Assomo à janela e vejo o alcatrão molhado. Os carros
deslizam com precaução acrescida e o céu entrega-se contrafeito nos braços do
Outono. Na minha secretária está o livro de Michael Sandel, Contra a Perfeição, uma tradução
brasileira trazida por um amigo. Devia ler a obra no original, mas encolho os
ombros e pergunto-me para quê. Tudo é
agora demasiado tarde. O título reconcilia-me com o mundo. A luz do sol intensificou-se
um pouco ao encontrar uma camada menos densa de nuvens para atravessar, mas
logo volta ao tom umbroso, escurecendo com sombras de melancolia o verde das
árvores perfiladas diante dos meus olhos. Oiço o vozear de crianças a
afastarem-se. Estamos numa época em que abundam os salvadores. Uns salvam a
pátria, outros o planeta, haverá até quem se proponha salvar o universo,
imagino. Eu não quero salvar nada nem ninguém. Fecho a janela e rio-me da
previsibilidade de tudo, da minha própria previsibilidade. Das colunas sai a
Paixão segundo S. Lucas, de Penderecki. Talvez Deus exista. Um email convida-me
a responder a um questionário de satisfação. Lembro-me do I can get no satisfation, dos Stones e decido responder para mostrar
o máximo agrado. Talvez ajude uma pessoa que nunca hei-de conhecer a manter o
emprego. Também tu, digo-me, gostarias de ser um salvador. Rio-me mais uma vez e ocorre-me
um versículo de Mateus: Sede vós perfeitos como é o vosso Pai que está no céu.
sexta-feira, 20 de setembro de 2019
quinta-feira, 19 de setembro de 2019
Parcos poderes
Um dos sites
meteorológicos informa-me que o céu está nublado. Abro a janela e confirmo, a
realidade não se enganou e comporta-se tal como a previsão determina. O ar
fresco entra pelo escritório, inunda-o com uma esperança fugidia. Os hibiscos
da escola persistem na sua floração exuberante, indiferentes à volubilidade do
tempo, lançando pequenos raios garridos na cinza da manhã. Com tempo assim
gosto de viajar. Logo me lembro de uma visita em dívida a um amigo que fez no
Alentejo o seu Vale de Lobos. O roncar de um motor e o piar mecânico de uma
máquina em manobras desviam-me a atenção e deixo o meu amigo sossegado no seu
exílio. Devia passar pelo banco, mas é lugar que evito de bom grado. Se pudesse
prendia esta manhã ao calendário, para que ela não deslizasse em direcção à
tarde, mas os meus poderes são parcos.
quarta-feira, 18 de setembro de 2019
Enganos
Enganei-me na hora aprazada para o meu encontro com a
aparência e a realidade. Cheguei à encruzilhada demasiado cedo e tive de
esperar longamente por elas. Ao voltar para casa, a Antena 2 transmitia um
programa sobre Hildegard von Bingen. Morreu há 840 anos, precisamente no dia 17
de Setembro. O locutor lembrou-se de citar um estudo de Oliver Sacks, o autor Do homem que confundiu a mulher com um
chapéu, sobre as visões da freira medieval. Seriam causadas pela enxaqueca.
Ficamos todos mais descansados, ainda bem. Saio do carro, subo meia dúzia de
degraus e abro a caixa do correio. Uma carta mas não para mim; dois panfletos
de partidos políticos, de sinal contrário, repousam um sobre o outro em terno
amplexo amoroso. Comovo-me e esqueço-me de os deitar no caixote do lixo.
Transporto-os com cuidado para casa não vão eles soltar-se e acusar-me de
interferir na sua privacidade. Agora, oiço a música da freira que sofria de
enxaquecas e deixo que o silêncio desça sobre mim. Toda a minha vida foi um
longo casamento com as aparências. Que se me perdoe a poligamia.
Depois de acordar
Quando me levantei uma neblina cobria a manhã com uma promessa de frescura. Da janela, olhei-a com desconfiança e recolhi-me de imediato como quem foge do convívio de alguém que tem o ludíbrio por modo de vida. Depois de acordar, levo tempo a sintonizar-me com a luz do dia. Desloco-me em silêncio e mal olho para o que me envolve. Enraízo-me lentamente no estado de vigília para cumprir a agenda que um deus desavindo comigo me deu por destino. Ainda não me ocorreu o nome dos arbustos que florescem no parque da escola ao lado. Há dias que olho para eles e pergunto-me sempre pelo seu nome. Nos campos de jogos, adolescentes correm e gritam, libertam-se do excesso de adolescência que os devora. De súbito, o nome de hibisco vem-me à memória. Serão hibiscos o que daqui vejo. Despacha-te, digo-me. Numa encruzilhada tenho um encontro marcado com a aparência e a realidade. Não posso chegar tarde.
terça-feira, 17 de setembro de 2019
Exercícios de compensação
Um exercício de compensação. Estou a ouvir o Gurdjieff
Ensemble porque na sexta-feira não posso estar na Gulbenkian para assistir ao
seu concerto. A maior parte das coisas que fazemos são substituições daquelas
que gostaríamos de fazer. Eu sei que vivo rodeado de heróis que só fazem aquilo
que bem entendem, antevejo mesmo as suas estátuas a ornamentar as ruas do
futuro. Como só tenho passado, estive a manhã empenhadíssimo a fazer coisas que
tinha de fazer. É uma provação ficcional. Depois regressei, entrei lentamente
em casa e sentei-me diante da televisão. As imagens passavam e eu passava com
elas, sem saber do que tratavam, raptado pelo vazio que se abria em mim, um
buraco negro pelo qual a vida entra sem que possa dali alguma vez sair. A
música arménia flutua no ar e logo desce sobre mim. Como um Cristo cansado da
morte, abro o túmulo e saio ao encontro de quem não me espera. Irrita-me a
lentidão com que o word abre o thesaurus e desisto de alterar uma
palavra que me está a irritar.
segunda-feira, 16 de setembro de 2019
Um pendor para a repetição
A canícula continua incólume. Mal escrevo isto dou-me conta
da aliteração e hesito. Talvez devesse escrever outra coisa, antes que alguém
me diga para ir aliterar para outro lado. Há pessoas que têm tendência para me
olhar de esguelha e eu compreendo-as. Depois de meses de sossego voltaram, ao
espaço escolar aqui ao lado, os gritos agudos e os ruidosos risos da histeria.
Mais à frente virá a música dos bailes dos anos setenta e as Oscofórias das
eleições académicas. Submeto-me passivo e paciente, como um passageiro que num
grande transatlântico viaja em terceira classe. É essa a minha glória, ir pela
vida fora sentado em cadeiras de pau. Como disse ontem, tenho uma natureza
anafórica e, acrescento hoje, um ser dado à aliteração e à assonância. Já hoje
me repeti diversas vezes, embora com modulações de ritmo diferentes. No outro
dia respondi a um interlocutor, queria puxar-me o pé para literatice, que os
recursos estilísticos são apenas formas de vida, fazem parte de uma ascese
existencial como os exercícios espirituais para aqueles que aspiram à glória
dos altares. Olhou para mim e havia nele desalento e um democrático desprezo, com o
seu olhar a insinuar a minha demência. Na realidade, até eu me canso de mim.
Não compreendo por que razão o autor destas palavras me criou assim.
Desconheço-lhe os motivos, se é que os tem, os desejos e até a biografia. Nunca
tive engenho para narrador omnisciente.
domingo, 15 de setembro de 2019
Uma natureza anafórica
Como o calor não abranda tive de ir a uma superfície
comercial dedicada à bricolage. A
missão era comprar umas redes para colocar nas janelas e, tendo estas escancaradas para
que o ar fresco tempere o desvario, evitar que moscas e melgas mais distraídas entrem
impetuosas casa dentro. Ainda não me converti a um amor universal a todas as
formas de vida. S. Francisco, decididamente, não é o meu santo padroeiro. Nada
me inclina a amar o piolho, a mosca, a varejeira, a vespa, o percevejo, a barata
e, acima de tudo, a melga. Aliás, entre mim e as melgas há uma relação tensa.
Elas desejam-me como nada nem ninguém me há-de alguma vez desejar e sempre que
têm oportunidade até o sangue me bebem. Eu não me faço rogado e mato-as. Só
espero que não seja crime. A verdade é que não suporto o amor que elas me
dedicam. No parque da escola que há aqui ao lado avisto uns arbustos em flor,
um pontilhado rosa a fosforescer por dentro de nuvens de verde. Tento
sintonizar os olhos, mas não consigo perceber do que se trata. O conhecimento
da flora não é coisa que faça parte da minha carteira de conhecimentos. O
domingo, depois do almoço tardio, enlanguesce sob nuvens esparsas, indecisas. Amanhã
será outro dia, penso e de imediato me sinto pacificado com a minha inclinação
para o lugar comum e a iteração. Num mundo em que toda a gente é inovadora e
criativa, a mim coube-me a repetição como destino. Tenho uma natureza anafórica
e isso explica tudo.
sábado, 14 de setembro de 2019
As magnas questões da humanidade
Hoje é sábado e não sei o que hei-de dizer de um dia assim. Se
estivesse de férias iria comprar um jornal em papel e lê-lo numa esplanada. Não
o estando, evito as esplanadas, as conversas que me assaltam e ferem o meu
desconhecimento do mundo. Preciso do dia para meditar sobre os grandes
problemas da humanidade. Mal acordei, assaltou-me um, e não dos mais pequenos.
Quantos anjos podem dançar na cabeça de um alfinete? Já a exacta formulação da
questão é um enigma. Como em tudo na vida, também aqui se formaram dois
partidos, que se enfrentam com brios sectários, erguer de cruzes e figas para se
protegerem do inimigo. Uns dizem que os gloriosos anjos dançam na cabeça de um
alfinete, outros afirmam, enquanto murmuram anátemas, que o fazem na ponta de
uma agulha. Sobre o lugar do baile, declaro-me agnóstico. Envolvo-me colérico na
disputa teológica sobre se um corpo espiritual ocupa ou não espaço, mas logo me
distraio e começo a pensar em anjos bailarinos, imaginando-os a dançar um
Bolero, talvez um Tango, mesmo um Fandango, pois também os haverá no Ribatejo,
daqueles que protegem forcados e toureiros e que, cheios de afición, hão-de gritar olés, enquanto,
na cabeça de um alfinete ou na ponta de uma agulha, dançam um Paso Doble. Não sei de maior amor à
humanidade do que pensar em anjos. Talvez um dia escreva sobre as potestades, os
tronos e as dominações ou sobre a cláusula filioque,
que nada tem a ver com anjos. Esmagam-me as magnas questões da humanidade.
sexta-feira, 13 de setembro de 2019
A estupidez sem fim
Venho de uma sala cheia de gente. O pólen do calor pousava
lentamente nas cabeças e descia pelos corpos ofegantes, cavando finos sulcos
por onde o suor deslizava, pequenos córregos onde buliam restos de poalha.
Havia quem se abanasse, quem suspirasse, enquanto o tempo, como uma rapariga
grávida, inchava sem quietação. Quando Cronos, desinteressado da tortura,
determinou o fim da função, saí. Disfarçado com a farda do silêncio,
escapuli-me, procurando sombras e esconderijos fortuitos. Entrei no carro. Este,
exposto ao sol como um recém-nascido abandonado na roda, ardia. Levou tempo a
arrefecer. Cruzei a cidade como quem atravessa o Saara, sonhando com oásis ou
com aqueles reinos do norte que limitaram drasticamente os devaneios de Hélio. Os
olhos ardiam. Estão secos, disseram-me. Chegado a casa sentei-me a beber água.
Não há água, porém, que me purifique da idiotice com que revesti a vida. Em
cima da secretária dorme pacificado um livro. Não faço ideia da razão por que o
comprei. Um impulso do momento, o mais certo. Tem por título O tempo em que a luz declina. Talvez a
alusão ao declínio tenha desencadeado a compra. Recebo um recado e penso que
vem aí tempestade. O vento baforeja o seu hálito quente, sob um céu macilento,
terroso, arrastado por uma música envinagrada. Olho para a minha vida e começo
a compreender aquelas procissões de flagelantes que assombraram o fim da Idade
Média. Não, não era para atingirem o paraíso que se flagelavam, mas para se
punir da sua infindável estupidez.
quinta-feira, 12 de setembro de 2019
Gatos e malas vintage
Poderia dizer que o meu computador parece um gato. Isso,
porém, não estaria de acordo com a realidade. É mais exacto afirmar: o meu computador
é um gato. Dei-lhe um comando e ele, irritado e altivo, desatou a soprar ameaçador,
com vontade de me trincar. Juro que lhe vi o dorso arqueado, o pêlo a eriçar-se-lhe
e os dentes ostensivamente ameaçadores, numa boca de onde nascia um vendaval.
Está tudo perdido, pensei sem saber o que fazer para acalmar a fera. Estava nesta
indecisão quando ele decidiu calar-se, desarquear os costados e oferecer-se
ronronante à actividade dos meus dedos. Respirei fundo, pois o ânimo dos gatos
não se confunde com a subserviência canina. Salvo da indisposição da máquina,
entro pelo domínio mirabolante da internet. Corro por ela como se fizesse uma
maratona. A certa altura sou assaltado por um anúncio da TAP. Diz que vende
sacos, a que dá o nome de malas vintage.
Lembro-me de em adolescente ter uma que usava para transportar o equipamento de
ginástica. Naquela altura eu não sabia que o saco era uma mala e ainda menos vintage. A verdade é que não devia
sequer saber o que era vintage, pois
sempre fui muito serôdio em tudo na vida. Agora que sei o que é vintage falo de coisas que não
interessam a ninguém e confundo gatos com máquinas. A perfeição não é, por
certo, o meu destino.
quarta-feira, 11 de setembro de 2019
Sinfonia concertante
Toc-toc-toc. Toc-toc-toc. Há nas mãos do calceteiro que compõe a calçada junto ao parque infantil um ritmo musical que lhe orienta a técnica. Um percussionista dedicado. Sabe que a pedra se acomoda apenas com três batidas compassadas e assim vai cobrindo a terra nua, vestindo-a com a brancura do calcário. A batida compõe-se com os outros sons que vêm da rua. Uma criança arrasta um carro que arranha o cimento, as vozes murmuram alto e, mais que tudo isto, o som do silêncio que se desprende da serra. Estes sons chegam-me pelas janelas abertas e perfuram-me o sossego. Diante de mim, empilham-se documentos para ler, dados para analisar, mas nada disto é musical, nada disto tem o poder de compor uma sinfonia concertante como aquela que o acaso dos encontros compõe ali em baixo, com solistas tão inusitados. Uma voz de homem insiste sobre uma qualquer verdade que só ele conhece e as mulheres da esplanada compõem trinados cheios de segundas intenções e pequenas malícias para despertarem a curiosidade entre a assistência. Olho para o céu e penso que o sol terá perdido um pouco do seu vigor. As ilusões nunca deixam de se pagar caro, ocorre-me de imediato.
terça-feira, 10 de setembro de 2019
Estratégias editoriais
Talvez seja mais interessante editar livros do que ter
leitores que os leiam. Ainda Agosto não tinha acabado enviei um email a uma
editora dizendo estar interessado em comprar quatro livros por ela publicados e
que não se encontram nas livrarias. É uma editora pequena mas com um catálogo
interessante e um design gráfico
também merecedor de atenção. Até hoje não recebi qualquer resposta. Talvez
ninguém abra os emails, foi o que pensei. Depois ocorreu-me que alguém o tenha
lido e que, olhando para o nome do possível comprador, achou por bem que eu não
mereceria ter aqueles livros na minha biblioteca pessoal. Resigno-me a esta
sabedoria editorial. Se eu fosse editor também só venderia livros a pessoas que
tivessem um nome merecedor de os comprar. Seguindo o ensinamento groucho
marxiano nem a mim mesmo venderia livros por mim publicados, mesmo que eu
estivesse disposto a pagar o dobro do seu valor de mercado, o que não era o caso.
Há que manter elevado o nível e evitar que certas palavras caiam sob os olhos
profanos de um leitor desconhecido.
segunda-feira, 9 de setembro de 2019
Demasiado tarde
A tarde nublou-se. Presumo que se trate apenas de uma pequena trégua na grande guerra das estações. O Verão tem destes ardis e como um camaleão lança mão do mimetismo, disfarçando-se com vestes de Outono para, sem este dar por isso, entrar-lhe em casa, ocupar-lhe o território e daí lançar os seus raides mortais. Mais do que um crepúsculo dos ídolos, estamos perante um crepúsculo das estações, afirmo com a confiança de quem cultiva dogmas. Se vivesse nos dias de hoje, faltaria a Vivaldi matéria para os seus concertos mais célebres, acrescento. Há dias que não oiço os pássaros meus vizinhos. É possível que, descontentes com a vizinhança, tenham mudado de casa. Como os compreendo. Resta-me agora o arrulhar dos pombos, o matraquear das persianas embaladas pelo vento, algum latido disperso e o infinito cacarejar da humanidade que se junta numa esplanada aqui em baixo ou chama pela filharada no parque infantil. Leio uns documentos a que não posso furtar-me e penso o que sobre eles hei-de escrever. Sensato seria não escrever nada, mais sensato ainda era não saber escrever. O cume da sabedoria teria sido Tamuz ter silenciado Thoth para sempre. Agora, porém, é demasiado tarde. Aliás, é sempre demasiado tarde.
sábado, 7 de setembro de 2019
Coisas de sábado
O sábado goteja gingão pelas paredes de caliça do dia. Cobre-o
não a seda ou a cambraia, mas o veludo com que sufoca aqueles que entraram para
dentro da sua casa. Estou sentado à sua mesa e perscruto-lhe os humores. A
minha secretária está um caos, digo-lhe. Livros empilhados, uma garrafa de água
vazia, duas esferográficas à espera de irem para o lixo, uma pilha para o
comando do carro, cartões que não couberam na carteira oferecida pelas minhas
netas, uma conta por pagar, moedas esquecidas e os cabos para ligar a máquina
fotográfica ao computador. Detesto esta confusão, mas nos últimos dias tenho-a
cultivado como uma espécie de compensação para o que vem aí. Talvez amanhã ou
na segunda, tudo entrará na ordem. Os livros encontrarão o lugar nas estantes,
as moedas recolher-se-ão esbaforidas na carteira e todas as coisas descobrirão
no remanso dos respectivos lares a paz por que anseiam. Tudo isto é desolador,
mas não mais desolador que o resto, mesmo aquelas emoções extremas com que nos
iludimos e julgamos darem sentido ao que não tem sentido. A manhã já acabou e
ainda não pus um pé fora de casa nem espiei a avenida onde, adivinho-o, gente
ocasional desfila na passerelle ensolarada,
com recortes de sombras que descem devagar dos ramos das árvores públicas, com as
quais o município disfarça o deserto em que tudo isto se está a transformar.
sexta-feira, 6 de setembro de 2019
Enlouquecer
As pessoas enlouquecem devagar, penso ao ver um grupo de mulheres sentadas à mesa do canto de um café cujo nome prefiro ocultar. De cabelos eriçados, zambras, o rosto cavado por rugas que nada disfarçará, fazem-se fotografar, em abandono estrepitoso, por fotógrafo de ocasião, um conhecido de há muito. Ele ainda não sabe que elas perderam a réstia de siso que as fazia, noutros tempos, calar tormentos, as dores que o ócio faz nascer em carnes secas e corações desocupados. Os homens enlouquecem de outra maneira, digo para mim mesmo. Começam a caminhar cada vez mais depressa para dentro do silêncio, até emudecerem. Então, com olhos mortiços e meditabundos, lançam olhares de suspeição para um ponto que só eles vêem. Se alguém passa por eles e os cumprimenta, nem dão por isso, tão presos à sua loucura e aos mundos que só ela ilumina. Fotografadas, as mulheres da mesa do canto entregam-se, em alvoroto, a risadas entumecidas pelo desvairo, presas aos vestidos cambados que nos protegem dos seus corpos macerados pelo tempo. A porta abre-se e entra uma mulher ainda bem longe da loucura, traz com ela uma criança de uns dois anos a quem chama Amélia, Amélia. Faz-se silêncio no café para que o nome da criança ressoe dentro da consciência dos clientes. E ele ecoa límpido, fazendo replicar as sílabas no desfiladeiro da boca da mãe. Findo o eco onomástico, o murmúrio do lugar retoma a sua rota entrecortado pelas gargalhadas de quem já nada tem a perder. O telemóvel avisa-me. Uma conhecida marca de GPS tem os novos mapas prontos. Um sinal do destino. Levanto-me e saio. Ao cruzar a porta, oiço Amélia, Amélia, mas isso já pertence a outro lugar, e não àquele que me espera e onde me preparo para enlouquecer. Há pouco ouvi a sirene dos bombeiros. Deve haver fogo por perto.
quinta-feira, 5 de setembro de 2019
A casa do tempo
Para ir de casa ao lugar que me permite enfrentar os decretos da necessidade tenho de atravessar a cidade de lés-a-lés. Serve-me a travessia para exercícios de vigilância. Espreito aqui, lanço uma espiadela ali, faço-o à velocidade modorrenta com que um carro pode andar no espaço urbano. Tento descobrir-lhe o ânimo, compreender-lhe o espírito, tudo isso a partir de um corpo difuso, feito de prédios, rotundas, avenidas, castanheiros, quintais com limoeiros e buganvílias, pessoas que não sem bravura enfrentam o martelar furioso do sol. Não tenho alma de bairrista, penso quando passo perto do castelo. Falta-me o pathos que anima aqueles que amam o lugar sobre todas as coisas. Não pertenço ao espaço, nenhum lugar é o meu lugar. A minha casa é o tempo, sussurro para me distrair. É uma casa alugada a termo certo, embora não o conheça. Há alturas em que me sento perto da janela e olho o horizonte, mas o que vejo é a areia da ampulheta a deslizar pela fina garganta de uma para outra âmbula. Fascina-me essa queda contínua. Talvez por nela se esconder o mistério da minha morte, que será a única coisa que neste lugar assombrado não tem mistério.
quarta-feira, 4 de setembro de 2019
A sombra do coração
Um piar mecânico insinua, na sua intermitência, uma máquina em manobra. Olho pela janela, mas não consigo descobrir onde se encontra. Pára, descansa do cântico uniforme, repetitivo, monótono, para, passados instantes, retomar a cadência invariável com que, ao avisar da sua presença, me entra pelos ouvidos. No parque infantil do espaço público contíguo, um baloiço, ao ir e vir, grasna compassadamente, como uma ave cujos bicos rangessem. Os carros ronronam, são gatos semiadormecidos, apenas acordados pelo silvar das sirenes que, cavalgando ambulâncias, abrem caminho em direcção ao hospital. Esta música vacilante e rude acentua uma sombra que me nasceu dentro do coração e inquinou a vista, dando-me uma paisagem turva, desfocada. Os olhos com que vemos o mundo, ocorreu-me, não estão ligados ao cérebro mas ao coração. Perdem a precisão do contorno mas ganham rigor na compreensão. Um novo ruído chega-me aos ouvidos, parece o de uma serra a abrir caminho, não sem dificuldade, por uma planície de ferro. Imagino o pioneiro a enfrentar a dureza da campina. A coruja mecânica retoma a melopeia, agora mais afastada. Os raios solares, ao embater nos prédios, também eles rangem. São cães a rosnar rentes ao corpo enfraquecido pela sombra do coração.
terça-feira, 3 de setembro de 2019
A vida na província
Há pouco o calor caía em pingos grossos sobre as ruas. Há que pagar a conta de um arranjo doméstico e por isso não tenho outro remédio senão meter-me sob a intempérie bonançosa que cobre o rosto da cidade com a máscara do inferno. Entro na sede da empresa prestadora do serviço, sou recebido por uma temperatura decente e uma rapariga afável e diligente. Pago, dou o número fiscal e o email para receber, por essa via, a factura digital. Admiro o zelo e a ausência da pergunta se pretendo contribuinte. Saio, pego no carro e sou obrigado a passar pelo mercado. Hoje é terça-feira, a zona está cheia de gente e de viaturas que deslizam lentamente. Fico numa passadeira largos minutos, enquanto à minha frente flutuam os peões, com sacos na mão. Vejo pessoas conhecidas que nunca imaginei no mercado. Um dirigente político e um rapaz do meu tempo, bon-vivant e femeeiro contumaz, lá vão eles absortos e domésticos, prestáveis, reluzentes de suor, ajoujados às compras. Contribuem com denodo para a harmonia doméstica. Carros apitam, mas os peões vão na passadeira sem pressa, a pensar se terão esquecido alguma coisa ou onde deixaram o automóvel. Uma mulher jovem pára e acende um cigarro. O fumo evola-se entre os lábios e ela desaparece. Aproveito uma aberta e esgueiro-me. Tenho os vidros abertos e sinto o calor entrar para dentro do carro. A viagem será curta e evito o ar condicionado. Chego à avenida marginal e a exuberância que havia no mercado desapareceu. A garrulice que entretinha as gentes perdeu-se e a monotonia da província cresce para dentro de mim, como um punhal que procura no coração o alvo que o espera. O calor sangra pelas paredes.
segunda-feira, 2 de setembro de 2019
A disciplina do exagero
Há dias em que acordamos rodeados de sombras. A janela com uma discreta abertura deixa passar um fiapo de luz que embate nos objectos para os transformar em fantasmas, aqueles mesmos que saíram dos nossos sonhos. Um acto falhado deixar assim a janela, pensei. Fazemos tudo para evitar as trevas mais negras, temerosos que assaltem o coração. Somos tripulantes de um navio de cabotagem, daqueles que fazem navegação costeira. As sombras são as águas que nos indicam que a luz está já ali. Confortados por essa certeza, voltamo-nos na cama, para que um sobejo de sonolência ainda permita um ou outro devaneio. Depois, levantamo-nos e quando nos confrontamos com o espelho fazemos uma careta, para disfarçar aquilo que o aleivoso teima em mostrar. Submetemo-nos então à água lustral para nos redimirmos da noite e nos purificarmos do lixo que vive no mais fundo de nós. Ao pensar tudo isto, entro pelo dia e lembro-me de um verso: Deixai toda a esperança, vós que entrais! Rio-me da minha propensão para a hipérbole, mas o que seria de todos nós sem a dura disciplina do exagero?
domingo, 1 de setembro de 2019
Setembro chegou
Gostava de saber lidar com o mês de Setembro, mas foi uma das muitas coisas que nunca consegui aprender. É um mês astucioso e esquivo. Quando se aproxima, o corpo macerado pelas penitências de Julho e Agosto deixa-se iludir pelo declinar dos dias e pensa-se liberto do calvário do Verão. Puro engano. Só agora a época estival começa. Não devia pensar assim deste mês, até porque lhe pertenço de corpo e alma, embora seja daquelas pertenças que não resultam da eleição mas do curso natural das coisas. Fui fazer uma visita familiar antes que chegasse a hora do almoço. A cidade suava solidão por poros mal abertos. Sempre que a atravesso sinto uma sensação depressiva. As ruas vazias, o sol violento sobre o casario, o alcatrão a fumegar. Por vezes, sob uma chapada coberta de sombra, um cão estira-se dolente, incapaz de se erguer, símbolo do abandono que corrói os alicerces que sustentam por aqui a vida. Ao almoço, pus uma nódoa na camisa. Consta que é a minha única especialidade. É a prova de que entre mim e a mecânica do mundo há um desacerto inultrapassável. Se fosse capaz inventava uma língua onde pudesse dizer como a realidade me é estranha, mas nem para isso sou capacitado. Acho que vou dormir uma sesta, como se fosse um verdadeiro castelhano.
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