Imagine-se um auditório em forma de anfiteatro. Numa mesa, após uma conferência sobre literatura, quando perguntado pelo valor da obra de um certo escritor, o conferencista responde: esse está morto. Na assistência, alguém replica: não é verdade, ainda o vi há pouco no Chiado. Esta história tem mais de quarenta anos. O meu problema, porém, não é o do valor literário da obra do escritor que estava ao mesmo tempo morto e vivo, como o gato de Schrödinger, mas se eu sei deste episódio por ter assistido ou por mo terem contado. Esta dúvida levanta uma suspeita não pequena. Quantas coisas pensamos ter vivido mas que apenas nos foram contadas? Talvez mais do que pensamos. Isto exige que se refaça a ideia de experiência vivida. Também aquilo que sabemos por nos ter sido contado é uma experiência vivida, o que abre a hipótese não desinteressante de termos vivido efectivamente coisas que nunca aconteceram. Imagine-se, ainda, que a história do escritor me foi contada, mas quem a contou mentiu deliberadamente. Em nenhum momento alguém considerou o tal escritor morto, nem recebeu a réplica de que não era verdade, pois tinha sido visto no Chiado. Ora, eu vivi essa história, apesar de ela nunca ter acontecido. Sei até quem era esse escritor e o putativo detractor. Isso foi, porém, há tanto tempo, que tanto o escritor como o detractor, também ele um escritor, deixaram o mundo dos vivos. Seja como for, posso dizer que, nos dias de hoje, o escritor morto está mais vivo do que o detractor vivo daqueles dias. A morte tem destas coisas. A uns mata-os, a outros dá-lhes vida.
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