quarta-feira, 24 de julho de 2024

A génese

Por vezes, talvez não poucas, perpassam em mim pensamentos completamente parvos. Ao deparar-me com a data de hoje, 24 de Julho, pensei que coisa tão estranha haver um dia com nome de uma avenida de Lisboa. Este pensamento, porém, é mais aceitável do que pensar que existe um dia com o nome de uma praça, a praça 5 de Outubro, por exemplo. O 5 de Outubro ainda se vai sabendo as razões de haver ruas e praças com o seu nome, mas o 24 de Julho é mais associado a uma certa vida nocturna de há tempos. Contudo, foi a 24 de Julho que as tropas liberais, depois de derrotarem as miguelistas na Cova da Piedade, entraram em Lisboa. Daí haver uma avenida com esse nome na capital, que era absolutista e se tornou liberal. Imagino que não exista uma 24 de Julho no Porto ou em Aveiro. Mesmo em Coimbra ou Setúbal seria uma anormalidade. Contudo, como estamos em Portugal, podemos esperar toda a espécie de anormalidades, pois não nos falta talento para o anormal. Por exemplo, o meu talento para a anormalidade consiste em ter pensamentos parvos, isto é, não apenas insignificantes, mas também pequenos. A explicação deste texto reside nas temperaturas assombrosas que tive de suportar neste 24 de Julho. Os graus são tantos que começaram a infiltrar-se no corpo, passaram para a corrente sanguínea e quando chegara, há pouco, ao cérebro transformaram-se neste texto. Eis a génese da coisa.

terça-feira, 23 de julho de 2024

Tudo tem um tempo

Retenhamos a abertura de Vida à Venda, de Yukio Mishima. Quando Hanio recuperou a consciência, tudo resplandecia à sua volta com um brilho tão intenso que pensou estar no céu. Mas sentia uma forte dor na zona da nuca. E não é possível ter dores de cabeça no céu. É o último período que me atormenta. Mesmo numa obra de ficção, será ultrapassar os limites da experiência possível e fazer afirmações peremptórias sobre lugares onde nunca se esteve. Deixemos de lado a questão de saber se existe ou não um céu. Imaginemos que existe, mas o seu acesso é só possível acabada a vida por aqui. Aceitemos, pois essa é a melhor explicação, que aqueles que chegam ao céu, jamais voltam aqui para contar a realidade do além. Ora, como podemos afirmar que não é possível ter dores de cabeça no céu? Um argumento seria afirmar que no céu não se tem corpo, o que implica não ter cabeça. Depois, conclui-se que não pode doer aquilo que não se tem. Contudo, este argumento esbarra na experiência trivial das pessoas que sofreram amputações de membros, as quais continuam a queixar-se, muito tempo depois, de dores no membro que não têm. Isto abre uma janela para a compreensão da morte. Morrer seria uma amputação global do corpo. Se assim é, então, mesmo no céu, pode-se ter dor de cabeça, de barriga, de peito e até de cotovelo. Esta, todavia, por simbolizar a inveja, pode não ser muito bem vista no paraíso celeste e, talvez, não seja conveniente levá-la para lá. Retornando a Hanio, Mishima diz-nos que ele, ao sentir dor de cabeça, percebeu que falhara a sua tentativa de suicídio. São coisas que acontecem. As pessoas querem apressar a amputação do corpo e, na precipitação, falham. Não perceberam uma questão essencial da vida fora do paraíso. Tudo tem um tempo.

segunda-feira, 22 de julho de 2024

Prazo de validade

Precisava de um medicamento para tomar ao jantar. Fui à farmácia e decidi trazer dois. Cheguei a casa e descobri que nenhum deles era o que estava em falta. Nas manipulações da receita electrónica, no vai e vem do pin de acesso e do pin de opção, na multiplicação de receitas que se acumulam na aplicação, lá troquei um Olmesartan medoxomilo por um Hidroclorotiazida + Amilorida. A coisa podia ser pior, caso tivesse trocado o meu nome por outro qualquer ou me tivesse esquecido do número de contribuinte, baptizado há muito pelo pomposo nome de número de identificação fiscal. O truque é interessante. Passei de contribuinte para alguém com identidade fiscal. Este upgrade na relação com o Estado não foi acompanhado, porém, com um upgrade do meu hardware neuronal e ainda menos pela afinação das competências do software intelectual. Pelo contrário. Isto não é tudo na saga da decadência deste narrador sem narrativa. Desde há dois dias que um mistério vinha a assolar a minha relação com o computador. Do nada, onde quer que escrevesse, começavam a aparecer sequências de pontos finais. Querem ver que fui atacado por um vírus, pensei. Fiz pesquisa, mas não colhi informações sobre um vírus em forma de sequências de pontos finais. Reinicio o computador, mudo de browser, faço isto e aquilo. Por vezes, parece que a coisa pára, mas, quando menos espero, lá voltam as sequências de pontos finais. Tenho de comprar um novo teclado, pensei. Deve haver um problema com a tecla onde se encontra o ponto final. De aparência, porém, parecia de boa saúde. Até que se me fez luz. Tinha colocado uma série de coisas em cima do portátil e como o tenho ligado a um monitor e a um teclado, não me apercebia que essas coisas, em cima daquela espécie de tapete que serve de rato, me estavam a enviar sinais. Que as tirasse dali, guinchavam em forma de pontos. Com o hardware e o software pessoais desactualizados, levei mais de dois dias a compreender uma coisa básica. Isto é muito pior do que trocar o Olmesartan pela Hidroclorotiazida. Um dia destes tenho de verificar o prazo de validade, o meu, claro.

domingo, 21 de julho de 2024

Grande literatura

Samuel Johnson, o Dr. Johnson que terá dito, mas não escrito, o patriotismo é o último refúgio dos canalhas, escreveu inúmeros ensaios, merecedores de leitura, daquela leitura que se faz por prazer e não por dever. O ensaio não é, por norma considerado, como uma das manifestações mais elevadas da literatura, se comparado com a poesia, o teatro ou, a partir dos tempos modernos, o romance. Isso, porém, é um erro. Samuel Johnson, no ensaio Melindre e Rabugice escreve Quando a velhice ou a solidão amargam o espírito das mulheres, a sua malevolência normalmente é exercida numa supervisão rigorosa e odiosa de insignificâncias domésticas. Depois de exemplificar com a conduta de Eriphile ao longo de vinte anos, prossegue escrevendo Ela vive unicamente para manter em ordem a casa e o jardim, não sente nenhuma inclinação para o prazer, nem nenhuma aspiração à virtude, enquanto está absorvida na grande tarefa de conservar a gravilha sem erva e o rodapé sem pó. Perante o grande drama de encontrar o que ler durante as férias deste infausto, caso o seja, ano de 2024, há uma solução. Ler os Ensaios sobre a Virtude & a Felicidade, de Samuel Johnson, publicados pela E-Primatur em Junho deste ano, seleccionados e traduzidos por Pedro Galvão, professor na Faculdade Letras de Lisboa, no departamento de Filosofia. O primeiro ensaio tem por título Esperança Vã. Começa com uma observação pertinente: Túlio observou há muito que nenhum homem, por mais enfraquecido que esteja pelo tempo que já viveu, está ciente da sua própria decrepitude a ponto de supor que poderá não conservar o seu lugar no mundo por mais um ano. E o ensaio discorre sobre o tema por pouco mais de cinco páginas, dando lugar a um novo ensaio, também de curta dimensão e de grande talento. Não se trata de Filosofia, mas de grande literatura.

sábado, 20 de julho de 2024

Golias e David

Esta a ser um massacre. Não, não se trata de um acto terrorista, mas de um jogo de Râguebi entre um David e um Golias, só que o David não tem funda e o Golias, depois de um acidente de percurso, está a tirar partido da sua força. O Golias é a África do Sul, actual campeã do mundo, e o David é Portugal, que, ao intervalo, está a perder por mais de vinte pontos. Nem vou escrever no fim do jogo, é melhor não ter o panorama todo sob os olhos, pois o resultado pode ser traumático. Diante de mim, tenho um livro publicado em 1970, pela Sociedade de Expansão Cultural. Encontrei-o por acaso e faz parte daquilo a que se dá o nome de literatura colonial. É um livro de contos e novelas de Fernando Reis, com o título Histórias da Roça e transporta para a ficção a experiência do autor em S. Tomé e Príncipe. Tem uma capa excelente do pintor Neves e Sousa. A Sociedade de Expansão Cultural foi uma editora criada pelo escritor Domingos Monteiro. Esteve activa nas décadas de cinquenta, sessenta e setenta do século passado e teve um papel importante na divulgação de inúmeros escritores. O tempo foi implacável tanto com a editora como com os seus autores, alguns deles ainda a merecerem a ser lidos. Tão implacável quanto o Golias do Râguebi com o pequeno David, o que esqueceu a funda.

segunda-feira, 15 de julho de 2024

LHS 1140b, a esperança

Estou extasiado e radiante. Foi descoberto um exo-planeta, apenas a 48 anos-luz da Terra, que poderá ter não apenas atmosfera como água líquida. Eis um motivo para o meu êxtase e para a minha radicação. Cansado da má gestão do nosso planeta, tenho agora a oportunidade de ir para outro, ali ao virar da esquina. O que são, se não me enganei nas contas, 454 118 400 000 000 km? Nada. Enquanto uns imigram para a Suíça, para França ou, os mais temerários, para os EUA, eu, montado no meu Rocinante, imigro para o LHS 1140b. Ainda hei-de lá chegar bem a tempo de procurar ocupação e reinventar-me numa nova condição. O meu problema é que não sei o que hei-de levar para a viagem. Haverá, no caminho, restaurantes de beira de estrada? Encontrarei shoppings para comprar roupas, caso rasgue umas calças ou uma camisa? E farmácias haverá? Peço umas receitas aos diversos médicos que frequento, a contragosto, diga-se, e vou-me abastecendo ao longo do trajecto. Levo a família ou vou sozinho, como um batedor? São estes pequenos problemas que ainda me prendem a esta Terra, mas, tenho essa expectativa, acabarei por os resolver, pois um herói resolve não apenas os problemas dos outros, os mais fáceis, mas também os seus, os mais intrincados. Dizer Adeus, ó Terra que o LHS 1140b espera-me é a esperança que me move. O pior é o Flexiban. Dá-me uma soneira diabólica. Posso estar a dormir na estação de saída e ir parar ao centro da Via Láctea e ser deglutido por algum buraco negro.

domingo, 14 de julho de 2024

A tomada da Bastilha

Há pouco pensei que a imperfeição do calendário espoliou os franceses de um dia feriado. Aliás, como é possível comemorar a tomada da Bastilha num dia de descanso. As tomadas das Bastilhas não podem ocorrer nem aos domingos, nem aos feriados, tão pouco aos dias santos, mesmo aos sábados se tornou impossível. Em França, no ano de 1789, ocorreu a uma terça-feira, um dia bom para tomar a Bastilha. Com isto quero demonstrar a imperfeição dos calendários que, apesar da sua regularidade global, sofrem de uma irregularidade acintosa no particular. Qualquer um de nós deveria fazer anos no mesmo dia do mês e da semana. Quem, como eu, nasceu a um sábado, não percebe como pode fazer anos a uma terça-feira. Nesses anos temo que, por um qualquer acaso, se confunda o meu aniversário com o da tomada da Bastilha, apesar de ambos os aniversários estarem afastados no calendário. Há pouco, estive a contemplar as águas do oceano. Estavam cor de chumbo, ao contrário de ontem, que pareciam verdes. Outra irregularidade da natureza. É uma coisa num dia, outra no outro. Uma falta de carácter, uma inclinação para a volubilidade. Tanto os calendários humanos como as disposições da natureza são marcados pela leviandade, o que deixa aturdidas pessoas graves como este narrador, que cultiva a constância e abomina a irregularidade. Pelo menos em certos dias. Há outros, porém, em que o amor pela excepção ultrapassa em muito o da regra. Talvez, por isso, seja um narrador volúvel, mesmo quando enaltece a constância e abrenuncia a desarmonia de tudo o que está fora da regra. Seja como for, nada tenho a ver com a tomada da Bastilha, coisa que ocorre um pouco por todo o mundo, mas na qual os franceses são virtuosos. Sempre que sentem uma indisposição, tomam uma Bastilha. Já os portugueses preferem tomar uma pastilha. Sou exímio em fazer trocadilhos sem tino. Ainda bem que França foi eliminada do Europeu de futebol. Imagine-se que chegava à final e a Inglaterra lhes ganhava. Os franceses teriam de ceder a tomada da Bastilha aos ingleses, o que, como se calcula, os poria indispostos e obrigá-los-ia à tomada da pastilha.

sábado, 13 de julho de 2024

Indirectamente

Pego no livro com cuidado, com uma unha começo a separar, da contracapa, a etiqueta com o preço, a livraria que o vendeu e a data em que a etiqueta foi produzida. Depois, colo essa mesma etiqueta no verso da capa. É um sinal para o futuro. Leio alguns poemas e fico a meditar num. A alga queria ser flor, / a flor queria ser árvore, / a árvore queria ser pássaro. // O homem queria ser asa. Onde está o núcleo onde se gera a poeticidade deste poema, Lição de Botânica, de Ricardo Gil Soeiro? Encontra-se na suspensão da continuidade dos três primeiros versos. Em vez de nos dizer o que o pássaro queria ser, o poeta omitiu a vontade do pássaro, suspendeu o discurso e, ao retomá-lo, o pássaro é apenas referido metonimicamente, asa, como sendo o aquilo que o homem desejava ser. A árvore, explicitamente, pode querer ser pássaro, mas o desejo do homem só se pode enunciar indirectamente, como se todo o desejo trouxesse consigo uma culpa que não permite dizê-lo, mas apenas sugeri-lo. Não pagou caro, Ícaro, o seu desejo de ser pássaro? Há coisas que nunca se esquecem.

sexta-feira, 12 de julho de 2024

Da verdade

Alguém, no afã de persuadir o leitor para o seu campo de ideias, escreve A verdade relativa deve ser dita com prudência e circunspecção, porque ela é incerta pelo facto de não ser absoluta. Ora, há aqui um equívoco na utilização das palavras, uma oposição, como se os termos fossem antónimos, entre absoluto e relativo. Ora, toda a verdade é relativa a alguma coisa. Imaginemos que a seguinte proposição: Este narrador é um idiota.  Sem esforço, imaginemos ainda que a proposição é absolutamente verdadeira, pois descreve com completa exactidão a realidade do narrador. Esta verdade absoluta é relativa. Relativa ao narrador. A proposição só e verdadeira na sua relação com um certo referente. Podemos então afirmar que tudo aquilo que é absoluto é ao mesmo tempo relativo. É uma condição da linguagem na sua função declarativa. O seu dizer é sempre dizer de qualquer coisa, é um dizer que está relacionado com o seu objecto, digamos assim. Contudo, o que é mais interessante na frase é a recomendação de prudência e circunspecção. Eu estou de acordo, mas não pelos mesmos motivos. Não é porque aquilo que possa dizer seja incerto, mas porque a prudência e a circunspecção tornam o mundo melhor. É uma questão prática. Quanto menos se falar, escrever, etc., melhor é o mundo, menos poluído fica com os devaneios que ocorrem a falantes e a escreventes ou, numa linguagem mais religiosa, a escribas e fariseus. Por exemplo, este narrador, que não passa de um escriba farisaico, o que faria de melhor para cuidar do mundo seria omitir aquilo que lhe passa pela cabeça e desce pelos dedos para o teclado. Eis uma verdade absoluta na sua relação ao escriba.

quinta-feira, 11 de julho de 2024

Demónios

Consta que uma das teorias físicas mais desconcertantes é a mecânica quântica. Numa daquelas leituras inúteis a que, por vezes, me dedico sem que consiga perceber a razão, descobri que o princípio de incerteza de Heisenberg corrobora uma das intuições que guiam o senso comum. O passado está perfeitamente definido, enquanto o futuro é imprevisível. As relações de incerteza dizem-nos que não podemos saber ao mesmo tempo a posição de uma partícula subatómica e a quantidade do movimento, o que terá por consequência não podermos determinar a sua situação no futuro. Contudo, parece ser possível a partir de medidas relativas de um electrão, por exemplo, determinar a sua quantidade de movimento e a sua posição no passado. Isto contraria a pretensão do Marquês de Laplace, matemático e físico que viveu nos séculos XVIII e XIX. Este tinha uma visão determinista do universo e considerava o presente como a consequência do passado e como causa do futuro. Laplace imaginou que se um intelecto, suficientemente poderoso, tivesse conhecimento, a dada altura, de todas as forças que movem a natureza, teria a capacidade de incluir o movimento de todos os elementos que compõem a realidade numa única fórmula e, para ele, nada seria incerto, nem o passado, nem o futuro. Talvez não tenha sido um acaso ter sido dado a esta experiência mental o nome de Demónio de Laplace. Que coisa mais demoníaca poderia haver do que conhecer o futuro? Ora, Werner Heisenberg e Niels Bohr com a sua física insensata, digamos assim, vieram devolver a esperança aos homens. O futuro é imprevisível. Isto coloca um grave problema teológico. Se o futuro é imprevisível, então Deus não pode ser omnisciente, não tem conhecimento do futuro. Problema de fácil solução, e essa não necessita de passar pela negação da existência de Deus. Basta considerar que Deus vive na eternidade, num eterno presente. Logo, para ele, tudo existe como se estivesse no passado. Sendo assim, ele pode saber a quantidade de movimento e a posição de qualquer partícula do universo. É evidente que isto levanta novos problemas. Se Deus pode saber tudo, então tudo está determinado e com isso volta o demónio de Laplace. Não, propriamente. O demónio de Laplace, tal como os homens, move-se no tempo, enquanto Deus está fora dele. Claro, há razões para que o texto de hoje tenha saído este. Uma noite mal dormida. Posso imaginar mesmo um episódio febril, embora seja falso. Se estivesse na posse mínima das minhas faculdades não teria escrito o que escrevi, mas a vida é o que é. Com ou sem demónio de Laplace.

quarta-feira, 10 de julho de 2024

Da benevolência da química

Bendita química, ó aliviadora dos atormentados. Foi isto que pensei quando comecei a sentir os efeitos benévolos do analgésico receitado para enfrentar as dores não tanto da extracção do tal molar, mas da preparação para o implante. Isto imagino eu. O caso é simples. Quando a anestesia, outra conquista da química, começou a perder efeito, o corpo decidiu ajustar contas comigo e começar a vitimizar-se da ablação sofrida. Comprimido tomado, a vingança a afirmar-se, mas a partir de certo momento a situação inverteu-se. A dor, e com ela a vingança, começou a retroceder. Eu sei que ela vai voltar, mas espero estar equipado para a derrotar. Só espero que não sejam esperanças vãs. Não é aconselhado sair de casa, nem fazer exercício. Também me foi proibido o álcool por uma semana, logo agora que tinha comprado uns brancos bem interessantes. Em vez de um belo branco fresco, o aconselhado é fazer gelo de quinze em quinze minutos. Como achei que isso implicaria demasiado movimento, troquei para um prazo de vinte em vinte minutos. Mesmo para um cavaleiro andante, não há maior aventura do que lidar com o corpo, esse amigo que, de um momento para o outro, se enfurece e se torna inimigo. Vou passar a tarde a ler uma peça de teatro do norueguês Knut Hamsun, Aux Portes du Rayume (não existe em português), que faz parte de uma trilogia que inclui ainda Le Jeu de la Vie e Crépucule. Isto, enquanto ponho e tiro o gelo da cara. Também hei-de comer um gelado.

terça-feira, 9 de julho de 2024

Meditação extraterrestre

Um site anunciava que revelações surpreendentes acerca dos extraterrestres poderão ser feitas até final do ano, melhor, até 18 de Outubro. Portanto, o que é anunciado não são as tais revelações, mas a possibilidade de estas ocorrerem. Se as revelações não ocorrerem a notícia não está factualmente errada. Posso noticiar que Espanha poderá vencer França no jogo de logo à noite. Se França ganhar, a minha anunciação não estará errada. Os órgãos e sites de informação não deveriam fazer profecias, ainda por cima na modalidade do possível. Jornalistas não são profetas nem videntes, mas pessoas que informam sobre factos. O que são factos? São coisas que estão feitas. A palavra facto deriva da latina factu- particípio passado do verbo facĕre, que significa fazer. Os jornalistas apenas deveriam informar sobre o que está feito. Ora, aquilo que está feito – e, por isso, é um facto – consumado está e perdeu o seu poder de mover os ânimos. Então os jornalistas dedicam-se à especulação, desenhando mundos possíveis. Neste caso, um mundo possível é aquele em que não exista qualquer informação relevante sobre a existência de extraterrestres; outro mundo possível é o da existência de informação factual sobre a existência desses tais ET. Pergunto-me em qual desses mundos gostaria de viver. Depois, concluí que seja qual for o mundo em que tenha de habitar, a informação sobre a existência ou não de extraterrestres não me serve para nada e não faço ideia o que me moveu para escrever esta prosa.

segunda-feira, 8 de julho de 2024

O corpo

O corpo que também somos é uma coisa extraordinária até ao momento em que damos pela sua existência. Damos por ele não quando o vemos ao espelho, pois aí damos apenas pela existência de um reflexo, mas quando alguma coisa desse corpo se torna incómoda. Foi o que me aconteceu hoje com um dente. Depois de uma viagem à capital de distrito, comecei a notar que tinha um molar no lado esquerdo do maxilar inferior. A descoberta não foi motivo de júbilo. Então, perante o meu desagrado, ele começou a ameaçar com uma dor. Pouco depois do almoço, estava sentado na cadeira da dentista para avaliar a situação. A sentença foi a que eu esperava. Este molar já me tinha chamada várias vezes a atenção. Foi de tratamento em tratamento até que hoje recebeu o veredicto: ablação. Antibiótico mais ibuprofeno e quarta-feira será o dia da execução e o início dos trabalhos da substituição. Isto demonstra a minha tese acerca da natureza extraordinária do corpo. Quanto menos se dá por ele, mais extraordinário é. A grande vantagem dos anjos sobre os homens é não terem corpo, para além de não terem sexo. Nunca correm o risco de se deparar com ele num voo malsucedido. Alguém já ouviu falar de um anjo que fosse ao dentista? Ninguém.

domingo, 7 de julho de 2024

A jactância da diferença

Há domingos que se perdem e deles não fica rasto no grande armazém da memória, como, no início do primeiro poema de A Ilha – Mar do Norte, Rainer Maria Rilke nos lembra: A próxima maré-cheia apaga o caminho no baixio, / e tudo se torna em todos os lados igual. Essa estranha disputa que anima os corações humanos, a que opõe a diferença à igualdade, tem sempre a mesma solução. A igualdade acabará por vencer, por grandes que sejam os esforços para a diferenciação, pois o baixio é o lugar dos homens e basta que a maré-cheia venha, e ela nunca deixará de vir, para que tudo retorne a uma mesmidade, onde não há lugar para se inscrever a jactância da diferença. Por isso, eu deveria ser mais comedido na lamentação de um domingo que morre na indiferença. Esse é o destino de tudo e de todos, a começar por mim. Acho que vou sair, caso encontre um restaurante aberto para ir jantar. A indiferenciação dominical cansou-me.

sábado, 6 de julho de 2024

Meter-se na vida dos outros

O que sabemos nós daquilo que move os outros? Foi esta questão que me ocorreu ao ler o que um crítico da revista Illustração, no ano de 1884, escreveu acerca do escritor portuense Alberto Pimentel: O sr. Alberto Pimentel quer ser tudo (…) d'aqui resulta, que querendo ser tudo — o sr. Pimentel não é por emquanto cousa alguma nas lusitanas lettras! E acrescenta na sua verrina crítica: por querer ser tudo, por querer escrever sobre tudo. Quanto melhor não fora que o sr. Alberto Pimentel pensasse apenas em ser poeta, ou em ser jornalista, ou em ser regenerador. Havia de valer alguma cousa, pois que nós não duvidamos um momento do apregoado talento do sr. Pimentel. Mas com a mania de querer ser tudo, de querer fallar e escrever sobre tudo, ha-de cada dia ver mais distante da sua porta a Posterioridade. O crítico da Illustração acertou. Hoje, poucos sabem quem foi Alberto Pimentel e ainda menos são os que o lêem, caso haja alguém. Contudo, quem confiou ao crítico os segredos da alma do escritor? Quem lhe disse que aquilo que o motivava era ser alguma coisa nas letras lusitanas ou acamaradar com a Posteridade? É verdade que Alberto Pimentel escreveu sobre muitas coisas e abraçou inúmeros géneros literários, mas isso pode ser apenas a prova de que o prazer do escritor era o de escrever, o de sentir a pena a ranger sobre o papel, de ver os textos crescerem e tomar forma para que outros os lessem, e havia muitos que no tempo os liam. Este tipo de crítica literária estava todo ele assente numa conhecida falácia, o argumentum ad hominem, o ataque pessoal. Seria pertinente pegar num romance e mostrar as suas inconsistências, mas discorrer publicamente sobre o tipo de vida que alguém decide levar, sem com ele molestar os direitos de terceiros, é uma patologia fundada na crença implausível de que se sabe aquilo que os outros querem da vida.

sexta-feira, 5 de julho de 2024

Jogo de futebol

Depois de uma visita, passei por um supermercado. Os portugueses preparavam-se para o jogo de logo à noite. Também eu me fui preparar. Jantar a ver futebol, os nossos contra os de França, isto é, contra os dos outros. Gostaria que os nossos ganhassem, mas se perderem o ânimo, o meu, claro, não sofrerá alterações. É apenas um jogo entre rapazes e é preciso perceber que, no fundo, não é mais do que isso, apesar das aparências. O pathos que se apropriou do jogo tornou-o popular, pois não há coisa de que o povo mais goste do que emoções. Como tem um stock limitado em casa aproveita aquelas que o mercado lhe oferece. Repare-se como a comunicação social trata os jogos. Um Portugal – França parece uma batalha do exército lusitano contra as hordas napoleónicas. Como em todas as batalhas aquilo que está em jogo é a vida e a morte. Esta hiperbolização oculta a realidade prosaica das coisas. Uns rapazes (também podiam ser raparigas, claro, mas haveria muito menos emoção) de nacionalidade portuguesa jogam com outros rapazes de nacionalidade francesa. A ideia central é colocar a bola dentro da baliza adversária e evitar que os outros repitam a proeza ou que se avantajem na pontaria. Nada disto justifica tamanha paixão, embora pudesse provocar prazer estético ou até racional. O jogo, como todos os jogos, não é destituído de dimensões estéticas e racionais, as quais, por vezes, podem estar intimamente ligadas. Contudo, para as apreciar é necessário fazer uma epochê, isto é, pôr as emoções entre parêntesis e contemplar o jogo como um espectador desinteressado. É evidente que se essa fosse a condição necessária para haver futebol, que os espectadores o contemplassem de modo desinteressado e imparcial, ele nunca se teria tornado na indústria que é. Uma indústria da identidade fundada em emoções. Na verdade, uma indústria poluente. Seja como for, irei ver o jogo. Serei um espectador interessado, mas benevolente. Quero dizer, disposto a aceitar, se for o caso, que os deles são melhores que os nossos, embora gostasse que os nossos fossem melhores que os deles.

quinta-feira, 4 de julho de 2024

Uma recepção calorosa

Uns dias fora e chego à cidade onde me acolho e sou recebido com 38 graus. Eram cinco da tarde. Tive de sair do carro para ir à farmácia e senti a pele a estalar. Não estalou, mas a sensação foi essa. Parece que no fim-de-semana a temperatura desce para níveis aceitáveis, mas é apenas para ganhar balanço para novas aventuras na antecâmara do inferno. Demorei a ser atendido, mas quase agradeci, pois o ar-condicionado devolvia-me a um mundo normal. Este sítio antecipou as alterações climáticas. Já era um clima alterado e ainda não havia alterações climáticas com origem nos devaneios humanos. Alguém se lembrou de introduzir uma serra, não muito alta, entre o ar marítimo e aquele que se respira por aqui. O resultado é, na verdade, caloroso, demasiado caloroso. Já pensei em sugerir aos autarcas dos concelhos que sofrem os desmandos da serra para proporem a abertura de grandes túneis por onde o ar marítimo entraria para espalhar por estas terras uns dias não direi frescos, mas menos quentes. Depois, equacionei as consequências na indústria e comércio de aparelhos de ar-condicionado e contive-me. Não quis que a minha magnífica ideia fosse culpada de falências e desempregos. Sou um narrador com consciência social, coisa que não é partilhada por muitos dos meus confrades. Gostaria de ir caminhar, mas a temperatura sentida é de 37 graus, embora a real seja de 33. Esta diferença entre a temperatura que faz e aquela que é sentida permitir-me-ia uma bela dissertação sobre o problema do conhecimento, mas estou pouco inclinado para a epistemologia. Prefiro ficar a fazer nada, pois, como se sabe, o nada é uma coisa que dá muito gozo fazer. É um trabalho ontológico.

domingo, 30 de junho de 2024

Teratologia

Ontem, decidi comprar uma trilogia romanesca que terá mais de 1800 páginas. Na verdade, é uma biografia romanceada de um dos governantes mais detestáveis do século XX europeu, embora fosse, em grau de detestabilidade, superado por outros. O século XX europeu, mas não só, foi bastante rico em personagens políticas detestáveis. A segunda metade do século deu a ilusão de que esse tipo de figuras não voltaria ao palco, mas as ilusões acabam por se dissolver e o que há de monstruoso no fundo da alma de cada um de nós acaba por abrir caminho para o retorno dos monstros. Estes chegam, por norma, não parecendo monstros, mas o seu desígnio é a monstruosidade. Estas considerações não são de natureza política, assunto que me está vedado, mas de psicologia. Melhor, de teratologia. O mais sensato seria meditar num ensaio sobre a monstruosidade, não haveria de faltar assunto.

sábado, 29 de junho de 2024

Dilemas

Encontro num prefácio ao romance Somos Todos Assassinos, de Jean Meckert, uma referência à oposição entre o cinema como entretenimento e o cinema como reflexão social e política. A referência ao cinema deve-se a que a obra foi produzida, a pedido de Gaston Gallimard, a partir do guião do filme com o mesmo nome de André Cayatte. Este dilema entre entretenimento e reflexão social e política colocado pelo cinema poderia ser transposto para todas as outras áreas artísticas, desde o romance à música, da pintura à dança. O dilema é falso, mas não apenas porque existam outras possibilidades para a arte, mas porque entretenimento e arte são duas categorias culturais irremediavelmente distintas. Também a relação entre arte e expressão de problemas sociais e políticos será acidental. Retrocedamos a Hegel. Como via ele a arte? Era a manifestação sensível – isto é, através dos sentidos – do Absoluto. Esta definição que hoje em dia será olhada com vincado desprezo talvez seja mais proveitosa do que se está disposto a admitir. Não que a arte seja, na verdade, a manifestação sensível do Absoluto, mas a manifestação da uma perplexidade existencial do homem perante o Absoluto ou perante essa ideia de um Absoluto. Esse encontro entre uma consciência relativa e finita e aquilo que dela difere totalmente, que lhe é incomensurável, é o começo da arte, desse gesto que confere à matéria a perplexidade de um encontro inexplicável.

sexta-feira, 28 de junho de 2024

Alheiras

Enquanto a minha pobre neta se submetia a uma operação ao septo nasal, o avô decidiu almoçar. Coisa rápida, assegurar a função e desalvorar dali o mais depressa possível. Não para a ir ver, pois estaria no recobro, mas porque tinha que fazer. Para despachar, nada melhor do que uma alheira de Mirandela, com ovo e batatas fritas, tudo acompanhado por uma salada de tomate, alface, a que, sabe-se lá porquê, juntam cenoura ralada e cebola. O resultado não é famoso. Duas nódoas na camisa e a constatação triste de que a idade do aparelho digestivo já não se adapta a estas coisas. Os fritos estão a caminho da proibição. Lá consegui fazer aquilo a que me propusera, mas ainda não percebi a razão que me levou a comer o que comi. Uma lição para o futuro, pois a avó da minha neta também terá de ser operada ao septo nasal, uma família de septos tortos. Nesse dia, não me apanharão à volta de alheiras, sejam de Mirandela, sejam de outro lado qualquer, pois não há lugar, desde Trás-os-Montes até ao Algarve e ilhas adjacentes, que não produza alheiras de Mirandela.