Há dias exultei por, estando em Lisboa, ter ido duas vezes ao cinema num curto espaço de tempo. Hoje, porém, tive de me deslocar pela cidade, desde o meio-dia às sete da tarde, e não encontrei qualquer motivo de júbilo. As grandes cidades – e Lisboa é apenas uma média cidade, talvez pequena – tornaram-se um calvário, do trânsito ao estacionamento. É nas grandes cidades que tudo acontece, pensa-se. Contudo, não se pensa qual a utilidade de tudo o que acontece, e não me refiro, claro, à utilidade material. Muito provavelmente, os acontecimentos decisivos necessitam de silêncio e recato, não do bulício. Isto, porém, é conversa de velho. Sou um narrador envelhecido e sem energia para o corpo-a-corpo que uma grande cidade exige e armo em moralista, dissertando sobre o que é mais adequado à dimensão humana. Não consigo, todavia, deixar de pensar que, a partir de meia dúzia de dezenas de milhar de habitantes, uma cidade começa a perder a dimensão propícia ao florescimento humano. Torna-se uma máquina devoradora da humanidade presente nos homens. Mesmo essa meia dúzia de dezenas de milhar talvez seja excessiva. A cidade deixa de servir os homens e passa a servir-se deles. Chega de moralidades, por hoje.
Sem comentários:
Enviar um comentário
Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.