quinta-feira, 30 de abril de 2020

Um aumento da gravidade

O mês fina-se hoje. Que descanse em paz. A sensação mais estranha que tive desde que tudo isto começou aconteceu ontem. Na centena de metros que separam o sítio onde vivo e a farmácia, nunca me abandonou o sentimento de se estar na ressaca de um apocalipse. A combinação da luz coada pelas nuvens com os estabelecimentos fechados, a ausência de gente nos sítios onde abundava, o vento que parecia prometer, caso fosse necessário, trazer os mais terríveis miasmas, tudo se conjugava na minha imaginação e desenhava uma paisagem urbana de uma cidade que fora repudiada pela maioria dos habitantes. As pessoas com que me ia cruzando, ontem menos que em outros dias, traziam máscara e havia em todas elas uma precaução no andar, na forma como o corpo poisava no chão, como se vivessem há muito habituadas a estar alerta contra os raides aéreos das forças inimigas. Exagero? Duvido, pois esta é a época, de todas as que vivi, mais dada à hipérbole. Tudo nela é excesso, mesmo a ausência, mesmo a penúria, mesmo o vazio. Hoje acordei com a impressão de ter sonhado, coisa que raramente acontece. Não sei o que me ocupou enquanto dormia, mas ao acordar não senti alívio nem frustração pelo fim do sonho, experimentei uma sensação de indiferença e a percepção de que os valores da gravidade se tinham alterado, que era mais difícil andar, que a força de atracção da terra aumentara. Ao abrir a janela, a realidade voltou ao que era, se é que a realidade era ou é alguma coisa. Hoje é quinta-feira, dia 30 de Abril. Ocupo os dias em trivialidades, aquelas que contribuem para que pague as contas e estou grato por poder pagá-las. Duvido que isso dependa do meu mérito. Trata-se de sorte, embora aqueles que são afortunados, e por vezes é preciso muito pouco para o ser, raramente aceitam que a sorte desempenha um papel não pequeno na trama que é a sua vida. Há sempre a tentação de exagerar os méritos.

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