terça-feira, 18 de novembro de 2025

Menoridade

Há dias comprei, numa pequena livraria ao lado de casa, dois livros. Há pouco, quis vê-los, mas não sabia onde estavam. O pior é que nem sequer fazia ideia de que livros eram. Tinham-se evaporado da memória, deixando apenas um leve traço do gesto de aquisição. Andei para um lado e para o outro e descobri um. Sim, aquele é um dos livros comprados. E o outro? Embora não saiba qual é, sei que esse outro é o que me interessa realmente, pois o que descobri só me interessa acidentalmente. Será um romance? Um livro de Filosofia? Não faço a menor ideia. Devia ser interditado de comprar livros. Aliás, devia ser interditado de muitas coisas e não me estou a referir a compras. Aqui, a velha costela iluminista, grita: onde está a tua autonomia, não sabes dirigir a tua vontade? Agora que estás velho, queres um tutor? Esqueceste que a Aufklärung é a saída do homem da menoridade de que ele próprio é culpado? Queres voltar à infância ou sentes falta da culpa? Encolhi os ombros e pensei qualquer coisa de não muito comunicável. Já não tenho idade para os dramas do século XVIII. Preocupa-me descobrir o livro que comprei – caso o tenha comprado – e que estou desejoso de ler, pelo menos enquanto não souber qual é.

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