terça-feira, 16 de junho de 2026

Um cromo da bola

Numa prateleira da estante tenho um cromo da bola – do campeonato nacional, não do mundial – que o meu neto me deu. Insistiu que ficasse com ele. Fiquei e pu-lo em exposição. Os netos têm grande poder sobre os avós, mais do que eles sonham. Não faço ideia quem é o jogador, embora saiba quem é o clube, o Estoril Praia. Os jogadores de futebol que melhor conheço já deixaram de jogar há mais de 40 anos. O cromo está num lugar onde avisto Os Lusíadas, de Camões, e o Ofício Cantante, de Herberto Helder, uma das várias edições da sua poesia completa. Certamente, Camões não se interessava pelo futebol, e quanto ao poeta madeirense não faço ideia se ele tinha qualquer interesse pelo jogo. Também avisto por lá a Louise Glück, a Wisława Szymborska e o T. S. Eliot. Ao escrever isto, decido ver, no Google, fotos da Louise e da Wisława. Senti-me mais perto da polaca. Também estou mais perto da poesia dela do que da americana. Ambas ganharam o Nobel, mas a Wisława viveu mais 10 anos do que a Louise. Pode-se perguntar por que razão se está a falar – isto é, a escrever – sobre estas banalidades, coisas que não interessam a ninguém. A razão é simples: sou um coleccionador de banalidades. Por isso, a companhia que dou aos livros de grandes poetas é a mais adequada. Um cromo da bola de um jogador que não conheço de um clube pouco relevante, apesar de estimável.

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