sábado, 20 de junho de 2026

Da insónia e do caos

Último dia de Primavera. Entrei nele ensonado, pois dormi mal. Talvez por isso, só agora descubro a efeméride. O que podemos pensar dela?  A Primavera de 2026 vai desaparecer amanhã e nunca mais voltará. Virá outra no seu lugar, mas não será a mesma nem a mesma coisa.  Nestes dias, que são a maioria, em que acordo de uma noite mal  dormida, sinto uma inclinação, mais acentuada do que nos outros, para ter meditações desprovidas de sentido e de bom senso. Sou uma excepção à constatação  de Descartes de que o bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo, pois não há ninguém que queira ter mais do que aquilo que tem. Eu, pelo contrário, gostava de ter mais bom senso, muito mais.  Ora o que acontece nos dias como o de hoje?  Penso em coisas disparatadas. Por exemplo, que não existe Primavera, nem tempo, nem espaço. São uma projecção da mente dos seres humanos. Kant disse qualquer coisa do género: são formas puras da sensibilidade, isto é, são o modo como organizamos a experiência.  Kant não me interessa, pois ele diz de outra maneira aquilo que os mitos diziam: trata-se de uma cosmogonia, a passagem do caos para um cosmos, um mundo organizado. Seríamos os criadores desses cosmos. Pequenos deuses. Contudo, não partilho do optimismo do filósofo de Konigsberg. O caos é onde habito. Espaço e tempo esqueceram-se de mim e a minha sensibilidade não tem qualquer estrutura. Nem sei por que razão falo da Primavera que acaba, se ela é coisa que não existe. Bom seria dormir melhor a próxima noite.

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