As sextas-feiras sucedem-se a uma velocidade vertiginosa. Mal acaba uma, já estamos a entrar noutra, como se o resto da semana não fosse mais do que um interlúdio entre elas. Esta modalidade de abolir o tempo entre dois pontos é uma luta contra Cronos, o devorador dos filhos. Dito de outra forma, é parte da revolta contra os titãs, um episódio da titanomaquia. Os mitos gregos assinalam a derrota de Cronos, mas há um equívoco, pois continuamos a guerra contra ele e, até hoje, ainda não saímos vitoriosos. Para tudo haverá um Kairos, um tempo oportuno. Também para liquidar Cronos e matar, de vez, o tempo, haverá um Kairos: uma hora decisiva em que o nosso inimigo não resistirá. Só que essa hora é desconhecida e não vale a pena planeá-la ou pensar nela, pois não se deixará apanhar nas redes dos nossos planos nem nos ardis do nosso pensamento. Apresentar-se-á furtiva como uma sombra e rápida como um raio. Se houver alguém que a perceba, será o novo Teseu ou, para ser mais preciso, o verdadeiro Teseu, pois o Minotauro não é outro senão Cronos, esse tempo que nos devora. Esperemos que encontre a sua Ariadne.
sexta-feira, 22 de novembro de 2024
quinta-feira, 21 de novembro de 2024
Metanatureza
Os dias continuam a empequenecer, o que implica o engrandecer das noites. Sim, podia ter dito diminuir e crescer, mas perderia o efeito de compreender que os dias estão cada vez mais pequenos e as noites cada vez maiores. Algo ou alguém pode diminuir e, mesmo assim, ficar grande. Também é claro que certas pessoas, por muito que cresçam, não deixarão de ser pequenas. Não me estou a referir à altura. Pergunto-me pela razão que levou a natureza a dispor assim os dias e as noites. Não procuro uma explicação física, mas uma elucidação metafísica. Talvez a natureza temesse que uma distribuição igualitária das horas pelo dia e pela noite, durante todo o ano, acabasse por encher de tédio os seres humanos. Preocupada com isso, decidiu que a distribuição das horas do dia pela luz e pelas trevas seria feita de forma progressiva, que é, ao mesmo tempo, uma forma regressiva. Repare-se: o tormento metafísico da natureza não foi a igualdade – pois a distribuição acabará por ser igualitária – mas o tédio que uma igualdade distributiva contínua e à outrance provocaria. Podem dizer que a natureza é despida de metafísica, que não há mais metafísica do que comer chocolates. A favor poderão, inclusive, chamar a atenção para a palavra física que é a tradução de um termo grego – Φύσις – que significa natureza. Ora, se uma natureza não contiver em si mesmo aquilo que vai para além dela, uma metanatureza, então é uma natureza deficiente, amputada daquilo que a leva a ir para além de si mesma. Dessa metanatureza faz parte ter intenções, preocupar-se com o tédio das espécies que gerou na humidade do seu ventre. Toda a mãe é mais que uma mãe. Por que motivo a natureza seria uma mãe que não era mais que uma mãe? Chega por hoje. Já iluminei, com revérbero cintilante, de modo mais que suficiente a humanidade. Não posso esgotar num simples texto os recursos que a natureza, na sua generosidade, me distribuiu.
quarta-feira, 20 de novembro de 2024
Inclinação para cair
A Antígona Editores Refractários está a publicar uma pequena colecção de cinco livros, Sementes de Dissidência, um projecto apoiado pelo programa Europa Criativa, da União Europeia. Desses cinco, já li dois – Niels Lyhne, de Jens Peter Jacobsen, e A Parede, de Marlen Haushofer – e comprei, hoje, um terceiro, A Pequena Comunista que Nunca Sorria, de Lola Lafon. Ora, a pequena comunista é uma figura real. Trata-se da ginasta romena Nadia Comaneci, que, como se sabe, acabou por sair da Roménia. Lembro-me de, há quase 50 anos, ela, nos seus ingénuos 14 anos, surgir como uma heroína. O romance de Lola Lafon, imagino, tratará do exuberante triunfo da adolescente romena, do modo sufocante como terá sido produzido e da queda posterior, pois tudo o que sobe terá de cair. A queda é um dos temas centrais, senão o tema central, da arte do romance. O interesse pela queda é muito anterior ao romance moderno. Basta lembrar a história de Ícaro. Contudo, a queda que sobre nós ocidentais exerce um maior fascínio é a de Adão e Eva. Podem estabelecer-se, sem dificuldade, pontos de contacto entre as duas quedas. Contudo, aquela que nasce na tradição judaica tem a particularidade de ser uma queda dupla, a de um homem e a de uma mulher, o que significa que não se trata de um episódio de alguém que ultrapassa a sua medida, mas de uma marca da própria humanidade. Não somos apenas seres decaídos, como uma leitura religiosa sublinhará, mas seres cuja natureza é cair. Nadia Comaneci era exímia na sua luta contra a gravidade, mas nela, como em todos nós, havia uma inclinação para a queda. E é esta inclinação que habita a imaginação romanesca. Sem esta inclinação, a literatura romanesca não teria sentido.
terça-feira, 19 de novembro de 2024
Individualidade
segunda-feira, 18 de novembro de 2024
Disciplina da escuta
Uma das doenças que corrói as nossas sociedades ocidentais está ligada à morte daquilo a que poderíamos dar o nome de disciplina da escuta. Aprender a escutar, permanecer em silêncio perante a voz do outro, conter o impulso para tomar a palavra, todos esses dispositivos de formação de humanidade tornaram-se obsoletos, perderam prestígio e encontram-se a caminho de um museu, onde se exibem coisas destituídas de sentido. Ora, a disciplina da escuta não visa apenas aprender a escutar a voz do outro, embora isso seja fundamental, mas encontrar, no saber fazer silêncio em si mesmo, a possibilidade de escutar a sua própria voz. A proliferação opinativa a que as redes sociais deram origem inscreve-se já como um efeito da perda da disciplina da escuta. Quando se aprende a escutar o outro, é-se menos propenso a tratá-lo mal e mais inclinado a moderar a própria opinião, pois o acto da escuta tem o poder de revelar a fragilidade das nossas opiniões. Quando nunca se aprendeu a escutar, então toda a ignorância que nos habita se toma por certeza, uma certeza tão absoluta que deve ser imposta aos outros nem que para isso tenhamos de os esmagar. Terá sido em casa, no ambiente familiar, que a disciplina da escuta terá começado a morrer. Daí, a doença ter-se-á propagado para os sistemas educativos, a partir dos quais a sociedade como um todo foi contaminada. Contudo, nenhuma palavra terá sentido e profundidade se não estiver ancorada numa longa disciplina da escuta. As palavras que se ouvem, não são palavras. São gritos articulados em forma de linguagem. Só isso.
domingo, 17 de novembro de 2024
Caricatura
O fim-de-semana está gasto. Restam uns farrapos que se irão desfazendo até à meia-noite. Nesse instante, entrar-se-á na semana útil, mas, como a realidade é ardilosa, as vítimas só darão por isso lá pela manhã. Tarde demais para travar o tempo e prolongar a inutilidade por mais uns dias. Oiço o choro de uma criança. Aliás, uma especialista em submeter os pobres pais através da técnica da birra prolongada. Eles, os pais, avançam de derrota em derrota. A criança sabe bem quem manda e parece nunca se fazer rogada. Isto, porém, são palavras de quem pertence a outro país. Refiro-me à famosa frase de Leslie Poles Hartley: «O passado é um país estrangeiro; lá, eles fazem as coisas de modo diferente». É a esse estranho país – o passado – que pertenço, e lá, posso confirmar, as coisas faziam-se de modo bem diferente. Quando chegam ao presente, aqueles que pertencem ao passado ficam perdidos. Não conhecem a língua, nem os hábitos e têm dificuldade em perceber as acções. Os autóctones, porém, não querem saber daquilo que pensam os estrangeiros. E muita sorte têm estes em não serem deportados em massa para o seu país de origem. Talvez as coisas tenham começado quando um grupo de rock se pôs a cantar: «Hey! Teacher! Leave them kids alone!» Então, as crianças, para treinar o enfrentamento escolar, exigiram que os pais as deixassem em paz. E estes, formados na música do tal grupo de rock, estão a deixar. Dir-se-á que isto é uma generalização precipitada, uma maldita falácia que persegue os raciocínios indutivos. É um ponto de vista. Um outro, que prefiro no dia de hoje, diz-nos que é uma avaliação hiperbólica que se torna uma caricatura. Ora, a virtude da caricatura, ancorada no recurso à hipérbole, é dar a ver aquilo que não salta à vista.
sábado, 16 de novembro de 2024
Consolação
Amareleceram as folhas das acácias do parque. Diria que amareleceram bem, como quando se diz que alguém envelheceu bem. Ainda se nota a metamorfose, pois o manto amarelo deixa ver folhas verdes. Não é um amarelo como o do limão; é mais escuro, como se, no fundo de si, ainda restasse uma gota de sangue. Olho-as e deixo-me levar pela cadência com que o vento as move para um lado e para o outro. Muitas pessoas sofrem de tédio, mesmo que tenham de usar palavras como spleen para enquadrar o fastio que as devora. Ora, se deixassem os seus olhos poisar sobre as árvores e observassem, com atenção, o movimento das folhas, recobrariam do enfado e da náusea com que cobriram a existência que lhes foi oferecida. Não poucas pessoas pensam que uma vida digna de ser vivida deve decorrer num vórtice, num culto da energia e numa liturgia do dinamismo. Isso, porém, é apenas o resultado de uma impotência estrutural: a incapacidade de se deter e contemplar aquilo que se oferece ao olhar. Ao demorar o olhar sobre as acácias, estou a receber uma dádiva. Essa demora é um exercício de reciprocidade: uma dádiva que responde à primeira. O culto do entusiasmo e da velocidade é a confissão de uma incapacidade para receber e para dar, pois, assim como tenho um secreto prazer em olhar o amarelo das folhas das acácias, também elas têm um consolo não menos secreto em serem olhadas. Sim, também as árvores precisam de consolação.
sexta-feira, 15 de novembro de 2024
Devorações
A primeira metade de Novembro está cumprida. Também o conjunto musical da escola aqui ao lado realizou o seu ensaio. São músicas arcaicas. Imagino que o grupo seja composto por professores reformados, mas é apenas uma suposição. Ou será uma banda animada por um professor de História que esteja a pesquisar a música dos anos sessenta e setenta do século passado? É possível. Também nestes ensaios há um antes e um depois da pandemia. Até à emergência da COVID-19, os ensaios eram às quartas-feiras. Agora, são às sextas. Talvez tenha sido por eles ensaiarem às quartas que se desencadeou aquela doença tenebrosa que caiu sobre o mundo. Estas coisas nunca se sabem, e a generalidade do que acontece tem causas insuspeitas. Se tiver sido esse o caso, ou mesmo que não tenha sido, foi sensata a mudança do dia de ensaio. Não vá o diabo tecê-las e mande nova pandemia. Isso mostra que o grupo musical tem capacidade de ler os sinais e aprender com o que acontece, mesmo se os progressos musicais não sejam, ao longo dos anos, coisa de assinalar. Isto é outra suposição, pois não sou crítico musical. Quando comecei a escrever este texto, a noite estava perfilada, ao longe: hirta, pronta para marchar. Agora, já oiço as suas botas cardadas. Ela aproxima-se com um passo cadenciado e firme. Não tarda e devorará o crepúsculo, que é coisa que as noites gostam muito de fazer pela tardinha. Para se vingar, o crepúsculo devorá-la-á, para que chegue a aurora. É triste, mas a vida não passa de uma cadeia de devorações, como se sofresse de um transtorno crónico de compulsão alimentar. Na avenida, os carros seguem a luz dos seus faróis, e as pessoas passam rápidas para desaparecer do meu horizonte — um horizonte limitado.
quinta-feira, 14 de novembro de 2024
Falar do tempo
O Outono vestiu as roupas do Inverno e, agora, distribui frio e chuva pelas ruas. Oiço uma voz feminina a queixar-se: ainda ontem saí à rua de manga curta e hoje já tive de me vestir como nos dias frios. As pessoas falam do tempo para terem assunto — um tema nobre que não implica dizer mal do próximo. Também eu falo do tema por falta de assunto, embora não faltem assuntos nobres, mesmo nobilíssimos, para discorrer. Será que o centauro existe ou é apenas um nome? Outro, não menos nobre: os buracos — por exemplo, os buracos de um queijo — existem? Uma outra possibilidade seria escrever sobre se existe uma coisa como a vermelhidão ou, ainda mais interessante, sobre se existe uma realidade denotada pela palavra humanidade. De todos estes assuntos, o que me interessa mais é o centauro, a que poderíamos associar a sereia e todos os seres desse género. Chamei-lhes seres, e isso pressupõe já um compromisso ontológico, isto é, a afirmação de que têm alguma forma de existência e não são puros nomes. Há quem pense, por exemplo, que esses seres têm uma existência potencial. Não existem actualmente, mas podem vir a existir; podem passar da potência ao acto, para usar o jargão de Aristóteles. Não partilho deste ponto de vista, pois estará fundado numa analogia sem fundamento. Imaginemos o projecto, desenhado por um arquitecto, de uma ponte sobre o rio desta terra onde me acolho. O projecto será a ponte em potência; a construída, a ponte em acto. Ora, não me parece plausível tomar o centauro ou a sereia como projectos, seres potenciais que dariam lugar a seres actuais — aquilo a que se chama reais. E, no entanto, discordo daqueles que negam a existência de centauros e sereias. Existem na imaginação de seres como os homens. Não têm uma existência material, mas mental. Melhor: imaginal. E todos nós sabemos reconhecer uma sereia ou um centauro, apesar de nunca os nossos sentidos terem tido qualquer contacto com eles. É por estas e por outras que mais vale falar do tempo.
quarta-feira, 13 de novembro de 2024
Macaquices
Nunca fui a Marraquexe – para dizer a verdade, a vontade é nula – mas os portugueses parecem ter uma grande propensão para lá ir. Presumi isto ao consultar, por motivos que não vêm ao caso, a lista de chegadas ao aeroporto de Lisboa. Em menos de três minutos, tinham aterrado ali dois voos, de diferentes companhias, vindos daquela cidade marroquina. Imagino que sejam turistas portugueses de retorno ao lar, pois não me parece que o volume de negócios entre Portugal e aquela cidade, ou mesmo Casablanca, justifique tal número de voos, mesmo que sejam apenas dois por dia. A mente, refiro-me à minha, parece um macaco. De Marraquexe foi para Casablanca, da capital de Marrocos para o filme de Michael Curtiz, deste para Humphrey Bogart e Ingrid Bergman. Desta saltei para Ingmar, também Bergman, e deste para dois filmes: Morangos Silvestres e A Flauta Mágica, uma espantosa encenação cinematográfica da ópera de Mozart. Isto levou-me à ária da Rainha da Noite e desta ao facto de já ser noite e estar frio. Tudo isto para demonstrar que sou habitado, no lugar onde devia estar a razão, por um macaco, um babuíno, por certo. Enfim, não será de admirar que escreva macaquices.
terça-feira, 12 de novembro de 2024
Verdade e autoridade
No evangelho de Nicodemos, um dos evangelhos apócrifos, Jesus, em resposta à pergunta de Pilatos – Na terra, verdade não há? – diz: Vês como os que dizem a verdade são julgados por aqueles que têm autoridade na terra. Não seria diferente a resposta dada por Sócrates à mesma pergunta. Jesus não nega a existência da verdade neste mundo. Torna manifesto um conflito insanável entre a verdade e a autoridade. Ter autoridade na terra significa poder prescindir da verdade. O poder não é apenas algo que se exerce sobre os que o não têm, mas um modo de conformação ontológica. Torna realidade aquilo que é desprovido dela. Nem Jesus nem Sócrates cometeram algum crime, mas o poder – a autoridade – transformou inocentes em criminosos e agiu em conformidade. Quando as pessoas se espantam que gente com grandes problemas com a verdade seja adulada pela multidão e levada ao poder, esquece estes episódios que são marcantes na história da humanidade ocidental. O conflito com a verdade é uma virtude para aquele que aspira a ter autoridade sobre os outros, que aspira a poder moldar a sua natureza, tornando-os inocentes ou criminosos em conformidade com o seu desejo. Apesar de Jesus ter sido executado há mais de dois mil anos e Sócrates há mais de dois mil e quatrocentos, apesar de serem figuras centrais na cultura ocidental, continuamos iguais aos gregos que votaram a condenação de Sócrates e à turba que pediu a morte de Jesus. A verdade não interessa à autoridade porque não interessa aos que a ela se submetem.
segunda-feira, 11 de novembro de 2024
Hábitos matinais
domingo, 10 de novembro de 2024
Santa Preguiça
sábado, 9 de novembro de 2024
Espoleta e despoleta
Como não tenho nada para escrever, aproveito o ensejo de um artigo do Público, no qual se usa o verbo espoletar, para fazer uma comunicação urbi et orbi. Reconheço que é um avanço relativamente à deplorável moda de usar despoletar, pois espoletar acorda-se com a função da espoleta numa granada. Contudo, ainda não consegui perceber qual a necessidade de recorrer a estas metáforas militares para dizer desencadear, originar ou provocar. Um dia alguém achou interessante usar despoletar e a atracção foi de tal maneira intensa que provocou uma pandemia de despoletamentos por tudo o que era texto e comunicação oral. Lentamente, lá se foi percebendo que despoletar significa exactamente o contrário, evitar que se desencadeie deflagração da granada. Se não se deve usar despoletar, então que se use espoletar. E começaram a deflagrar espoletamentos sem fim. Deixem as espoletas e as granadas em paz. Já basta quando, no teatro de guerra, têm de ser utilizadas. Usem originar, desencadear, provocar, gerar. Ainda por cima, a palavra está longe de ser esteticamente agradável. Despoletem a mania de espoletar e despoletar por dá cá aquela palha. Isto ainda não é uma guerra.
sexta-feira, 8 de novembro de 2024
Pensamentos
Saí para caminhar às cinco e meia da tarde. A noite caía sobre a cidade, envolvendo-a na tenaz da escuridão, cobrindo-a com um véu de negrura, um tule sarapintado pela melancolia da iluminação pública. Nas ruas, as pessoas iam e vinham. Nos parques infantis, havia pais e avós olhando com desvelo as crianças, arrancando com os olhos a noite que sobre elas caía. Não me lembro do que pensei durante o trajecto, mas terei pensado muitas coisas, pois a consciência é um babuíno aos saltos, nunca parando quieta, disparando pensamentos uns atrás dos outros. Para ser exacto, deveria dizer: eu não pensei nada, pois os pensamentos que tive foram acontecendo em mim e não coisas que eu decidi pensar. A maior parte dos nossos pensamentos não são nossos, são deles, que, numa atitude tirânica, se impõem, como déspotas orientais, a nós. Acontece, e não é raro, as pessoas serem vítimas dos pensamentos que nelas se pensam. Ficam obsidiadas pelos invasores, cercadas pela torrente de ideias que as assaltam. A certa altura, fazem coisas que nunca fariam senão fosse a impertinência daquele inimigo que tomou conta delas. Quantos crimes se evitariam caso as pessoas soubessem pôr os pensamentos que nelas se pensam ao longe? Serão elas culpadas dos seus crimes? São culpadas de não resistirem ao cerco dos pensamentos e, por isso, são cúmplices desses pensamentos. Contudo, enquanto caminhei não pensei em nada disto, mas não consigo já recordar o que pensei. E esta é uma grande virtude que possuo. Esquecer-me de coisas que não merecem recordação. Talvez seja a única, e mesmo isso é duvidoso.
quinta-feira, 7 de novembro de 2024
Gramática e categorias aristotélicas
Diante de mim tenho, neste momento, uma gramática de português com mais de mil e cem páginas. É uma gramática árdua, cheia de designações que me são estranhas. Perante ela e a sua opacidade – opacidade para a minha ignorância gramatical – senti uma inquietante saudade das antigas gramáticas normativas. Eram gramáticas aristotélicas, embora não saiba se os gramáticos as consideravam assim. Por que razão as associo a Aristóteles? Imagino que seja por causa das categorias. O discípulo de Platão construiu uma tabela de dez categorias: substância, quantidade, qualidade, relação, lugar, tempo, posição, estado, acção e paixão. Imaginei, e continuo a imaginar, que sem dificuldade a gramática, aquela que me foi ensinada, se deixaria combinar com estas categorias. Talvez o principal problema esteja na preeminência dada à substância em relação às outras categorias, que não passam de acidentes da substância. A substância é aquilo que é e os acidentes são coisas que podem ou não ocorrer nela. A substância é o que é designado pelos substantivos – nesta volumosa gramática apelidados de nomes – e os acidentes relacionar-se-iam com as restantes classes de palavras, com algumas excepções, pois também aqui não haveria regra sem excepção. Isto, porém, é a visão de um ignorante gramatical, deixando-se arrastar por um saudosismo insensato e imaginando ver coisas que não existem. A sabedoria de Aristóteles manifesta-se na categoria da paixão. Enquanto a categoria da acção nos diz aquilo que uma substância faz, a da paixão indica aquilo que ela sofre. A paixão, qualquer paixão, indica-nos uma passividade – na verdade, uma impotência – da substância. As paixões sofrem-se, não se é delas autor. Contudo, como qualquer outra categoria, a paixão é um acidente e não faz parte da essência da substância. Quanto mais apaixonada é uma substância, tanto mais passiva ela é, pois, mesmo a sua acção, passa a depender daquilo que ela sofre.
quarta-feira, 6 de novembro de 2024
Fantasias
Um dia magnífico por aqui. Um começo promissor, que a manhã e a tarde cumpriram. Pena que tivesse passado parte substancial desse tempo em reuniões online cuja finalidade, como é hábito, ainda não consegui descortinar. Tenho uma natureza pouco dada a reunir. Gosto da comunidade, desde que não tenha de a frequentar. A comunidade como horizonte ou pano de fundo é o meu ideal. Contudo, entre a realidade onde me movo e a idealidade com que me consolo, há uma grande distância, tão grande que, caso fosse dado a isso, cairia num grande desconsolo. Não caio, talvez porque não acredite naquilo em que acredito. Isto tem a aparência de ser contraditório, mas é só a aparência. Explico-me. Todos nós para vivermos neste mundo precisamos de ter crenças. Sem elas, a vida seria não apenas insuportável como impossível. Por isso, eu tenho um conjunto de crenças. Por outro lado, suspeito de todas as minhas crenças, o que me leva a descrer naquilo em que creio. Melhor, eu creio firmemente nas minhas crenças, mas sei que elas são fantasias – fantasias produtivas que me permitem andar por este mundo. É evidente que não tenho nenhum grande causa. Ter uma grande causa é esquecer que a crença que a sustenta é uma fantasia. E isso é uma das poucas coisas que não esqueço. Aliás, se ninguém tivesse grandes causas, o mundo seria um lugar mais decente. Aproximamo-nos do crepúsculo e mesmo este está belíssimo, como esteve todo o dia. Imagino que esta minha crença na beleza do dia de hoje seja uma fantasia, mas uma fantasia necessária.
terça-feira, 5 de novembro de 2024
Saber, não saber
Têm estado, por aqui, uns dias verdadeiramente outonais, embora não se saiba muito bem o que definiria um dia verdadeiramente outonal. Também se suspeita, não sem razão, que o Outono não passa de uma convenção humana, um modo, entre outros, de lidar com o tempo. Seja como for, sei o que é o Outono e o que são dias outonais, apesar de não saber nem uma coisa nem outra. Sabemos que estamos no Outono como sabemos que estamos em casa. Reconhecemos a casa, sem que dela façamos uma concepção teórica. É assim que sei o que é o Outono. Reconheço quando estou nele. Saber não sabendo é o melhor. É deste modo que se inicia o capítulo 71 do Tao Te King. É assim que sei do Outono, da minha casa, de mim. Como sei de mim? Habitando-me. É no Outono que me habito melhor, pois eu sou uma morada outonal e o morador dessa casa. Talvez não seja nada disso. Apenas a cinza do dia rasgou o lençol da nostalgia e comecei a pensar que hoje é um dia outonal, até que me perdi e comecei a escrever coisas sem sentido.
segunda-feira, 4 de novembro de 2024
Destruições da humanidade
Um artigo do Público online referia as sondas von Neumann e o conceito de singularidade proposto pelo mesmo John von Neumann. As sondas seriam dispositivos auto-replicantes que, lançados para o cosmos, teriam a capacidade de explorar os planetas, de enviar informação para a Terra e – aqui está a novidade – de se auto-replicarem, o que suporia uma espécie de autonomia genésica, através de materiais encontrados nesses planetas, Poderiam constituir uma vasta rede de pesquisa e informação espalhada cada vez mais longe neste nosso universo. A singularidade significaria um ponto no futuro em que a rapidez e extensão do desenvolvimento da tecnologia escapa à capacidade de compreensão humana. Ora, há um comentário ao artigo em que se verbera o autor, pois este não tem em consideração o potencial destruidor da humanidade contido nas duas ideias. É perante coisas destas que tenho pena de não poder viajar no tempo e visitar certos momentos da história da nossa pobre espécie. Até certa altura do nosso desenvolvimento – tal como acontece ainda hoje com os outros animais – os humanos não dominavam o fogo. Imagino que, no tempo em que os homens aprenderam a domesticá-lo e a conservá-lo, não tenham sido poucos aqueles que viram nesse poder sobre o fogo a porta aberta para grandes desgraças. Esta minha especulação tem algumas bases. O mito de Prometeu, o roubo do fogo pelo titã, a sua dádiva aos homens e o castigo de que foi vítima – tudo isso não é mais do que a condensação daquelas vozes que um dia viram no domínio do fogo pelos homens um potencial destruidor da humanidade. Toda a vez que dominamos o fogo, isto é, que desenvolvemos o poder de utilizar de novas formas a matéria e a capacidade de inventar novos dispositivos tecnológicos, levantar-se-ão vozes que nos advertirão que o resultado será um fatal castigo que levará à extinção da humanidade. Ora, estas vozes falham o essencial. O perigo não está no desenvolvimento da tecnologia, mas no facto de não conseguirmos pensar o mistério que esse desenvolvimento encerra. Não são apenas os seres naturais que encerram mistérios indecifráveis. Também os produtos do engenho humano são misteriosos, mesmo que só os consideremos do ponto de vista da utilidade e os abandonemos à sua sorte quando se tornam inúteis.
domingo, 3 de novembro de 2024
Meditação dominical
Chegado a esta altura da vida, penso que tudo, e não apenas o Zen, possa ser o referente das palavras de D. T. Suzuki: Com efeito, está na natureza do Zen escapar a toda a definição e explicação; noutros termos, não pode ser convertido em ideias e descrito em termos lógicos. O que, neste mundo e mesmo num outro, poderá ser convertido em ideias e descrito em termos lógicos? Plausivelmente, nada. Por muito que me esforce para reduzir este domingo a uma ideia e descrevê-lo no âmbito de uma lógica, mesmo que modal, com os seus operadores de necessidade e de possibilidade, os meus esforços serão baldados. Os seres humanos ficaram deslumbrados com o facto de pensarem e, como corolário, com o impacto que, através da técnica, o pensamento tem na configuração das coisas. O deslumbre, devido à intensidade da cintilação, cegou-os e não os deixa perceber a incomensurabilidade entre as coisas e o pensamento acerca delas. As nossas definições não definem nada, nem as nossas explicações explicam seja o que for. Aquilo que é escapa-se sempre à rede com que o tentamos capturar. Defino uma árvore, classifico-a e explico o modo como nasce e se desenvolve, mas ela, se tenho a humildade da atenção, permanece para mim um mistério, não maior ou menor do que eu sou para mim.