domingo, 1 de fevereiro de 2026

Mau-tempo e mau-gosto

Quanto mais tempo tenho para escrever, menos me apetece fazê-lo. Então, por que o fazes? Pergunta insolente do homúnculo que habita na cave da minha consciência. Estive tentado em encolher os ombros, mas acabei por responder: escrever, talvez, não seja uma questão de apetite. Ele assobiou uma ária do Don Giovanni, e sublinhou: o talvez mais do que uma dúvida é um não compromisso com a afirmação. Não crês no que afirmaste. Afirmar seja o que for, ripostei, é uma empresa arriscada. Depois, mandei-o de volta para a cave. Foi, acompanhado pela ária, o que me irritou. Tive de o desligar. Também deveria ser capaz de desligar o mau-tempo, mas por mais que tente, falho sempre. Resta-me escrever, mesmo que o apetite seja escasso e nenhum assunto lance âncora no mar do meu espírito. Podia poupar os leitores destas derivas metafóricas. Ainda por cima de mau-gosto. Descubro, porém, que o mau-gosto está intimamente ligado ao mau-tempo. Com o tempo que está, há que aceitar as coisas como elas são.