terça-feira, 15 de outubro de 2019

Frugalidade

Até a frugalidade parece-me um excesso. Foi o que pensei depois de almoço. Não vivo num tempo de coisas mínimas, mas numa circunstância em que devo minimizar-me. Diminuindo-me, mais fácil será desaparecer. Foi a isto que um antigo ateniense chamou aprender a morrer e a estar morto. Era uma escola rude, a que não faltavam inimigos. Não é de agora o desejo de maximização, apesar de nenhuma época que não a nossa ter insuflado tanto os pequenos egos. Oiço, lá em baixo, risadas alarves, saídas da boca impenitente da adolescência. Essa, compreende-se, é pouco dada ao minimalismo, entregando-se antes ao exercício da hipérbole. Deveria escrever, passou-me pela cabeça, como se escrevia nos antigos telegramas. Chego amanhã stop Espera porta sul stop. E em tudo isto havia a beleza da contenção, do exercício da economia, da redução do discurso à informação e ao mandamento. Pena que não exista um florilégio da escrita telegráfica. Que profissão mais nobre pode haver do que a do antigo boletineiro, que voava levando em mão palavras urgentes e decisivas? Quando se fala do crepúsculo dos deuses é do desaparecimento de gente como os boletineiros, esses hermes da modernidade, que falamos. Como se vê a frugalidade das palavras não é virtude que pratique.

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Um fingidor

Onde estou avisto duas acácias bastardas, mas não estou certo da denominação. Ainda não lhes vejo sinais a anunciar a caducidade das folhas. Os ramos agitam-se, balançam, enovelam-se, batidos por um vento invisível, empurrado pelo calcário da serra. Apetecia-me passar a tarde a ler, mas as minhas ocupações são incompatíveis com leituras. Há que domesticar os apetites. Se cultivar a estultícia, estarei de acordo com o que se me exige. Olho as árvores, tento focar a visão e distinguir as folhas, mas o que vejo são manchas de verde em metamorfoses contínuas, movidas por um jogo de claros e escuros tremeluzentes, como se a realidade saísse de dentro de um quadro impressionista para invadir a vida e torná-la mais fugidia. Muitas vezes faço a apologia do rigor e da precisão, mas sou um fingidor, o melhor é não me dar crédito. Do que gosto mesmo é do vacilar das fronteiras, do desgaste das estremas, para que tudo se contamine, seja continuamente outra coisa e eu possa ser coisa nenhuma. Desloco-me para dentro da tarde, fecho a porta atrás de mim e escondo-me da indiscrição do meu próprio olhar.

domingo, 13 de outubro de 2019

O Rei Recaredo

Contaminamo-nos facilmente. Mergulhei um rectângulo de chocolate no café. Quando dei por mim tinha as mãos manchadas de castanho. Se as manchas alastrarem, o que farei? Este pensamento risível foi afastado pelo ranger do baloiço no parque infantil, e numa associação ociosa de palavras passo de ranger para Recaredo, o filho de Leovigildo e rei dos Visigodos, perdendo-me em aliterações para compor a prosódia. Deveria ser um mundo esplêndido aquele que tais nomes descobria para distribuir por quem deles necessitava. Olho as mãos e as manchas de chocolate continuam à espere que me levante e as vá lavar, mas não posso abandonar o rei nesse momento difícil, em que o vejo converter-se da heresia ariana à fé de Roma. Convertido o rei, a fé contaminou o reino visigodo. Tenho de vigiar a história para que ela chegue até aos meus dias e eu possa escrever o que estou a escrever. Tremo só de pensar que Recaredo, abandonado a si mesmo, se arrepende e volta ao arianismo. Tudo seria diferente e eu não estaria aqui com as mãos sujas de chocolate nem a criança que lá em baixo se deixa ir embalada pelo estrugido mecânico que não se cala. O domingo progride dentro de mim. Alguém, suponho que o autor destas palavras, diz-me em tom imperativo: lê isto. Nem olho. Respondo: não leio. Hoje é o dia do Senhor, vou meditar na conversão de Recaredo e lançar um anátema ao arianismo. Servo, posso ser, mas não é voluntária a minha servidão. Agora vou lavar as mãos.

sábado, 12 de outubro de 2019

Tornar-me Domingo

Adicionei ao meu eReader um livro do príncipe Piotr Kropotkin. Nunca tive uma alma dada à rebelião contra a existência do Leviatã. Para seres que albergam dentro de si um catálogo ilimitado de monstros, não me parece uma ideia sensata libertá-los do temor pelo monstro bíblico. Sei que almas sensíveis e outras que nem tanto gostam de se afirmar anarquistas, pelo menos ao sábado à tarde. Vou ler o livro como se lesse um romance, mas antes disso terei de atravessar a cidade para uma visita. Melhor que ser anarquista aos sábados à tarde é ir aonde nos esperam e temos o dever de ir. O vento não pára e as persianas da janela chocalham, enviando-me mensagens num código que não consigo decifrar. Também não será mentira se se disser que muitos são os códigos para mim indecifráveis. O autor destes textos poderia ter-me feito um pouco menos limitado, conceder alguma graça e deixar-me ser, aqui e ali, um pouco mais inteligente. Não quer. Um dia ainda me revolto e, contra ele, torno-me anarquista, daqueles que habitavam o mundo de O Homem que Era Quinta-Feira. A minha ambição será então tornar-me Domingo.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

O ranger do dia

Parecem gritos de aflição que um animal lança em desespero para partilhar a dor que lhe dilacera o ânimo. Uma ilusão, sei-o bem, pois não é mais que o ranger rouco e angustiado do baloiço que vai e vem, numa repetição intérmina, no parque infantil lá em baixo. Não começa bem a tarde de sexta-feira. Leio um poema e nele encontro araucárias e magnólias, mas se olhar pela janela apenas dou conta de cedros e pinheiros. Ao longe descortino um cipreste. Há tempos, um amigo vindo a esta terra pela primeira vez perguntou-me por que razão havia tantos ciprestes nos campos. Não soube o que lhe responder e a partir desse dia reparei que os havia por aqui mais do que noutros lados. Somos cegos para aquilo que vemos, foi o que me ocorreu, agora que o ranger doloroso se apaziguou. Se me habituar a ele, deixarei de o ouvir. Sinto o dia deslizar. Range como se gritasse dorido pelo punhal do entardecer que lhe abre o peito. Devia eliminar comparações e metáforas, conjecturo, mas o autor não mo permite. A nossa inimizade progride. Penso no punhal, mas ele leva-o para longe e guarda-o num cofre de que só ele conhece o segredo.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Falta de apetite

Tenho de levar o carro à oficina, mas não me apetece. Tenho, aliás, uma série de coisas para fazer para as quais me falta o apetite. Ao escrever esta palavra lembrei-me da saga que eram as minhas refeições. Não tem apetite, dizia-se. Recusava-me a abrir a boca, vomitava, não mastigava a comida. Imagino o exaspero da minha mãe nessas horas épicas. Naqueles tempos acreditava-se em coisas inimagináveis. O Ceregumil e o óleo de fígado de bacalhau. Parece que vinham de Espanha, frutos do contrabando, trazidos por alguém conhecido. Ao primeiro, ainda anuía, apesar de reticente. Ao outro, a minha submissão era mais difícil. Um nojo. Não imagino se aquilo fazia bem a alguém. A verdade é que não morri. A certa altura, fui operado à garganta para extracção das amígdalas, coisa que então estava na moda, e, milagre, o apetite nasceu de um dia para o outro. É este o meu problema. Falta-me o apetite para muita coisa, não tenho fé no Ceregumil nem no óleo de fígado de bacalhau e já não tenho amígdalas para extrair.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Uma quimera senil

Chegam a passar meses, mas de súbito o perfume ressurge perdido dentro do elevador. A primeira vez que me deparei com ele a minha alma rangeu, literalmente. Como era possível? Não era um perfume floral a sublinhar uma feminilidade reservada. A força e o calor que se evolava da fragância era de alguém que não teme o olhar indiscreto. Uma intensa curiosidade apoderou-se de mim. Com o tempo e a repetição, aquele odor foi modelando alguém que me assombra os sentidos. Não vale a pena descrevê-la. Alturas há que chego a sentir-lhe a pele a deslizar sob o império dos meus dedos. A construção do corpo foi um trabalho demorado. Começou, nesse primeiro encontro, com uma figura geral, desejável, embora indefinida. Conforme as experiências se repetiam, o perfume, como um vinho vigoroso, diferenciava-se dando-me a ver ombros, seios, o ventre. O desejo nascido no olfacto ia compondo aquela que era a fonte de um devaneio ridículo, de uma quimera senil nascida numa animalidade cansada. Sonhei-a acordado e a dormir, sonhei-a a cores e a preto e branco. Apenas os olhos se recusavam a nascer da fragância. Depois de um intervalo de várias semanas, anteontem, ao entrar no elevador, lá estava o cheiro que me atormenta. Ao fechar a porta, os olhos revelaram-se-me. Olharam-me onde ninguém me pode olhar. Estremeci. A partir de então subo e desço aterrorizado. Agora que o objecto do meu desejo se completou temo que a realidade, que durante tantos anos me evitou, invada os meus sentidos e faça naufragar o navio onde a fantasia viajou na esperança de um porto desconhecido.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

A passo

Antigamente conhecia por aqui vários loucos. Tinham enlouquecido lentamente, uns, outros eram-no desde sempre ou foram vítimas fulminantes de um esgotamento, como se dizia na altura. Não sei se fui eu que me afastei do local por onde eles deambulavam ou se foi a morte que os livrou da sua loucura. Sei que eram estimados e enquadravam com recato na paisagem social. Talvez fossem um espelho para nos certificarmos que fazíamos parte do grupo que ainda não tinha endoidecido. Hoje, ao passar pela avenida, deparei-me com um que não conhecia. Caminhava depressa e imitava o trote de um cavalo, enquanto com um pingalim batia na própria perna dizendo nada de galopes, nada de galopes. Segui-o com os olhos, até que ele se perdeu no horizonte ensolarado, escondido entre a sombra dos transeuntes que o olhavam com desconfiança. Parei e uma estranha deliberação tomou conta do meu cérebro. Estava na dúvida se deveria seguir a trote ou a galope para o sítio que me esperava. A hesitação demorou uns instantes. A passo, disse-me, até por que me falta o pingalim para me fustigar na perna e apressar o andamento.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Ensaio sobre a vida

Há quem perca a vida de um momento para o outro e há aqueles que levam uma vida inteira a perdê-la. Nem no exercício da perda há igualdade. E eu que fui tão igualitário. Aqueles que levam uma vida inteira a perdê-la sofrem de uma qualquer dissonância cognitiva que os impede de perceber o sentido de estarem neste mundo. Alguns deles chegam depois de múltiplas experiências e longas meditações à conclusão de que não tem sentido nenhum, outros nem isso. O importante é que se continue, a perda é sempre certa. Talvez tudo isto me tenha ocorrido pela minha actividade da manhã ou como antecipação da que virá a meio da tarde. Hoje atravessei a cidade e não reparei em coisa alguma, só a mecânica dos hábitos me permitiu fazê-lo sem sobressaltos. Todos os dias dou mais um passo para dentro de mim, vou cerrando porta a porta até que já não conheça nada nem ninguém. Isso é triste, dizem-me. Talvez, mas não tenho nada para vender e não há mercadoria que o meu desejo cobice.

domingo, 6 de outubro de 2019

Cenas de um domingo eleitoral

Pela primeira vez o meu neto ficou sozinho com os avós. Chegou eram oito da manhã. Vinha a dormir e quando acordou trocou-me pela avó. Como recompensa levei-o a votar. Não me pareceu particularmente entusiasmado e eu nem sequer lhe mostrei o boletim de voto. Na realidade, entre a descida pelo elevador, o atravessar a estrada, a entrada na escola e a ida à secção de voto, quase que adormeceu. Segurou-se, bocejou, aguentou firme na fila para recolher o boletim. Não protestou quando fui à cabine de voto. Nem sequer teve curiosidade em saber em que partidos os avós votaram. Uma olímpica indiferença. Só espero que, quando começar a exprimir por palavras a sua vontade, não diga aos pais que não quer ir para casa dos avós, que eles levam-no a votar. Agora está a dormir ao meu lado. Mais logo veremos uns desenhos animados no computador. Daqui a uns meses iremos ao parque infantil lá em baixo. A vida passa depressa.

sábado, 5 de outubro de 2019

Meditação transcendental

Hoje é um dia especial, uma hora solene votada à meditação transcendental e à reflexão, para que amanhã possa preencher o papel a depositar na urna em consciência plena. Vi por aqui um conselho interessante para meditação, o de O Livro das Falácias, de Jeremy Bentham. Não é uma ideia desprezível e a meditação seria agradável, por certo, mas não transcendental, como a hora exige. Por mim, recolho-me e medito sobre a cláusula filioque. Será que o Espírito Santo procede apenas do Pai, no dizer dos cristãos ortodoxos, ou, como pretendem os católicos romanos, precede do Pai e do Filho. Não se pense que a pendência não teve consequências práticas dolorosas. Levou ao Grande Cisma do Oriente e talvez sem este Constantinopla não tivesse caído na mão dos infiéis. Como se vê, o assunto é momentoso e apropriado à situação grave em que nos encontramos. Como decidir a precedência do Espírito Santo e dissolver a querela teológica não faço ideia. Não estou só, embora os teólogos de ambos os lados tenham certezas antagónicas. A minha convicção, porém, segreda-me que o Espírito Santo me iluminará amanhã na cabine de voto e me contemplará, ao sair dela, com um jackpot, segredando-me no silêncio da minha razão a sua verdadeira origem. Até lá, estarei em reclusão meditativa. Transcendental, claro.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

A campanha alegre

Na caixa do correio tive, de novo, a evidência de que se estará em campanha eleitoral. Não sei se será uma prova irrefutável. Durante estes dias ainda não encontrei nenhum daqueles carros que, nos dias que antecedem o depósito do voto nas urnas, nos anunciam o paraíso que há-de vir, bem como os santos que nos hão-de ajudar, com o seu exemplo casto e virtuoso, a encontrar o caminho da salvação. Ao atravessar a cidade, pensava nestas coisas e ocorreu-me que os santos – na verdade, santos apóstolos – estejam cansados ou, então, perceberam que ninguém quer comprar uma estadia nos paraísos à disposição. Não tarda e teremos eleições civilizadas, sem gente a arruar por aqui e por ali, sem bombos e zés pereiras, palavras inúteis e gestos dispensáveis. Não sei o que me deu hoje para falar de política, mas presumo que sexta-feira seja um dia que nos inclina para a demência. Ainda discuti com o autor destes textos, fiz-lhe ver que o assunto não se quadrava com a minha índole, mas ele foi inflexível e pôs-me, para infelicidade minha, estas palavras na boca. Cansa-me o déspota.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Irrelevâncias

Demorei um tempo sem fim a encontrar uns documentos digitais sobre os quais tenho de trabalhar. Tinha-os deixado de lado há dias e, ao querer voltar a eles, não os encontrava. A hipótese de os ter apagado de forma inadvertida foi o que me ocorreu. Lá fiz as pesquisas que tinha de fazer e nada. Por fim, encontrei-os precisamente no lugar onde deveriam estar. Tinha-me esquecido desse lugar. Nada disto me exalta como herói de uma narrativa. Mesmo num tempo como o actual, um herói não trabalha sobre documentos irrelevantes, para produzir outros ainda mais irrelevantes que hão-de ser louvados na sua absoluta irrelevância. Por outro lado, um herói que se digne de o ser tem uma boa memória e, para além dela, uma inteligência verrumante que, em caso de falência memorial, perfura, no tempo de um relâmpago, o espesso véu do esquecimento. Os deuses decidiram não me dar nada disso. Resolveram, na sua douta sabedoria, que eu deveria ser o prolongamento da irrelevância dos documentos com que tenho de compor a realidade. Sem tristeza aceito o decreto e mergulho na composição de mais uma insignificância. O que me vale é que depois de almoço hei-de passar a tarde a dar de comer a quem não tem fome. Ao menos que me fosse dado o talento de confundir moinhos com gigantes. Nem isso.

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Profetas

Pouco frequento cafés. Apesar de múltiplas tentativas, sempre os achei desconfortáveis para ler e, no entanto, eles são uma fonte narrativa que não deveria desprezar. Hoje entrei num. Numa mesa, um homem fulminava os acompanhantes e na sua boca geminavam-se confusamente pragas dirigidas aos homens e injunções que a serem cumpridas os salvariam a todos. O mal do mundo, cogitei, é não darmos ouvidos aos profetas que nele abundam. Entramos num táxi e, se não nos cuidamos, apanhamos com a sabedoria infinita de um Jeremias ou de um Daniel. Passamos distraídos pela rua e a uma esquina lá está um Zacarias irado. Não haverá, porém, lugar mais próprio para a profecia do que um café. Na mesa ao lado do fulminador, duas mulheres ainda novas entreolhavam-se. Havia nelas vontade de escarnecer do profeta, mas continham-se não as fulminasse ele com um raio. Saí dali como quem sai de uma página do Antigo Testamento. A rua acolheu-me benevolente. Olhei o céu e nele não havia sinais da cólera divina. Respirei fundo, entrei no carro e pensei no anunciador de futuros. É pena que não saiba que ninguém é profeta na própria terra.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

O fascínio da fé

Fascina-me sempre a fé que as pessoas têm na sua própria opinião. Também eu terei tido fé nas minhas opiniões. Depois, tornei-me agnóstico e, hoje em dia, sou francamente ateu perante muitas das ideias que me atribuo. A primeira coisa de que desconfio é das opiniões que nascem dentro de mim. Deito-lhes um olhar enviesado, rosno-lhes e, se calha partilhá-las, não é porque creia nelas, mas para me livrar do seu cheiro negro, para evitar que azedem e me empestem os pulmões. Dou comigo a pensar, não poucas vezes, que o caminho da Cartuxa tornaria o mundo bem mais habitável. Isto, todavia, não passa de uma opinião, para qual também me falta fé. Li já não sei onde que a Cartuxa de Évora iria fechar e os monges partiriam para Espanha. Faz sentido, num país onde todos têm opiniões para dar, que não haja quem decida calar-se de vez e entrar na pátria do grande silêncio.

Terapia para o caos

Há um momento na tarde em que a luz parece fixar-se sobre o dia e assim tornar-se eterna. Depois, a ilusão desaparece e o tempo acelera, anunciando nos tons das árvores ou no matizado das paredes a noite que há-de vir. Lá em baixo, um bando de adolescentes entrega-se a rituais ruidosos, numa liturgia eterna, antes de entrar para um centro de línguas. Os dias outonais são-me propícios e acolho-os com a benevolência de um sorriso. À minha frente tenho um livro cuja capa reproduz uma gravura de Pieter Bruegel. Percorro-a com os olhos, demoro-me em cada uma das figuras e interrogo-me sobre o que motiva o autor para a teratologia. Também no meu inconsciente habitarão terríveis monstros, mas faltar-me-á coragem para os trazer à luz e com eles compor uma figuração do caos. Chega até mim a voz de uma mãe a perguntar a uma filha se está aí. Depois, diz Maria, Maria. Não se ouve resposta, apenas o ranger rouco de um baloiço. Ao longe, a crista dos cedros inclina-se, dobrada pelo vento. Outubro entrou vitorioso pelo calendário. Enquanto continuo a espiar a gravura de Bruegel, oiço um grito prolongado de golo. Por cada golo gritado, penso, adormece um monstro no fundo do coração daquele que grita. Uma terapia para o caos.

domingo, 29 de setembro de 2019

A alegria do guarda-redes

Não sei o que aconteceu, mas aquela melancolia dos domingos à tarde parece ter-se desvanecido. Não é que tenha razões para tal. As segundas-feiras continuam a seguir-se aos domingos e não me deixaram de trazer com elas os imperativos com que a necessidade me carrega. Lembrei-me, ao pensar nisto, do livro de Peter Handke, que deu origem a um filme de Wim Wenders, A Angústia do Guarda-Redes Antes do Penalty. O que angustia o guardador das redes é não saber o que adversário vai fazer, para onde vai atirar a bola. Isso não se pode comparar com a melancolia dos domingos, pois esta nasce de se saber bem de mais o que o dia seguinte traz. Lá fora, a noite progride, cavalga sobre o casario, ri-se das luzes com que os homens fingem deter o seu império tecido na urze das trevas. O silêncio tomou conta das ruas e o último guarda-redes, depois de se atirar para o lado errado, vai a pé para casa, alegre por amanhã ser ainda segunda-feira.

sábado, 28 de setembro de 2019

Compêndios

Comprei um livro que se apresenta como compêndio. Não interessa para o caso aquilo que ele compendia, mas é um sintoma de que, finalmente, percebi que a vida não é eterna. Quando não o sabia e pensava ter a eternidade à minha frente recusava-me a comprar compêndios. Hoje inclino-me para os epítomes – que raio de palavra fui buscar para dizer resumos – e, não tarda, hei-de mesmo compreender a velha estratégia das Selecções do Reader’s Digest de condensar obras literárias. Sábado é um dia que se abre à futilidade. Fui às compras, enquanto decorria a hora de almoço. É uma hora onde não se encontra ninguém. Fiquei, contudo, preocupado comigo. Havia um conjunto de vinhos interessantes, mas nem me apeteceu olhar para eles. Segui em frente como se fosse cego ou nem um bom vinho me interessasse. Há dias que são difíceis de levar pela trela. O tal compêndio está à minha frente. Olho para a capa mas não me atrevo a abri-lo. Há coisas que é mais ajuizado não saber.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Uma irritação

Hoje irritei-me com um acontecimento da vida particular. Uma irritação mesmo naquela hora em que a tarde se afirma no seu mais negro esplendor, com o sol a coriscar e a calçada a arder diante dos meus olhos. Depois, há sempre um depois, olhei para a irritação e não consegui deixar de me rir. A realidade permanece intocada quer me irrite ou não. Esta intocabilidade do real quase me reconciliou com o mundo e a irritação como um fantasma dissipou-se. O vento faz tremular a folhagem das árvores e o sol reverbera nas paredes da escola que avisto da janela. Em tudo há um ar de fim-de-estação, um cansaço desabrido, um chamamento por qualquer coisa que não aquilo que temos de momento. Depois, a propósito de uma controvérsia matinal, lembrei-me de quando tinha quinze ou dezasseis anos e de todas as ilusões que guardava no cofre-forte da minha ingenuidade. Com o tempo, abri o cofre e as ilusões foram saindo pelo seu pé. Estou-lhes grato pela fantasia, mas hoje já não tenho paciência para elas.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Mudanças

De súbito, voltei a escutar os pássaros meus vizinhos. Julguei que se tinham mudado, mas não ou, então, foi uma nova família que aqui se instalou. Lá em baixo, uma camionete de mudanças recebe os móveis de alguém que vai procurar outras paragens. Também eu mudaria de lugar se pudesse mudar de mim mesmo. Como não posso, o melhor é ficar onde estou, até que o próprio lugar se farte de mim e aja em conformidade. A manhã declina e um silêncio apoderou-se do mundo que me envolve. Talvez se esteja numa daquelas horas em que um deus se revela ou em que os anjos, cansados de vigiarem os homens, se juntam para jogar dominó. Olho ao longe. No parque de estacionamento do hospital, os pára-brisas multiplicam os sóis, num desejo de incandescência que me parece funesto. Os pássaros emudeceram e o único barulho que oiço é o dos meus dedos a afundarem-se nas teclas. O melhor é também eu entrar na casa branca do silêncio.