sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Patati patatá

Estes dias têm sido de tal modo ocupados que só me sento no escritório depois de jantar, mais morto do que vivo. Eis uma expressão que parece uma hipérbole, mas que, na verdade, não passa de uma atenuação da natureza existencial de tudo o que é vivo. A frase parece significar que se está mais morto do que vivo numa dada circunstância particular, devido a um cansaço extremo. A realidade, porém, é outra. Qualquer ser vivo — onde os homens se incluem, apesar de nem sempre parecer, assemelhando-se antes a matéria inanimada — está sempre mais morto do que vivo, pois a morte é muito maior do que a vida. Nem vale a pena recorrer à dramatização heideggeriana do Dasein como ser-para-a-morte, o estar projectado para a finitude, patati, patatá. É apenas uma questão contabilística e talvez geográfica, caso se pretenda metaforizar: cada vida é uma minúscula ilha rodeada por um infinito e tenebroso mar de morte, que não devemos confundir com o Mar Morto. Voltando aos dias, o de hoje é só semi-ocupado. Só a tarde estará realmente ocupada, o que me permite ter a manhã para escrever disparates, pensar em coisas inúteis e, sabe-se lá por que razão, sentir o desejo infantil de voltar a ler a Alice no País das Maravilhas e a Alice do Outro Lado do Espelho. O autor, Lewis Carroll, tinha vários defeitos — ser um lógico e um matemático, por exemplo — e uma virtude: a de explorar o ilógico, o absurdo, o non-sense. E, neste caso, a fama compensou a virtude e castigou o vício. Quem se lembra do matemático ou do lógico? Mas toda a gente sabe quem é o autor de Alice, onde ele explora a galáxia do ilógico, do absurdo, do non-sense. Que eu tenha tido este súbito apetite de retornar à infância — mas, confesso, também li as Alices enquanto estudava lógica e me entretinha a fazer demonstrações de teoremas, sabe-se lá para quê — talvez seja o sinal do absurdo em que tenho ocupado estes dias.

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