segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Flatus vocis

Pensei que me tinha aposentado da realidade. Ora, este foi além de um cálculo sofrível, uma suposição inútil e sem fundamento. Esqueci o outro lado da relação, a própria realidade. Ela não se aposentou de mim e está sempre disposta a visitar-me, retirando-me do sossego trazido pelo devir e o consequente acumular dos anos, para me obrigar a olhá-la nos olhos. Não tive outro remédio, e, como é habitual, sempre que se olha para a realidade, apesar de ser um nome feminino – noutro tempo dizia-se substantivo feminino – não é uma bela mulher, mas uma megera desdentada. Tenho, no entanto, uma pequena consolação. A evolução da nomenclatura gramatical trouxe à realidade uma despromoção. Como disse acima, eu aprendi – pelo menos, é o que imagino – que ela era um substantivo, isto é, referia-se a uma substância. Agora, porém, não passa de um nome. Trata-se de uma vitória na secretaria do nominalismo sobre o realismo, uma vitória copiosa, pois quando nominalistas e realistas terçaram armas, o que estava em jogo eram os universais, como humanidade, vermelhidão, justiça, igualdade, etc. Os realistas diziam que estes universais possuem algum tipo de realidade independente dos particulares que as compõem. Os nominalistas negam a existência de universais. São meros nomes, não são substâncias. Agora, até o gato da minha vizinha – caso eu tenha uma vizinha e ela, um gato – não passa de um nome. Uma vitória exuberante do nominalismo através da gramática, uma vitória que nos diz que tudo é nome. Quando a velha desdentada não passa de um flatus vocis, apesar de incomodativo, caímos no mais puro niilismo.

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