Sobre coisas incertas, não deveriam os homens fazer afirmações categóricas. Veio isto a propósito de umas linhas lidas num prestigiado ensaísta – pelo menos para certas correntes, pois, nesta coisa de ensaios, cada um prestigia o que lhe apetece – que deixou a vida a 10 de Janeiro de 1925, portanto, há quase 101 anos. Ora, num dos seus ensaios, fazia juízos categóricos que o tempo se limitou a mostrar como falsos. Podemos afirmar categoricamente que algo é água se, e só se, for H2O. Quando se entra em campos movediços como a moral, a política, a economia, o melhor é moderar o entusiasmo e admitir possibilidades em vez de proclamar necessidades. É claro que neste sítio se fazem não poucas afirmações peremptórias, mas todas elas – com excepção de que água é H2O – são falsas a priori. O que torna estes escritos particularmente tranquilizadores e mesmo pacíficos. De tal modo pacíficos, que o autor mereceria o Prémio Nobel da Paz, mais do que muito dos contemplados. Isso, porém, não são contas do rosário deste narrador. Sempre que se afirma algo por aqui, sabemos que é falso. Logo, não há necessidade de perder tempo em refutar os ditos. Não se pense, contudo, que só afirmações científicas são intrinsecamente verdadeiras. Há outras que, não sendo científicas, são necessariamente verdadeiras. Para descansar de tantas afirmações falsas feitas ao longo dos anos, deixo algumas necessariamente verdadeiras: “Todo o solteiro é não casado”. “Toda a promessa é um compromisso.” “Todo o efeito tem uma causa.” Para concluir, aquela de que mais gosto: “Todo o mentiroso diz o que não é verdadeiro.” O problema destas afirmações reside no seguinte: os solteiros podem casar-se, as promessas podem não ser cumpridas, as causas podem recusar-se a ter efeitos (é inverosímil, mas foi o que me ocorreu) e o mentiroso, por engano, pode dizer a verdade. O que não foi ainda o caso.
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