Depois de alguns dias sem caminhar, aproveitei uma pequena trégua para deambular pelos sítios do costume. Na verdade, procurava sinais da tempestade nocturna. Durante parte significativa do percurso, nada indicava que um vendaval tivesse passado por aqui. Até que, no cruzamento de duas ruas secundárias, numa zona habitacional, encontrei uma árvore tombada, as raízes fora de terra, o tronco e os ramos deitados na estrada. Contemplei-a durante instantes, como se prestasse tributo a um ser que merece respeito. Segui caminho, procurando outros sinais, mas só aquela árvore, presa na sua inocência, fora vítima da intempérie. Talvez, a esta hora, os serviços municipais já a tenham removido, depois de a esquartejar. Daqui a uns tempos, no seu lugar, será plantada outra. Haverá de crescer, enquanto a presença da que caiu desaparecerá da memória de quem se cruzava com o seu silêncio e a sua sombra. A vida é uma máquina de substituições. Olho pela janela. O bosque da escola aqui ao lado está intacto, também a grua que assiste a um prédio em construção, bem como o anúncio a uma cadeia de hambúrgueres. É um mistério a decisão que faz com que certas coisas caiam e outras se mantenham em pé.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
terça-feira, 27 de janeiro de 2026
Um programa epistémico
Recordemos a resposta que Jesus dá à questão da legitimidade de pagar imposto à autoridade romana: Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. A frase é notável porque tem permitido as mais desencontradas respostas. Na sua natureza lapidar parece que naqueles dias seria claro o que, neste mundo, pertence à autoridade política e o que pertence a Deus. O estranho é que dois mil anos depois essa clareza desapareceu. Qual é o âmbito das nossas dívidas? O que pertence ao poder temporal e o que pertence a Deus? Num mundo laicizado e com clara separação entre os domínios do político e do religioso, o que pertence a cada um tornou-se obscuro. Esta constatação permite pensar duas coisas diferentes sobre a resposta de Jesus. Por um lado, como este texto parece sugerir, terá havido um obscurecimento, ao longo do tempo, daquilo que era claro naqueles dias. Contudo, é possível pensar de uma outra maneira. Também, naquele tempo, a resposta não era mais do que uma pergunta e uma injunção. Perguntava, em modo de afirmação, sobre o que pertence ao domínio da política e o que pertence ao domínio da vida espiritual: O que pertence a César? O que pertence a Deus? A injunção é de, perante as duas questões, investigar o que cabe a cada um. A frase não seria então uma resposta lapidar, mas um programa epistémico que visava descobrir como os homens se devem relacionar com a obediência política e com o sobrenatural.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
Estado de sítio
Estou cansado destes dias de chuva. Um pouco de tristeza não fica mal ao Inverno, mas depressões atrás de depressões tornam-se uma ameaça à saúde mental de qualquer um, mesmo daqueles que têm o Verão por inimigo irreconciliável. O calor enlouquece as pessoas, o tempo cinzento deste Inverno, porém, deprime-as. Caminham pelas ruas como fantasmas à procura do corpo que perderam. Ninguém sorri; são escassas as palavras que se trocam; ninguém tem vontade de erguer os olhos do chão. Que dramático, dizem-me. A realidade não é tão feia quanto é aqui descrita, acrescentam. Encolho os ombros e penso, sem sorrir, que a realidade é sempre pior do que aquilo que se pensa. Talvez devesse ir ler o ensaio de Georg Jellinek sobre o optimismo de Leibniz e o pessimismo de Schopenhauer, para descobrir se tenho motivos para mudar de ponto de vista. Concluo, porém, que não valerá a pena. Lembro-me de que Leibniz defende que vivemos no melhor dos mundos possíveis, o que me parece a mais pessimista das opiniões que se pode ter sobre aquilo que nos é possível. Bocejo. Ir a Lisboa e voltar cansou-me. A capital estava com uma tonalidade fria, como se a vida a estivesse a abandonar e se anunciasse, no horizonte, a aldeia que, no fundo, deseja ser.
domingo, 25 de janeiro de 2026
Sísifo doméstico
Olhei para a secretária e, com uma estranha náusea, vi-a desarrumada. Para que a náusea não se tornasse ainda mais estranha, comecei a pôr as coisas nos respectivos lugares. Em breve, o caos tornou-se um cosmos. Senti-me, então, como um deus. Não um deus criador, mas uma divindade ordenadora. O mais correcto seria dizer: um deus arrumador. Portanto, um deus de segunda ordem, que tem de fazer os trabalhos servis, usando as mãos para que tudo volte para onde deve estar. Talvez o sentimento de ser-se um deus arrumador seja hiperbólico. Arrumador, sim; deus, não. Os deuses não arrumam, pois a sua presença impõe, por si só, uma ordenação das coisas que não permite sequer melhoria. É perfeita. Talvez, pensei, não passe de um empregado doméstico, cuja função é arrumar aquilo que desarrumo, e desarrumo para ter de arrumar, uma forma de manter a minha função como necessária, e encontrar um emprego que me permita a ilusão de ter serventia nesta vida. Vejamos, duas caixas de óculos, uma chave-de-fendas, uma garrafa de água, um aparelho para mediar a tensão arterial, um scanner, uma caixa de auriculares, dois fios para carregar dispositivos digitais, três pilhas de livros e uma coluna. Isto, para além do portátil, do monitor a ele ligado, do rato e do teclado onde escrevo. Agora que tudo isso está no seu lugar, sinto uma sensação de angústia perante o vazio que tomou conta do espaço. O melhor é trazer tudo de volta, deixar as coisas ao acaso. Quando sentir uma náusea, torno a arrumar, até que a angústia do vazio volte. Cada um é Sísifo como pode.
sábado, 24 de janeiro de 2026
Vita brevis
Enquanto contemplo, a partir da cadeira do escritório a paisagem exterior, um bricabraque de sensações visuais, onde os devaneios humanos se misturam com pequenas erupções da natureza, penso na distância que há entre os pequenos contos e as grandes narrativas, romances com muitas centenas de páginas. O conto curto é um tributo à vida breve, o romance palavroso, por melhor que seja o romancista, representa um exercício de desconformidade com a vida. Por mais anos que um ser humano viva, a sua é uma vita brevis. Não passa de um vislumbre do que poderia ser uma vida que obedecesse ao desejo. O conto detém-se na vida como ela é, o romance é fruto de um desejo, o desejo do que não se tem, uma compensação para o escasso tempo que é dados aos homens. Ontem, numa crónica de jornal, alguém lamentava o peso que, nos dias que correm, a narrativa romanesca tem. Engordou de tal modo que quase fez desaparecer sob o seu corpo outras formas de literatura, a poesia e o teatro. Imagino que isso seja uma necessidade da espécie, nesta era. Será isso o que pensam as editoras e as livrarias. É o que o mercado lhes diz. Numa história jocosa, alguém se ria daqueles que afinam o gosto gastronómico pela bitola de especialistas em pneus. O mesmo riso se deve aplicar aos que afinam o gosto literário pelos especialistas em mercados. Nisto, porém, não há censura nem aos especialistas em pneus nem aos especialistas em mercados. Eles distribuem as suas estrelas com denodo e seriedade. A vida, porém, é outra coisa e, ainda por cima, breve, apesar da arte ser grande: ars longa, vita brevis.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
Écloga IV
Chegam-me aos ouvidos os ecos do ensaio do grupo musical da escola aqui ao lado. A música só pode ser a de professores que a idade pôs fora da profissão. Rock dos anos sessenta e setenta do século passado. Eles insistem, semana após semana, nas mesmas canções, talvez busquem uma perfeição que o infinito trará. Sobre elas, agora, ouve-se o alarme de um carro. A sonoridade é mais contemporânea, pois também os alarmes vão mudando o modo como retinem, se alguma coisa incomoda o veículo onde foram colocados. Estes devaneios e os raios de sol que perfuram as nuvens escuras do dia distraem-me da leitura da Écloga IV de Virgílio, aquela que anuncia a vinda de um rei salvador, que porá fim à Idade de Ferro, era de degradação, injustiça e imoralidade, e restaurará a Idade de Ouro, esse tempo primordial, de perfeição, harmonia e abundância, tempo de onde o sofrimento e o trabalho estavam excluídos. Estas Idades – Ouro, Prata, Bronze e Ferro – fazem parte da mitologia da antiguidade greco-latina. Estão antepostas, mesmo que não se dê por isso, à nossa cultura e, de alguma forma, servem-lhe de fundamento. Continuam a chegar-me aos ouvidos aquelas velhas canções e descubro que, aqueles músicos, também eles procuram a sua Idade de Ouro. Nada os inclina para as sonoridades de hoje – desconheço quais sejam – que lhes soam como degradas e corrompidas e tentam retornar, sem sucesso, às Idades de Ouro e, por vezes, de Prata das suas existências humanas, demasiado humanas. É uma revivescência biológica, um fascínio pela adolescência, mas a cada um a sua Idade de Ouro. O pior saiu em sorte aos que, como este narrador, nunca viveram na Idade de Ouro seja do que for. Entraram neste mundo demasiado tarde, quando o ferro se desfazia já em ferrugem, um processo que parece não ter fim. Que ficção tão dramática, sussurra-me o esboço de consciência que me resta. Concordo. Também podia discordar, mas valeria de alguma coisa alimentar, nesta sexta-feira, uma discórdia comigo mesmo? Não, há que levar o dia até ao fim. A paciência é uma grande virtude.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2026
Cavalo de Tróia
Ainda na primeira página de Le Cheval de Troie, Paul Nizan escreve: Era o tempo que precedia o Verão dos astrónomos: era já Verão. O romance foi publicado em 1935, ainda não se falava – imagino que não – de aquecimento global e de alterações climáticas. A escritor regista, antes, uma perpétua revolta da natureza contra a razão. O Verão racional dos astrónomos e o que a natureza propicia não coincidem. Nesse desajuste, existe uma probabilidade de compreender o mundo como dotado de liberdade. Esquiva-se aos ditames da razão e faz o que lhe apetece. Antecipa ou adia uma estação só porque resolveu juntar uma série de condições e deixar outra série de lado. Lá estás tu a antropomorfizar, diz-me a minha mente. Ela é pouco imaginativa e essa peculiaridade impede-a de ver as coisas como elas podem ser. Muitas vezes, tenho de recorrer a outra mente, mas não sei de quem, para ultrapassar os limites com que a minha foi dotada. Essa outra diz que a minha suposição é muto plausível. Dotar a natureza de vontade e livre-arbítrio não é uma antropomorfização, mas descrever a realidade. E quando se atribui livre-arbítrio ao homem está-se apenas a fazer uma naturalização. As propriedades que, supomos, nos diferenciam, não nos diferenciam, apenas mostram que somos seres da natureza e que as nossas características mais próprias não nos pertencem, mas são uma partilha generosa que é feita connosco. Seja como for, este ano, o Inverno da natureza e o dos astrónomos coincidem. Está um dia invernoso, com frio e chuva. Um céu cinzento lança um véu taciturno sobre a cidade. Talvez para cobrir o Cavalo de Tróia que está cá dentro, mas que ainda não vemos. É sempre assim que Tróia é derrotada: não vê o que está diante dos olhos.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
Um rol de mentiras
Há pouco, numa outra circunstância, escrevi a expressão o borboletear do amor. Não o devia ter feito. A expressão é insípida e o amor apenas borboleteia na Primavera, coisa de que estamos longe. No Inverno, como um urso, o amor hiberna, poupa energias, prepara-se para a sagração da Primavera, para o ritmo frenético das bacantes, para os decretos de Diónisos. Por agora, reina Apolo, com o seu olhar glacial e a altivez de quem não sofre – pura ilusão – dos desmandos do corpo. Não foi o amor que me levou, antes da hora de almoço, a borboletear pelas ruas. Foi uma atenção de S. Pedro que suspendeu a chuva e me enviou uma mensagem privada. Dizia-me: se queres ir andar, põe-te a caminho. Tens meia-hora para vagueares pelas ruas. Depois, acrescentava, mando chuva. A Terra está demasiado suja e a água que tem caído ainda não foi suficiente – nem lá perto – para a lavar. Note-se que os travessões para isolar nem lá perto não foram da minha lavra. Vinham mesmo na mensagem do santo. E eu aproveitei a meia hora e pus-me a caminho. Cheguei a casa instantes antes de recomeçar a chover. Ergui um polegar para o céu. S. Pedro piscou-me o olho e disse-me: um dia destes, quando me cansar de mandar chuva para braquear a Terra, vamos beber um copo. Claro, respondi. Ele entrou para o seu gabinete de CEO do clima e eu sentei-me a escrever este rol de mentiras.
terça-feira, 20 de janeiro de 2026
Generalizações precipitadas
Por referência do filósofo escocês Alasdair MacIntyre, um dos mais influentes pensadores morais e políticos da segunda parte do século XX e início do XXI, comprei um romance de ficção científica. Trata-se de Um Cântico a Leibowitz, de Walter M. Miller, Jr. Encomendei-o online e levantei-o numa loja física, perto de casa. Várias coisas me espantaram no livro e nenhuma delas é o conteúdo. Em primeiro lugar, a editora, Publicações Europa-América. Refiro-me à sua primeira encarnação e não a uma segunda, pós 2023, salvo erro. Não esperava comprar um livro novo da antiga Europa-América. O livro não é novo, apesar de ser em primeira mão. Foi publicado, na colecção Nébula, em Maio de 2000. Portanto, está a caminho dos 26 anos. Entre a capa e a primeira página, encontrei intacto o destacável destinado ao livreiro, que serviria para este controlar as vendas e pedir reposições. Claro que já ninguém destaca os velhos destacáveis. A surpresa maior foi descobrir que os livros estão mais baratos do que naquele tempo. Como acontecia em grande parte das editores, também a Europa-América colocava um postal RSF (Resposta Sem Franquia). No livro de que me ocupo havia também um e que propunha a compra das obras de JRR Tolkien. Ora, cada volume de O Senhor dos Anéis custava 3 800$00, o equivalente a 19 €. Hoje, as mesmas obras custam 23,90€. Contudo, se o preço dos livros acompanhasse a inflação em Portugal, cada volume de O Senhor dos Anéis deveria custar quase 32€. Dito de outra maneira, os livros estão 25% mais baratos do que no ano de 2000. Se me perguntarem se esta conclusão é boa, eu responderei que não. Resulta de uma falácia da generalização precipitada. Pego num caso e, por indução, generalizo para o universo dos livros. Não se trata, contudo, de a minha asserção ser falsa. Talvez seja verdadeira, mas eu não o sei. A justificação que dou está longe de poder, só ela, arcar com o peso da conclusão. Portanto, eu não posso afirmar que sei que os livros estão hoje 25% mais baratos do que há 26 anos, mesmo que isso seja verdade. Hoje sou um narrador lógico apostado em falácias, coisa que o escocês citado acima me reprovaria, por certo. Se o fizesse, eu perdoar-lho-ia, não porque ele tivesse razão, mas porque escreveu uma das mais belas obras de Filosofia do século XX, After Virtue: A Study in Moral Theory (1981).
segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
Uma guerra
Lidar com os livros tornou-se um trabalho difícil. Uns, sem vergonha, diminuem a letra para zombar com os olhos. Outros, de onde o pudor e a contenção foram banidos, engordam, engordam de tal maneira, que mostram aos braços a falta de ginásio. Amigos de outros tempos, eles estão a tornar-se inimigos declarados, como se tivessem declarado guerra, apenas com o fito de humilhar. Não compreendo qual é o seu propósito. Noutros tempos, qualquer livro tinha por objectivo ser lido. Hoje, isso foi substituído por um desiderato estranho, o de me rebaixar, mostrando-me a falência do corpo e, esperam eles, do espírito. Tento negociar com eles. Riem-se. Peço-lhe que aumentem a letra. Respondem que, se o fizerem, ficam muito pesados, e eu não tenho braços para os segurar. Se lhes peço para emagrecerem, dizem logo que com letras tão magras, não serei capaz de ler uma linha. A solução, digo-lhes, é substituir livros em papel por livros electrónicos, onde se pode ter o melhor de dois mundos. As letras aumentam e os livros não engordam. Começaram a soprar como gatos assanhados. Encolhi os ombros. Perante a minha indiferença, tentaram outra táctica: e o prazer em tactear o papel, a contemplação das capas, etc., etc. Não me comovem, respondi, e, acrescentei, chegou a altura de pouparmos as árvores. Perante a minha firmeza, dois desmaiaram e uma pilha de uns trinta desabou. Agora, arruma, ouvi. Arrumei.
domingo, 18 de janeiro de 2026
Sol e urnas
Um dia de sol, Deo Gratias! Já há muitos dias que não caminhava. Aproveitei a boa disposição de S. Pedro. Saí de casa e antes de me pôr a caminhar, dei um salto ao pavilhão da escola aqui ao lado e depositei, depois das formalidades, o voto na urna. Enterrei-o, mas ele ressuscitará anónimo depois das dezanove horas para ser contado com todos os outros que, como ele, foram sepultados naquela caixa de esmolas cívica. Senti pena de quem estava nas mesas a assegurar o processo. Um pavilhão enorme, gélido, sem possibilidade de aquecimento comportável. Também eu estive em mesas de voto, mas isso foi há muitas décadas e o pavilhão – também era um pavilhão escolar – tinha chão de madeira e uma temperatura amena. Estar ali, naqueles dias, era uma festa, pois vivia-se um tempo novo, inesperado, feito de expectativa, como se fosse possível o advento de um mundo novo. Hoje não há expectativa de que chegue um mundo novo, esse Godot que atormenta as mentes fantasiosas e inexperientes. Por isso, para além de piedade pelo frio, senti uma dívida de gratidão por quem ali estava, independentemente das motivações. Saí do pavilhão e pus-me a caminhar. O mais espantoso foi perceber que, neste domingo, havia muito mais gente a fazer caminhada do que nos outros. O bom tempo chamou as pessoas e elas responderam. Só não encontrei os gatos que, numa certa rua, costumam estar a apanhar sol. Continuavam recolhidos, temendo que a luz que viam fosse apenas a fantasia de um grande simulador, o efeito do desejo humano, não a pura realidade. São mais sensatos do que os homens que esperam a luz de mundos novos.
sábado, 17 de janeiro de 2026
Volubilidades
Durante a manhã o Sol – melhor, a luz solar – dignou-se mostrar o rosto para quem vive aqui. Brilhou, faceto e risonho. Agora, porém, escondeu-se atrás de umas nuvens escuras e ameaçadoras. A conclusão inevitável diz que a natureza é volúvel. Não sabe o que quer e, ao contrário das nossas expectativas, faz o lhe apetece, enquanto nós protestamos ou agradecemos, caso lhe tenha dado na veneta contemplar-nos com um ligeiro agrado. Por aqui ninguém diz veneta, mas, antes, vineta. Certamente, um linguista explicaria o caso, coisa que não consigo. Olho pela janela. Ao longe, o hospital apresenta-se de cara lavada, depois de ter sido pintado. A brancura actual contrasta com o cinza-negro dos fungos que cobriam as paredes. Mais perto, o bosque da escola vizinha ainda não cresceu o suficiente para tapar um anúncio luminoso de uma cadeia de hambúrgueres. Aguardo essa hora de ocultação. Nada contra as cadeias de fast-food, cada um come o que quer ou o que pode, mas perturba-me um pouco a poluição visual. Não tarda, terei de sair para um encontro com a realidade. É desagradável, mas não podemos viver continuamente num mundo sem realidade, um mundo sofredor de uma falha ontológica capital, um mundo que não exista. Por isso, por muito que custe, uma vez por outra há que entrar pela realidade dentro e lidar com ela, como se lida com um animal selvagem. Este é o meu problema, nunca lidei com animais selvagens e mesmo com os domésticos, não tenho grande currículo. Também é verdade que um narrador não tem currículo de coisa alguma, a não ser das narrações que faz. E essas são o que são. Não há como uma tautologia para concluir um texto. Pelo menos, aos sábados.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
Parágrafos e ocorrências
Deverias escrever de outra maneira. Por exemplo, usar parágrafos. Não me agradou o imperativo – o deverias – e, muito menos, a sugestão. Uma regra desta casa é não haver parágrafos. Os parágrafos existem para organizar ideias, separando-as e hierarquizando-as. Contudo, estes textos não têm ideias. Como é que se pode separar e hierarquizar aquilo que não existe? Não pode. Se não são ideias, então o que é aquilo que ocorre nestes textos? Franzi o sobrolho e respondi: isso mesmo, ocorrências. Destes textos pode dizer-se aquilo que nos noticiários é dito após um dia ou uma noite de temporal: a protecção civil contabilizou mil quatrocentas e vintes e três ocorrências entre as dezoito horas de ontem e as doze horas de hoje. A diferença é que estes textos não são tempestuosos, por isso têm muito menos ocorrências. Há dias que só têm uma ocorrência e, em outros, amontoam-se três ou quatro ocorrências, o que está longe de ser digno de referir como tempestade. Ideias implicam uma delimitação e uma clareza daquilo que é pensado e transposto pela linguagem para o espaço público. Ora, naquilo que aqui é escrito não há delimitação, nem clareza, nem distinção. Há impressões, sugestões nascidas na imaginação, na memória ou na sensibilidade – isto é, nos sentidos – mas não há argumentos, tão pouco conceitos. Ocorrem frases como ocorrem ventanias. Ocorrem palavras como ocorrem trovões e relâmpagos. Só isso e para isso é dispensável qualquer parágrafo. Nada do que aqui é dito merece uma hierarquia e tão pouco uma organização. As palavras amontoam-se ao acaso, mas o acaso, sendo benévolo, faz parecer, por vezes, que elas se organizam em frases e que estes têm sentido. Uma aparência.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2026
Efemérides e tautologias
Como foi possível a alguém tão dado a efemérides ter passado em branco uma de grande dimensão? Mistérios que se ocultam na cave da consciência. A efeméride só me chegou à mente quinze dias depois, exactamente hoje. Deve haver algum problema nas vias de comunicação. A efeméride cumpriu-se no final do dia 31 de Dezembro de 2025. Está completo o primeiro quartel do século XXI. Já lá vai um quarteirão de anos e, para ser fiel à verdade, o mundo não parece ter melhorado. Pela minha parte, só posso ter piorado. Uma prova disso é ter usado o termo quarteirão. Não se aplica aos anos, mas, por exemplo, às sardinhas. Quero um quarteirão de sardinhas. Digo isto, mas sem experiência própria. Nunca comprei um quarteirão de sardinhas e, tanto quanto consigo recordar-me, nunca comprei sardinhas. A razão pela qual o quartel se aplica aos anos e o quarteirão às sardinhas é-me desconhecida, mas penso que as sardinhas não ficarão em pé de guerra se dissermos, na banca do peixe, «dê-me um quartel de sardinhas». Também os anos não passarão a nadar mais depressa se se disser o primeiro quarteirão do século XXI. Que modo tão estúpido de comemorar a efeméride do primeiro quartel do século XXI, pensará, e com razão, quem ler estas linhas. Quando o talento é escasso e o dia está sombrio, chuvoso, pouco amigo de ideias brilhantes, uma pessoa escreve o que escreve — passe a tautologia — e a mais não é obrigado. Além de efemérides, o autor — mas não eu, o narrador — tem uma inclinação por tautologias. Crê firmemente que toda a coisa é igual a ela própria: A é igual a A. «Pão, pão, queijo, queijo» é uma dupla tautologia, e quem a profere sente-se ufano, senhor de uma clareza — e, por certo, de uma clarividência — que lhe incha o ego e o afoga no mar morto do orgulho. Por mim, o pão é, ao mesmo tempo, não pão, bem como o queijo é não queijo. Também as efemérides contêm em si as não efemérides e, por isso, passam despercebidas. O mau tempo continua. Estou a precisar de fazer caminhadas, para clarear o espírito e não escrever o que escrevo. Chove!
quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
Circunstância
Por um acaso, como tantas vezes me sucede, esbarrei num artigo de José Régio, de Janeiro de 1947, no Mundo Literário. A leitura é penosa, não pela qualidade de escrita de Régio, tão pouco por ser um texto que caminha para os oitenta anos. A pena deriva de uma constatação simples: um indisfarçável provincianismo. Ainda por cima, esse provincianismo não é uma marca do autor, mas de um país. Aquilo seria o que de melhor se faria neste canto esquecido da Europa. Apesar de ser um artigo sobre literatura e crítica literária, o país que éramos, com as suas tricas irrelevantes e a sua pequenez, estava ali todo, como se cada linha fosse o símbolo de um ensimesmamento limitante a que se estivesse irremediavelmente condenado. E Régio não era um escritor de segunda ordem. Pelo contrário. Numa obra de 1914, o espanhol Ortega y Gasset escreveu a sua mais célebre frase: Eu sou eu e a minha circunstância; e, se não a salvo a ela, não me salvo a mim. O provincianismo que se manifesta no texto de Régio – e em tantos outros da época ou posteriores – é que Régio era ele e a sua circunstância, e esta tinha mais peso no que escrevia do que o próprio autor. Régio não salvou a sua circunstância, mas o problema não residirá tanto nele, mas na ilusão que pulsa na frase de Gasset. Ninguém salva a sua circunstância. Interage com ela, mas é-se mais paciente do que agente nessa relação. Um dia – por vezes, como se fosse um milagre – a circunstância muda e os homens entoam loas a si mesmos, imaginando-se como agentes dessa mudança. Uma fantasia. Melhor explicação seria dizer que a velha circunstância se cansou de si mesma e deu lugar a uma outra. Voltando ao texto de Régio: Eis por que até certo ponto me surpreende o relativo silêncio mantido à roda de dois livros notáveis, — dos mais notáveis que em seu género têm aparecido entre nós há um bom par de anos. Refiro-me a «O Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra», de José Marinho, e ao primeiro volume das «Reflexões sobre o Homem», de Augusto Saraiva. Passados estes anos, poucos sabem quem foi José Marinho e ainda menos Augusto Saraiva. A notabilidade dos autores vinha mais da circunstância do que deles próprios, e a circunstância era inequivocamente periférica, provinciana, a circunstância de um pequena tribo esquecida junto ao oceano.
terça-feira, 13 de janeiro de 2026
Viajantes perdidos
Em Erfahrung und Armut (Experiência e Indigência, na tradução de João Barrento), Walter Benjamin, a certa altura, como estratégia retórica, coloca uma série de questões. Deixemos a série de lado e fiquemos com uma, e apenas uma: um provérbio serve hoje para alguma coisa? O pensador alemão sabe que, já no seu tempo (1892–1940), não servia para grande coisa. Hoje serve para menos, muito menos, pois o grau de mudança é muito mais vertiginoso. Um provérbio é uma condensação de uma sabedoria antiga, que se transmitia de geração em geração. Isto pressupunha que as variações na vida quotidiana eram muito lentas e que a própria moralidade era eterna. A contínua revolução tecnológica torna obsoleto o saber de ontem e, como fruto disso, cria a ilusão de que as regras morais são elas mesmas substituíveis por novas, mais adequadas ao espírito do tempo. Ora, isto torna-nos não apenas desenraizados, sem contacto com os que nos precederam, mas exploradores de um mundo que não compreendemos e que nunca viremos a compreender, pois dele foi erradicada a lentidão que nos dava a aparência de que tudo era permanente. Somos, ao mesmo tempo, exilados num país estrangeiro e viandantes perdidos no caminho, peregrinos que desconhecem a que santuário se dirigem ou se existe mesmo um santuário.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2026
Guardas-nocturnos
As horas deslizam tão depressa que nem se dá por elas. Ainda há pouco era manhã e, agora, a noite cerrou-se sobre a cidade, fechou as portas por onde os raios solares entravam e entregou o território aos guardas-nocturnos. Não se trata, porém, de guardas-nocturnos de carne e osso, mas de anjos que, sem ocupação momentânea, vigiam, do cimo dos prédios, o que se passa pelas ruas. Não se pense que eles, apesar de o poderem fazer com a sua terrível visão, perscrutam o que acontece dentro de casa, as desavenças, os dramas, as horas de felicidade. Tão pouco as cenas de amor, onde os corpos se entregam numa ânsia de se devorarem, se ânsia ainda existe, os atraem e os torna voyeurs, apesar da mal disfarçada curiosidade que sentem por aquilo que tanto atormenta o espírito dos humanos. Limitam-se a vigiar as ruas, a certificarem-se de que a noite está ali bem aconchegada, a ver deslizar, também eles, as horas, para que venha a aurora e uma outra missão lhes seja entregue. Pois os anjos não dormem.
domingo, 11 de janeiro de 2026
Cinzento sobre cinzento
Como o mundo, o domingo está triste e cinzento. Não é que falte colorido ao mundo. Pelo contrário, existe nele uma paleta de cores exuberante, mas, quando todas essas cores que por aí pululam chegam ao cérebro, por uma obscura alquimia, transformam-se num cinzento pastoso e ameaçador, o prelúdio das trevas. Quanto ao domingo, este é muito menos dramático. É cinzento porque lhe falta luz, e uma chuva fina, sem intermitências, cria uma barreira sólida ao papel dos raios solares. Para que a preocupação não desça sobre mim, escolho o cinzento do domingo ao cinzento do mundo. Assim, posso fazer melhor a digestão do almoço, enquanto o mundo caminha preso a uma lógica que parece estar a tornar-se imparável. Uma lógica que não anuncia o melhor dos mundos possíveis. Pelo contrário. Tenho de sair e enfrentar o clima, embora o sacrifício não seja grande ou sequer exista. É verdade que não me apetece levantar do sítio onde escrevo, mas há coisas piores na vida. O mais extraordinário, porém, é que, por piores que sejam as coisas, sempre haverá outras piores, num declive escorregadio infinito. Dir-me-ão que, também perante as coisas boas, sempre se descobrirão outras melhores, numa escala infinita. A grande diferença é que, para atingir as piores, é só uma questão de descer, enquanto, para alcançar as melhores, há que subir. E subir é infinitamente mais difícil do que descer. Ite, missa est.
sábado, 10 de janeiro de 2026
Habitus
Passado mais de um ano da morte da mãe, estive a desfazer a casa dos pais. A frase surpreendeu-me. A surpresa conduziu-me a uma pergunta: Que tipo de narrador sou? Um narrador tem uma existência meramente literária, respondo-me. Não existe qualquer narrador de carne e osso. São todos seres imaginados, criações de imaginações delirantes. Sendo assim, a frase inicial é falsa. A surpresa, porém, está na forma do enunciado, a ausência de pronomes possessivos para mãe e pais. Um habitus linguístico que é, ao mesmo tempo, um habitus social. Como se o narrador pertencesse a uma certa classe social que simula o afastamento dos pais para parecer que está a fazer um relato objectivo, ocultando a dimensão afectiva presente no uso dos possessivos. Contudo, esta objectividade é um dispositivo retórico que visa a hiperbolização do pai ou mãe referidos. Essa mãe ou esse pai deixam de ser mãe ou pai particulares, limitados e finitos, mas, através da enunciação, passam a ser mãe e pai universais, dotados de um poder de fecundidade que os tornam pais de toda a humanidade, uma encarnação de Adão e Eva, mas infinitamente mais potente. Enquanto os membros das classes populares possuem pais próprios, os das elites sociais – fundamentalmente, as letradas e tradicionais – têm de partilhar a filiação com toda a humanidade, sem que isso, porém, tenha impacto na herança. Tem-se o melhor dos dois mundo: uma parentalidade universal e uma herança particular. Caso me perguntem – o que não acontecerá – o que me levou a escrever isto, a única resposta séria é dizer que já não me lembro. O esquecimento não é um alibi que permite escapar a perguntas indelicadas, mas uma deficiência ontológica, trazida pelo tempo, da memória. Isto no caso de a memória possuir ser. Um dia, espero ter paciência – infinita, sublinhe-se – para suportar, enquanto narrador, as idiotices que o autor me obriga a assumir como minhas.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2026
Patati patatá
Estes dias têm sido de tal modo ocupados que só me sento no escritório depois de jantar, mais morto do que vivo. Eis uma expressão que parece uma hipérbole, mas que, na verdade, não passa de uma atenuação da natureza existencial de tudo o que é vivo. A frase parece significar que se está mais morto do que vivo numa dada circunstância particular, devido a um cansaço extremo. A realidade, porém, é outra. Qualquer ser vivo — onde os homens se incluem, apesar de nem sempre parecer, assemelhando-se antes a matéria inanimada — está sempre mais morto do que vivo, pois a morte é muito maior do que a vida. Nem vale a pena recorrer à dramatização heideggeriana do Dasein como ser-para-a-morte, o estar projectado para a finitude, patati, patatá. É apenas uma questão contabilística e talvez geográfica, caso se pretenda metaforizar: cada vida é uma minúscula ilha rodeada por um infinito e tenebroso mar de morte, que não devemos confundir com o Mar Morto. Voltando aos dias, o de hoje é só semi-ocupado. Só a tarde estará realmente ocupada, o que me permite ter a manhã para escrever disparates, pensar em coisas inúteis e, sabe-se lá por que razão, sentir o desejo infantil de voltar a ler a Alice no País das Maravilhas e a Alice do Outro Lado do Espelho. O autor, Lewis Carroll, tinha vários defeitos — ser um lógico e um matemático, por exemplo — e uma virtude: a de explorar o ilógico, o absurdo, o non-sense. E, neste caso, a fama compensou a virtude e castigou o vício. Quem se lembra do matemático ou do lógico? Mas toda a gente sabe quem é o autor de Alice, onde ele explora a galáxia do ilógico, do absurdo, do non-sense. Que eu tenha tido este súbito apetite de retornar à infância — mas, confesso, também li as Alices enquanto estudava lógica e me entretinha a fazer demonstrações de teoremas, sabe-se lá para quê — talvez seja o sinal do absurdo em que tenho ocupado estes dias.