quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Cidades

Há dias exultei por, estando em Lisboa, ter ido duas vezes ao cinema num curto espaço de tempo. Hoje, porém, tive de me deslocar pela cidade, desde o meio-dia às sete da tarde, e não encontrei qualquer motivo de júbilo. As grandes cidades – e Lisboa é apenas uma média cidade, talvez pequena – tornaram-se um calvário, do trânsito ao estacionamento. É nas grandes cidades que tudo acontece, pensa-se. Contudo, não se pensa qual a utilidade de tudo o que acontece, e não me refiro, claro, à utilidade material. Muito provavelmente, os acontecimentos decisivos necessitam de silêncio e recato, não do bulício. Isto, porém, é conversa de velho. Sou um narrador envelhecido e sem energia para o corpo-a-corpo que uma grande cidade exige e armo em moralista, dissertando sobre o que é mais adequado à dimensão humana. Não consigo, todavia, deixar de pensar que, a partir de meia dúzia de dezenas de milhar de habitantes, uma cidade começa a perder a dimensão propícia ao florescimento humano. Torna-se uma máquina devoradora da humanidade presente nos homens. Mesmo essa meia dúzia de dezenas de milhar talvez seja excessiva. A cidade deixa de servir os homens e passa a servir-se deles. Chega de moralidades, por hoje.

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