Último
dia de Primavera. Entrei nele ensonado, pois dormi mal. Talvez por isso, só
agora descubro a efeméride. O que podemos pensar dela? A Primavera de 2026 vai desaparecer amanhã e
nunca mais voltará. Virá outra no seu lugar, mas não será a mesma nem a mesma
coisa. Nestes dias, que são a maioria,
em que acordo de uma noite mal dormida,
sinto uma inclinação, mais acentuada do que nos outros, para ter meditações
desprovidas de sentido e de bom senso. Sou uma excepção à constatação de Descartes de que o bom senso é a coisa mais
bem distribuída do mundo, pois não há ninguém que queira ter mais do que aquilo
que tem. Eu, pelo contrário, gostava de ter mais bom senso, muito mais. Ora o que acontece nos dias como o de
hoje? Penso em coisas disparatadas. Por
exemplo, que não existe Primavera, nem tempo, nem espaço. São uma projecção da
mente dos seres humanos. Kant disse qualquer coisa do género: são formas puras
da sensibilidade, isto é, são o modo como organizamos a experiência. Kant não me interessa, pois ele diz de outra
maneira aquilo que os mitos diziam: trata-se de uma cosmogonia, a passagem do
caos para um cosmos, um mundo organizado. Seríamos os criadores desses cosmos.
Pequenos deuses. Contudo, não partilho do optimismo do filósofo de Konigsberg. O
caos é onde habito. Espaço e tempo esqueceram-se de mim e a minha sensibilidade
não tem qualquer estrutura. Nem sei por que razão falo da Primavera que acaba,
se ela é coisa que não existe. Bom seria dormir melhor a próxima noite.
sábado, 20 de junho de 2026
Da insónia e do caos
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