Ainda não recuperei da mudança da hora. Eu percebo a utilidade de tal medida. Serve para testar a maleabilidade das pessoas. Visa-se identificar quem é suficientemente maleável e se adapta à mudança e quem é rígido e incapaz de se acomodar. Existe mesmo uma escala entre 0 e 100, em que zero é absolutamente rígido e 100 é totalmente maleável. Classificadas as pessoas, as que têm excelente desempenho, isto é, aproximam-se de 100, são louvadas, reconhecidas como excepcionais, enquanto as que se aproximam de 0, como é o meu caso, são vituperadas, sujeitas a escárnio e apontadas como exemplo a evitar. Eu compreendo muito bem que assim seja. Quem num mundo tão fluido quer ter por modelo gente inflexível como eu? Acomodo-me à minha falta de capacidade de acomodação, lamento a mudança da hora, e bocejo porque ainda não consegui acertar com as horas do sono. Olhos para o relógio, um smartwatch, que se adaptou de imediato ao novo horário, e não consigo acreditar nas horas que ele me mostra. O melhor é ir dormir uma sesta.
segunda-feira, 30 de março de 2026
sábado, 28 de março de 2026
O escritor morto
Imagine-se um auditório em forma de anfiteatro. Numa mesa, após uma conferência sobre literatura, quando perguntado pelo valor da obra de um certo escritor, o conferencista responde: esse está morto. Na assistência, alguém replica: não é verdade, ainda o vi há pouco no Chiado. Esta história tem mais de quarenta anos. O meu problema, porém, não é o do valor literário da obra do escritor que estava ao mesmo tempo morto e vivo, como o gato de Schrödinger, mas se eu sei deste episódio por ter assistido ou por mo terem contado. Esta dúvida levanta uma suspeita não pequena. Quantas coisas pensamos ter vivido mas que apenas nos foram contadas? Talvez mais do que pensamos. Isto exige que se refaça a ideia de experiência vivida. Também aquilo que sabemos por nos ter sido contado é uma experiência vivida, o que abre a hipótese não desinteressante de termos vivido efectivamente coisas que nunca aconteceram. Imagine-se, ainda, que a história do escritor me foi contada, mas quem a contou mentiu deliberadamente. Em nenhum momento alguém considerou o tal escritor morto, nem recebeu a réplica de que não era verdade, pois tinha sido visto no Chiado. Ora, eu vivi essa história, apesar de ela nunca ter acontecido. Sei até quem era esse escritor e o putativo detractor. Isso foi, porém, há tanto tempo, que tanto o escritor como o detractor, também ele um escritor, deixaram o mundo dos vivos. Seja como for, posso dizer que, nos dias de hoje, o escritor morto está mais vivo do que o detractor vivo daqueles dias. A morte tem destas coisas. A uns mata-os, a outros dá-lhes vida.
sexta-feira, 27 de março de 2026
Comentários
Vivemos num mundo saturado de explicações. Ingenuamente, pensa-se que a explicação serve para aumentar a compreensão de quem a escuta. Isso, porém, é uma imagem idílica que provém dos tempos escolares, onde se contratava – e contrata – um explicador para aumentar a compreensão da matéria de uma certa disciplina por parte de um aluno em apuros. As explicações que nos assombram e assediam não visam aumentar a compreensão, mas multiplicar a confusão. Qualquer fenómeno político, económico, militar, social tem o poder de convocar uma multidão de explicadores, sob a designação de comentadores, que têm uma dupla pretensão: pretendem que compreendem aquilo de que falam e pensam que as suas palavras farão luz nos auditores que a elas se submetam. O resultado, porém, é que o auditório está cada vez mais confuso. Não é que os comentadores não se expliquem bem, mas o mais certo é que não compreendam aquilo de que falam, mas não têm coragem de ficar calados. A coragem reside no reconhecimento de que não se sabe, na douta ignorância. Assim, existem legiões de ignorantes que não se sabem enquanto tal e por isso não são doutos. Falam, falam, o silêncio aterroriza-os. Comentam como se tomassem ansiolíticos. Sempre que se vir alguém a comentar um caso político, militar, económico ou outro qualquer, podemos estar certos de que está a fazer terapia. Imaginam-se, por certo, que estão deitados no divã de um psicanalista e que falam como se estivessem a contar sonhos ou a entregar-se a associações livres. Só que o auditório não tem licença para fazer terapia. Fica mudo e os comentadores, pobres deles, nunca se tratarão. Este é o meu comentário para o dia de hoje.
terça-feira, 24 de março de 2026
Moralidades
Tinha oitenta e sete anos quando, em 2016, publicou Ethics in the Conflicts of Modernity: An Essay on Desire, Practical Reasoning, and Narrative. Trata-se do filósofo escocês Alasdair MacIntyre. Viveu até aos noventa e seis anos. É o que se pode chamar uma vida grande e plenamente realizada. O seu percurso intelectual é interessante. Começou como marxista e acabou como aristotélico-tomista. Converteu-se ao catolicismo. Apesar das metamorfoses, há um traço que unifica este percurso. A sua oposição ao liberalismo e à visão do homem como ser absolutamente autónomo. No final do século passado, em 1999, publicou uma obra cujo título resume a sua posição: Dependent Rational Animals: Why Human Beings Need the Virtues. Sim, somos seres racionais, mas também somos animais e, traço fundamental, somos dependentes. E o reconhecimento dessa dependência coloca-nos no lugar que é o nosso. Num tempo em que a arrogância do homem parece não ter limites, desde os políticos que se imaginam grandes imperadores até aos tecno-milionários que aspiram tornar-se imortais, a voz da razão fala não através de projectos de autonomia, mas do reconhecimento da nossa dependência e da nossa interdependência. Os dias que vivemos estão enlouquecidos, e a génese dessa loucura reside precisamente nessa incapacidade de cada um se reconhecer naquilo que é: um animal racional dependente. Isto é, o exercício de uma virtude que caiu em desuso e tem péssima imprensa, a humildade. Estou, hoje, excessivamente dado à moralidade. Não sei se é do sol ou se de ter dormido mal. Seja qual for o motivo, estou cansado de super-homens e de idiotas que apostam em tornar a vida dos seus semelhantes num inferno, como se lhes tivessem outorgado o direito de comer os frutos da árvore da ciência e da árvore da vida.
domingo, 22 de março de 2026
Melancolias
Olho para a rua e sinto, com não pouco espanto, a melancolia do domingo à tarde. Pensava que essas melancolias eram meramente subjectivas, uma reacção ao fim do fim-de-semana. Uma preparação para enfrentar os dias dedicados à realidade, depois de pouco mais de quarenta e oito horas de devaneio. Agora, que essa condição não se coloca, tenho de mudar de opinião. A melancolia do domingo à tarde tem uma fonte objectiva. São as tardes domingo em si, e não qualquer outro motivo, que provocam esses estados de agastamento melancólico. Uma maneira especial da luz cintilar, a forma como as pessoas pisam as calçadas das avenidas, o modo como os carros passam. Mesmo o bosque que avisto daqui se deixa contaminar por uma combinação de verdes e cinzentos. Tudo isso, que só acontece ao domingo à tarde, provoca no sujeito que observa o pathos da melancolia. Ou talvez não. O smartwatch decidiu mandar-me uma mensagem. Informa-me de que foi adicionada uma sesta, isto é, estive pouco mais de uma hora a dormir em frente ao computador. Acordei faltavam três minutos para as cinco da tarde. Talvez tenha tido um sonho melancólico e que aí esteja a fonte do estado de espírito que tomou conta de mim. Olho, de novo, para a rua e corroboro a primeira impressão, a melancolia dos domingos à tarde é uma propriedade da realidade e não o fruto onírico de um sono mal dormido.
sábado, 21 de março de 2026
Contra o papel
Há pouco, vinha a escutar a Antena 2. Falavam de poesia, e a conversa derivou para o encómio de escrever em papel, como se esse fosse o único material em que se pudesse escrever. A devoção é de tal ordem que uma pessoa é levada a pensar que o papel é uma propriedade da própria escrita e não um mero suporte. Tornei-me ateu em relação ao papel. Não creio nele, nem acredito que haja uma relação necessária entre escrever e papel. Há muito que não escrevo em papel. A vinda dos computadores com os seus processadores de texto foi para mim uma libertação de um jugo ancestral. O papel reflecte as idiossincrasias pessoais, como se ali fosse o império da irracionalidade. O processador de texto, porém, permite dar uma ordem clara e distinta a tudo o que se escreve, e eu sou um cultor da clareza e da distinção, mesmo que não sinta satisfação na leitura de Descartes. Tenho numa estante, mesmo ao lado da secretária, uma série de cadernos. Estão todos imaculados, não foram abertos ao despotismo da caneta, nem a tinta, como um líquido seminal, penetrou naquela virgindade. Estão ali abandonados, são a prova de um tempo que passou. Talvez eu seja, sem o saber, um moderno. Não escrevo em papel, não leio em papel, mas tenho alguns cadernos e milhares de livros em papel. Como gostaria que, por um passe de magia, todos aqueles livros se transformassem em ficheiros digitais, libertando as estantes, para que elas pudessem ir para outro lado. Não é que eu não goste de papel. Gosto, mas talvez goste mais das árvores. Estas não têm culpa dos desvarios dos homens, do desejo de deixar uma mensagem para o mundo, mensagem que terá como suporte o cadáver desses seres vivos extraordinários que são as árvores. Consomem-se florestas só para que a vaidade dos homens se manifeste. Quem quiser escrever que escreva num processador de texto, deixe o papel em paz e não lance o desespero nas florestas. Já basta os fogos.
sexta-feira, 20 de março de 2026
Uma deusa
Nem dei pela chegada Primavera. Aterrou hoje pelas 14:45, hora de Lisboa. Veio disfarçada de Inverno. Devido ao equinócio, dia e noite terão, por instantes, a mesma duração, mas logo os dias começarão a crescer e as noites a diminuir. Depois, lá mais para a frente, começará o processo inverso. Contudo, se este mundo fosse perfeito, não haveria necessidade de compensações. Noites e dias seriam sempre iguais, com a mesma duração, para evitar que um deles se torne arrogante, humilhe o outro e seja castigado por algum deus indisposto. Como se sabe, os deuses indispõem-se com muita frequência. Não apenas com os mortais, mas também entre eles. É claro que as indisposições dos deuses com os mortais são muito mais perigosas. Veja-se o que aconteceu a Ájax. Atena fez dele, o mais corajoso e competente guerreiro, depois de Aquiles, gato-sapato, tudo porque teve a ousadia de dispensar os seus serviços. A tragédia de Sófocles, que trata da história desse herói enlouquecido pela deusa, é uma bela advertência para todos nós. Se um deus te oferecer ajuda, aceita-a. Se não a oferecer, o melhor é pedir-lha. Mesmo que não a dê, ficará sensibilizado pelo reconhecimento e pelo facto de saberes o teu lugar no mundo. Compensar-te-á mais tarde. Ora, isto tem alguma coisa a ver com a chegada da Primavera? Há uma coisa que todos devíamos saber: tudo tem a ver com tudo. Neste caso, podemos crer que a Primavera é uma deusa. Se a cultuarmos como deve ser, oferecer-nos-á um tempo agradável. Porém, se dispensarmos a piedade, ela será uma Fúria, ora oferecendo-nos um frio invernal, ora um calor que só o pior dos Verões tem dentro de si. O melhor é visitá-la no seu altar, depositar flores a seus pés e pedir-lhe que nos dê um boa Primavera, isto é, que se nos ofereça com o mais benévolo dos seus múltiplos rostos. Em caso de urgente necessidade, aconselha-se uma procissão.
quinta-feira, 19 de março de 2026
A explicação da guerra
Anatole France, Prémio Nobel em 1921, escreveu um romance com título humorístico, A Ilha dos Pinguins, no qual S. Maël baptizou, em vez de homens, pinguins. Não é, porém, isso que me interessa, mas uma frase que ocorre no capítulo III, “Viagem do doutor Obnubile”, do Livro IV, cujo título omito. A frase ocorre no contexto em que se fala de guerra. O doutor Obnubile questionou a certa momento: Vocês, um povo industrial, meteram-se em todas essas guerra? O interlocutor, depois de confirmar que se tinham metido em todas aquelas guerra, concluiu: Na Terceira-Zelândia matámos dois terços dos habitantes, a fim de obrigarmos os restantes a comprar-nos guarda-chuvas e suspensórios. Esta é uma prática muito humana. Se os mercados se fecham, em vez de procurar uma chave para abrir portas, o mais sensato é abri-los a tiro de canhão, embora, nos dias que correm, usam-se coisas como mísseis e drones. Ora, se examinarmos com atenção, não há guerra no mundo que não tenha por fim obrigar o inimigo, qua até aí era amigo, a comprar guarda-chuvas e suspensórios. Acontece, e não poucas vezes, um povo, por viver num clima em qua nunca chove e numa cultura em que não se usa vestuário que exija suspensórios, ser invadido para que aprenda a usar guarda-chuvas e suspensórios. Dir-me-ão que esta visão da guerra é simplista, que nega as verdadeiras causas dos conflitos. Ora, adoptando uma posição aristotélica, podemos perguntar: Qual é a causa final de todas as guerras? Depois de se analisarem muitas causas candidatas a serem a causa final, as quais se eliminam por si mesmas, só sobre uma. O telos de todas as guerras é a venda de guarda-chuvas e suspensórios. Esta é a minha contribuição para explicar o momento em que vivemos. Os países produtores de guarda-chuvas e de suspensórios precisam de escoar o produto para aqueles que não necessitam deles.
quarta-feira, 18 de março de 2026
O desprazer do prazer
Agora, estou a Gurosan. Coisas que acontecem a quem se deixa cair em tentação. A culpa não é da hübris, mas do desespero que tolda a razão, suspende o juízo e impede a avaliação do risco num negócio de prazer. Uma consulta marcada para as onze horas. A hora de marcação é um mero pró forma. Já passava bem do meio-dia quando entro para o consultório, para uma conversa amigável, mostra de exames, análise das possibilidades. Enfim, passar o tempo, embora esse tempo não seja barato. Ao sair é-me comunicado que num certo restaurante havia, hoje, logo hoje, Cachupa. Nem pensei. Disse: vamos, é isso mesmo que me apetece, já nem me lembro quando foi a última vez que a comi. É o que dá o desespero. Sem quase duas horas numa clínica, a minha razão estaria em modo de sensatez, envolver-se-ia num processo de deliberação e tomava a decisão de dizer não. É verdade que a Cachupa foi muito mais agradável do que o tempo de espera no consultório, mas empurrou-me para São Gurosan, um santo protector dos inclinados a más digestões e outros ofícios malévolos do corpo. Contudo, pensando bem, existe uma regra que merece ser dada a conhecer ao mundo. O malfadado tempo de espera foi compensado com o benévolo resultado da consulta. O benévolo prazer da Cachupa acabou em Gurosan. Em síntese: o desprazer leva ao prazer, e o prazer conduz ao desprazer. Não percebo por que razão uma coisa e outra têm de estar ligadas, mas estão. A consequência de tudo isto é que vou dispensar o jantar.
terça-feira, 17 de março de 2026
Preocupações
Descobri, agora, que hoje ainda não tinha pousado os olhos sobre qualquer jornal. Fiquei perplexo e, pensando no assunto, também preocupado. Hegel, o filósofo alemão pai do idealismo absoluto, terá escrito, talvez na juventude, que A leitura do jornal é a oração matinal realista do homem moderno. A minha preocupação tem uma dupla origem. Será que perdi a fé, pois já não me interessa uma oração matinal realista? Será que já não sou um homem moderno? São motivos fundos para desassossego. De facto, é preciso mesmo muita fé para crer na realidade. Se nos falta a fé, perdemos a âncora no real. E como é possível deixar de ser moderno, se vivemos na modernidade mais moderna que pode existir? Não se trata de hipermodernidade, nem de modernidade tardia, nem de modernidade líquida, tão pouco de pós-modernidade. É mesmo uma modernidade moderna a outrance, que se me perdoe o galicismo, uma modernidade que se perdeu da modernidade tradicional e se pôs a modernizar o que era moderno. Ora, como posso eu exilar-me deste mundo, pois não tenho outro disponível. Claro, podia emigrar para a Idade Média, mas as fronteiras com ela foram fechadas, não fossem as pessoas quererem fugir para lá. Talvez seja esse o meu caso. Custa-me a realidade, falta-me ânimo para modernizar o modernizado. O resultado é não olhar para a imprensa, pois, há muito, que evito telejornais e outras novelas do género. Não sei se, lendo agora o jornal, já caída a noite, tal leitura contará como Oração de Vésperas. Sobre isso, porém, nada disse Hegel.
segunda-feira, 16 de março de 2026
O tamanho dos dias
Onde estão aqueles dias longos, enormes, que pensava que não acabariam? Ficaram lá tão atrás que, ao contrário do que pensava, não consigo recuperá-los. Ingénuo, convencia-me de que a dimensão do dia estava ligada à realidade. Por realidade, deve entender-se a vida activa. Quando se chega à vida passiva, dizia-me, os dias dilatar-se-ão novamente, pois a possibilidade do ócio torna-se grande, e os dias, outrora grandes, estavam ligados à ociosidade. Puro engano. Descobri que a dimensão dos dias é inversamente proporcional à idade. Quanto mais anos acumulamos, menores são os dias. Olho para o de hoje e ele foi tão pequeno que está a acabar. Quanto às noites, o melhor é não pensar nelas.
domingo, 15 de março de 2026
Culto da indecisão
Tomo uma decisão, mas, passado um pouco, fico na dúvida se é uma decisão acertada ou realizável, o que significa que não tomei uma decisão, mas apenas disse a mim mesmo que o tinha feito. Neste mundo, há homens e mulheres decididos, uns ponderados, outros nem por isso. Decidem e executam as suas decisões, custe o que custar. Têm boa imprensa e promovem-se a si mesmos. Contudo, o mundo seria melhor se eles fossem indecisos. A indecisão torna o mundo mais habitável. Tem, porém, um problema. Seria necessário que todos os que se tomam por decididos se convertessem, ao mesmo tempo, à indecisão. Esta é habitada pelo medo, embora tenha uma dupla natureza. Uns têm medo de que a decisão lhes caia em cima e os fira. Outros temem ferir terceiros. Independentemente da etiologia, o efeito é o mesmo, e é benéfico, pois evita que a confusão no mundo se propague. Neste momento, o nosso pobre planeta está cheio de homens decididos. E quanto mais decididos estão, pior se torna o mundo. Não vale a pena dar exemplos. Qualquer um pode constatar isso, basta o sacrifício de dar três minutos de atenção aos noticiários. Que fazer? O melhor que temos a fazer é tomar a decisão de sermos e propagarmos a indecisão. Organizarmos um culto, com rituais e um sacerdócio hierárquico. Na categoria mais baixa, teríamos os Hesitantes. Na segunda, os Irresolutos e no mais alto patamar, como sumos sacerdotes, os Perplexos. Estes não existem no plural. Quando alguém chega a Perplexo é porque o Perplexo anterior tonou uma decisão e morreu. No culto, seria instituída a confissão. Quem tivesse tomado uma decisão, teria de se confessar ao Hesitante da paróquia. Cumpriria uma penitência e tomaria a decisão de nunca mais tomar qualquer decisão. Não seria o paraíso na Terra, mas as coisas melhorariam substancialmente. No início desde texto, tinha tomado uma decisão, mas o que salva do confessionário é que já não me lembro qual foi. Não há paciência para o Hesitante de serviço nesta freguesia.
sábado, 14 de março de 2026
Vida virtuosa
O dia acinzentou-se, primeiro, e, depois, enegreceu. Isto não é uma descrição empírica do dia. É uma descrição do mundo. Também não. Já sei. É a descrição de um estado de espírito de alguém prestes a entrar pela avenida sem retorno de uma patologia mental. Também não. É apenas um conjunto de palavras lançadas num monitor que mimetiza a velha folha de papel. Uma modalidade de ocupar o espaço com texto, quando não se tem nada a dizer. Recordo-me do tempo em que escrevia os trabalhos da faculdade, ainda não lhes chamavam ensaios, numa máquina de escrever. Um suplício. Escrever num teclado com um monitor à frente é uma prova do progresso moral do mundo, um desmentido de que as coisas vão do cinzento para o negro. Progresso moral? Não será antes do progresso técnico? Sim, por certo, será uma evidência do progresso técnico, mas a verdadeira melhoria é de carácter moral. Com uma máquina de escrever, quem tinha paciência para fazer e refazer continuamente o texto? Ninguém. Tudo era pesado e lento. Agora, é só apagar e voltar a escrever. Escrever numa máquina era uma tortura, o cumprir de uma pena. Escrever num teclado é uma ascese, o exercício em busca de um texto virtuoso. Então, por que razão estes textos são tão desprovidos de virtude? Pergunta-me o homúnculo que habita na cave da minha mente. Encolho os ombros, bocejo e hesito em responder-lhe. Ele lança-me um olhar desafiador. Respondo: a vida virtuosa é um processo e não um resultado. O importante, continuo, não é que o resultado seja virtuoso, mas que eu me exercite em busca dessa virtude. Ele olhou-me e, sem se rir, afirmou: Sim, claro, o importante não é ganhar, mas jogar. Sim, disse eu, é isso mesmo. Se treinasses um clube meu, despedia-te agora. Seria a única acção virtuosa, acrescentou. Olhei pela janela e o cinzento do dia estava mais escuro.
sexta-feira, 13 de março de 2026
Em A4
Quando recebi a encomenda estranhei a dimensão. Tinha comprado um livro e o pacote apresentava uma configuração que pouco se coadunava com as dimensões habituais. Abri-o e deparei-me com uma obra publicada em A4. Tanto quanto me lembro, nunca tinha visto um livro de Filosofia com essas dimensões. Imagino que, na Europa, a obra – Three Rival Versions of Moral Enquiry, de Alasdair MacIntyre – esteja esgotada, e que a Amazon tenha a permissão de fazer a reimpressão. Foi ela que imprimiu o livro que recebi, segundo nota na última página. Parece tratar-se de uma edição print-on-demand. Com idade que tenho, estou por tudo, mas um livro em A4 quase me ofende. Não se trata de injúria estética, mas moral. Um livro de Filosofia em A4 não é um livro de Filosofia, mas um manual escolar. Ora esta obra de MacIntyre é tudo menos isso. Poder-se-ia argumentar que nem tudo é mau na opção, os caracteres serão benevolentes para olhos gastos. Pura ilusão. São normais, isto é, têm tendência para encolher. As margens são enormes, verdadeiras planícies de uma brancura imaculada. O texto quase se afoga naquele branco. Pior do que isso será o tormento da minha neta. Chegou há pouco, mas já está sob o jugo da Matemática ou da Física ou de qualquer coisa que não tem nome. Submete-se à realidade. Os livros que tem não têm grandes margens em branco, mas, desconfio que, apesar de estarem preenchidos de imagens e textos, é como se estivessem em branco. De vez em quando olho para um e não sei o que pensar. Parece-me um labirinto sem saída, um exercício de distracção para perder os adolescentes que se adentram neles sem um fio de Ariadne. Apesar de coloridos, são de uma brancura acima de qualquer dúvida. Não imaculada, mas de um branco-sujo fruto de um qualquer pecado original. Isso, porém, não são contas do meu rosário. Do meu, é ler um livro em formato A4, meia resma de papel que nem para imprimir já serve. Em vez de ler, vou marcar restaurante para o jantar, para um sítio que a pobre adolescente goste.
quinta-feira, 12 de março de 2026
Instinto terapêutico
Há coisas no mundo que não compreendemos. Estamos mesmo convencidos de que nunca saberemos o seu sentido, pois compreender uma coisa é saber-lhe o sentido. Uma delas, que, sem me atormentar, não deixava de criar em mim perplexidade, foi resolvida hoje, ao ler, na transição da primeira para segunda página do romance A Prova, do argentino César Aira, o seguinte: Ninguém lhe tinha recomendado que andasse a pé; fazia-o por um instinto terapêutico. Quando li “instinto terapêutico” tive uma iluminação e soletrei, não sou de gritar, Eureka! É a chave para um enigma que nasceu de encontrar não poucas pessoas que, não tendo formação na área da saúde, estão sempre prontas a oferecer diagnósticos, receitar terapias e desenhar prognósticos. Este comportamento que sempre me pareceu irracional encontrou agora a chave que lhe confere um sentido. Nasceram com instinto terapêutico. E o instinto é tão forte que elas não conseguem conter o seu desejo de remediar os males de quem delas se aproxima. Isto, porém, é apenas um ponto de vista. O problema pode ser meu e não desses facultativos. Imaginemos que todos vêm ao mundo com instinto terapêutico. Ora, falta-me em absoluto esse miraculoso poder. Sofro de uma deficiência e, em vez de aproveitar as consultas gratuitas, convenço-me de que sou normal; nada me falta. São esses os saudáveis detentores de todos os instintos que sofrem de uma patologia comportamental, convenço-me. Não perderiam nada, digo a mim mesmo, em fazer terapia de grupo para se curarem e deixarem de receitar colírios a torto e a direito.
quarta-feira, 11 de março de 2026
Máquina taxionómica
Ao ler alguns poemas de Rui Lage, do livro Física Espiritual – antologia pessoal, pensei que existem dois tipos de poetas: os sensíveis e os inteligíveis. Rui Lage é um poeta do sensível. Veja-se a primeira estrofe do poema “Eira”: Ateada a palha com isqueiro furtado, / víamos a chama cevar / de puro tédio ou furor inocente, / até nos simularmos sapadores / e apagarmos o incêndio com tábuas / e terra lançada às labaredas. Tudo no poema parte da experiência sensível, de um ver o mundo dado pelos sentidos. Do outro lado da contenda, podemos de imediato mobilizar, como exemplo, a primeira estrofe de “Tabacaria”, de Fernando Pessoa: Não sou nada. / Nunca serei nada. / Não posso querer ser nada. / À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. O sensível e o inteligível, usados como etiquetas classificadoras, têm uma origem nobre: Platão e a dualidade ontológica entre o mundo sensível e o mundo inteligível. Contudo, alguém poder-me-ia acusar de cair numa falácia, a do falso dilema: divides a poesia em duas classes, o poeta ou é metafísico ou é físico, mas isso é redutor. Há pelo menos um outro género de poetas: os que fundam a poesia não na sensibilidade ou no intelecto, mas na imaginação. Perante o acusador, só posso reconhecer a sua razão. O poema de abertura de A Colher na Boca, de Herberto Helder, é um belo exemplo disso, como mostra o início da primeira estrofe: Falemos de casas, do sagaz exercício de um poder / tão firme e silencioso como só houve / no tempo mais antigo. / Estes são os arquitectos, aqueles que vão morrer, / sorrindo com ironia e doçura no fundo / de um alto segredo que os restitui à lama. Poderia dizer as coisas de outro modo. Há poetas do campo, como Rui Lage, poetas da cidade, como Fernando Pessoa, e poetas das ilhas, como Herberto Helder. O campo é um exercício sensorial, a cidade exige um mapa conceptual e as ilhas são devaneios perdidos no mar. Foi o que me ocorreu hoje. Amanhã, pensarei de maneira diferente e proporei uma outra classificação. Sou uma máquina taxionómica.
terça-feira, 10 de março de 2026
Nomes
Às oito a manhã chegou ao fim o primeiro terço deste Março de 2026. Não sei o que dizer destes dez dias e oito horas. Não encontro sequer um nome exacto para lhe atribuir. Byung-Chul Han, na página 142, da tradução portuguesa de Rostos da Morte – Investigações Filosóficas sobre a Morte, escreve: Se Heidegger tivesse tematizado o nome humano em Ser e Tempo, tê-lo-ia definido sem dúvida como simples ferramenta ou simples instrumento de designação que serve para designar um homem. Mas nada mais lhe seria atribuído além dessa utilidade. Fiquei demoradamente a meditar sobre o assunto. Claro, um nome é um designador. Podemos dizer, com Saul Kripke, que é um designador rígido. O meu nome, apesar do anonimato a que me remeto, é um designador rígido: em qualquer mundo possível onde eu exista, o nome continua a referir-se a mim, e não a qualquer outra pessoa ou narrador. Este persistência na designação presente no nome deve fazer-nos desconfiar da perspectiva atribuída a Heidegger. Os nomes tornam-se parte de nós, do modo como somos o que somos e como estamos no mundo. Se tivesse outro nome, seria outra pessoa. Quando pensamos em nome, num primeiro momento, vemo-lo como fruto de uma qualquer arbitrariedade (a escolha de quem no-lo deu), só uma demorada reflexão abre o caminho que permite perceber que sob a capa do arbitrário se esconde algo de mais essencial. Cada um, queira ou não, tem de fazer jus ao nome que ostenta. O nome, e não me refiro aos apelidos, não é imponderável. Tem um peso, uma gravidade, digamos assim. Um equívoco seria pensar que agirmos segundo o nome que nos foi dado é apenas um hábito, uma segundo natureza, como diria Aristóteles. Ele, porém, faz parte da primeira natureza, do ser que também, de modo arbitrário, nos foi dado. Existência e designação têm as suas raízes numa arbitrariedade e é isso que as funde e constitui o ser que somos. O meu problema, porém, é que não encontro um nome para dar ao primeiro terço deste mês de Março. Se o tivesse, saberia o que dizer dele, para comemorar a efeméride. Assim, resta calar-me.
segunda-feira, 9 de março de 2026
Retorno
Hoje, comprei as primeiras amêndoas. Numa confeitaria do Porto, produto da casa. Também têm bolo-rei, mas contive-me. Foi uma despedida da cidade com honra, depois de uma estadia óptima, tudo motivado por um concerto. No regresso, decido almoçar junto a Leiria. Oiço, durante a viagem: Nada de carne. Registo e continuo concentrado na condução, aliás plenamente de acordo com a declaração. Chegado ao restaurante, consultada a carta, sugiro pratos de peixe e pergunto: e então? Que tal o cozido à portuguesa, oiço. Naquele momento, convenci-me de que o cozido à portuguesa seria um prato de peixe, talvez mesmo vegetariano, e respondi: é isso mesmo que me está a apetecer. Não me arrependi. Saí com vontade de regressar. O pior de tudo foi a paisagem. A devastação da floresta. Árvores enormes arrancadas pelas raízes, eucaliptos cortados a meio do tronco, paisagens de uma distopia que prediz o fim do mundo. Depois dos temporais, ainda não tinha passado por aqueles lados. Uma coisa é saber pelas notícias, outra é ver. Isto são lugares-comuns, mas os lugares-comuns são formas de sentir em comum, de partilhar o sentido da dor, também da alegria. Por vezes, são a salvação da linguagem, para que ela possa ainda expressar o que não se pode expressar. E o que aconteceu resiste bastante aos avanços da milícia do vocabulário. Há que aproveitar a banalidade para dizer o que não tem nome.
sábado, 7 de março de 2026
A queda
Deixei cair a noite antes de vir aqui escrever. Para esclarecer o que disse, afirmo que trazia noite nos braços. A princípio era leve, mas quanto mais caminhava mais pesada se tornava a noite. A certa altura, impotente e de braços esmagados pelo peso, deixei-a cair. E ao cair, ela tornou-se um pássaro, depois perdeu o peso e ficou a flutuar sobre a terra. Não me peçam para explicar estas metamorfoses ontológicas da noite. Deixei-a cair, isso basta. Sentado no escritório, olho para a rua e vejo-a. Ainda bem que não casei com ela. Seria uma humilhação infinita, tê-la nos braços a caminho da câmara nupcial e deixá-la cair. Certamente, ela pediria o divórcio ainda antes da consumação do casamento. Não se tratando de um caso matrimonial, o problema é menor. Ela poderá invocar que é um caso de incompetência no serviço de transportes e pedir uma indemnização à empresa transportadora de dias e de noites. Serei alvo de um processo disciplinar e, antecipando o desfecho, de um despedimento por justa causa. Não se trata assim uma cliente tão assídua, que paga a tempo e horas. Se me escapar do ordálio e continuar a transportar a noite, peço-a em casamento. Imagino que, sentindo-se noiva, fará dieta, irá ao ginásio, tornar-se-á mais leve e eu depô-la-ei no chão do mundo com o cuidado com que um homem depõe no leito a mulher amada. Olho pela janela, ela acena-me, sorrio, ela também. Ainda é cedo para anunciar o noivado, sussurra-me.
sexta-feira, 6 de março de 2026
Virtude
Tenho andado distraído e só agora reparei que Março vai no sexto dia. Aliás, um dia pouco propício, inclinado para a ventania e dobrado a um frio que se transfigura em memória de infância. Só naqueles dias havia frios destes, só neles o vento soprava de uma maneira que abria as ruas à incontinência da serra. O relógio informou-me que é altura de me pôr em acção. Respondi que não. Tenho mais que fazer, agora que estou a meditar um dos livros de filosofia do século XX de que mais gosto, After Virtue, de Alasdair MacIntyre. Defende que a nossa linguagem moral está em farrapos, que utilizamos palavras que vêm do passado, mas que, na verdade, não sabemos o que significam, pois o contexto, onde foram cunhadas e faziam sentido, desvaneceu-se. Argumenta que devemos voltar a uma ética das virtudes, tal como foi pensada por Aristóteles e, mais tarde, por S. Tomás de Aquino, mas que isso não é um projecto de elites intelectuais, mas de pequenas comunidades na vida quotidiana. Assim como a pequena comunidade monástica de S. Bento de Núrsia abriu as portas a um novo mundo, essas pequenas comunidades, virtuosas na vida quotidiana, podem ser sementes de um novo mundo. Foi acusado de nostalgia pelo passado, o que poderá ser falso. Contudo, talvez não tivesse percebido como os mecanismos de controlo do pensamento de hoje são infinitamente mais poderosos do que aqueles que existiam nos dias da fundação dos beneditinos. Não será mesmo inverosímil pensar que as pequenas comunidades estarão mais abertas ao vício do que à virtude, mesmo quando elas se propõem à vida virtuosa. A virtude de que ele fala, claro, é a virtude dos gregos, a excelência, tal como nós hoje a entendemos quando dizemos que aquele pianista é um virtuoso. As pequenas comunidades têm menos incentivo para o virtuosismo e são mais permeáveis à viciosidade. Se Março não estivesse no sexto dia e o frio e o vento suspendessem a sua acção deletéria, eu não estaria a escrever coisas destas e, em vez de estar a ler, estaria a fazer outra coisa, que agora não imagino o que seria, mas que nessa circunstância descobriria. Talvez a dormir em frente ao computador ou a gastar gasolina a caminho de um sítio qualquer. O sol dá um ar da sua graça. E mais uma vez me assalta uma dúvida sobre a relação de causalidade existente entre as coisas. Será que o sol foi trazido pelo ensaio do grupo musical da escola aqui ao lado, ou o ensaio é o resultado do sol ter rompido as nuvens para dar uma imagem da sua virtude paternal.