quinta-feira, 18 de junho de 2026

A vulgaridade da verdade

Está calor. Não é uma frase extraordinária, mas é verdadeira. Talvez exista um conflito entre frases verdadeiras e frases extraordinárias. As verdadeiras expressam-se de modo vulgar, ordinário. As outras, apesar de saírem da vulgaridade e da ordem, são falsas. Será a falsidade que as faz extraordinárias. Assim, quanto mais invulgar for uma frase, mais devemos desconfiar dela. Vejamos a seguinte frase: água é um líquido incolor e transparente, insípido e inodoro, composto de hidrogénio e oxigénio, de fórmula química H2O. Obrigado, dicionário da Porto Editora. Eis uma definição vulgar e, por isso verdadeira. Mais do que isso. Ela tem no seu núcleo aquilo que é essencial a uma frase vulgar e, por isso, verdadeira: ser incolor, transparente, inodora e, acima de tudo, insípida. Fico por aqui, pois esta é um contribuição decisiva, note-se, para o problema filosófico da verdade. Esqueçamos as teorias da verdade como correspondência, da verdade como coerência, da verdade como utilidade prática, da verdade como desocultação, da verdade como consenso, e outras que a falta de fôlego mo obriga a omitir. É verdade toda a afirmação ou proposição vulgar. A vulgaridade é o critério epistémico (que palavra horrível) decisivo. O calor afecta o humor e o raciocínio de qualquer ser humano. Eis uma verdade.

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