a crueldade da luz deste domingo. Ninguém me ouviu e eu comecei a pensar que bem poderia chover. O mais indicado seria nevar, mas isso era pedir um milagre a que não tenho direito.
sábado, 23 de fevereiro de 2019
Embirrações
Todos temos as nossas idiossincrasias que há que perdoar com
benevolência. Também eu tenho as minhas e, vistas pelos outros, talvez não
sejam poucas. Uma delas é a de não gostar de algumas palavras, de embirrar com
elas como se embirra com certas pessoas. Quando oiço coisas como “dá aí uma
dica” ou me oferecem seis dicas para ler mais, a dica põe-me de imediato de
sobreaviso e a olhar de esguelha. Sinto vontade de ranger os dentes e começar a
gritar por socorro. Contenho-me, claro, e não faço figuras tristes, penso
embora sem certeza. Trata-se de uma derivação regressiva de dicar, que provém
do latim dicāre (mostrar, proclamar). Quanto aos costados da palavrinha
ridícula, não há nada a apontar, mas irrita-me a sua utilização e, como em
muitas irritações humanas, não sei porquê. Talvez a tenha ouvido pela primeira
vez num dia de muito sol ou após uma noite mal dormida. Assim como não se
explicam os amores, medito ao ouvir, quase hipnotizado, uma peça minimalista de
Glass, também os ódios são inexplicáveis e não há dica que nos indique a sua
proveniência ou sequer a utilidade. O melhor é ouvir uma coisa menos
repetitiva, calar o Glass, ir apanhar ar e comprar tangerinas no Pafarrão para
levar às netas.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019
Imobilidade
Quando caminhava por um dos passeios da Sá Carneiro, não sem
exagerada lentidão, os carros passavam afogueados, levados por um estranho
desejo que nunca consigo decifrar. É possível que essa ânsia seja mais simples
de explicar do que parece. Como as árvores aspiram a permanecer na imobilidade,
também os homens só se sentem como tal num vaivém que sempre me parecerá incompreensível.
Movimento e mobilização, eis a nossa época. Sentenciei presunçoso, enquanto
olhava para algumas árvores, cujos ramos insistem em desmentir a
proximidade da Primavera. Se eu fosse um deus misericordioso, alvitrei para mim
mesmo, daria aos homens um pouco da imobilidade com que as árvores foram
dotadas. Ganhariam raízes, seriam mais profundos, menos estouvados, elevariam
os braços aos céus e o mundo haveria de ser um lugar mais frequentável. Não sou
um deus e a misericórdia é uma virtude difícil, o melhor é apressar o passo e
mobilizar-me, pois o dia, esse cruel tirano, espera ainda muito de mim.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019
Homem novo
O pior de tudo, pensei enquanto vinha para casa, é que sou anacrónico, embora alguns possam suspeitar que sou apenas velho ou um reaccionário inveterado. Vivo num tempo em que se julga que os seres humanos são completamente moldáveis e perfectíveis. E eu não creio numa sílaba sequer dessa interminável ladainha sobre o homem novo que pelo afã de pessoas como eu há-de ser produzido. Cada época tem a sua religião, mas talvez não haja religião mais despótica do que aquela onde Deus não existe, mas um batalhão de engenheiros apostados em fazer do joio trigo ou da ratazana águia real. Escondidos na escuridão vão uns rapazes. Pelo vozear não têm ar de que queiram ser homens novos. Dizem disparates como o velho homem os dizia e nisso está toda a sua humanidade. O que me aborrece, a mim que nunca hei-de ser um homem novo, é que nas passadeiras falta a luz e não se vêem os peões. Se em vez de tentar criar o homem novo houvesse melhor iluminação pública seríamos todos menos infelizes.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019
Garrulice
Nos dias como o de hoje penso que deveria ter entrado para
um convento, numa daquelas ordens rigorosas, onde o silêncio impenetrável governa
despótico. E isso consola-me, ou distrai-me, da tagarelice a que sou obrigado.
Visto a partir da escuridão da noite o mundo é um artefacto estranho. Quanto
menos tenho para dizer mais ele me obriga a falar. Então sou assaltado pelas
imagens que um dia vi num filme sobre monges cartuxos. Logo faço do meu
escritório uma cartuxa privada, mas amanhã lá terei de partilhar com os outros
as minhas palavras, fingindo crer no que digo e que tenho alguma coisa para
dizer. Pura mentira. Tivesse eu entrado no convento, o mundo não teria perdido nada e a ordem estrita do silêncio
impediria que eu contaminasse o lugar com a minha garrulice. O melhor é mesmo
calar-me.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2019
Só a fé
Alguém chegou ao pé de mim e confidenciou: hoje começa a minha saga de reuniões, daquelas que hão-de salvar a pátria e a Terra, se não mesmo o universo. Eu serei cordata como um cordeiro e acharei que tudo está bem e que as mil ideias que por aí fervilham são óptimas. O seu olhar estava cansado, havia um desassossego na voz, as mãos tremeram um pouco. Respondi-lhe que não era mau começar a salvação do mundo num dia de sol. Se chovesse seria mais difícil de resgatar o que quer que seja. Que não desanimasse, pois os caminhos do Senhor são insondáveis. Não há como fazer coisas inúteis, acrescentei sem ironia, para remir os pecados. E quem é que não tem os seus pecados, perguntei. Ela olhou-me incrédula e eu respondi-lhe que só a fé nos salva. Ou um auto-de-fé, acrescentei.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019
Direito à palavra
Ainda não ouvi nenhum dos meus alunos jurar que a terra é
plana. Talvez não se tenham deparado com a moda ou o assunto não os interesse.
Por vezes, noto que um ou outro é mais atreito a teorias da conspiração. Alguém
me informa que foi o governo americano que derrubou, num acto de pura malvadez
e movido por insondáveis interesses, as torres gémeas ou que o homem nunca foi
à Lua, que tudo isso foi filmado na Terra. Talvez em Cacilhas, sugiro eu, mas
ninguém percebe a alusão perversa. Enquanto contemplo o ar crepuscular do dia e
oiço vozes sem perceber o que dizem, devaneio à volta do pluralismo epistémico
que as redes sociais promovem. E em tudo isso sinto profundo agrado. Desde que analfabetos
e idiotas têm, a partir da irrevogável autoridade com que estão investidos, um
lugar para expor a sua profunda visão científica da realidade, sinto que também
a minha ignorância se pode expandir e ser partilhada. O que seria de mim se os broncos
não pudessem falar, pergunto-me, enquanto uma ambulância passa veloz em direcção
ao hospital.
domingo, 17 de fevereiro de 2019
Analgésico
Devo ter dormido mal, pois o dia parece-me taciturno, o
exercício de uma longa hesitação, como aquelas em que caiem os pais perante a pilhéria inadvertida de um
filho. Não sabem se devem rir ou pôr uma máscara carrancuda, das que anunciam o
fim do mundo. Será que ainda há pais profetas ou converteram-se todos à terapia pelo riso? Devo ter coisas para fazer mais urgentes que não fazer nada ou pensar
nas idiotices que me ocorrem, mas hoje é domingo. Passo os olhos pelos jornais
e bocejo. Também o céu boceja ensonado e tem sobre mim a vantagem de não poder
consultar a comunicação social. Uma mulher sentada à mesa de um café ergue,
circunspecta e levemente nauseada, os olhos para as nuvens. Apoia o queixo numa
das mãos. A outra desliza sobre o vestido e deixa ver os dedos sem anéis. O que
pensará ela? Talvez não pense. Uma criança fala para o pai, que a olha
embevecido, enquanto lhe exibe uma bola. De súbito, lembrei-me dos almoços de
domingo na infância, mas afasto com denodo a imagem herética. Deixemos o
passado dormir e não o confundamos com um analgésico sem prazo de validade.
sábado, 16 de fevereiro de 2019
Grandeza maior
O presente é uma caravana parada em nenhures. De que
substância será feito? De água, que desliza lentamente sobre o leito de um rio cheio de ciladas e fundões ameaçadores? De ar, que se enovela e turbilhona,
como se trouxesse na alma um áspero anseio de caos? Os sábados são propícios
aos metafísicos de província, penso eu, encerrado no meu invencível
paroquialismo. Ao menos aquele par de namorados vai avenida fora, mãos dadas,
recebendo o calor que o fogo do sol envia para sua beatitude. E nesse ir
nota-se já o rumor do futuro e a ruína que sobre o amor cairá. Se eu fosse um
metafísico urbano, tudo seria mais grandioso e exacto. Avaliaria as proposições
sob o rigor das leis da lógica, mas aqui na província é tudo mais penumbroso e à
lógica, apesar de bela e tecida com os fios do rigor, ninguém dá dois dedos de
conversa ou um minuto de atenção. E o pior é que se fica sem saber de que é
feito o presente ou sequer o amor que unia o par de namorados de há pouco. Está
um inverno seco, dizem-me. E eu inclino a cabeça e aquiesço sorrindo, sem ter
nada para dizer. Não há grandeza maior do que a nossa nulidade.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019
Grandes causas
O Inverno luta pela vida e ao escrever isto lembro-me de
imediato que se teima, agora, em grafar o nome das estações do ano e o dos
meses com letra minúscula no início da palavra. Já antes, por decisão sacrílega,
os dias da semana tinham sido reduzidos à insignificância lexical. Nesta metamorfose
da letra inicial não há apenas o arbítrio de quem decreta como se há-de
escrever. Há ainda um fundo terror de quem não consegue enfrentar os decretos
do tempo. O melhor é deixar-me destas considerações e voltar para o Inverno,
esse que treme ameaçado pela Primavera, mas que, infeliz como um amante
atraiçoado, resiste, tapando o sol com a cumplicidade de umas nuvens leves e
levianas. Os alunos da escola que fica ao fim da rua foram para casa. Alguns
gritam na praceta aqui ao lado. Se eu fosse mês ou estação do ano faria greve,
até que repusessem a maiúscula inicial e me reposicionassem no meu devido
lugar. As grandes causas só lembram a gente desvalida como eu.
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