Hoje é, neste país, o dia do começa e do recomeço. A 5 de Outubro de 1143, começou este país. Como era costume, o início foi uma Monarquia, o Reino de Portugal. Quase oito século depois, talvez porque o país estivesse cansado, isto de acumular séculos exaure as forças a qualquer um, deu-se o recomeço e, como era costume, o reinício foi uma República. Há grandes lições a tirar de tudo isto. O dia 5 de Outubro é privilegiado para começar ou recomeçar qualquer coisa. Se alguém se quiser casar, aconselho o 5 de Outubro, mas se se divorciou e quer recomeçar, nada melhor do que um 5 de Outubro. Começos e recomeços garantidos. A outra lição, mais de índole política, ou melhor, de psicologia colectiva, é que este país é um fiel seguidor da moda. Se a moda é o reino, então ele é um reino. Se a moda muda e se torna republicana, logo ele renasce como república. Nos dias que correm, não há uma querela, a não ser em grupos ínfimos de monárquicos tardios, sobre a questão da república e da monarquia. Felizmente, pois é uma querela sem sentido. Não é a ideia monárquica ou a ideia republicana que nos guiam, é a moda. Se a moda for monárquica, seremos monárquicos. Se for republicana, seremos republicanos. O que diz isto da nossa psicologia colectiva? Diz-nos que somos uma comunidade precavida e que não gosta de contrariar o Zeitgeist. É essa precaução que nos tornou um país de brandos costumes. Eles são brandos porque não são nossos. Usamo-los como quem usa um casaco emprestado, que um dia devolverá. Aqui que ninguém nos ouve, nós nunca fizemos grande questão de ser um reino nem uma república. E nisto reside a nossa virtude.
sábado, 5 de outubro de 2024
sexta-feira, 4 de outubro de 2024
Teoria sonora
Acabei de fechar uma janela. O zunir incansável de um ar condicionado entrava pelo escritório e aninhava-se no recôndito da minha mente, caso eu tenha mente e esta possua um âmago escondido não sei bem onde. Estes barulhos mecânicos são uma prova da existência do inferno, pois todos eles são infernais. Ora, se há coisas infernais, então o inferno existe. Esse inferno manifesta-se onde menos se espera. Por exemplo, no parque infantil aqui em baixo, onde as cadeiras de baloiço, em que crianças, sob o olhar de pais cansados, vão e vêm, rangem como mil belzebus depois de uma noite de copos ou mesmo de sex, drugs and rock ‘n’ roll. Até o meu carro está possuído por um súcubo que o faz arfar de modo despudorado. Para a semana, levo-o à oficina para o exorcizarem. Pode-se pensar que esta ligação entre o ruído mecânico e os ventos infernais é pura especulação de um ocioso, numa tarde de sexta-feira anunciadora da ociosidade do fim-de-semana. Não é. A prova é que o céu – isto é, os poderes celestiais – também têm também a sua sonoridade, na vibração das cordas da harpa, da lira ou da cítara. E aqui reside o magno problema da nossa civilização. Enquanto os ruídos mecânicos rangem, guincham, chiam e resfolegam por tudo o que é sítio, harpas, liras e cítaras escondem-se, como se fossem tomadas pela timidez perante o despudor de um caos mecânico. Um dia destes ainda escreverei um apocalipse.
quinta-feira, 3 de outubro de 2024
A benévola ilusão
Respiro fundo e penso que todos chegamos a um momento em que percebemos que o nosso tempo passou, que já não conseguimos lidar com a realidade tal como tínhamos feito. Nesse momento, percebe-se que se está a mais, e que é tempo de ocupar os dias de outro modo, um modo que a realidade nos permita. Não sei se pensei isto ou se o terei sonhado, pois, como o disse Descartes, não há critério seguro para distinguir o sonho da vigília. Aliás, com o passar dos anos descobrimos que não há critério seguro seja para o que for. O que existe é uma ilusão, a certa altura da vida, em que se é detentor de critérios seguros para o que se pensa e para o que se faz. É essa ilusão que evita que soçobremos num cepticismo contumaz e na mais pura apatia. A natureza, com a generalidade das espécies, foi generosa, pois não as dotou da faculdade de pensar e ligou-as às respostas instintivas que lhes permite sobreviver, sem que possam pensar nisso. Com a espécie humana, a mesma natureza decidiu fazer uma experiência e dotou-a de pensamento. Logo percebeu que a ideia não fora a melhor, pois pensar pode ter as mais funestas consequências para uma espécie que sabe que sabe que sabe que é finita e limitada. Então, essa mesma natureza, compadecida dos homens, deu-lhes a imaginação para fabricarem as ilusões que os prendem à existência, que lhes disfarça mesmo a evidência de que o seu tempo passou.
quarta-feira, 2 de outubro de 2024
Esperança
A saga do código para facultar a quem me entregue a encomenda continua. Ontem, não me entregaram aquilo que anunciaram entregar. Fizeram nova anunciação hoje, decretando a hora da entrega entre as quinze e as dezasseis. Caminhamos rapidamente para as dezoito, e nada de encomenda. Eu percebo bem a pessoa que anda na distribuição. É um pacote com livros e tudo o que se relacione com livros não implica pressa. É coisa de gente ociosa. Para piorar as coisas, fiz nova encomenda na mesma editora. Os três volumes das obras completas de Mário-Henrique Leiria e outros três volumes das Mil e Uma Noites, numa primeira tradução feita a partir dos mais antigos manuscritos árabes existentes. Deixemos estas coisas de lado, tudo se há-de compor, e se os Reis Magos, vindos do longínquo Oriente, conseguiram chegar a Belém, apenas com uma estrela por GPS, também o condutor da distribuidora há-de encontrar o caminho até aqui. Espero, e esperar é um sinal de esperança. Acabei há pouco uma daquelas reuniões em videoconferência, que, por amor à exactidão, se deveriam chamar vídeo-reuniões. Estas coisas acontecem para que os participantes se sintam pessoas modernas, pois seria uma grande tristeza alguém viver em plena modernidade – ou mesmo na pós-modernidade – e não se sentir moderno. Agora, não há livro que não traga em si um marcador de livros. Acumulo-os numa caixa, mas aquele de que mais gosto é um da velha livraria Buchholz. Há muito que não entro lá. E ao pensar nisto, senti-me como um traidor. Tenho de lá voltar um dia destes e levo as minhas netas, para uma visita cultural. Além de livros, há música clássica e música etnográfica, músicas do mundo, por norma, de grande qualidade. Vou caminhar um pouco, antes que chegue o crepúsculo.
terça-feira, 1 de outubro de 2024
Um código por facultar
segunda-feira, 30 de setembro de 2024
O meu vento
domingo, 29 de setembro de 2024
Um domingo na província
sábado, 28 de setembro de 2024
Ciência na enfusa
sexta-feira, 27 de setembro de 2024
Uma hipótese
Estou de cara ao lado. Falso. Sinto que estou de cara ao lado, mas não estou. Por causa das dúvidas, postei-me diante de um espelho e a cara pareceu-me normal, embora isso possa ser discutível. Apesar da afirmação inicial ser falsa, o sentimento é verdadeiro. Tenho parte da cara ainda sob efeitos de uma anestesia. O dentista achou por bem desvitalizar-me dois dentes e anestesiou-me. Não senti nada daquilo que ele fez, mas fiquei com esta estranha sensação de lateralidade facial. No fim da consulta, recebi o conselho de não comer nada na próxima hora, não vá morder-me a mim mesmo. Tudo isto serve para demonstrar uma tese sobre o mundo. Mesmo que, por hipótese, o senhor Gottfried Wilhelm Leibniz tenha razão e este seja o melhor dos mundos possíveis, ainda há nele muita coisa a melhorar. Por exemplo, ser anestesiado, sofrer o ataque do Sétimo Regimento de Cavalaria, dirigido pelo tenente-coronel Custer, antes da derrota em Little Bighorn, contra os dentes, não sentir nada, não ter a sensação de cara ao lado e poder comer mal se sai do consultório. Como se vê, há muitas coisas a melhorar neste mundo. Entre as coisas que poderiam ser melhoradas está o nome do senhor Leibniz. Que pai tinha ele para lhe chamar Godofredo Guilherme? Poder-se-ia melhorar o pai de Leibniz. Também os americanos gostariam de melhorar o resultado da batalha em Little Bighorne, onde foram derrotados pelas forças índias comandadas por Sitting Bull e Crazy Horse. Contudo, desde que os homens foram expulsos do paraíso, as melhorias retrospectivas foram descontinuadas e o Leibniz arrastará pela eternidade fora a alcunha de Godofredo Guilherme e o pobre do Custer nunca vencerá qualquer Touro Sentado ou Cavalo Louco. A anestesia talvez afecte o sistema neuronal. É uma hipótese.
quinta-feira, 26 de setembro de 2024
Vida quotidiana
O dia começou sob intensos aguaceiros, mas as coisas foram-se alterando, de tal modo que agora, enquanto escrevo, há um sol alegre, saltitante, uma luz que anima quem passa. As sombras crescem, esculpem relevos fugidios no alcatrão, e adormecem pisadas pela velocidade dos carros, ansiosos de chegar a casa e deixar o motor descansar. No meu carro, o rádio avariou-se, entrou em greve, fez voto de silêncio. Tenho de ver o que se passa, não eu que de rádios grevistas ou com tendências monacais nada sei, mas alguém que se dedique a essas coisas, nem que seja a de me trocar este por um novo, pouco dado à greve ou ao silêncio dos mosteiros. Daqui a pouco vou aproveitar e caminhar, para apanhar ar e encher-me de imagens destes sítios que conheço de olhos fechados – uma evidente falsidade – e onde amealho pontos cardio, os quais me haverão de ser úteis, caso a Organização Mundial de Saúde não se entregue à mentira. Ela ou quem declama as suas recomendações. Acabei de bocejar e logo um pensamento nasceu em mim sussurrando-me que o melhor era dormir um pouco. Há que resistir.
quarta-feira, 25 de setembro de 2024
Em memória
Chove e faz calor. Voltei à minha função de boletim meteorológico. É o que faz a falta de ideias. Imagino que esta esteja ligada à vida sedentária a que o tempo chuvoso me obriga. Se caminhasse por aí, alguma coisa me ocorreria. Assim, nada me ocorre. Há pouco, olhei para os frisos – agora já são dois – de orquídeas. Ainda há três em plena floração. As outras, depois da hora de cintilação, adormeceram, deixando cair as flores, como quem se despe para ir para a cama. Hoje, estive numa longa reunião, em videoconferência. Quando acabou, pensei que já não tinha idade para coisas daquelas. Depois, tive de admitir que nunca tive idade – isto é, saco – para aquele tipo de actividade, onde as pessoas derramam as palavras como se elas não tivessem custado toda uma longa história para se formarem e estarem prontas para o nosso uso. Em memória dessa história, deveríamos ser comedidos na sua utilização. Calo-me.
terça-feira, 24 de setembro de 2024
Passagens
Está um dia de Outono, sereno, melancólico e tocado pelo cinzento-claro dos céus. Uma luz pálida derrama-se sobre a cidade. Indiferentes, as pessoas passam, perdem-se no dia-a-dia. Levar e buscar os filhos ou netos à escola, fazer compras, entrar neste ou naquele estabelecimento, passear à trela um cão. Eu olho e deixo o tempo passar. Virá o crepúsculo e, logo de seguida, a noite escura. Que outra coisa pode um mortal fazer senão deixar o tempo passar? Enquanto passa o tempo, também em nós passam os pensamentos e as imagens. Fluem, arrastados por uma água sem nome, e, se formos atentos, vemo-los passar e podemos dizer: ali vão os nossos pensamentos e as nossas imagens, são como ramos de árvores secas arrastados pela força das águas. E isso dá-nos prazer, pois sentimos que nos libertamos deles, do seu peso e da carga emotiva que têm. Essa ingénua rêverie tem um efeito terapêutico, reconciliando-nos com a passagem do tempo. Uma brisa suave – um poeta antigo diria um zéfiro – toca as folhas das árvores, e elas dançam diante dos meus olhos.
segunda-feira, 23 de setembro de 2024
Véu da ignorância
Voltou a segunda-feira. Os dias da semana têm este problema, substituem-se uns aos outros com inexcedível regularidade e uma monotonia sem fim. O mais curioso é que a sua invenção propunha-se pôr fim a uma outra monotonia, a da indiferenciação dos dias, os quais se seguiam uns aos outros sem nada que permitisse distingui-los. O Sol nascia, fazia a sua jornada e punha-se, como quem entra no quarto para se deitar e dormir. O pior seria a sensação de que os dias iam diminuindo e que poderiam soçobrar na noite eterna. Há muitas coisas que seria muito interessante, embora ocioso, saber. Imaginemos os nossos antepassados de há cinquenta mil anos. Como se relacionariam eles com o dia e a noite, com a passagem das estações ou com as metamorfoses da luz? Sabemos hoje, graças à análise genética, que sapiens sapiens e neandertais se cruzaram e que parte da humanidade possui genes dos neandertais. Esse cruzamento ter-se-á dado há dezenas de milhares de anos, mas parece não ter ficado registado na memória colectiva, na tradição. Sabemo-lo por recurso técnicas analíticas muito sofisticadas. Isto coloca um outro problema, que é o da duração da memória colectiva. Quanto tempo permanecem, cifrados em mitos e lendas, na memória colectiva acontecimentos memoráveis? Quando penso nisto, tenha sempre uma sensação de tristeza pela ignorância efectiva sobre quem somos. Sabemos alguma coisa até há alguns milhares de anos, mas depois o véu do esquecimento é cada vez mais negro, como se uma parte do que somos se devesse ocultar, talvez para que possamos viver com o que somos.
domingo, 22 de setembro de 2024
Mitos e rituais de passagem
Tenho uma neta outonal. Hoje começa o Outono, neste ano de 2024, e ela faz 16 anos. Parece que fazer 16 anos, nos dias que correm, é uma marca importante. Eu não me lembro quando os fiz, mas tenho a certeza de que os 16 não se destacavam dos 15 ou dos 17. Mesmo os 18 eram ofuscados pelos 21, altura em que se atingia a maioridade. Ainda tive de ser emancipado para tirar a carta de condução. Os rituais de passagem mudam com o tempo, mas, o mais decisivo, é que não passamos sem eles. As sociedades modernas, as sociedades desencantadas, colocaram de lado mitos e rituais. O que aconteceu, porém, é que tanto uns como outros se multiplicaram. Por vezes, como ervas daninhas. Não são os grandes mitos e os grandes rituais que dão sentido às existências, mas os pequenos mitos e os rituais insignificantes que assumem esse papel. Por isso, a pequena mitologia, com os seus rituais, do grupo desta minha neta, já não terá qualquer sentido para a irmã, com menos dois anos e meio e muito menos para o meu neto, com menos dez anos. Seja como for, são muito importantes para ela e vou-me despachar para que possa participar numa parte desses rituais e dar força à sua mitologia privada.
sábado, 21 de setembro de 2024
Da autenticidade
Retorno a uma referência anterior, a Gilles Lipovetsky e um título musical de um livro que está na fronteira da Filosofia e da não Filosofia, A Sagração da Autenticidade. A natureza musical deste título deve-se a um empréstimo ao bailado de Igor Stravinsky A Sagração da Primavera. Esta é uma peça musical – e de dança, um bailado originalmente produzido por Sergei Diaghilev e coreografada por Nijinsky – que, durante uma parte da minha vida, considerei como o começo musical do século XX, embora a sua estreia tenha ocorrido em 1913. Nessa altura, considerava que o século XX musical terminava com a terceira sinfonia de Henry Górecky, composta em 1976. Roubava 37 anos ao século, mas sentia que as coisas eram assim. Passei muitas tardes a ouvir a Sagração da Primavera seguida da terceira de Góreky. Há muito que não o faço e deixei de ter qualquer ideia sobre o começo e o fim do século XX musical. Ora, o título do livro de Lipovetsky é uma clara citação da tradução inglesa da peça de Stravinsky, que no original russo parece denominar-se A Fonte da Primavera. Hoje recolhem-se todas estas informações em segundos, desde que se saiba aquilo que se quer perguntar. Ora, sagrar a autenticidade é sagrar um equívoco. O que é ser autêntico? É, ao mesmo tempo, ser sincero – ser uma expressão sincera de si mesmo – e ser autor, autor de si. Por norma, pensamos a sinceridade como expressão espontânea, natural e não fabricada de si, mas isso choca com a autenticidade de ser autor de si, pois esse si já não é espontâneo, mas uma fabricação, ou, melhor, uma ficção. Talvez, e isso salvará o título de Lipovetsky, tudo o que é sagrado o seja por ser equívoco, como o é, por exemplo, o Deus do Antigo Testamento, o Deus da ira e o Deus da misericórdia.
sexta-feira, 20 de setembro de 2024
Cansaços
Hoje tem chovido. Quase sempre bátegas de água violentas, que logo param, como se as nuvens se cansassem desse esforço de enviar sobre a cidade uma água benevolente que se não lavar os corpos, talvez ajude a branquear as almas. Antigamente, as pessoas preocupavam-se em branquear a alma, que se enegrecia em contacto com a fuligem da vida e o carvão do desejo. Hoje, a preocupação maior é a do branqueamento de capitais. Quem os tem procura branqueá-los e a justiça, que os acha negros como o breu, tenta, talvez com pouco sucesso, localizá-los para tratamento e reciclagem. Estou a desviar-me do assunto. Das bátegas de águas, do céu cinzento, das pessoas a recolherem-se sob varandas, pois ninguém acha decoroso num dia de Setembro andar de guarda-chuva na mão para o que der e vier. Agora, enquanto escrevo esta emissão do boletim meteorológico local, os raios solares encontraram uma abertura entre o chumbo das nuvens e derramam uma luz pálida sobre as paredes cobertas de fungos do Hospital. A semana, refiro-me à útil, acabou, sem que a utilidade tenha deixado um rasto de memória. Houve demasiado calor e a memória dá-se mal com temperaturas elevadas. Um alarme de um carro começou a implorar socorro, mas ninguém parece disposto a estender-lhe a mão. Ah já se cansou, como eu também já estou cansado. Maldição, o alarme recobrou as forças rapidamente. Vou fechar as janelas, recostar-me, fechar os olhos e deixar que a peça Für Alina, de Arvo Pärt, me ajude na meditação.
quinta-feira, 19 de setembro de 2024
Valor e preço
Um amigo enviou-me um link para uma entrevista a António Feijó, doutorado pela Brown University e professor catedrático jubilado da Faculdade de Letras, na área da Literatura, da Universidade de Lisboa. Sobre a universidade e o papel das Humanidades ele diz: A História e a Filosofia são, neste momento, modos de introduzir salubridade no discurso público. Depois, dá as razões. São plausíveis, mas não vêm ao caso. O tema interessante é o da salubridade. A referência é feita numa espécie de contra-argumentação da ideia partilhada por muitos universitários das áreas científicas e tecnológicas de que as Humanidades são dispensáveis, um desperdício, dada a sua inutilidade. Ora, se elas contribuem para tratar de um discurso público de natureza patológica, então têm uma utilidade social, o que as torna dignas de serem mantidas no mundo universitário. Partilho da ideia de Feijó de que uma Universidade sem Humanidades é uma instituição amputada, na verdade uma mera escola profissional, centrada no ensino vocacional. O que me suscita dúvidas é a sua crença de que a História e a Filosofia são modos de introduzir salubridade no discurso público. Platão sempre achou o discurso público, a doxa (δόξα), patológico e a Filosofia representava mais uma fuga da epidemia do que um colírio para tratamento da doença. E a questão não está apenas na natureza estruturalmente patológica do discurso público, mas também no caso de tanto a História como a Filosofia, mesmo as praticadas na universidade, poderem ser focos infecciosos, injectando na opinião pública doses maciças de miasmas. Por mim, deixava de lado a utilidade das Humanidades e centrava-me na glória das coisas inúteis, pois é nesse desprendimento da utilidade que reside a grandeza e o valor da Literatura, da História e da Filosofia. Elas têm valor, as outras áreas têm preço.
quarta-feira, 18 de setembro de 2024
Commercium sexuale
terça-feira, 17 de setembro de 2024
Provérbios
Os provérbios são uma forma de sabedoria que assenta na mais pura equivocidade. Lembrei-me disso ao ver uma referência, em Ernst Jünger, a um muito conhecido: A palavra é de prata, o silêncio é de ouro. O provérbio é composto por duas proposições e nenhuma delas é universalmente verdadeira. Este facto não se deve a que ambas as proposições sejam expressões metafóricas, nas quais se predicam qualidades (a prata e o ouro) que, do ponto de vista da experiência, não cabem ao sujeitos palavra e silêncio. Não é isto que falsifica o provérbio, mas uma outra coisa, também ela expressa de forma metafórica. Quantas vezes o silêncio é de chumbo? Por outro lado, quantas vezes a palavra usada ou dada é de um ferro oxidado, de ferrugem? O interessante, e, por isso, os provérbios são, efectivamente, uma forma de sabedoria, é que os falantes de uma língua sabem identificar o momento de usar esse provérbio, conseguem reconhecer quando ele é pertinente e ajustado, isto é, justo, e quando ele não tem qualquer sentido. O que torna, então, um provérbio uma forma de sabedoria não é tanto o seu conteúdo proposicional, mesmo que metafórico, mas a capacidade do falante o usar de modo adequado. É por isso que os provérbios são formas de sabedoria prática e pragmática, pois implicam saber quando se devem usar e em que contexto. Fora de tempo ou deslocados da situação, são apenas risíveis.
segunda-feira, 16 de setembro de 2024
Castigos
Quando leio ou vejo as notícias sobre os incêndios que devastam parte do país penso que a revolta da natureza contra a nossa espécie é terrível e inexorável. A partir do século XVII, a civilização europeia assumiu uma dimensão prometaica. Convencemo-nos – e também parte do planeta – de que, guiados pela razão, pela ciência e pela indústria, atingiríamos neste mundo, através de um progresso crescente, a felicidade que a religião prometia para o outro. O símbolo desta crença que nos guia há três séculos é Prometeu, o titã que, na mitologia grega, desafiou os deuses ao roubar-lhes o fogo para o dar à humanidade. O castigo de Prometeu foi imediato, o dos homens diferido no tempo, mas parece mobilizar como instrumento de punição esse fogo que recebemos como dádiva suprema para nossa libertação do império dos deuses. Estes estão a vingar-se. Ora os deuses não são outra coisa senão a natureza que não suporta já a nossa dominação. Os desequilíbrios da meteorologia são o raio de um Zeus furibundo com a espécie dos mortais que decidiram pensar que são imortais e que tudo o que existe está aí apenas para servir os seus apetites. Gostaria muito de crer que a ciência e a tecnologia – uma encarnação do fogo de Prometeu, isto é, da razão – seriam suficientes para pôr as coisas nos eixos e que tudo acabaria por encontrar o caminho para uma vida normal. Cada dia que passa é uma razão a mais para não crer nesse mudar de agulha tranquila na vida dos homens. Não há quem tenha por missão pôr as coisas nos eixos ou endireitar o que está torto.