quarta-feira, 31 de março de 2021

Astenia primaveril

Aquilo que trouxe Março prepara-se para o levar. Não sei o que dizer deste mês, agora que tudo está jogado e seria a hora de um balanço. Ofereceu uma nova estação e com ela despejou sobre mim uma fulgurante astenia de Primavera. Já a tarde ia avançada quando fui fazer uma caminhada. Ao sair, espreitei a caixa do correio. Lá estava o relatório do exame médico, cujos resultados esperava há dias. Contive a curiosidade e disse-me que havia tempo. Lá fui andar por becos e ruas, vielas e largos, entregue aos próprios passos. Ao chegar, dirigi-me à caixa do correio, enfio a chave na fechadura, dou o impulso habitual à mão e a chave parte-se. Fruto da astenia, não amaldiçoei nem a chave, nem o acidente. Lá fui buscar umas ferramentas e, com sorte, consegui apanhar o envelope. Abro-o, retiro o selo que oculta o relatório. Ponho-me a ler e, para dizer a verdade, fiquei na mesma. Uma linguagem esotérica, tenho a vaga impressão que já tive melhores dias, mas nem sequer vou entregar-me a uma hermenêutica do texto mediada pela internet. Amanhã marco uma consulta e o cardiologista que interprete e me conte o que se passa e o que me espera. É para isso que é pago. Nestas coisas há que ser pragmático e deixar que cada um faça o seu trabalho. Para dizer a verdade, nem sei se Março acaba bem ou mal, ou se nem uma coisa nem outra. O pior é a astenia primaveril.

terça-feira, 30 de março de 2021

Questões capilares

A arte de bem conservar os seus cabelos em tempo de pandemia. Oiço, sem o querer, uma conversa sobre cabelos. Há teorias em disputa sobre o que os estraga e os protege, todo um manancial de informações que davam para escrever um tratado. Apesar do êxtase, afasto-me rapidamente, cansado da lição, e percorro algumas ruas conhecidas. Não tenho destino onde ir, mas isso já não é novidade. Ando por aí aos tombos, tenho vontade de dizer, mas temo ser mal interpretado. Agora que rememoro essa parte da manhã, estou sentado a escrever. Lá fora, um carro, movido pela urgência de se escapulir do lugar onde se encontra, desata às buzinadelas. Um outro tapa-lhe a saída e não há no mundo quem suporte que lhe sejam tapadas as saídas. Se carros e pessoas soubessem a verdade, logo se acalmariam, pois, por mais saídas que encontrem, permanecerão no mesmo lugar. Este é um sítio esférico, fechado ao exterior, onde não existem portões, portas ou janelas, nem mesmo aquelas gateiras que antigamente existiam nas casas das aldeias, por onde entrava e saía o gato da família. Na verdade, não vale a pena buzinar, pois, por mais que se ande, fica-se onde se está. A rua foi invadida por uma luz difusa e um sentimento de irrealidade apodera-se de quem para ela olha. Não há vento e um pássaro voa entre tílias. Amanhã o mês acaba e talvez deva ir cortar o cabelo.

segunda-feira, 29 de março de 2021

Fora dos eixos

De súbito, olho pela janela e a luz que vejo mais parece anunciar a chegada de Março do que a sua iminente partida. Já de manhã, ao sair de casa, tive esta sensação de desacordo entre a luz que caía e o curso do calendário. O mundo está cheio de desconformidades, as coisas estão fora dos eixos como se lamentava certa personagem teatral. O enigma é que elas nunca estiveram nos eixos e sempre rolaram tempo fora. Há dias, num livro de um psicólogo cognitivo americano na moda, lia uma série de lamentações sobre a péssima qualidade de escrita das novas gerações. O caso, porém, é que essas lamentações se referiam a diferentes tempos da vida americana, desde os dias de hoje até aos da fundação do país. E ele, talvez entusiasmado, citou uma lamentação idêntica, em Inglaterra, pouco tempo depois dos livros passarem a ser impressos. Por fim, concluiu com uma referência às placas de argila sumérias onde tal lamentação já se encontrava com mais ou menos clareza. Dito isto, descobrimos que o mundo não precisa de estar nos eixos para rolar. Acudiu-me uma possibilidade tenebrosa. Se alguma vez os homens pusessem o mundo nos eixos, ele deixaria de rolar, todos nós nos transformávamos em estátuas, provavelmente de sal, e nenhuma novidade, nem vida nova haveria de surgir sobre a Terra. A conclusão desta pobre meditação de um meditante cansado é de louvor à desconformidade, a essa realidade eternamente fora dos eixos. Assim seja. Agora vou vídeo-reunir.

domingo, 28 de março de 2021

Mudanças de hora

Quando olhei para o mostrador do telemóvel, ao acordar, achei que tinha dormido em excesso. Depois consultei o relógio e descobri que havia uma discrepância de sessenta minutos. Afinal, tinha dormido um pouco menos, mas o relógio estava irrevogavelmente atrasado. Atrasado e fora de moda, pois não se auto-actualiza como os computadores, tablets e telemóveis. Começa a irritar-me esta história da mudança da hora. Uma para a frente, uma para trás, uma para a frente, uma para trás. Que falta de constância, que volubilidade. O relógio em casa da minha mãe, esse é muito fiel ao seu fluir sensato. Metade do ano está certo, a outra metade, adiantado uma hora. O dia ficou estragado nem sei bem porquê. Acabo de acertar o relógio. Não tarda e serão cinco da tarde, como no poema de Lorca. O almoço de tardio passou a ultra tardio. Uma hora na vida tem mesmo excessiva importância. Recordo-me de um primeiro-ministro ter decidido que os nossos relógios se deviam acertar pelo meridiano de Berlim e não pelo tradicional Tempo Médio de Greenwich, como se ele pudesse decidir, pelo poder que lhe fora conferido para governar, o lugar geográfico do país. Agora nada de meridianos ingleses, nós somos todos da Europa central, mesmo que vivamos na periferia, quero eu dizer no subúrbio da Europa. Portugal é um país maravilhoso, mesmo se há gente com ideias destas ou como o outro que transformou o árabe Algarve no britânico Allgarve. Ou, ainda pior, aqueles que acharam que dinamitar as consoantes mudas das nossas palavras era um progresso em direcção sabe-se lá a quê. É preciso muita paciência e eu estou proibido pelo autor de derramar sobre assuntos políticos.

sábado, 27 de março de 2021

À superfície

Ontem fiz uma boa caminhada. É um sintoma, pensei, de que vou retomar a prática. Agendei de imediato na memória repeti-la hoje. Não me esqueci do agendamento mnemónico, mas o projecto gorou-se. Deixei passar a hora certa, pois todas as coisas têm a sua hora, e agora, nesta altura do ano, é demasiado tarde, pois o ar fica frio, há um vento desagradável de Noroeste, que se entranha e acaba por fazer a garganta ressentir-se. Fui à farmácia comprar um sucedâneo da vesícula, uns comprimidos que imitam aquilo que ela era devia fazer, mas por se ter perdido numa sala de operações, não pode fazer. Imagino que apenas dará conta das actividades mais superficiais, mas essas bastam-me. Aliás, o melhor é uma pessoa deixar-se de profundidades, quanto mais à superfície, melhor. Quando se é novo e pretensioso, julgamos que só as coisas profundas interessam. Com o passar dos anos, vai-se mudando de ponto de vista. O mais interessante está à superfície. Não há como uma bela aparência. Quanto ao que ela esconde, o mais sensato é não querer saber. Há ainda uma luz crepuscular. Amanhã a hora mudará. Dizemos estas coisas, como se existissem horas para mudar. A vida não passa de um conjunto de ficções de que nos convencemos que são a realidade.

sexta-feira, 26 de março de 2021

Cabalas e citações

De noite, o parque infantil recebe a luz de um candeeiro, daqueles que se tornaram comuns na iluminação pública um pouco por todo o lado, um poste de aço terminado por um globo de um branco encardido, e de onde se solta uma luz amarelada que espalha pelo parque uma atmosfera fúnebre. Ao olhar cá de cima descubro uma amolgadura no globo, como se alguém, talvez por falta de ocupação, tivesse querido emular o ovo de Colombo. O que torna o mundo digno de interesse são estas pequenas imperfeições, uma forma de resistência da realidade aos instintos perfeccionistas da espécie humana. Onde se queria a pura esfericidade, um corpo perfeito no seu ser rotundo, inscreveu-se uma depressão. Assuntos profissionais ocuparam-me com uma chamada telefónica de uma hora. Devia ter posto o telemóvel em alta-voz, mas esqueci-me. Agora tenha a orelha a arder e o ouvido exausto. Talvez por causa disso bebo um copo de água, dizem que faz bem, que hidrata o corpo e que devemos beber um número significativo deles durante o dia. Suspeito que serão sete os necessários, pois é um número cabalístico e a vida não passa de uma cabala. Devo evitar estas considerações, pois acerca daquilo de que não se pode falar, tem de se ficar em silêncio. Esta é uma famosa citação. Também poderia dizer, e ainda com maior exactidão, bem-aventurado silêncio. Feliz o homem que nada sabe e nada quer. E esta é a segunda citação, embora não do mesmo autor. Na verdade, não há discurso, oral ou escrito, que não seja citação, mas também sobre isto o melhor é silenciar-me.

quinta-feira, 25 de março de 2021

À varanda

Almocei tarde, pois passava do meio-dia quando fui levantar à FNAC dois livros que tinham sido encomendados para a minha neta mais velha. Aproveitei e comprei um livro de Louise Glück, a Nobel da Literatura de 2020. Leio o primeiro poema e discordo de imediato da tradução de um verso, não porque esteja mal traduzido, mas porque lhe rouba o pathos poético. A palavra inglesa pode ser traduzida por um verbo ou por um substantivo. O tradutor escolheu o substantivo, eu traduziria com o verbo. O substantivo, naquele verso, fixa a realidade, o verbo põe-na em movimento. A poesia despetrifica o real, mostrara-o no seu eterno fluir. Umas vezes fá-lo com um verbo, outras com um substantivo. Depois da discordância, fui à varanda fumar meio cigarro, enquanto bebia café. Na praceta, um casal apanhava sol sentado numas escadas que esboçam um anfiteatro que nunca virá à existência. O cabelo dela refulgia. A uns dez metros, dois homens conversavam sentados no murete de cimento de um dos canteiros. Do outro lado, uma rapariga, sentada numas escadas que levam a uma empresa de serviços, apanhava sol e escrevia num computador. Tudo isto acontecia sob o véu do ruído que se desprendia da praceta contígua, onde um homem com uma máquina de cortar ervas as ia decapitando em sossego. Olho, agora, para a Sá Carneiro e vejo outro homem debruçado sobre o capot de um carro. Rubrica folhas brancas, talvez uma escritura. Aposto que o faz no canto superior direito. O documento é enorme, pois ele está constantemente a voltar as folhas e a rubricá-las. Temo que se canse ou que passe alguma sem nela deixar o sinal da sua vigilante anuência. Por detrás dele passa uma criança de bicicleta, seguida por uma mulher. Será a avó, pensei. Há poucos carros em movimento e o dia tem um ar quaresmal. Da varanda vejo tudo o que há para ver no mundo, pois este não é mais do que aquilo que se avista de uma varanda, da minha varanda.  Leio um novo poema, Primavera, e torno a discordar. A poetisa escreve the warm air fills with bird calls. O tradutor verte por o ar morno enche-se do chilrear dos pássaros. Agora, a minha discordância tem sinal contrário. Onde é usado o verbo, chilrear, eu usaria o substantivo, chamamentos, o ar morno enche-se com os chamamentos dos pássaros. Não, os pássaros meus vizinhos não chilreiam. Eles fazem chamamentos, convocações. Por vezes, intimações. É esse poder de convocação existente na linguagem dos pássaros que Louise Glück dá a ver. Digo eu, que talvez não veja muito bem.

quarta-feira, 24 de março de 2021

Das coisas ambíguas

Uma das coisas mais extraordinárias que as línguas possuem é a ambiguidade. Ocorreu-me isto quando, ao abrir um livro para consultar um certo assunto, me deparei com a seguinte interrogação: Para que serve argumentar? Pensa-se, de imediato, que a frase interrogativa abrirá o caminho para uma explicação sobre os serviços que são prestados pela arte de argumentar. O que é o caso. No entanto, essa mesma interrogação pode ser usada como uma exclamação que nega qualquer préstimo ao acto argumentativo. Usar a linguagem é entrar num território minado. Rio sempre que vejo certas personagens a vituperar o uso comum da linguagem por falta de precisão, por ambiguidade e por mais alguns crimes do género. Sonham com uma linguagem completamente unívoca e transparente. Não compreendem que essa ambiguidade estrutural não se deve ao desleixo ou à incompetência dos falantes, mas que a própria linguagem faz parte da imprecisão e ambiguidade gerais que compõem a realidade. É uma emanação desta. Ter-me dado para falar disto tem, desconfio, uma dupla explicação: o cansaço e a falta de assunto. Olho pela janela e as paredes encardidas do hospital reverberam fustigadas pelo brilho de uma intensa luz solar. Hoje de manhã perdi alguns minutos a contemplar o friso das orquídeas. Estão todas floridas, até a mais débil, que anda há anos a prometer morrer, está belíssima. Também nelas há uma ambiguidade, como se a existência fosse algo que não estivesse previamente determinado, mas fosse uma indeterminação que aparenta, aqui e ali, precisão, apenas para tranquilizar algumas almas infelizes pela complexidade do mundo. Para o que me haveria de dar hoje. Metafísica à hora do lanche é coisa que não se aconselha a ninguém. Além disso, não há mais metafísica no mundo do que comer chocolates.

terça-feira, 23 de março de 2021

Um bom conselho

Numa das estantes perto da secretária está o romance Adoecer, de Hélia Correia. Espera vez. Os extractos de críticas presentes na contracapa denunciam que se está perante uma segunda edição. Fui verificar. Não é o que se passa. É uma primeira edição, mas numa primeira reimpressão. Todos eles são encomiásticos e nada me leva a crer que haja ali algum exagero. O livro é de 2010, ainda não havia pandemia, e isso deve sossegar o leitor. No entanto, o título, vindo do passado, parece mesmo propositado. Na imprensa, a qual já pouco impressa é, as coisas obscurecem-se. Países a confinar de novo, outros em catástrofe contínua. Entre os hosanas à vacinação e a realidade da libertação do estado patológico em que se caiu há uma grande diferença. Afigura-se existir um braço de ferro entre o vírus e a humanidade. Esta teima em voltar ao ponto em que se estava. O vírus, todavia, parece não estar pelos ajustes. É um agente de mudança. Quer-nos a todos mais afastados, mais protegidos, mais comedidos. A questão que me surgiu ao ler o título do romance de Hélia Correia foi se o vírus nos tornou doentes ou se nós já estávamos doentes e ele veio chamar a atenção para o facto. Não tinha pensado em nada disto. Ocorreu-me agora, talvez devido à inclinação do sol. Na página 120 da primeira reimpressão, a autora escreve: O Doutor Hailes recomendou muito repouso. Era o que sempre recomendava quando não se entendia com a doença. Já há muito que não via conselho tão sensato. Alguém se entende com a doença? Parece que não. Então que se repouse muito e de preferência afastados uns dos outros, não vá o vírus tecê-las.

segunda-feira, 22 de março de 2021

Uma colecção de hábitos

Os dias passam-se numa sucessão pavorosa de pequenos nadas, que, ao avolumarem-se, tomam o dia e acabam por lhe retirar sentido, se ele tivesse algum. Talvez a vida seja uma sucessão de irracionalidades, que de tão habituados a elas nem as vemos como tal. Aquilo a que chamamos razão não, passaria, de um longo hábito, de uma colecção de hábitos que rapta o que sucede da sua inquietante estranheza e nos permite dormir descansados. O pior é quando as pessoas envelhecem e os nexos criados pelo costume se começam a desfazer. Então, os tempos irrompem fora da ordem corrente e o caos instala-se. O que acontece agora já nem se distingue do que sucedeu há oitenta anos, saltando-se no tempo com muita mais vigor de que se salta no espaço. Parece mesmo haver uma estranha e negativa correlação entre um corpo cada vez menos capaz de saltitar e uma mente cada vez mais saltarela. Há em tudo isto alguma coisa de grotesco, traços demasiado exagerados que fazem lembrar certas obras expressionistas. A hora crepuscular aproxima-se, o dia acerta as contas na portagem da auto-estrada que o levará para a noite. É o que me apraz dizer neste dia em que faz anos que morreu Johann Wolfgang Goethe e que foi extinta a Ordem dos Templários. Estas informações são irrelevantes, mas o que o não será nesta vida?

domingo, 21 de março de 2021

Carpe diem

Ontem começou a Primavera. Só me lembrei disso já a hora equinocial tinha passado há muito. A vida tem destas coisas. Perde-se a hora e a perda torna-se irreversível. Nunca mais haverá equinócio da Primavera de 2021. Não há dias mais igualitários que os equinociais. Duas vezes em cada ano, noite e dia têm a mesma duração. Tirando estes momentos simbólicos, reina sobre a Terra a mais desenfreada desigualdade, embora essa desigualdade esteja cheia de remorsos. Durante uma época são os dias maiores que as noites, na outra acontece o contrário. Em tudo isto se poderá encontrar lições da mais profunda política. Em primeiro lugar, a igualdade pura é meramente simbólica e tem dias precisos para ser festejada. Nos outros, é um conflito sem fim entre as pretensões igualitárias e inigualitárias do cosmos. Os homens não inventam nada. Umas vezes descobrem as coisas na natureza e tentam imitá-las, outras são levados por elas sem sequer terem consciência de onde vêm os impulsos que os dirigem. Neste diário, nunca tinha escrito nada de tão político quanto este texto. O autor não me permite falar de política, remete-se para o papel de mero narrador destituído de convicções e de paixões. Se se tratar, porém, de uma política cósmica ser-me-á permitido, uma vez por outra, derramar sobre o assunto a minha fera ignorância. Foi o que aconteceu hoje. Haverá quem diga que o escrito se deveu à falta de assunto. Como narrador, não tenho poderes para contrariar a suposição. Hoje é domingo, o penúltimo de Março. Há que vivê-lo antes que passe. Se fosse uma pessoa culta diria neste instante: Carpe diem! O ponto de exclamação serve para transformar a sugestão numa obrigação, uma espécie de imperativo categórico kantiano. Depois, diria todo o verso de Horácio: carpe diem quam minimum credula postero, o que quererá dizer aproveita o dia e confia pouco no amanhã. Os antigos tinham a sabedoria que os modernos perderam. Estes descobriram no amanhã o lugar exaltante da felicidade. Aqueles viam o que sempre lá esteve e o que sempre lá estará, a morte. Por isso, atrevo-me a dizer que a nossa magnífica civilização é niilista. Fez do desaparecimento um lugar de culto e a promessa de uma festa sem fim. O melhor é acabar o texto aqui. Está enorme e já chega de trivialidades.

sábado, 20 de março de 2021

Das coisas abstrusas

Um sábado em que toda a manhã foi dedicada a coisas abstrusas que fazem parte da realidade em que, por vezes, sou obrigado a existir. Não é que goste particularmente da palavra abstruso. Não é esteticamente agradável. No entanto, sempre senti uma certa afinidade com ela. Como se pode ver num dicionário, vem de abstrūsu, particípio passado do verbo latino abstrudĕre, que significa ocultar. Abstruso não significa, todavia, oculto, mas obscuro, impenetrável, desordenado. Dito de modo mais directo, dediquei-me ao caos, esse estado de coisas que se suspeita estar mesmo à porta do cosmos. Mal uma pessoa se descuida, e tudo se torna abstruso, um caos. As palavras contam histórias. Por vezes, nos meus devaneios, imagino que, sob a capa da sua utilidade comunicativa, elas escondem verdadeiros romances, que literatura alguma haverá de igualar. Com ser de palavras que sou, sempre me pareceu de uma estultícia inominável o dito uma imagem vale mil palavras. Quem se dedica a dizer essas coisas não sabe que sob o som de uma palavra se escondem não mil, mas milhões de imagens, que, com um simples sopro vocálico, são atiradas ao vento, semeadas pela Terra e por aí ficam a germinar, enquanto uma imagem morre no momento da sua eclosão. São quase sete da noite, o crepúsculo invadiu a cidade, as crianças, que ainda não pensam em palavras, gritam no parque e eu continuo preso a coisas abstrusas.

sexta-feira, 19 de março de 2021

Mistérios do mundo

Qual é o exacto momento, o exacto minuto ou segundo, em que uma pessoa ascende à categoria de velha ou de adulta? Qual é número preciso de grãos de areia que constituem um monte de areia, para que a subtracção de um deles faça com que um monte deixe de ser aquilo que é? Estas coisas têm preocupado os homens desde há muito e, ainda hoje, há pessoas que lhe consagram a vida. Percebo-as muito bem, pois também me dedico a coisas sem sentido. Caso não tivéssemos as palavras monte e velho, esses magnos problemas que dobram a cerviz da humanidade não se colocariam. Aliás, parte dos problemas que nos afligem não existiria se fôssemos privados de linguagem. Por exemplo, eu não existiria. Um narrador é um mero ser de linguagem, uma entidade feita de palavras que se combinam mais ou menos ao deus-dará. O parque infantil já foi reaberto. Famílias trazem os filhos para que estes possam gritar enquanto escorregam e se baloiçam. Um dia, serão eles que levarão os filhos a um parque infantil, para que eles gritem, enquanto escorregam e se baloicem. Também eu já fui levado ao parque infantil, para gritar enquanto escorregava e me baloiçava. Qual é o exacto instante em que alguém deixa de ser criança com idade para ser levado a um parque infantil? Um dia antes ainda podia ir? O mundo está cheio de mistérios.

quinta-feira, 18 de março de 2021

Conversas de nada

Quando dei que hoje ainda não tinha preenchido esta espécie de diário, já passavam das oito da noite. Nunca tive tentações diarísticas. Na verdade, não se passa nada comigo que mereça ser registado, mas um acaso levou-me a alimentar este blogue. Registo aqui não o que me sucede, mas o que me passa pela cabeça. Há uns que nascem para Ulisses e Aquiles, outros para santos ou políticos, outros para escritores ou pintores. Eu não nasci para nada, e é de nada que eu falo. Como se manifesta para mim, perguntará o eventual leitor, o nada. O nada não se manifesta, mas aquilo que me passa pela cabeça é um sintoma desse nada. São coisas desconexas, como este texto, ou as declarações que faço dizendo que vou fumar um cigarro. Irei? Se a realidade fosse a luz, o nada seria a noite, mas talvez a realidade não seja apenas a luz e, assim, a noite não será nada, mas alguma coisa. Quando estou cansado, as sinapses começam a ocorrer em ritmo perturbado, como se houvesse um desvario neuronal. Isto, caso me tenham sido concedidos neurónios, coisa que, para ser sincero, duvido bastante. Se me deram, foram uns neurónios velhos e defeituosos. Bem chega de falar de nada. A noite vista da janela do escritório está magnífica, apesar das luzes e do enorme anúncio a uma cadeia multinacional de hambúrgueres que se veio instalar diante da minha janela, ainda que a algumas centenas de metros.

quarta-feira, 17 de março de 2021

Das coisas vagas

Diante de mim tenho um livro com o estranho título de Vagueness. Os que se preocupam com o assunto em Portugal traduzem o conceito por vagueza. É uma palavra horrível. Além do seu desprimor estético, ela é uma palavra vaga, vaguíssima. Diria mesmo que não há coisa mais vaga do que a palavra vagueza. Um dos sintomas da minha humanidade é ter embirrações com palavras. Olho para uma palavra e, sem saber bem porquê, começo a embirrar com ela. Por exemplo, a palavrava empreendedorismo gera em mim ataques de urticária. Não é o que se passa com vagueza. Nesta irrita-me a sonoridade, o facto de rimar com magreza. Seja como for, eu sou uma pessoa cordata e não tenho por hábito embirrar com pessoas. O que também não será uma virtude, pois, como ontem me disse a minha filha, se alguém se mandasse de um sexto andar e caísse ao meu lado, eu não daria por isso ou, caso desse, não me meteria na vida da pessoa. É agora que deve entrar a expressão popular andou um pai a criar uma filha para ouvir coisas destas. Os pais nunca imaginam o que vai na cabeça dos filhos. Não tarda, terei de entrar dentro da realidade. Espera-me uma maratona de coisas que não me interessam para nada, que ainda são mais vagas do que a própria vagueza, a que terei de assistir por videoconferência, uma maldição inventada por inspiração do maligno. Antes queria dedicar esse tempo a estudar o que diz o livro cujo título tem o estranho nome de Vagueness. Assim fosse.

terça-feira, 16 de março de 2021

O grito do Ipiranga

Oiço o sexto livro de Madrigais de Carlo Gesualdo, Príncipe de Venosa. Melhor, os madrigais do sexto livro. O compositor destas extraordinárias obras era, literalmente, um assassino. A distância entre o sublime e o macabro é muito mais curta do que pensamos. Nem se pode dizer que tenha sido movido pela paixão amorosa, mas apenas pela fria fogueira da honra. Pode ser que, penso-o caridosamente, naqueles dias, a honra ainda aquecesse os corações. Consta que toda a vida de D. Carlo esteve em conflito com a sua música, mas isso será um modo superficial de ver o assunto. A sua música sublime terá nascido como apaziguamento da desarmonia que o habitava. O dia, como o de ontem, tem estado estival. Uma luz exuberante, agora a declinar. Devia ir caminhar, desentorpecer as pernas, respirar o ar puro dos campos, caso ainda exista ar puro nos campos. O que desejava, na verdade, era andar perto do mar, agora que não há turistas, nem veraneantes, apenas as pessoas de ocasião. A realidade, sempre pronta para me contrariar, não me o permite, e eu aceito as coisas como elas são, com resignação, sem tentações de dar o grito do Ipiranga. Nada, porém, me ajuda nessa libertação. Não sou um D. Pedro e o rio que passa aqui não se chama Ipiranga, fosse eu outro e o rio, o certo, haveria de se ouvir a mil quilómetros o urro que daria. Assim, limito-me ao grito mudo do quadro do Munch. O expressionismo ficar-me-á melhor que o romantismo independentista e liberal do D. Pedro. A conversa hoje está muito voltada para príncipes e reis, e eu que sou republicano. Talvez seja um republicano não praticante.

segunda-feira, 15 de março de 2021

A realidade desconfina-se

Depois de almoço, fui ver o correio e aproveitei para dar uma volta pela rua. Havia já sinais de desconfinamento. Da escola primária vinha o alarido de crianças a correr e a gritar. Um ou outro estabelecimento ensaiava a venda ao postigo, mas o verdadeiro desconfinamento que encontrei, e esse preocupou-me, foi o do calor. A temperatura inclinava-se não já para a Primavera, mas para um Estio precoce. Eu sei que a maioria vive na ânsia estival e entrega-se a longas fantasias com esse tempo que, a mim, parece, muitas vezes, uma anunciação do inferno. Também é um facto que sou, enquanto narrador destas tristes narrativas, dado à hipérbole. Talvez o Verão não anuncie o inferno, mas apenas um purgatório um pouco exacerbado. Há aqui dois problemas que não vou tentar deslindar. Nem a psicologia perante o clima nem a teologia das comparações são assuntos que mereçam a minha meditação. No bosque na escola ao lado, uma escola ainda vazia, as árvores não mexem. O vento que se anunciava vindo do Norte suspendeu a sua correria em direcção ao Sul. Olho para a rua e a realidade parece-me falsificada, um cenário incompetente de um cenógrafo realista.

domingo, 14 de março de 2021

A vertigem do tempo

Março atingirá amanhã o meio do mês. A natureza do tempo sempre confundiu os homens. Tentaram domesticá-lo através do calendário, mas ele sempre se mostrou avesso à vida doméstica. O tempo é um animal selvagem, uma flor silvestre. Melhor, o tempo é uma vertigem, na qual se mergulha e onde nunca se encontra equilíbrio. Um dicionário afirma, talvez sem pudor, que o tempo é sucessão de momentos em que se desenrolam acontecimentos. Penso de imediato que se nada acontecesse não haveria momentos a sucederem-se uns aos outros, logo não haveria tempo. Contudo, julgo que os acontecimentos se propuseram acontecer apenas para que o tempo exista e nos trazer à existência para logo nos varrer para o passado. Este é, na verdade, o caixote do lixo para onde são enviados os detritos das coisas que ocorrem. Ficam lá até que os homens do lixo os ponham no camião e os queimem numa incineradora de resíduos perigosos. Devia ter pensamentos mais risonhos, hoje que é domingo e as famílias saem à rua para apanhar sol e deixar as crianças espairecer, para que os adultos espaireçam também eles. A Páscoa aproxima-se e será feita de afastamentos, proibições de circular e avisos sobre os perigos que espreitam por aí. Fez-se na rua um grande silêncio, nada acontece e o tempo suspendeu a sua marcha. Os momentos foram abolidos, mas retornarão como um vírus. No friso das orquídeas, todas estão em flor, num concerto de cores que cresce para dentro dos olhos e desencadeia na consciência estranhas e silvestres melodias.

sábado, 13 de março de 2021

Viver em vários tempos

Pela primeira vez desde que começou o confinamento fui comprar laranjas ao campo. Um comércio arcaico e contemporâneo. Arcaico porque se funda numa relação directa entre produtor e consumidor, sem esse gigantesco exercício a que se dá o nome de intermediação. Contemporâneo porque é feito ao ar livre, o que conjugado com o uso de máscaras, estará de acordo com as normas de segurança contra os vírus perigosos que a contemporaneidade trouxe. Nunca deixa de me maravilhar o facto de num mesmo instante se poder existir em várias épocas. Talvez cada um de nós viva constantemente em diversas eras, apesar de não ter consciência disso. Talvez sejamos construídos por fatias de tempo, que se vão mesclando dando a ilusão de serem um único e mesmo tempo. Depois de comprar laranjas, fui ver o meu neto. Brincámos um pouco, mas as distâncias ainda são grandes. Quase metade da vida dele foi passada em pandemia. Agora, deixo cair a noite sobre os ombros e escuto os rumores da cidade e a música de Morton Feldman. As peças para piano são construídas por hiatos ostensivamente perspícuos entre as notas, então estas parecem emergir do nada e afundar-se nesse mesmo nada de uma forma tão nítida que torna patente o quão finita é a realidade. Como é hábito, falo do que não sei, mas se as pessoas falassem apenas do que sabem, a espécie humana seria muda.

sexta-feira, 12 de março de 2021

Pequenos nadas

A vida está cheia de jogos florais. Foi o que me ocorreu há pouco quando passei os olhos pela imprensa. O facto de serem florais não dá a esses jogos um aroma aprazível. Muitas vezes, o cheiro é nauseabundo e sob o florilégio encontramos cadáveres em decomposição. Não devia escrever estas coisas, logo hoje que é sexta-feira e o fim-de-semana se apresta para entrar com a sua túnica de enganos. Na rua, brilha um sol pouco convicto, mas isso deve-se aos tempos que nos foram dados viver. Acabaram-se as grandes narrativas, as que geravam férreas crenças e inabaláveis convicções, abundando pequenas narrativas sem nexo, a que as pessoas emprestam, por instantes, o seu crédito, para logo as esquecerem e comprarem outras que exibirão nas próximas horas. Quem quer saber da Quaresma e dos rituais preparatórios da Páscoa? Tudo isso pertence a um passado que, visto da estância balnear do presente, não passa de uma sombra. Coisas importantes mesmo são a abertura do cabeleireiro ou do restaurante. Nisto não há nenhuma censura da escala de valores que guiam as gentes. Pelo contrário, também eu aspiro a poder ir a um restaurante. A vida é feita de pequenos nadas.

quinta-feira, 11 de março de 2021

Meditações inúteis

Dou comigo, por vezes, a perguntar-me como chegam, os compositores, à música que compõem. Ouvi-la-ão dentro de si? Resultará de conexões abstractas de tipo matemático? Nunca li nada sobre o assunto e talvez existam múltiplos processos de composição. Uns mais concretos, outros mais abstractos. Haverá uma ideia a priori daquilo que vai ser composto, ou a composição vai emergindo, as partes posteriores fundadas nas anteriores, num jogo de tentativas e erros? O que vale para a música valerá para qualquer outra arte? O pintor verá na mente aquilo que pintará, ou o quadro vai emergindo de um nevoeiro inicial? O dia está nítido, apesar de sombrio. Ora aquilo que agora é plenamente visível proveio de uma zona de trevas, a que damos o nome de noite. Dessa zona de escuridão, a realidade que agora observo foi-se libertando pouco a pouco, até se tornar visível, clara e nítida. Não devia ter comido chocolate, ocorre-me. Não comi muito, mas o suficiente para sentir que foi demais. Será a feitura do chocolate uma arte como a música ou a poesia? O artesanato foi separado drasticamente da arte, mas talvez seja possível pensar num chocolate ou numa refeição como uma performance e fazer entrar no domínio da arte aquilo que se dirige ao sentido do gosto. O melhor é deixar de lados estas meditações, as quais fazem parte da minha colecção de pensamentos inúteis e sem nexo. Esperam-me para um evento online. O que é justo, pois sou já um ser virtual.

quarta-feira, 10 de março de 2021

Causalidade nula

Às oito horas desta manhã completámos o primeiro terço do mês de Março. Depois de escrever a frase olho para ela e descubro dois enigmas, qual deles o maior. Por que motivo a terei escrito? Aquela informação serve para quê? Não faço ideia por que razão a escrevi e muito menos sei para serve a informação nela contida. A maior parte das coisas que faço são desta natureza. Não sei o seu motivo e desconheço a sua finalidade. Dito de uma forma aristotélica – para dar impressão de erudito – desconheço a causa eficiente e a causa final. Desconheço-me e desconheço os objectivos que deveria perseguir. Enquanto escrevo estas sensaborias, vou escutando um CD de Heiner Goebbels, Ou Bien le Débarquement Désastreux. Quem ouve esse tipo de música, dirá o leitor, o mais natural é sofrer de falta de causalidade. Nem causa eficiente, nem causa final, mas também terá perdido a causa material e a formal. Já passou à condição de puro nada. O que é um narrador? Um ser de papel? Ora, o que é um ser de papel? Um puro nada, uma nulidade ontológica. Acho que vou fumar um cigarro para ver se ma passa este delíquio. Há palavras extraordinárias como delíquio – quase uma onomatopeia – ou cerúleo. São palavras que contêm uma certa imperfeição prosódica, mas isso apenas lhe realça a beleza que as habita.

terça-feira, 9 de março de 2021

Como era tranquilo o mundo

A Primavera irrompeu por dentro do Inverno. As pessoas, cansadas do confinamento, precipitam-se nas ruas, passeiam devagar sob a luz solar, como se quisessem aspirar cada onda luminosa que chega a este pobre planeta. A minha neta mais velha, que está a passar cá a semana, interrompeu-me a meditação. Se lhe podia imprimir um trabalho que vai apresentar amanhã na aula online. Seis páginas sobre o Titanossauro da Patagónia, um lagarto gigantesco e, pareceu-me, feioso, dado a uma dieta de vegetais. Como era tranquilo o mundo quando as pessoas pensavam que as espécies eram fixas, que tinham sido criadas naquela azáfama divina dos seis dias, e que tudo estava explicado. Agora, as pessoas podem ter pesadelos com animais disformes que, vindos do início dos tempos, aterram dentro dos sonhos, para os poluir com o terror daquilo que é estranho. A terça-feira entardece por dentro das árvores, que logo projectam pelo chão longas sombras, como se chamassem a noite. Ela virá, trazida pelo vento, e eu anoitecerei mais um pouco. Num livro vejo escrito uma vida não examinada não merece ser vivida. Talvez Sócrates tivesse proferido a frase no seu julgamento, talvez tenha sido um dinossauro que, naqueles dias intérminos onde nada acontecia, se tenha lembrado dela ou mesmo um dragão dado ao ócio. Tudo é possível neste mundo.

segunda-feira, 8 de março de 2021

Um sentido difuso

Há dias em que tudo tem um sentido difuso articulado por uma lógica também ela difusa. O espírito vagueia nem sabe por onde, mas qualquer tentativa de focagem, qualquer esforço em direcção à nitidez é repelido pelo corpo. Na verdade, nunca se sabe lidar com esse animal que nos coube em sorte. Pensamos que está domesticado e logo ele se entrega a desejos silvestres. Julgamo-lo vivaz e ele caminha sonâmbulo. Não admira que os homens se sintam estranhos perante essa carne em que têm de viver. Umas vezes, endeusam-na. Outras, diabolizam-na. A sabedoria, penso, seria não dar por ela. A semana começou e um cortejo de coisas inúteis, mas inadiáveis, perfila-se diante de mim. Deveria protelá-las até as esquecer, mas elas não se deixam cair no oblívio. Oiço música para piano de Debussy, mas não me sinto menos difuso. Olho pela janela, a escola ao lado permanece abandonada. Numa rotunda ao longe, os carros giram sem parar. Ainda mais longe, os fungos cobrem de cinzento e preto as paredes brancas do hospital. Em tudo, porém, há uma sensação de difuso, de falta de contorno, como se a realidade não passasse de um esboço. Talvez não passe. Talvez não.

domingo, 7 de março de 2021

Olhar de esguelha

Tive de sair para ir a uma farmácia. Esta frase é muito diferente da que diz: tive de sair para ir à farmácia. Nesta última, a farmácia é a que se vai sempre ou quase, aquela que um longo hábito a tornou a farmácia por antonomásia. Uma farmácia é a que resulta de uma procura motivada pelo encerramento dominical da outra, da autêntica. As farmácias são dos estabelecimentos que ainda resistem à infidelidade contumaz que as grandes superfícies trouxeram. Em tempos, os clientes estabeleciam relações de proximidade com os estabelecimentos do pequeno comércio. Conheciam os proprietários e os empregados. Por vezes, eram clientes, porque os pais já o tinham sido. Agora, ninguém é fiel ao hipermercado ou à empresa que vende electrodomésticos. Paga-se menos pelos produtos, mas as relações sociais ficaram mais pobres, mais abstractas e mais deslassadas. Perde-se o espírito de comunidade e os indivíduos tornam-se átomos guiados apenas pelos seus interesses. Nem sei o que me deu para esta deriva sociológica. O domingo está um dia indeciso, como muitas vezes acontece em Março. Vai variando entre um sol já quente e um céu nublado. Os dias estão bem maiores e nas ruas começa a espalhar-se o aroma da Primavera. Vi pouca gente, mas como fiz a viagem de carro e relativamente cedo, pode ser que a minha impressão esteja enviesada. Aliás, enviesamento é o que não falta nas minhas opiniões. Ando sempre a olhar de esguelha.

sábado, 6 de março de 2021

Lentidão neuronal

Em vez de me meter no carro, fui a pé fazer uma visita familiar. Com o balanço decidi andar um pouco pela cidade. Nunca imaginei que existissem tantos laboratórios de análises clínicas, oculistas, clínicas dentárias, clínicas médicas. Também as farmácias que, durante muitas décadas, foram apenas quatro, quase duplicaram, para não falar no surgimento das parafarmácias. Parece que a população tem diminuído, mas a oferta de cuidados de saúde não pára de aumentar. Isto significará que há muito mais gente doente. Eu sei que este raciocínio é capcioso, mas depois de uma caminhada de seis quilómetros, apanhando algum sol, tudo se torna permitido. A luz solar é necessária para a produção de vitamina D, embora pertença a um grupo cujos organismos produzem por si a vitamina em causa. Espero não apanhar uma overdose. Passei a manhã em videoconferência. Quatro horas online não se recomenda a ninguém, ainda mais com uma idade provecta como a minha. O resultado é ter ficado vazio, sem assunto, não por falta e interesse do evento, mas porque, aproximando-se a Primavera, os meus neurónios tornam-se ainda mais lentos a fazer sinapses, chegando mesmo a suspender toda a actividade, como é o caso. Do que não se pode falar, o melhor é ficar em silêncio, como dizia alguém, a quem não faltava astúcia.

sexta-feira, 5 de março de 2021

Se a noite cai rapidamente

Por vezes, as pessoas entram pela casa da velhice e enlouquecem. Não porque fiquem loucas, mas porque a realidade começa a desfigurar-se, a perder o contorno. Então, os patamares mais recentes caem e as pessoas retrocedem dentro da memória. Vão cada vez mais depressa em direcção à infância. Enquanto correm, a sua vida vai desabando pelo precipício do esquecimento. O que era familiar torna-se estranho. É como se se caminhasse para a morte recuando no tempo, apagando os vestígios da vida, os grandes acontecimentos que as marcaram deixam de existir. Apagam os próprios filhos, a começar pelos mais novos. Isto disse-me há pouco ao telemóvel o padre Lodo. Diz que tem medo de ficar assim, pois foi assim que a sua mãe perdeu a noção do tempo e começou a viagem para o passado. Ele era o mais velho e foi aquele que mais persistiu na memória da mãe, mas chegou um dia em que ela lhe perguntou quem era ele. Não tinha chamado nenhum padre. O que me vale, continuou, é que, se perder a noção do tempo, não tenho filhos para esquecer. Depois, mudando de assunto disse-me estar farto desta pandemia, do temor instalado, de não poder juntar-se com os amigos. Talvez a virtude da paciência me esteja a faltar, acrescentou. A noite já desceu com o seu silêncio envolto na seda fria da escuridão. Medito nas palavras do meu amigo e compreendo-lhe o temor, apesar de não lhe faltar sanidade mental e física. Hoje é sexta-feira, o fim-de-semana ainda não chegou e já parece acabado. Um dos pássaros meus vizinhos cantou. Talvez seja esse o único imperativo que nos ordena a natureza, cantar, mesmo se a noite cai rapidamente.

quinta-feira, 4 de março de 2021

Um problema de máscaras

Está um dia sonolento. Boceja, resmunga e esfrega os olhos. O que significará aqui a palavra dia? Será o período em que a Terra recebe claridade solar ou aquele durante o qual o nosso planeta – talvez sejamos mais dele, do que ele nosso – dá uma volta completa sobre o seu eixo? Num caso, o dia exclui a noite. Noutro, inclui-a. Nunca se pensa nestas coisas, mas toda a gente, sem pensar nelas, sabe distinguir dia de dia. Se quisermos complicar, ainda podemos notar que dia significa era e também o estado atmosférico. É uma espécie de heteronomia ao contrário. Enquanto Fernando Pessoa se desdobrou em múltiplos nomes, aqui várias realidades tomam o mesmo nome. Isto significa que existem várias estratégias de disfarce. Numa, a mesma coisa toma várias máscaras. Noutra, várias coisas adoptam a mesma máscara. Um caso flagrante de homonímia. Como se pode ver, qualquer conversa vai dar ao problema da pandemia. Sem saber como, já estou a falar de máscaras, como se estivesse na Grécia antiga e discutisse sobre teatro. Tenho de confessar uma coisa. Não é o dia que está sonolento. Sou eu. Atacado pelo sono, não consigo parar de escrever disparates, coisas que não interessam a ninguém. Há tantas coisas interessantes para escrever, e logo a mim haveriam de caber estas. Cada um tem o que merece, oiço dizer. Sempre me pareceu que a meritocracia era uma conspiração contra mim, pobre narrador de narrativas destituídas de senso e sentido. Vou dormir uma sesta.

quarta-feira, 3 de março de 2021

Mundos cruzados

O mais espantoso deste mundo é ser composto por vários mundos que se cruzam formando um tecido policromático. Tive de ir a uma outra cidade fazer uma tomografia axial computadorizada. Para chegar ao destino utilizei os serviços de GPS do telemóvel. Talvez por se estar na Quaresma ordenaram-me para ir em jejum, um daqueles jejuns que se faziam noutras épocas. Depois de formalidades sanitárias – apontaram-me para a testa um revólver que mede temperaturas e passei as mãos por álcool gel – e burocráticas, depois de alguma espera em que fui lendo, no meu eReader, um romance, lá vou para uma sala cuja porta tem o sinal de perigo de radioactividade. Sem contador Geiger, enfrento a ameaça. Deito-me numa marquesa e obedeço a duas estimáveis raparigas, que, apanhando-me deitado, ligam-me a uns eléctrodos e picam-me os dedos e as veias de um braço. É para introduzir o contraste, dizem. Lá me deixo contrastar. Olho a máquina cilíndrica e penso que vou ser criopreservado, mas é falso. Vão apenas bombardear-me com radiação atómica. Devia ter trazido o contador Geiger, é o que penso enquanto entro e saio do túnel. Está acabado, dizem. Pergunto-me se o acabado sou eu ou o exame. Desligam-me. Pode ir embora, dizem sorridentes, pois imagino-lhes o sorriso sob a máscara. Agradeço. Depois de todo este tempo no mais admirável dos mundos novos, vou para o carro e desembrulho uma sandes trazida de casa, certo que não haveria aonde comer e beber café, como se fizesse um daqueles piqueniques de que falava o Cesário Verde. Pena que não houvesse qualquer burguesa a descer do burrico, que sem posturas tolas colhesse um ramalhete rubro de papoulas. Os tempos cruzam-se, é verdade, mas perde-se sempre qualquer coisa pelo caminho. Neste caso, a aguarela.

terça-feira, 2 de março de 2021

Vai por aqui um arraial

Pela praceta vai um arraial. Não, não se trata de uma festa ao gosto popular por ocasião de alguma romaria, nem um acampamento de tropas inimigas que venha pôr cerco ao castelo. É apenas um grupo de crianças trazidas pelas mães para gastarem as energias físicas e exercitarem a sonoridade da voz em hipérboles estridentes. Bem as percebo, às mães. Terem filhos pequenos todo o dia em casa está muito para além da capacidade de os gerar. Entre o prazer da concepção, se o houve, e as dores do parto, a vida está suspensa. O pior é o crescimento das crias, as metamorfoses do corpo e as mudanças de humor, tudo em territórios exíguos, mesmo que os apartamentos tenham excelente dimensão. Os corpos pequenos precisam de grandes espaços, onde possam crescer e bolsar pelas cordas vogais o espanto pela existência. Ouve-se, agora, a voz cava de um pai. Parece que veio trazer um princípio de ordem. A algaraviada continua, enquanto a tarde se desfaz em neblina e, a coberto das nuvens, se prepara para se deixar cair nos braços da noite. Calma, calma, diz a voz de baixo do pai ordenador. Um rapaz grita que é bola ao ar. Talvez seja. Quando a vida se interrompe também se há-de mandar a bola ao ar, para que ela retome o seu andamento, até que um apito assinale um fora-de-jogo ou o fim da partida.

segunda-feira, 1 de março de 2021

O dever de anotar

É difícil uma pessoa adaptar-se às novas circunstâncias. Julga que vive como há vinte ou trinta anos, mas a realidade é tão crua que não se faz rogada em desmentir a presunção. Ao marcar um exame médico, deram-me uma série de indicações para cumprir no dia anterior. Nem as escrevi, convicto de que me lembraria delas. Agora que o dia se aproxima dei por mim sem saber o que fazer e a ter de ligar para a clínica, com papel e caneta para escrever aquilo que devia ter escrito. As faculdades, pensei, vão se apagando uma a uma. A natureza não é destituída de sabedoria. Olhei pela janela, o telhado branco do pavilhão desportivo da escola ao lado reverbera, batido pelo primeiro sol de Março. Senti uma súbita vontade de ir ver o mar, de me sentar numa esplanada e assistir ao infinito jogo das ondas, à passagem dos barcos, ao voo das gaivotas. A praia que me repele no Verão chama-me no Inverno. Ali posso escutar o murmúrio de tudo o que é, deixar-me prender ao ir e vir das águas para tocar naquilo que se esconde para lá da cortina preta das coisas visíveis. Anoto que a partir de agora tenho o dever de tudo anotar. Talvez estes textos sejam anotações daquilo que tenho o dever de anotar.

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Uma peça de má qualidade

Suspeito que seja um acontecimento trivial e não há quem não o tenha experimentado. Sentei-me e fui abalroado – não encontro outro modo de o dizer – por três palavras que emergiram nem sei de onde. Em mim ouvi dizer cães de caça. Se há ocupação humana que me é estranha é a caça. Os seus rituais de perseguição e morte, o companheirismo das suas relações sociais, o prazer dos troféus e os perigos imaginários corridos, nem posso dizer que me são indiferentes, pois desconheço-os por completo. Também cães são animais com os quais não tenho qualquer relação. Não me são antipáticos, mas sempre estiveram fora do meu horizonte de interesses. O mesmo não se passa com os gatos, apesar de não ter nenhum. Por que razão cães de caça decidiu visitar-me? Talvez exista em mim um fundo de onde emanam aliterações e que estas, conforme percorrem o longo caminho que vai do inconsciente até à consciência, comecem a procurar materiais vocabulares para se realizarem, para encarnarem. Esta aliteração terá a certa altura encontrado cães de caça e foi assim que me visitou, para minha surpresa. Em tudo o que disse há uma estranha teoria sobre os recursos estilísticos. Estes não são aprendidos, mas existem no mais fundo do nosso inconsciente, tal como as ideias inatas cartesianas habitam a razão dos homens, e, por vezes, decidem, os recursos estilísticos, manifestar-se, do modo mais inesperado que se possa pensar. A isto chamaram inspiração. Ninguém há-de crer na minha teoria, nem eu, mas talvez não seja pior do que qualquer outra. Cuidado com o relativismo, ladra feroz a cadela da razão. Logo, a gata da imaginação se contorce e, ronronando, mia que o melhor do mundo é a sua relatividade. Eu fico estupefacto com o que se passa em mim, desconfiado de que a minha mente não passa de um teatro onde se desenrola uma peça, de má qualidade, a que assisto como se não tivesse mais nada para fazer. Logo hoje que é domingo e o último dia de Fevereiro.

sábado, 27 de fevereiro de 2021

A porta da realidade

A manhã de sábado tomada por ocupações profissionais. O que vale, porém, é que agora a realidade se transferiu para uma dimensão fantasmática a que se dá o nome de mundo virtual. Tem algumas vantagens inegáveis. Pessoas que eram desconhecidas continuarão a ser desconhecidas e se, por um acaso, se cruzarem fora da virtualidade permanecerão nesse estado de desconhecimento, que omite os rituais de sociabilidade e dispensa mesmo a troca de palavras. Não se fala com desconhecidos, um imperativo que se aprende desde muito cedo. Não poderia acontecer um daqueles encontros decisivos que muda o destino de uma pessoa? Sejamos práticos, se é para ter um encontro decisivo, a realidade acabará por chamar, sem se saber muito bem como, aqueles a quem quer mudar o destino e pô-los um diante do outro. Ora como a generalidade dos encontros não servem para mudar destinos, o melhor é que se tornem virtuais, pois já o eram antes de a tecnologia lhes ter dado esse nome e essa aparência. A verdade é que a ocupação matinal não me fez lá muito bem, caso contrário não estaria com estes pensamentos sem nexo. Agora, vou sair e ver o meu neto, que não vejo, a não ser virtualmente, há mais de dois meses. Vou entrar pela porta da realidade.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

O golo e a garganta

Fevereiro está por um fio. Já nem três dias lhe sobram, o melhor será rezar-lhe por alma, ainda em vida. Indiferente ao meu interesse mórbido pelo calendário, uma família, uma mãe e três rapazes ainda sem idade escolar, desconfina na praceta entre prédios. Uma bola parece ser a fonte do alvoroço. As vozes elevam-se para se perderem na abstracção em que a vida se tornou. Estou a especular, a mergulhar num território para o qual não tenho qualquer prova. Por vezes, oiço a exuberância da palavra golo. Há um secreto pacto entre as gargantas dos rapazes e esse anglicismo há muito nacionalizado. Quando delas sai, vem esfusiante, prolongando-se no tempo, como se aspirasse à eternidade. Também eu a terei gritado assim e sinto alguma nostalgia de um tempo em que acreditava nos golos e nos penalties. Perdi a fé. Tornei-me ateu. Já nenhum golo é manifestação de um deus, nenhum penalty, promessa ou perigo. Talvez fosse isto que Nietzsche antecipou ao falar da morte de Deus, ou Max Weber, em desencantamento do mundo. Dei uma vista de olhos pelos jornais online. Parece haver um novo jogo. Quem descobrirá a data do desconfinamento? A imprensa sempre fez parte do meu mundo, mas há nela, mesmo na mais séria, uma superficialidade insuperável. Talvez retrate a vida como ela é. Superficial, inócua, frívola, fútil e leviana. O que me vale é que não me faltam adjectivos, cuja exuberância é prova de escrita incapaz. De facto, Fevereiro está mesmo com más cores. Cinzento violáceo. Não lhe dou muito tempo.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Habituamo-nos, é tudo

Há quase um ano, na verdade há mais, que estamos metidos neste sarilho da pandemia. Pensava nisto, enquanto contemplava a Sá Carneiro, agora pouco povoada, com cafés e bares fechados e transeuntes vagarosos, arrastando a vida e a idade atrás deles. Os mais velhos desabituaram-se de andar, os mais novos rasgam o ar com exuberância, para mostrar que são novos e que nada lhes resiste. Pergunto-me o que penso sobre a situação e dou por mim a soletrar os versos de uma canção de Jacques Brel. On n'oublie rien de rien / On s'habitue c'est tout. Não esquecemos nada. Habituamo-nos e isso é tudo o que me ocorre. Habituei-me ao ritmo da pandemia, ao confina, desconfina e volta a confinar. Habituei-me às reuniões online, à videoconferência, a usar máscara, aos rituais pandémicos. On s’habitue c’est tout. Foi com Jacques Brel que me tornei um apreciador da música francesa, apesar de ele ser belga. Lembro-me da sua morte em 1978, pouco tempo depois de eu ter comprado o último álbum que editou. Foi um ano que me ficou na memória, pois morreram também os poetas Ruy Belo e Jorge de Sena. Nenhum destes homens era velho. Sena tinha 58 anos. Brel, 49. Ruy Belo, 45. A medicina, se comparada com a de hoje, era muito incipiente. O dia acinzentou-se, as acácias continuam despidas, embora o bosque de cedros, ciprestes e pinheiros esteja exuberante nas várias tonalidades de verde. Ando muito memorioso, digo para mim mesmo, embora seja possível que os pássaros meus vizinhos tenham escutado. Ainda se hão-de rir por me verem a falar sozinho. On n'oublie rien de rien.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Das coisas em que não acreditamos

Nos tempos de faculdade, por vezes ia a um café na Avenida da República que tinha a peculiaridade de só servir café de saco. Não sei se ainda haverá casos desses. O estabelecimento era muito acolhedor e tinha um certo tipo de clientela interessada em coisas do mundo e da cultura. Mais de uma vez vi por lá David Mourão-Ferreira. Lembrei-me disto porque ele faria hoje anos, noventa e quatro. Nasceu no mesmo ano do meu pai. Nunca falei com ele, mas recordo-o da televisão, dos programas que fazia, num mundo em que havia apenas um ou dois canais televisivos, a preto e branco, e em que a palavra canal não se referia a esgoto, como acontece agora, quando se fala de um canal televisivo. Não estou a protestar com a televisão dos dias de hoje, as coisas são o que são e, de certa maneira, se as televisões são assim foi porque as pessoas o quiseram. Voltando ao café da Avenida da República, recordo o prazer de lá estar a ler o jornal, um vespertino, num tempo em que em Lisboa ainda existiam três jornais da tarde, que foram morrendo por falta de leitores. Bebia café, lia o jornal e fumava, como acontecia num tempo em que se fumava em todo o lado. Incluindo nas aulas. Os jornais morreram, o café morreu, David Mourão-Ferreira morreu, o meu pai morreu. Talvez já ninguém beba café de saco. Quando se envelhece a vida é um acumular de destroços e de perda de referências. Isso, porém, era uma coisa que eu não sabia. Ouvia dizer, mas não acreditava.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Em louvor da malva

Ao longe, descortino o que parecem ser três árvores cobertas por um véu cor de malva. Não imagino que árvores serão aquelas que florescem tão cedo e nessa cor incerta. Se se fizer uma pesquisa sobre a cor malva, encontram-se matizes tão diversificados que apetece de imediato mandar o mostruário às malvas. Há um filme de que muito gosto, embora não seja obra marcante da história do cinema, que tem um nome que vem mesmo a propósito para este texto. Um Táxi Cor de Malva (Un Taxi Mauve), de Yves Boisset, onde contracenam um contido Philippe Noiret, uma provocadora Charlotte Rampling, um exuberante Peter Ustinov e um simpático e humano Fred Astaire, o médico Dr. Seamus Scully, que se desloca no seu táxi cor de malva. Por que razão gosto tanto desse filme, nem eu o sei. De vez em quanto, procuro o DVD e fico a vê-lo, a olhar as paisagens da Irlanda do Sul, os dramas existenciais das personagens. Há uns tempo comprei o romance que deu origem ao filme, de Michel Déon, publicado pela Gallimard em 1973 e traduzido, em 1975, para português e editado pela Bertrand. Ainda não o li. Temo que o espírito do filme e o do romance não coincidam. Não conheço o autor, isto é, nunca li nada dele, mas Un Taxi Mauve foi galardoado com o Grande Prémio de Romance da Academia Francesa. Será virtuoso, mas não sei se arrisco, apesar de Déon ter sido eleito para essa Academia em 1978. O Sol deu um ar da sua graça, ao longe às árvores cor de malva fulguram, incrustadas numa paisagem verde, que se diferencia em múltiplos matizes, desde aqueles mais abertos a lembrar uma alface alourada até aos verdes carregados, quase lutosos das colinas que encerram o meu horizonte.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Questões tribais

Os dias cresceram a olhos vistos. Há qualquer coisa estranha na expressão a olhos vistos. Os olhos para verem não precisam de ser vistos. É uma locução adverbial, hão-de sossegar-me os gramáticos ou talvez os linguistas, duas tribos que não sei distinguir lá muito bem. Isto fez-me pensar noutro assunto. Está muito na moda verberar a tribalização da vida social que, segundo as mais recentes crónicas do planeta Terra, está a acontecer um pouco por todo o lado, uma tribalização universal. As pessoas devem gostar de pertencer a uma tribo – ou, mesmo, a várias – e com isso encontrarem um lugar no mundo e um chefe que mande nelas, pois não há tribo sem chefe. Eu próprio me tornei chefe de uma tribo. É composta por uma única pessoa, que é ao mesmo tempo súbdito e chefe, isto é, eu. Sou a única pessoa que me obedece. Tudo isto para confessar que também sou um tribalista. Quase que me esquecia do que me trouxe aqui. Os dias estão maiores, a luz demora-se cada vez mais, abandona aquela mania de se deslocar a trezentos mil quilómetros por segundo, e vai mais devagar. Esta é a verdadeira explicação do crescimento dos dias. Quanto maiores são os dias, mais devagar se desloca a luz. A certa altura, chega a parar a meio do caminho, e o dia prolonga-se, prolonga-se. Prolonga-se a olhos vistos, diria um gramático amante de locuções adverbiais. Ou um linguista. Einstein não haveria de concordar com a explicação, mas ele pertencia à tribo dos físicos, o que não era nem será um ponto a seu favor. Por que razão escreves coisas tão parvas, perguntam-me. Está-me na massa do sangue, respondo.

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Não tarda, a Primavera

Já falta menos de um mês – e um mês amputado dos dias a que Fevereiro não teve direito – para que chegue a Primavera. O dia de hoje parece anunciá-la. O sol deu um ar da sua graça, embora de forma muito comedida. Ora brilha, para que árvores e vidros resplandeçam, ora se recolhe por detrás das nuvens, para que a luz se derrame difusa, com um tom de melancolia, que não deixa de lhe ficar bem. Na rua ouvem-se vozes de criança e, nos parapeitos das janelas, os pássaros conversam entre si, enquanto tomam um banho solar. Num vídeo acabado de receber, o meu neto dá saltos em cima de uma cama e parece exultante. Julgo que não haverá criança que não goste de pular em cima de uma cama. A minha neta mais velha, contam-me, entrou no clube das mulheres. Apareceram-lhe as regras, com se dizia antigamente, embora a linguagem usada na comunicação tivesse sido mais moderna. O tempo desliza demasiado depressa e ela já não virá para o meu escritório com a irmã brincar aos colégios, às professoras e alunas, às inscrições e faltas às aulas a serem reguladas com severidade com alguma mãe distraída. Com os saltos de um, as regras de outra, a expectativa da que ainda não se regulou, vou sendo empurrado para fora do mundo. O pior é o confinamento. Sem ele, talvez hoje estivessem aqui a almoçar, e o deslizar em direcção à grande e eterna noite fosse mais aprazível, pois haveria de esquecer, ao vê-los e ao ouvi-los, que o tempo é um príncipe inexorável na sua justiça. Um pássaro canta, a escola ao lado recorda um filme distópico, onde tudo foi abandonado. É domingo, e essa é a única coisa que me ocorre de momento.

sábado, 20 de fevereiro de 2021

Falar do tempo

O Inverno resiste aos avanços da Primavera. Finca-se nas patas traseiras e faz força para que o tempo não deslize rapidamente para os dias ensolarados. Chove e um vento frio sopra de Sul, mas não vai a galope. Deixa-se ir em passo vagaroso, nove metros por segundo. Sou informado de que por aqui se está em alerta laranja, não vá o mafarrico tecê-las. Continuo com acentuada inclinação para ser boletim meteorológico. De que hão-de as pessoas falar, quando não têm nada para dizer? Do tempo. Um homem convida uma mulher para sair, mas sofre de uma acentuada falta de assunto. Então, ocorre-lhe falar do estado do tempo. Informa-a das temperaturas máximas e mínimas, se chove ou faz sol, se troveja. Emocionante é o momento em que fala da velocidade do vento e põe a mão sobre a dela. Ela, perplexa e perdida na carta meteorológica, não sabe se há-de ou não tirar a mão. E se estiver um vendaval? E se chove a potes? E ali fica indecisa, tira ou não tira, enquanto ele avança por ciclones e tsunamis, deambula pelas tempestades tropicais. Chega a ser convincente no que diz sobre tempestades de granizo e as grandes nevascas que podem acontecer no próximo século. O tempo é um assunto inesgotável, e, caso fosse cultivado com esmero, muitos divórcios seriam evitados.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Cultivar um jardim

Os dias continuam desagradáveis. Um vento frio sopra de Sul e daqui a pouco há-de chover. Enganei-me. Já está a chover, e chove apenas para confirmar a precisão do prognóstico meteorológico lido num dos sites que se dedica a presumir como o clima se comportará. Nunca deixa de me fascinar a atracção humana pelo futuro, tão forte quanto a que existe pelo passado. Daqui não será completamente estulto concluir que o pior sítio para se viver é o presente. Deverá ser tão doloroso que a mente humana ou se volta em ânsia para o que há-de ser ou se recolhe na melancolia do que foi. Talvez a vida não seja outra coisa senão um conflito com o presente, uma descoincidência contínua com o que ocorre a cada instante. Uma pedra ou um rio coincidem plenamente com o momento, por isso não têm uma consciência infeliz. Talvez estes pensamentos sejam motivados pelo confinamento, o qual torna as pessoas meditabundas e as leva a pensar coisas que um saudável bom-senso manda não pensar. Há pouco contei as orquídeas floridas. Já são seis e as outras prometem abrir-se em esplendor para que possam ser contempladas. Um filósofo alemão de origem coreana escreveu um livro em que reflectiu sobre o tempo que dedicou ao seu jardim. Tenho pena de não ter uma vocação de jardineiro, pois essa seria a mais bela e produtiva das ocupações. Fazer crescer a beleza pelo prazer de a contemplar.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Mundos possíveis

Um dia desabrido, o de do hoje. Suspeito que terá acordado indisposto, lacrimoso, talvez a sofrer de algum desgosto de amor, se ainda os há, ou de um estado depressivo. Outra hipótese é de se estar na Quaresma e o dia entregar-se aos ritos penitenciais, ao exercício do arrependimento e, por isso, chove como se chorasse, tomado por súbitos ataques de mágoa e melancolia, em que uma água gélida se derrama de nuvens cinzentas. Daqui a pouco terei de sair, atravessar a cidade de lés-a-lés. Olho para a rua e pergunto-me se esta Terra é uma excepção num universo sem medida ou se é apenas um dos mundos que por ali existem. Caso seja apenas um dos mundos habitados, será ela o melhor dos mundos possíveis? Muitas são as coisas estranhas que há universo fora, mas talvez as mais estranhas sejam a existência de mundos habitados e de neles haver seres que pensem que há mundo habitados. A chuva persiste na queda, os carros passam devagar, são quatro da tarde, mas podiam ser seis ou mesmo duas. Este confinamento é muito diferente do anterior, é o que me ocorre.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Metafísica de alfurja

Por vezes sou assaltado por pensamentos que ninguém no seu perfeito juízo deveria ter. Por exemplo, há pouco sofri a distracção imposta pelo pensamento de que toda a busca pela origem das coisas, seja das espécies, do universo, ou de qualquer outra existência, será apenas fruto de uma forma de pensar errada. O facto de perguntarmos pela origem não significa que exista uma origem. Este computador não teria origem, aquele carro que passa na avenida não teria origem, eu não teria origem, o universo haveria de passar bem sem origem. Talvez seja tudo um borbulhar eterno sem princípio e sem fim. Depois considerei estes pensamentos e julguei-os inúteis até para uma Quarta-Feira de Cinzas. Fui espreitar o trânsito da avenida, mas fiquei a olhar para o friso das orquídeas. Todas dão sinais de que irão florescer, cada flor terá a sua origem num botão, que terá a sua origem em qualquer outra coisa que os meus conhecimentos botânicos não alcançam. Então sempre existe origem das coisas, dir-se-á. Eu responderei que sim, mas que talvez isso não passe de uma manifestação da preguiça que me invade a mente. Olho de novo para a rua e vejo borbulhas por todo o lado, bolhas que aparecem e desaparecem, sem causa nem destino. Acho que vou passar pelas brasas, talvez esta metafísica de alfurja se remeta à sua origem.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Uma Terça-Feira de Cinzas

Enquanto olho o mundo através de uma janela, vou bebendo café. Se não há qualquer ligação significativa entre beber café e olhar através da janela, é plausível que possa haver uma relação directa entre o dia triste e cinzento, com uma luz baça e fria, e um ânimo pouco animado. Os seres humanos dependem mais do cosmos do que aquilo que eles gostam de reconhecer. Acontece que certos actos ou estados de alma podem ser o resultado de causas exteriores. Um certo tipo de luz, a forma como corre o vento, algum aguaceiro despropositado, uma vaga de calor. Todas estas coisas influem sobre o espírito, assim como sobre os ossos. Esta Terça-Feira de Carnaval mais parece uma Quarta-Feira de Cinzas, oiço dizer. Contudo, os pássaros meus vizinhos parecem animados. Conversam, cantam, voam, talvez pensem que estão já na Primavera. Presumo que não se mascarem no dia de hoje, mas a ornitologia não é o meu forte. Sei, por exemplo, que os anjos se disfarçam de pombos, mas não sei se os pombos se disfarçam de alguma coisa. O mundo está cheio de mistérios e mesmo onde eles não existem, os seres humanos inventam-nos. Umas vezes para continuar uma conversa, outras para sonhar, outras ainda para escreverem qualquer coisa. Não é amor à mentira, nem tão pouco uma inclinação para o mito, mas apenas a necessidade de continuar a usar a linguagem, cujo mistério não é dos menores.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Deixar de ter opinião

Apesar dos esforços e dos afazeres timbrados com o selo do calendário, o tempo persiste a desdiferenciar-se, a perder as qualidades com que longas tradições o investiram. Talvez todas as coisas tendam, apesar dos esforços em contrário, para a igualdade, para se mesclarem no magma da existência, perdendo qualidades. Não sei se pensar nestas coisas me dá sono ou se as penso porque estou com sono. A vida arrasta-se ao sabor das notícias, como se arrastam os carros pela avenida movidos pelas necessidades da existência. Solicitam-me uma opinião, logo a mim que faço os possíveis por evitar esse dano que é ter opiniões. Quando era novo tinha muitas opiniões, à medida que o tempo foi passando fui-me despindo delas. Quando menos se percebe o mundo mais opiniões se tem, quanto mais opiniões se tem menos se percebe o mundo. Depois, sem se saber muito bem a razão, começa-se a perder a vontade em sustentar as presunções pessoais. O silêncio então cresce. Torna-se possível ficar a olhar para o que se passa e daí evitar qualquer ilação. Talvez todas estas ideias sejam condenáveis, mas não me ocorreram outras.

domingo, 14 de fevereiro de 2021

Descrições do mundo

O domingo desliza sorrateiro em direcção ao meio-dia. Na rua, andam famílias em fuga ao confinamento. Trazem crianças pela mão e deixam-nas correr nas pracetas envolventes. Numa delas, um pai joga à bola com dois filhos pequenos. Tudo de máscara, exceptuando a bola. O parque infantil, porém, está vazio, interdito pelas autoridades, apesar de não haver autoridade por perto e os sinais de interdição se terem desvanecido. Um periquito poisou numa das varandas. Passa longo tempo a apanhar sol e a contemplar o abismo. Por mim, sinto uma vertigem, como se fora eu a olhar para o precipício, mas eu não sou pássaro e o meu elemento é a terra. Ontem, caminhei longamente por fora da cidade. O pior é o declive, as subidas às quais o corpo se desabituara. A vantagem está na rápida acumulação de pontos cardio, segundo uma aplicação do telemóvel que me vigia os minutos activos e talvez muitas outras coisas que nem imagino. Oiço as vozes lá em baixo, o Sol deixou-se cobrir por um véu ligeiro de nuvens esbranquiçadas e a luz perdeu a reverberação de há pouco, parecendo sofrer de súbita anemia. Consta que é dia de S. Valentim, mas esse é um santo estranho a qualquer devoção por aqui. Mais uns dias e começa a Quaresma, coisa que já não comove ninguém. Não é fácil manter um diário quando não se tem nada para dizer.

sábado, 13 de fevereiro de 2021

Meditação solar

Volto ao registo meteorológico. O sábado começou imerso em neblinas matinais. Prolongaram-se pela manhã dentro, mas a partir de certa altura o Sol subjugou os inimigos e coroou-se como um rei esplendoroso. Reverbera ainda, mas nesta exibição do seu poder, como em todas as exibições de poder, esconde-se uma ameaça. Virão dias em que o seu brilho será insuportável e o calor, mortal. Deflagrarão incêndios e toda uma tragédia tórrida emanará do seu brilho desmedido. Isso, porém, será lá mais para a frente. Agora, a sua vinda merece celebração. Depois do meio-dia fui às compras. As ruas quase pareciam as de um sábado desconfinado, com muitos carros a circularem. Na superfície comercial – nem sei como conseguem inventar estas designações – não havia muita gente. A aproximação da hora de almoço retrai a vontade de fazer compras, pensei. Agora, preparo-me para ir fazer uma caminhada. É um exercício para me imaginar uma pessoa livre, que não está em prisão domiciliária. Espero que os caminhos que irei eleger estejam sem gente e que possa desmascarar-me e sorver o ar, como se tudo estivesse como imaginávamos que estava há um ano, embora já não o estivesse. A vida está cheia de ilusões e armadilhas.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Tempo de Carnaval

Está um tempo de Carnaval. Olho para a frase e não posso deixar de me rir. Se estivesse a chover, também poderia dizer que estava um dia de Carnaval. Dito de outra maneira, qualquer tempo é tempo de Carnaval. Este ano não haverá corso, o país será poupado àqueles desfiles constrangedores, à pobre alegria dos foliões, às raparigas cheias de frio a abanarem-se como se estivessem no Rio de Janeiro, à falsificação que tudo aquilo representa. Certamente, haverá um psicólogo caridoso que virá explicar que essa terrível ausência dos festejos terá um impacto na saúde mental dos portugueses, que ficarão mais ansiosos e deprimidos, a sonhar com ansiolíticos e antidepressivos. Como observador longínquo do fenómeno, sempre achei que era uma manifestação depressiva de uma doença mental que ataca os portugueses entre o Natal e a Páscoa. Com um dia tão primaveril, nem consigo compreender o motivo por que me pus com esta diatribe contra tão preclara instituição. Eu que me mascaro para ir à rua e mal chego a casa tiro a máscara que usei e fico com aquela com que nasci e foi envelhecendo. Os dias já são maiores, crescem languidamente e, não tarda, hão-de precipitar-se para o solstício de Verão. Depois, começarão a encolher. Não há nada de novo sob o Sol. Talvez tenha dormido mal.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Da necessidade

De manhã, tornei à farmácia. O médico decidiu inovar e introduziu uma nova substância na ementa, a qual não apresenta opções, apenas preceitos a cumprir. Muito gostamos de pensar que a vida está cheia de possibilidades alternativas, mas começo a desconfiar que sob essa capa se esconde um feroz preceituário de regras a que não nos podemos furtar. A terrível necessidade dos gregos antigos. Estes diziam tudo com uma beleza de que perdemos a capacidade de imitar. Ananke era a deusa da inevitabilidade e mãe das Moiras. Eram sensatos, os gregos, ao prestar-lhe culto. Nunca se sabe se o inevitável não pode ser evitado. Haverá uma inevitabilidade na chuva que cai, pergunto-me. Talvez lhe seja possível não se precipitar e apenas o faça por um exercício de liberdade da vontade, o desejo de ajudar os homens e, ao mesmo tempo, de os aborrecer. Reparo que a minha inclinação para o registo meteorológico continua activa. Na verdade, sou um narrador sem narrativa, sem nada para contar e sem nada para dizer. Uma camada mais escura e baixa de nuvens parece deslocar-se a grande velocidade, ao contrário da camada superior, estática e sem vontade de se dar a grandes viagens. Também é plausível que seja uma ilusão, e que não existam nuvens, nem movimento, nem chuva e tudo o que vejo se passe na minha mente, que de tão ociosa se põe a imaginar um mundo fora dela, como se isso fosse possível.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Esculápios, profetas e sibilas

A manhã apresentava um sol esplendoroso, que logo se retraiu e agora o céu é um oceano de cinza e chumbo. Temo que estes textos se confinem e não sejam mais que um registo do estado do tempo. Nunca pensei entregar-me com tanta devoção à meteorologia. Quando era criança achava estranho, embora não me deixasse de fascinar, a devoção dos mais velhos, a geração dos meus avós, pelo boletim meteorológico. Não sei se os impelia um interesse genuíno pela meteorologia ou se era um resquício de um culto arcaico dos poderes divinatórios, de reverência por profetas e sibilas. Antes registo meteorológico do que contabilidade pandémica, pensei. Olho para as estantes que me envolvem e confirmo a necessidade de comprar mais alguns módulos. É preciso evitar que o caos se instale e, neste momento, são já demasiados livros sem poiso certo, uns sem-abrigo que estão por aqui ao deus-dará. Daqui a pouco terei de ir fazer uma visita ao cardiologista. Espero que não tenha ideia de me pôr a fazer exames, pois ainda há umas semanas os fiz, mas nunca se sabe o que atravessa a mente de um médico, uma espécie que também reivindica a posse de poderes xamânicos. Esculápios vindos sabe-se lá de onde, olham para uns papéis e põem-se a conjecturar sobre o futuro, quando não sobre o passado, o que é ainda mais difícil. Talvez chova, quando tiver de sair de casa. A profecia não é o meu forte.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Uma saída ao mundo real

Depois de tantos dias de reclusão, saí para ir à farmácia. O mal é começar a frequentá-las, pensei ao entrar. Não que as pessoas sejam desagradáveis. Pelo contrário, são muito afáveis e têm o poder de fazer esquecer que o que leva ali os clientes é uma qualquer dependência vital. Fui abastecer-me de algumas drogas de que dependo, talvez menos moderadamente do que imagino. Se as deixasse de tomar, os efeitos a curto prazo seriam invisíveis, mas desconfio que a médio prazo poderiam ser muito pouco recomendáveis. As farmácias são uma prova do triunfo da química. Talvez seja possível imaginar um mundo onde a terapia química seja substituída pela genética. Talvez, mas é um assunto do qual nada sei. Aproveitei para caminhar pelas ruas. Estavam vazias e tristes, as árvores despidas, e nem a aberta que permitiu que um sol invernoso brilhasse chamou as gentes à rua. Depois, peguei no carro e fui dar uma volta para lhe alimentar o ego e a bateria. O último confinamento custou-me uma bateria. Não há como uma vida na província, onde nada se passa e nesse nada está toda a sua glória. Os dias já cresceram um bom bocado, constato agora ao olhar pela janela.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Incertezas do dia

Um dia incerto, mais um. O sol já brilhou cheio de promessas, depois o céu cobriu-se de nuvens e, agora, chove. Uma chuva fina, pulverizada, que o vento arrasta em turbilhões. A manhã foi intensamente ocupada e a tarde não será muito diferente. A pandemia trouxe uma nova apreciação sobre o que deve ser uma conduta eticamente permissível. O próximo deve estar menos próximo e há uma justa distância a cultivar. No espaço, mas também na expressão dos afectos. As culturas do Sul vinham abolindo as distâncias, cultivava-se a proximidade até à intromissão, mas isso já não é virtuoso, se é que alguma vez o foi. Pensei em tudo isto enquanto olhava para a avenida quase deserta, um peão passava na passadeira, outro ia pela calçada do lado de lá. Faltava-lhes ânimo nos passos, como se não soubessem o que fazer numa hora como esta. Talvez não saibam. Sento-me e não quero pensar em nada, a não ser nas tarefas a realizar. Tirando isso, também eu não sei o que fazer, embora não sofra de falta de ânimo. Pelo menos é o que soletro para mim mesmo. Oiço um álbum chamado From Gagarin’s Point of View, de Esbjörn Svennson Trio. Esbjörn Svennson não teve sorte, apesar do talento até para encontrar títulos para os álbuns do seu trio. Tudo é incerto como o dia de hoje. O Sol voltou a brilhar. Por quanto tempo?

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Imaginação narrativa

Numa das varandas da casa tem-se uma vista directa para a Sá Carneiro. Fui lá. Fiquei a olhar o trânsito. Os carros não paravam de passar, nos dois sentidos, movidos por uma necessidade de circulação de tal modo constrangedora que lhes foi impossível ficarem parados nas garagens ou nos lugares de estacionamento das ruas. Uns iam de faróis apagados, outros exibiam as luzes com que se anunciavam. O dia talvez esteja menos frio que o de ontem. Alguém vai pelo passeio do outro lado. Caminha sem pressa, por vezes os passos parecem hesitar. Passou diante de um friso de lojas vazias, que em tempos foram dependências bancárias. Então, imaginei um narrador que relatasse as acções daquela pessoa. Não um narrador que da sua omnisciência desse a conhecer uma história em volta de uma intriga para a qual o leitor esperaria um desenlace, mas de um outro tipo de narrador que descrevesse cada gesto, cada palavra, cada som escutado, cada cambiante da paisagem, cada mudança da configuração das pedras do passeio, a cor de cada carro que passa pela pessoa. Um narrador que fosse como uma câmara de filmar, uma câmara exaustiva, que na sua ânsia de tudo registar e contar mostrasse uma nova omnisciência. Depois, recolhi-me e disse que não devia pensar em coisas daquelas, pois hoje é domingo, dia de descanso e até a imaginação precisa de descansar. Calculo o tempo que falta para o almoço e sento-me.

sábado, 6 de fevereiro de 2021

Sábado tardio

Eram quase quatro da tarde quando tomei consciência de que hoje é sábado. Vale mais tarde do que nunca, dir-se-á. Comecei cedo a trabalhar e quando acabei, já a manhã tinha ido para aquela pátria de onde nunca se volta. O almoço foi tardio e, depois dele, fui à varanda do escritório olhar a rua. Vi um casal atravessar uma passadeira, ele com máscara, ela de rosto aberto para quem a quisesse olhar. Imaginei-a uma bela mulher, mas, dada a distância, não o pude confirmar. De uma chaminé saía fumo. Pela quantidade presumi ser de uma lareira. Olhei demoradamente as acácias, agora completamente despidas, mas não consegui formular nenhum pensamento sobre elas. Talvez, penso-o agora, as árvores falem entre si, troquem informações e produzam mesmo pensamentos complexos, uma literatura articulada pelo movimento dos ramos. De imediato, o olhar é capturado pelo bosque da escola aqui ao lado e sinto que os cedros falam com os pinheiros e os ciprestes. Tento escutar a conversa, mas a janela fechada não deixa que som algum chegue até mim. Depois, olho paras as oliveiras e sinto a sua solidão, a tristeza que as habita. Todos estes terrenos formavam um extenso olival, para onde vinham ranchos de homens e mulheres varejar a azeitona e apanhá-la. As que restam são tratadas como peças de museu e isso deixa-as inconsoláveis. Há muito que não há um dia de sol, um daqueles dias frios e luminosos, onde apetece vestir um sobretudo e caminhar pela rua. Hoje é sábado, as pessoas não podem viajar entre concelhos, o vento norte sopra com muita moderação, o céu está nublado, mas não chove. Não tarda, e a noite cairá.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Um analógico no mundo digital

Uma viagem à varanda faz-me descobrir que o dia está frio. Depois, pensei sobre essa constatação e fiquei decepcionado pela minha subjugação ao mundo analógico. Fosse eu um digital nato, teria de imediato aberto a aplicação meteorológica e verificado a temperatura fria que ali consta. Qual a diferença entre um digital e um analógico? O analógico depende da realidade, um digital dispensa-a, basta-lhe consultar o telemóvel para aceder ao conhecimento. Qualquer analógico, como este infeliz narrador, está submetido à canga do real, à necessidade da verificação empírica. Desconfio que, por mais reuniões e encontros em plataformas digitais que faça, nunca conseguirei que me seja concedida cidadania nessa pátria feita de 0 e1. Por outro lado, há que ter em conta uma certa inclinação do narrador para a hipérbole. O dia não apenas está frio como chove. Vejo-o pela janela, confirmo-o no telemóvel. Depois de uma manhã passada numa reunião online, aguarda-me uma tarde numa reunião online. Só espero que jantar não seja virtual, que o tinto não resulte de uvas digitais e que a serenidade da noite seja a serenidade da noite e não uma imagem da serenidade da noite projectada do computador.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Literatura de viagens

Fazer parte do batalhão do confinamento é uma tarefa que exige um rigoroso planeamento militar, do qual a logística e o regimento de disciplina não serão o que menos importância tem. Há pouco, foi hora de exercício. Nestas alturas, sinto uma estranha afinidade com o jovem oficial herói desse espantoso romance que dá pelo título de Viagem à Volta do meu Quarto, de Xavier de Maistre. Detido durante seis semanas em casa, descreve as deambulações no quarto como se o assunto fosse a literatura de viagens. Também eu deveria começar a descrever as estantes do escritório como grandes paisagens exóticas. Falaria do deserto que se abre na estante à minha esquerda. Faria o inventário minucioso dos acidentes orográficos através da indicação de autores e títulos. Na da direita, haveria de descobrir paisagens polares, a brancura de neves e gelos. As deslocações para os quartos ou a cozinha seriam descritas como grandes viagens transatlânticas. Na sala onde se encontra a televisão, talvez descobrisse pirâmides, múmias e o que resta da grandeza do Egipto dos faraós. Haveria de fazer anotações etnográficas, considerações políticas e meditações sobre a relatividade moral dos povos. Seria tudo mais interessante, tivera eu talento para inventar desertos de areia ou de água gelada naquilo que é apenas papel e gostasse de ser um viajante. Há pouco fiz mais uma tentativa de falar com os estorninhos, mas nem para mim olharam. Talvez estejam zangados comigo. Passei a manhã a videoconferenciar, o mais natural é que os neurónios sofram ainda as ondas de choque do acontecimento, e as sinapses sejam um pouco desconexas. Há em tudo uma sombra de tristeza, uma tonalidade melancólica.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Comprar um destino

Na contracapa de um livro de poesia – aliás, uma tradução – estão as palavras de um conhecido romancista português: Isto é Grande Poesia, sem uma baixa, uma falha, um tropeço. Os olhos não se soltam das maiúsculas de Grande Poesia. Medito nelas e quanto mais medito mais me parece que o famoso romancista se entrega ao proselitismo ou ao apostolado. Uma grande poesia não necessita da hipérbole das maiúsculas, basta-se a si mesma na sua grandeza. Depois, penso no que será uma baixa, uma falha, um tropeço em poesia, mas não sou um escritor famoso, nem sequer um escritor, e não consigo fazer ideia. Entretenho-me com minudências e escrevo sobre futilidades. Por vezes, pareço uma emissão do boletim meteorológico. Descrevo o estado do tempo, a cor do céu, a inclinação do vento. Outras vezes, sou um voyeur que espreita não amantes descuidados, mas a rua por onde passam transeuntes com destino. Fascinam-me as pessoas que possuem um destino. Gostava de lhes perguntar onde o compraram. Sabendo o sítio, haveria de ver o preço, e se fosse em conta, ainda compraria um destino. Pena é que não possa comprar, disso estou certo, um Grande Destino, cheio de maiúsculas. Contentar-me-ia com um destino pequenino.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Um diário de futilidades

Também de Fevereiro o júbilo anda arredado. Está tudo tão melancólico que a luz se some dentro de si própria, num movimento de reversão que transforma o dia em quase noite. Espreito pelas janelas, a estrada está molhada, os carros passam na avenida, um ou outro transeunte vai pelo passeio, dando ares de atleta. O esboroar da existência nem sempre se faz em festa e fogo-de-artifício. Preso ao confinamento, observo as contabilidades de cada dia, nesse balanço macabro que junta infecções e óbitos, numa economia em que a oferta da morte e da patologia excede em muito a procura. A manhã passou com um contínuo bombardeamento da caixa de correio electrónico. A existência virtual, de tão imponderável, acaba por ser bem mais adiposa que a real. À minha frente, tenho vários livros de poesia. Com os títulos compor-se-ia um poema que não haveria de desmerecer, mas o que leio, quando a virtualidade me deixa, é um romance de Peter Handke, A angústia do guarda-redes antes do penalty. Em Portugal o termo alemão Angst foi traduzido por angústia, mas na edição em castelhano, por miedo. Os franceses traduzem por angoisse e em língua inglesa está vertido por anxiety, no caso do livro, mas no do filme de Wenders, por fear. Medo será mais apropriado, ou talvez nenhum guarda-redes sinta medo, angústia ou ansiedade antes do penalty. Isso, como já vi escrito, pertence ao que vai marcar e não ao que vai tentar defender. Houve um corte súbito de electricidade. A internet desapareceu e talvez alguém tenha ficado preso num dos elevadores. Apuro os ouvidos. Silêncio. A vida é feita destas minudências e aos homens cabe-lhes apenas a metafísica do penalty. Por mim, perco-me neste diário de futilidades.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Questões aladas

Os estorninhos voltaram ou talvez nunca tivessem partido. Serão residentes, mas durante os últimos tempos não se ouviam. Agora, cantam e voam, desenhando estranhos símbolos no ar, letras de um alfabeto que só os anjos decifrarão. Os pombos, pousados nos telhados, observam com desconfiança as acrobacias destes primos mais pequenos. Enumero as coisas que tenho de fazer, olho para um artigo que preciso de ler com atenção. Terá a chave para um enigma com que me deparei numa incursão por um sítio que não devia frequentar. O arvoredo dorme em profunda quietação e também em mim há sono. Pudesse e dormiria agora. Fecho os olhos, deixo-me levar por uma súbita rêverie, mas logo tomo consciência de que não me posso entregar a tais devaneios. Os estorninhos fazem-me chegar a sua voz. Deveria gravá-la e dedicar a vida a decifrar-lhes as palavras. Depois, conformo-me com a minha impotência para o fazer. Não é Champollion quem quer, e também não tenho qualquer pedra roseta.

domingo, 31 de janeiro de 2021

Correlações coincidentes

O domingo começou mal. Uma chamada de um amigo ainda cedo. Estranhei, pois nunca ligaria aquela hora matinal. Olha, diz-me, uma notícia desagradável. Bastante. Alguém conhecido de ambos morrera de morte súbita. Tinha 44 anos e uma bela carreira. Conhecemo-nos todos, um grupo de quatro, há uns dez anos em circunstâncias que não vêm para o caso. O mais novo do grupo, bem mais novo que os outros, foi agora levado pela parca, sem que nada o anunciasse. Tínhamos um jantar agendado para depois da pandemia, se ela acabasse. Haveríamos de falar de vinhos, de política, do mundo. Ele emudeceu. A minha filha faz hoje anos. Não a verei. Não haverá jantar de aniversário. Apenas telefonemas, trocas de mensagens. O melhor será rasgar todas as agendas. Anda tudo fora dos eixos. Janeiro está a acabar mal. As orquídeas, porém, parecem indiferentes. Decidiram florir mais cedo que o habitual. Até a mais frágil, a que se pensa que nunca chegará ao ano seguinte, já deu sinal de vida e lançou uma haste onde se notam os botões que se abrirão em flor. A vida dos homens, com os seus dramas e tragédias é completamente indiferente à natureza, que continuará a correr para o futuro, com a sua beleza e a sua fealdade, sem que um sentimento pulse na seiva do mundo vegetal ou toque o sangue dos animais. Os domésticos não contam, pois são prolongamentos humanos. A avenida parece vazia e o céu cobre-se de um manto de cinza escura, para combinar com os tempos. Não sei se é boa ideia um mês acabar a um domingo. Se ele acabasse num outro dia, tudo talvez fosse melhor. Eu sei, é uma falácia. Post hoc, ergo propter hoc. A falácia da correlação coincidente. Anda, porém, muita gente por aí a dizer que não há coincidências. O melhor é não acreditar no que pensa muita gente, mas que as há, lá isso há. Tal como as bruxas.

sábado, 30 de janeiro de 2021

Sábado sem consertos

À lateral do meu monitor tenho colado um post-it com o conjunto de arranjos do sistema eléctrico a fazer. Há meses que ali está. O electricista que prometera vir adiou a vinda uma, duas, três, sei lá quantas vezes. Constou que a vida se lhe desarranjou e com isso os arranjos que deveria fazer. Recorri a outro. Que viria hoje. Ainda não veio. Talvez a vida também se lhe tenha desconsertado. Os cabos eléctricos talvez atraiam desordens, nunca se sabe. O céu está nublado e nem sempre as notícias que recebemos são aquelas que queremos ouvir. Isto é uma banalidade, mas a vida é um conjunto de trivialidades que, por vezes, são incomodadas pelo fogo-de-artifício. Nesses instantes, enquanto olhamos para o céu de boca aberta, pensamos que a existência é pura exaltação. Não é. Felizmente. Ninguém suportaria viver nesse estado uma vida inteira. Na rua, um grupo de pessoas, adultos e crianças, cumprimenta-se, troca beijos. Há quem espreite para um carrinho de bebé. Há quem tenha máscara. Há quem não tenha. Sobre a capota do carrinho uma fralda, a fazer de pala, treme batida pelo vento. Os cães farejam-se, mas não esganiçam a voz. Sábado da parte da tarde, ainda não veio o electricista, tenho de continuar com o post-it a fazer de pendão, para que não me esqueça do que há a consertar. O grupo desfez-se, o vento açoita árvores e arbustos, enquanto luz se some como se hoje estivéssemos num sábado de Inverno. Talvez estejamos.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Trocas e correspondências

Talvez hoje seja sexta-feira. Já não tenho a certeza, agora que os dias se tornaram a indiferenciar. Em vez de tornaram tinha escrito tronaram. Uma troca risível faz toda a diferença. Os dias não são reis para ocuparem um trono ou, tão pouco, soam como trovões. Esta incerteza perante o calendário deixa-me perplexo. Os motivos bem os sei, mas não os digo. Os campos de jogos da escola ao lado estão vazios, como se as pessoas tivessem abandonado a cidade e vivêssemos num tempo distópico. Árvores e arbustos, porém, estão vigorosos, mesmo aqueles que se despiram para hibernar, e deles se desprende uma exuberância que não chega ao mais alto dos céus, porque uma densa cortina de nuvens cinzentas a tudo cobre. Tenho de pôr o telemóvel a carregar e de ler os emails que me enviaram. Correspondemo-nos por tudo e por nada e com isso a correspondência perdeu valor. Outrora, trocar cartas era um exercício sério, exigia ponderação, letra adequada aos olhos do leitor, espírito crítico. Se era uma daquelas cartas decisivas, havia o ritual de a escrever múltiplas vezes, deixando pelo chão um rasto de folhas rasgadas. Isto, caso fosse um filme. Na vida real, não faço ideia, pois nunca escrevi cartas decisivas. Imagino-me a escrevê-las, mas não sei o que se possa escrever de decisivo. Lembro-me de na adolescência haver um enorme catálogo disponível de envelopes para envolver os suspiros desses adolescentes ou mesmo de outros menos adolescentes. Nunca usei, talvez não fosse dado à epistolografia ou aos suspiros. Não faço ideia.