Está a ser um ano péssimo para as orquídeas aqui de casa. À exuberância de outros tempos sucedeu um desalento inexplicável. Uma parte não floresceu ainda – algumas prometem mesmo não dar flor – e as que floresceram fazem-no de um modo triste, melancólico, deixando as folhas murcharem rapidamente. O friso das orquídeas já teve melhores dias. Em Lisboa, é dia de feriado municipal, dia de Santo António. Ainda não compreendi a falta de previsão política dos sucessivos regimes que nos têm pastoreado. Perante a tensa disputa sobre se o santo é de Lisboa ou de Pádua, coisa que chega a envolver académicos, tê-lo como patrono de um feriado nacional seria um argumento convincente a favor da tese lisboeta. Promovê-lo a santo nacional para dar uma dura machadada nas pretensões dos paduanos e favorecer as dos lisboetas. Depois, todos os portugueses poderiam ir à praia ou a banhos noutros locais e não apenas os lisboninos. Onde me encontro, aa pequena cidade que me vê arrojar o peso da existência, estão previstos 40 graus lá para as três da tarde. Uma realidade excessiva para a minha capacidade de a suportar. Encerro-me dentro de casa, corro persianas e espero não ter de pôr um pé fora de casa, mas não sei se tenho sorte. Umas crianças em transição para o momentoso período da adolescência esganiçam-se na praceta. O sol não lhes afecta o corpo nem os neurónios. Talvez eu já tivesse sido assim, mas não juro. Movido a insónias progrido na leitura de A Consciência de Zeno, de Italo Svevo. Alguns aspectos mais risíveis da personagem Zeno lembraram-me uma outra personagem, Giovaninno, do romance À Descoberta de Milão, de Giovanni Guareschi, o autor dos épicos romances cujas personagens principais são o padre D. Camilo e o líder comunista Peppone. Fui verificar as datas de edição e o livro de Svevo – aliás, Aron Hector Schmitz – antecedeu o de Guareschi em 18 anos. Talvez este tenha sido influenciado, de algum modo, por aquele. Agora tenho mesmo de sair e encarar o dragão do calor. Uma aventura que enfrento, mesmo sem lanças nem flechas.
segunda-feira, 13 de junho de 2022
domingo, 12 de junho de 2022
Num limbo
Não tarda e terei de regressar a casa. Segundo sou informado, as temperaturas na pequena cidade onde levo a existência quotidiana terá chegado perto, demasiado perto, dos 40 graus. Nem sei bem o que dizer, pois só de pensar no caso sinto uma vertigem. Por aqui o tempo está espantoso, 21 graus, apesar de haver sol. O meu neto veio passar parte do dia comigo. Nos seus três anos e meio conseguiu arrastar-me à praia, um sítio que evito. Há qualquer coisa que os netos possuem que contamina os avós e os leva a fazerem coisas que, noutras circunstâncias, se recusariam a fazer. Depois, os netos vão-se embora e os avós ficam sozinhos, entregues a si num mundo que começa a não ser o deles. Nunca foi, claro, mas havia a ilusão de se pertencer a uma certa realidade, onde se reconheciam sem questionamento regras e hábitos. Agora, tudo começa a estranhar-se. Nessa estranheza emerge uma inquietação, e esta sublinha a distância, cada vez maior, entre o mundo a que se pertence e o mundo que existe. O mundo a que se pertence já não existe. O mundo que existe não tem lugar para nós. A partir de certa altura da vida entramos num limbo. Nem estamos no paraíso nem no inferno. Estamos em nenhures e quem vive em nenhures por certo não será coisa alguma. Há domingos que deveriam ser substituídos por outra coisa, talvez por um sábado. Seriam mais tranquilos, imagino.
sábado, 11 de junho de 2022
Do cultivo das aparências
Este sábado está a decorrer de modo anómalo. Comecei por fazer uma caminhada, a meio da manhã. Onde estou, a temperatura é muito moderada e o céu matinal estava coberto de nuvens. Os seis quilómetros de exercício renderam-me 72 pontos cardio. A OMS recomenda um mínimo de 150 por semana. Aceito a recomendação, embora não saiba muito bem para que serve. Quero parecer obediente. É um facto que apenas quero parecer e não ser, mas se todos cultivássemos as aparências o mundo seria um lugar muito melhor. Imagine-se um exemplo. Os dirigentes de um país estão cheios de vontade de invadir outro e destruí-lo. Contudo, prezam muito as aparências e evitam fazê-lo para não passar por belicistas e selvagens que, na verdade, são. Como se pode inferir, o cultivo das aparências é a salvação do mundo. Não há coisa pior do que essa ideia atoleimada de alguém querer mostrar o que é. Que guarde para si o que é e mostre aos outros um comportamento benévolo e afável. Estou a desviar-me do assunto. Estava a falar da anomalia do dia. Ora, para além dessa epopeia de caminhar seis quilómetros, tenho estado a descarregar uma série de romances, caídos no domínio público, de autores portugueses nascidos no século XIX e que escreveram nesse século ou no início do seguinte. Descobri uma coisa espantosa e anómala (daí a anomalia, que nada tem a ver com o conceito daquele autor que trouxe o conceito de paradigma para a ribalta, de tal modo que não há cão nem gato que não fale de paradigma). As universidades americanas e canadianas compravam a literatura portuguesa – e de muitos outros países, imagino – desse tempo para enriquecerem as suas bibliotecas. Não se pense que eram apenas os grandes nomes como Garrett, Herculano, Camilo, Júlio Dinis, Eça ou Antero. Por exemplo, Guilherme Centazzi, Manuel Pinheiro Chagas, Faustino da Fonseca, Arnaldo Gama, Joaquim Leitão e muitos outros. Fiz uma recolha interessante, num certo site americano, coisa de gente boa, interessada em partilhar o que está esquecido. Mesmo que quem o faça seja para manter as aparências, o benefício geral é imenso. Eu estou grato, a eles e às aparências.
sexta-feira, 10 de junho de 2022
A questão do dia de Portugal
Talvez seja um mau patriota. Enquanto, os portugueses celebravam o dia de Portugal, de Camões e das Comunidades – que raio de nome – eu dediquei-me, em parte, ao trabalho. Aqui que ninguém nos ouve, sempre achei este dia uma estopada, não por ser o dia nacional, mas por comparação com o 4 de Julho, dia da Independência nos EUA, e o 14 de Julho, a comemoração francesa da tomada da Bastilha. Grandes festas nacionais. O nosso pobre 10 de Junho não mobiliza ninguém. Minto. Provoca uma enorme mobilização em direcção às praias. Ninguém quer saber, neste dia, nem de Portugal, nem de Camões, nem das Comunidades. Não há festividades populares, nenhuma relação de afecto entre os portugueses e o dia. Em resumo, falhámos em ter o nosso 4 de Julho ou o nosso 14 de Julho. Com o espírito construtivo que é o meu, proponho que este feriado passe para 24 de Julho, não por ser nome de avenida, mas porque nesse dia as tropas fiéis a D. Pedro e aos liberais entraram em Lisboa e puseram os miguelistas em fuga. Foi a nossa tomada da Bastilha, o reforço da nossa independência. E como seria em Julho não destoaria desses marcos liberais do mundo moderno. Contudo, para ser exacto, o dia de Portugal deveria mesmo ser o 5 de Outubro. Nesse dia, Afonso Henrique e Afonso VII assinaram o Tratado de Zamora, que reconhece o primeiro como Rei de Portugal. A Monarquia e a República portuguesas partilham a mesma data para se comemorarem. Seria o dia ideal. Podiam manter o 10 de Junho como feriado, declarando-o como Dia Nacional da Ida à Praia. Tenho sempre óptimas soluções para os magnos problemas que nos afectam, o pior é que ninguém quer saber delas. Depois, queixam-se que o país está como está.
quinta-feira, 9 de junho de 2022
Olhar de esguelha
Gostaria de falar sobre o mundo, mas ainda não saí de casa e tenho as persianas corridas para que as ondas de calor batam nelas e recuem, perdendo-se sabe lá Deus onde. O mundo que me coube até ao momento, neste dia, chegou em forma de videoconferência e o que se acerca desse modo não é um mundo, mas um simulacro, o exercício de potências inferiores que conspiram, em plataformas virtuais, para nos enganar. Um leitor ocasional deste escrito pode perguntar-se pelo estatuto de verdade das afirmações feitas mais acima. Serão verdadeiras ou serão falsas? A questão, todavia, será irrelevante. Que diferença fará o facto de eu ter, no dia de hoje, saído e as persianas estarem levantadas? Aceitamos sem questionar que a verdade será a adequação do que é dito com a realidade. Contudo, não me parece possível estabelecer qualquer adequação entre um conjunto de palavras e factos físicos. A distância entre representante e representado é desmedida. Há um verso de Herberto Helder que talvez diga o essencial: A fantasia minuciosa. A oblíqua inovação. As palavras seriam essa fantasia minuciosa, uma inovação oblíqua. Por isso, não devemos crer que elas tenham o poder de dizer a verdade, pois estão constantemente perdidas em fantasias, com olhares oblíquos. As palavras olham de esguelha. Como se pode comprovar pelo que se escreveu acima, as videoconferências não contribuem para a sanidade mental de ninguém. Vá lá, contudo, as coisas poderiam ser piores. Em vez de ter citado um poeta reconhecido e um verso existente, bem poderia ter mobilizado como autoridade um poeta inexistente e um verso apócrifo, tão apócrifo quanto este narrador perdido na narrativa.
quarta-feira, 8 de junho de 2022
Contra o silêncio
No início de um ensaio, Carlo Ginzburg cita o dito do arquitecto Mies van der Rohe: menos é mais. Transporta-o para a sua área de estudo – a micro-história – e conclui que ao conhecer menos, ao estreitar o horizonte da investigação, acaba-se por ter a esperança de entender mais. Em tudo isto, a palavra mais sensata será esperança. A especialização contínua da ciência – seja em que área for – traz essa esperança de saber mais. Contudo, talvez se aplique a inversão da máxima de Rohe: mais é menos. Sabemos cada vez mais, mas compreendemos cada vez menos. O dramático disto reside no facto do homo sapiens sapiens necessitar, para se orientar na existência, de compreender. Não pequenas migalhas do mundo, mas do mundo como totalidade. O ‘entender mais’ fundado na redução do horizonte não mata a sede de compreender tudo, pois só dentro dessa compreensão globalizante a vida encontra um sentido. A religião e, depois, as ideologias foram estratégias encontradas para fornecer uma compreensão dessa totalidade. Ambas têm, nos dias que correm, má fama e pior imprensa. Em certas épocas, pensou-se na Filosofia como um dispositivo para fornecer uma compreensão da totalidade, mas também ela se especializou e adoptou como ideia orientadora o lema de Rohe: menos é mais. Os seres humanos encontram-se, assim, nessa singular circunstância de saberem cada vez mais coisas e de compreenderem cada vez menos para que serve esse saber e a sua própria existência. Imagino, por momentos, que deveria inventar uma máquina para fabricar cosmovisões, mas falta-me o talento não tanto para inventar máquinas, mas para tornar as cosmovisões convincentes. Talvez a única coisa que nos reste seja esperar – isto é, ter esperança – que nesse menos se manifeste um mais e, neste, se revele o todo. Tudo isto foi pensado por Francis Mute, numa das suas obras mais conhecidas, The Word of Muteness. O facto de o ter trazido para aqui não significa um acordo com a posição de Mute, mas a compulsão de não ficar calado.
terça-feira, 7 de junho de 2022
Ítaca
Há um poema de Konstantinus Kavafis denominado Ítaca. Jorge de Sena traduziu-o. Trata não tanto de Ítaca, mas da viagem que se faz para sair dela e a ela retornar. O poeta grego, na tradução do poeta português, recomenda: Mas não te apresses nunca na viagem. É um belo conselho ao arrepio do tempo, que exige que se tenha cada vez mais pressa. A recomendação de Kavafis prolonga-se: É melhor que ela dure muitos anos, / que sejas velho já ao ancorar na ilha, rico do que foi teu pelo caminho. A viagem é uma metáfora da própria vida. E Ítaca? O poema acaba assim: Sábio como és agora, / senhor de tanta experiência, terás compreendido o sentido de Ítaca. Há um tom pessimista no belíssimo poema. Se a viagem é a vida, então Ítaca é a morte, esse lugar de onde se parte e a onde se chega. Dir-se-á que é absurdo o desejo de uma longa viagem, se o fim é a morte. Contudo, o que sabemos nós da morte de onde partimos e daquela a onde chegaremos? Esse pessimismo disfarça um optimismo que será, a meus olhos, inexplicável. O da esperança de que a experiência nos torne sábios e nos dê a compreensão dessa morte. Dar-nos-á, quando dá, a indulgência para com o destino, mas isso não nos traz qualquer compreensão, mas apenas a resignação.
segunda-feira, 6 de junho de 2022
Actos falhados
Deveria escrever sobre o sono que me atormenta depois de almoço. Não se tratou de um lauto almoço. Pelo contrário, foi um almoço frugal, mas mesmo assim sou visitado por essa inclinação para fechar os olhos e entrar nesse lugar onde a realidade é trocada pelos sonhos. Para mim, contudo, essa viagem é um desperdício de tempo, pois raramente me lembro dos sonhos ou mesmo que sonhei. Tudo o que é viagem é um desperdício. Lembras-te de estarmos aqui e ali, de termos ido a…? A resposta nem sempre é a mesma. Umas vezes respondo que não, outras que sim, mas na verdade raramente me lembro. Tenho para certas coisas uma memória difusa, uma espécie de nuvem composta por gotas de águas indistinguíveis. Para outras coisas continuo com memória viva. Para sonhos, não tenho memória. Caso me desse à psicanálise, não sei como é que poderia ser levado à interpretação dos sonhos. Se o psicanalista quisesse avançar, teria de recorrer à associação livre e aos actos falhados. Estes não me faltam. Aliás, desconfio que tudo o que faço é um acto falhado. Quero eu dizer que aquilo que faço – esta narrativa, por exemplo – deve o seu insucesso não ao acaso ou à falta de atenção, mas à realização de um desejo inconsciente. O meu inconsciente determina-me a falhar. O sono é um acto falhado. Que bela desculpa o dr. Freud inventou.
domingo, 5 de junho de 2022
Questões de interpretação
Há semanas que não falava com o padre Lodovico. Ligou-me esta manhã para me dizer que iria uns dias para o Baleal, para a casa de férias que a Companhia lá tem. Se eu quiser dar uma saltada até lá, poderíamos conversar e, porque não, ir jantar a um dos lugares interessantes que existem por essa zona. Combinámos para o próximo fim-de-semana. Depois, contou-me a sua ida a Itália. Ainda lá tenho família, acrescentou. Até tenho sobrinhos bisnetos. Eu sabia, mas tomei a informação como uma novidade. O que me apoquenta não é a morte, disse, mas a incerteza sobre se haverá um futuro para essa geração. Tudo parece tão incerto, como se o sentido com que as coisas foram investidas se estivesse a retirar delas. Olho para as coisas – comentou – e começo a não conseguir compreendê-las. É como se elas fossem apenas simples coisas e nada as envolvesse de uma aura que lhes desse, para o coração e a razão dos homens, significância. Respondi-lhe, rindo, que não era boa ideia ler tantas vezes o Apocalipse. Não brinque com coisas sérias. Às vezes, chego a pensar que aquilo que nos pode acontecer é bem pior do que uma distopia baseada numa interpretação literal do Apocalipse de S. João. O que nos vale – atrevi-me – é que não se devem ler os textos bíblicos de modo literal. Não é verdade, respondeu. Não basta interpretar esses textos de modo figurado ou de modo simbólico. O modo literal é essencial. A literalidade é uma dimensão que nunca deve ser esquecida, acrescentou. Não discuto, respondi, a teologia não é assunto que, como sabe, me interesse, e a hermenêutica é coisa para a qual não tenho inclinação. Ele riu-se e disse que tinha de se preparar para dizer Missa. A cada um as suas ocupações, pensei ao despedir-me. Pareceu-me mais animado do que da última vez que tínhamos falado, ainda abalado com a guerra, depois deste tempo de pandemia.
sábado, 4 de junho de 2022
Contra o papel
Vejo a informação de que ler um livro em formato digital é três vezes menos danoso para o ambiente do que fazê-lo em papel. Há muito que sou um entusiasta dos eReaders. Para vergonha minha, tenho três. As razões para isso – para além do meu desvario – são defensáveis, mas não vou argui-las por aqui. Há pessoas que dizem que livros são em papel, um livro digital não é um livro. É como se no início da imprensa alguém dissesse: livros são em pergaminho. Em papel não são livros. Como tenho prazer em andar com um rolo debaixo do braço e sentir nos dedos a rugosidade e no nariz o odor do pergaminho, só leio livros nesse suporte. Ora, como o pergaminho desapareceu e os livros continuaram, também é expectável que o papel desapareça e os livros continuem. As árvores – e por consequência as florestas – agradecerão comovidas. Há, contudo, razões económicas, para além das ecológicas. Imagine que tem disponíveis todos os clássicos – e não clássicos – que caíram no domínio público. Mesmo os livros que têm direitos de autor são mais baratos em formato digital do que em papel. Depois, há uma outra vantagem. Os livros digitais não necessitam de estantes, nem se empilham no espaço, em caso de falta de estantes. Por fim, uma vantagem não despicienda, quando o proprietário dos livros morrer, os descendentes não têm de se perguntar: o que vamos fazer com estes montes de papel? Toda esta história apologética – se não mesmo catequética – veio na sequência de ter estado a descarregar de um site francês uma série de romances caídos no domínio público. Entre eles estão dois romances italianos de Italo Svevo, La Conscience de Zeno e Senilità, ambos em francês. Por acaso, possuo-os em papel, na tradução portuguesa, mas estou a desaprender a ler em papel. Por aqui onde estou, está sol, mas a temperatura não ultrapassará os 22 graus. Seria uma óptima tarde de leitura, caso não houvesse uma festa de aniversário. O aniversariante – entrado agora na denominação de septuagenário – merece a festa. Além disso, as minhas netas estão a chegar e quero estar com elas e não com a consciência de Zeno, na sua rocambolesca psicanálise.
sexta-feira, 3 de junho de 2022
Prelúdios e interlúdios
Depois de um dia com alguma agitação, tentei ler alguns artigos de opinião dos jornais de hoje. Começava e, passada meia dúzia de linhas, dava o salto para outro. Talvez a razão estivesse em mim, na minha pouca disponibilidade para ler os outros. Pode acontecer, porém, que a questão estivesse mesmo na opinião. Emitir opinião é um exercício fútil – eu sei do que falo, pois também emito opinião, embora a minha seja emitida paroquialmente – e que, sob a capa de alimentar a esfera pública, não passa de uma diversão com pouco sentido. Em tempo li cronistas com grande entusiasmo, como o Eduardo Prado Coelho ou o Vasco Pulido Valente, mas ambos já morreram. Parece – mas talvez esteja a inventar – que tinham um pelo o outro um ódio de estimação, mas escreviam muito bem. Creio que os artigos de opinião não passam daquilo que os franceses chamam bavardage. Pura tagarelice, mesmo quando – ou principalmente aí – o opinante se esmera na tentativa de convencimento do público sobre a sua douta visão do mundo. Está fresco no sítio onde me encontro neste momento e isso é um bom prelúdio para o fim-de-semana, mas um prelúdio não é uma previsão ou uma profecia. A palavra prelúdio recordou-me uma outra: interlúdio. A televisão da minha infância era um acontecimento notável. Os programas eram interrompidos vezes sem conta por falhas técnicas. Assim que isso acontecia, era exibido um texto que dizia: pedimos desculpa por esta interrupção, o programa segue dentro de momentos. Se os momentos se acumulavam para além do aceitável, tinha-se direito a um interlúdio musical. Naquele tempo, eu adorava futebol. Raramente a televisão transmitia um jogo, a não ser a final da Taça de Portugal e os jogos no estrangeiro das equipas portugueses. Era uma festa, embora muitas vezes em vez do futebol se tivesse direito a longos interlúdios musicais. Imagino, agora, que seriam os prelúdios de Chopin. Vou caminhar. Talvez isso me disponha para ler a opinião dos outros.
quinta-feira, 2 de junho de 2022
Compras
Talvez precise de trocar de carro, pensei. Pus-me a fazer consultas na internet, fui acumulando páginas abertas. Resultado? Fechei-as e acabei por fazer a assinatura da revista Electra. Saiu-me bastante mais barato e dar-me-á muito mais prazer. Tirando o desvario da adolescência e do culto das corridas de automóveis, estes nunca me interessaram. Não gosto, inclusive, de conduzir. Por outro lado, o carro que pensei trocar não faz mais de 2 mil quilómetros por ano. A revista Electra, de que acabei de comprar o número 16, é pertença da Fundação EDP. Apresenta-se do seguinte modo: “Electra é uma revista internacional de crítica e reflexão cultural, social e política, dedicada às diversas áreas da cultura, promovendo diálogos e oscilações de fronteiras entre disciplinas artísticas, saberes humanísticos e ciência, entre teorias e práticas culturais.” Independentemente destas intenções – na verdade, não me comovem – a revista é um belíssimo objecto. Textos e imagens são, por norma, excelentes. O papel é de grande qualidade. Vale bem os 27 euros por quatro números anuais. O número da Primavera deste ano trata da questão da identidade. Tem um diário de Almeida Faria e um portfolio de trabalhos de Jorge Queiroz, além de muitas outras coisas, nas suas mais de 250 páginas. Um dos meus escritores de culto é o austríaco Thomas Bernhard, não tanto pelo seu teatro, que desconheço, mas pela narrativa. Pensava que tinha tudo o que estava publicado em Portugal. Há dias, numa das minhas vagabundagens pelos alfarrabistas online, deparei-me com um título que desconhecia, Betão. Certifiquei-me de que não era uma peça de teatro e comprei-o. Fora publicado em 1990, na excelente colecção Caligrafias, das Edições 70, anos antes de eu ter descoberto o autor e de me ter tornado um seu leitor fiel. Bernhard chegou a viver em Portugal devido à doença pulmonar de que sofria. A Áustria não teria ares amenos para a sua situação. Acabou por morrer cedo, tinha acabado de completar 58 anos. Uma vez recomendei-o a uma amiga brasileira. Odiou. Ela precisava de visões optimistas para certificarem a sua visão optimista do mundo e do futuro. Em Bernhard não há, felizmente, nada disso. Dos autores descobertos já na fase da vida madura, apenas dois me tocaram. Ambos de língua alemão. Bernhard e W. G. Sebald, que também morreu cedo, com 57 anos, num desastre de automóvel. Agora vou ler diário do Almeida Faria, antes que me venham buscar para ir comprar – imagine-se – vinho para uma festa de alguém que se tornou septuagenário. Fiquei responsável por essa incumbência. Ainda gostava de saber a razão.
quarta-feira, 1 de junho de 2022
Das coisas facultativas
Apesar de estar em contínua mudança, o mundo muda menos do que se pensa. Oiço gritos na praceta. Um bando de adolescentes dá pontapés numa bola. Estão entusiasmadíssimos a jogar na rua. Fiquei a olhar para eles e vi-me a mim a fazer exactamente o mesmo, há muitas décadas. Espantam-me apenas os decibéis. Também eu e os meus companheiros de então gritávamos assim? Brincar na rua era, naqueles dias e numa vila provinciana, um exercício democraticamente distribuído. Todos brincavam na rua, a não ser um ou outro infeliz subjugado por uma tirania maternal. Estes que jogam à bola aqui em baixo, porém, são uma elite de felizardos. O que não muda é o entusiasmo dos rapazes atrás de uma bola. Ao reler o texto de ontem lembrei-me que tinha quebrado uma promessa feita a 27 de Maio. Não tornar a olhar para uma página de Eça de Queirós enquanto me lembrasse de que ele preferia, para acompanhar o célebre Bife à Marrare, capilé. Daqui podem-se extrair duas conclusões diferentes. A primeira afirma que este narrador é muito volúvel e muda rapidamente de opinião. A segundo sublinha que o mesmo narrador tem fraca memória. Cada um que escolha a conclusão que mais lhe agradar, havendo a possibilidade, ainda, das duas serem verdadeiras ou das duas serem falsas. Outra coisa em que sou obrigado a mudar de opinião é o cumprimento do horário da consulta pelos médicos. Hoje, fui consultado na hora marcada. O problema é que isto poderá ser apenas uma idiossincrasia daquele médico, um electrofisiologista cardíaco (tradução: electricista do coração), que, descobri, fez o curso enquanto aluno da Academia Militar. Ninguém pode chegar tarde à guerra e isso entranha-se na vida civil. Obrigar a todos os futuros médicos a fazer o curso ao mesmo tempo que frequentam uma academia militar seria um contributo decisivo para a pandemia do atraso com que os facultativos (estive quase a chamar-lhes esculápios) chegam às consultas. Ocorre-me, agora, que talvez por serem facultativos a presença a horas também seja facultativa.
terça-feira, 31 de maio de 2022
Demolições
Sem glória nem proveito, Maio fina-se hoje. Várias pessoas da minha família escolherem este mês para nascer. Não se queixam nem protestam por ele, em certos anos, não ostentar a aura que o nome anuncia. Talvez todos nós sejamos seres resignados com o mês em que nascemos. Habituamo-nos a ele e até chegamos a pensar que seria impossível nascer num outro. Por desfastio, triste pelo destino de Maio, pus-me a ler A Tragédia da Rua das Flores. No primeiro capítulo, Eça de Queirós, linha a linha, demole a boa sociedade da época. Não fica pedra sobre pedra. Usou não o florete da ironia, mas o camartelo. O segundo acto terminava. O regente, aos pulinhos, brandia a batuta; os arcos das rabecas subiam, desciam, com o movimento de serras apressadas; agudezas de flautins sibilavam; e o bombo, de pé, de óculos, com o lenço tabaqueiro deitado sobre o ombro, atirava baquetadas à pele do tambor, com uma mansidão sonolenta. Sobre o palco, Carlota, muito escangalhada, arrastando aos sacões através da corte a sua cauda enxovalhada, gania. Temo, contudo, que um dia destes seja posto no índex, por escrever coisas como esta: E o episódio aristocrático da sua carreira sentimental fora em Sintra, quando o social Padilhão o surpreendeu nos Capuchos com a Condessa de Aguiar. A Condessa era, é ainda, como um prato de mesa redonda: o que a recebe do seu vizinho da direita, serve-se e passa-a ao seu vizinho da esquerda. Desde então Dâmaso fitava as mulheres de frente, torcendo o buço. Sempre me pareceu que os sociólogos desperdiçam um vasto campo para o seu trabalho. Uma sociologia da literatura não com o fim de compreender as condições sociais onde foram produzidas as obras literárias, mas a investigação da sociedade que essas obras constroem. Isto não teria por finalidade perceber a sociedade do tempo de Eça de Queirós, por exemplo, mas a sociedade que Eça cria para nos levar a pensar que está a demolir a sociedade do seu tempo. E eu, ingénuo, suspendo a descrença e acredito mesmo que ele estava a demoli-la. Não estava, claro. O mundo social onde os homens habitam e o mundo social das obras literárias são como duas rectas paralelas, mas que nem no infinito se encontram.
segunda-feira, 30 de maio de 2022
Da regulação
Há que ser reconhecido ao santo regulador dos desvarios do clima. Por hoje, S. Pedro merece a nossa gratidão. Uma máxima de 24 graus é caso para romaria. Se nós olharmos para os reguladores existentes na terra, percebemos as suas dificuldades. Por exemplo, os reguladores financeiros são especialistas a não regular coisa nenhuma. Mal se olha para o lado e estamos todos metidos numa alhada dos diabos, pois os reguladores desregularam ou foram fazer outra coisa qualquer. Se regular as finanças é o que é, imagine-se o trabalho de regular o clima, os humores deste, as altas e as baixas pressões, os ciclones e os anticiclones. Chegaram-me hoje uns livros comprado online num alfarrabista. Quatro livros, para ser exacto. Abro-os para ver se neles me chega alguma comunicação de outro tempo, uma dedicatória a um amigo, um papel esquecido com uma lista de compras, alguma carta de amor por ali deixada. Nada. O passado está mudo e resiste em alimentar-me estes textos. Um desses livros é um romance de um antigo crítico literário, uma autoridade na matéria há umas boas dezenas de anos. Consta que, enquanto escritor, a sua sorte e o seu talento nunca impressionaram ninguém. Não o posso dizer, pois nunca o li. Tenho agora oportunidade. Um dos outros livros foi publicado por uma editora já desaparecida, a Sociedade de Expansão Cultural. Esta era o resultado de um trabalho quase de militância editorial de um escritor hoje completamente desconhecido, Domingos Monteiro. Naqueles tempos, era visto como um dos grandes novelistas nacionais. As cevadilhas da escola aqui ao lado estão exuberantes, cobertas por uma floração rósea. A tarde está cor de cinza e isso refresca-me a alma.
domingo, 29 de maio de 2022
Pequeno-burgueses
Diante de mim jaz o romance de Carlos de Oliveira, Pequenos Burgueses. Aguarda que a realidade se desanuvie para que eu prossiga na sua releitura. Ler é reler, alguém terá dito, mas não me ocorre quem. Voltando ao romance de Oliveira, o título levou-me a uma associação com um poema de Mário Cesariny. Aquela que começa e acaba com a seguinte quadra: Burgueses somos nós todos / ou ainda menos. / Burgueses somos nós todos / desde pequenos. Quando tinha escassa idade, mas já a suficiente para me interessar por coisas que talvez não me devessem interessar, a vexata quaestio da pequena-burguesia, com hífen, estava muito na moda. Havia debates e vitupérios em torno dessa inconsolável e inconsolada classe social, bem como da definição e extensão do conceito que a deveria definir. O poema do Cesariny mostrou-me a solução do enigma dos pequeno-burgueses. São aqueles que são burgueses desde pequenos. Por pequeno pode-se pensar aqueles que são crianças, aqueles que são pequenos de altura, aqueles que o são de carácter, aqueles que o são de rendimentos. A poesia abre as palavras à polissemia e essa salva a alma de quem a lê, ou a relê, mesmo que a finalidade seja tresler. Hoje é domingo, já cumpri um conjunto diversificado de tarefas, mas ainda tenho mais algumas para realizar. Hoje, por hoje, sigo aquele sábio conselho – de claro teor pequeno-burguês – não guardes para amanhã o que podes fazer hoje. Nada de procrastinar.
sábado, 28 de maio de 2022
Imprevistos
São grandes os dias e as tardes prolongam-se numa doce rêverie como se tivesse retornado, por instantes, aos Verões da longínqua infância. Uma quase desadequação à realidade. Ainda não se está no Verão, falta quase um mês para a sua chegada oficial, embora a infância esteja cada vez mais longínqua. O almoço não me predispôs a qualquer actividade nas horas que se lhe seguiram. Há coisas simples que parecem tocadas pela eternidade, como carapaus fritos – pequenos, mas não mínimos – e arroz de tomate. A culpada foi a minha neta que fez um pedido formal para este almoço. O resultado não foi venturoso. Sentei-me em frente da televisão, para ver o que se passava no Giro de Itália e adormeci, embora acordasse a tempo de ver o fim da história, isto é, da etapa. Eu não sou um adepto contumaz do ciclismo, mas acho-lhe alguma graça, se visto na televisão. Por norma, as paisagens são magníficas, vêem-se coisas que nem indo lá se conseguem ver. Quem ganha ou perde, quem dá à perna com mais ou menos vigor, isso pouco interessa. Havia um português nos primeiros lugares, mas parece que foi apanhado pela COVID e foi obrigado a desistir. São estes imprevistos que nos impedem de ser uma grande nação. Há sempre um vírus ao virar da esquina à nossa espera. E esquinas são coisas que não faltam neste país. Somos um pobre país rico em esquinas. Um país esquinado. Quando fui ver a minha mãe, neste 28 de Maio em que faz 89 anos, estava, na cidade, um calor insuportável. Ela reconheceu os filhos, mas dos netos e bisnetos não se lembrava, como de quase nada. A vida parece apagar-se do fim para o princípio. Tem vislumbres, conseguiu acertar na idade, mas não fazia ideia que era dia do seu aniversário. Por vezes, parecia fazer recapitulações perguntando a cada se era aquele que ela pensava ser. Depois, entrava numa outra dimensão que só ela saberá qual é. Uma fuga para uma realidade paralela ou perpendicular, mas por certo melhor que esta.
sexta-feira, 27 de maio de 2022
Uma nódoa de capilé
Trinta e sete. Não, este número não representa a idade de ninguém, nem é uma chave para qualquer arcano da numerologia. Não faço ideia se arcano e numerologia combinam. Ele representa a temperatura máxima sentida por aqui. Na rua, mesmo à sombra, a pele parece estalar. Recolho-me em casa e bebo água. Devia ter comprado umas cápsulas de descafeinado para fazer mazagran. A ausência da cafeína deve-se à presença da minha neta mais velha que chegou há pouco para ser massacrada com umas lições de Matemática a cargo da avó. Telefonou anteontem esbaforida. Irá ter um teste com toda a matéria do oitavo ano. Acho que lhe chamou teste global. É o que faz a globalização, dá cabo da sensatez dos professores e põe as crianças de rastos. O Word, sempre solícito, decidiu, ali em cima, marcar como erro mazagran, propondo para substituição mazagrã. Não aceito. Perde-se a referência a um local na Argélia denominado Mazagran. Esta palavra, segundo a rápida investigação que fiz, deriva de uma expressão berbere ma (água) e zagran (abundância). Talvez fosse um oásis. A bebida faz jus ao nome, pois tem água em abundância. Recordei-me também das groselhas, o refresco, e do capilé. Por causa deste, tive uma decepção com um dos maiores génios da nossa literatura. Li que Eça de Queirós preferia capilé a qualquer outra bebida (leia-se vinho) para acompanhar o Bife à Marrare. Enquanto me lembrar desta revelação não lerei uma página dele. Pode ter composto Os Maias, O Primo Basílio, A Ilustre Casa de Ramires e até As Cidades e as Serras, esse romance proto-ecologista, que não apaga a nódoa do capilé. E o Arroz de Favas, aquele prato que o Jacinto cantava, era acompanhado com quê? Limonada? Por amor de Deus.
quinta-feira, 26 de maio de 2022
Espiga
Uma espiga. Até 1952, a Quinta-Feira de Ascensão, em versão católica, ou o Dia da Espiga, em versão pagã, era feriado nacional. O governo de então não resistiu aos cantos de sereia da produção, da necessidade de trabalhar, e acabou com essa interrupção da realidade que permitia às pessoas da cidade irem ao campo lavar a alma, encherem-se de poeira e colherem espigas e flores silvestres, com as quais compunham um belo ramo, para pendurar à entrada de casa ou colocarem atrás da porta da despensa. Não seria um belo ramalhete rubro de papoulas, coisas do Cesário Verde, mas este também não se punha à porta de casa. Se eu tivesse uma alma de político e entretivesse a vida em luta pelo poder, faria de imediato a promessa de restauração nacional do feriado da Quinta-Feira de Ascensão. Seria um acto restaurador, quase tão importante como aquele que correu com os Filipes e nos trouxe os Braganças. Isto apenas por solidariedade com parte dos portugueses, pois vivo num dos concelhos – e são em número interessante – que elegeu o dia de hoje como feriado municipal. Como não tenho propensão política, lá fica a maioria dos portugueses sem possibilidade de ir apanhar a espiga. Para dizer a verdade, acho que apenas uma vez fui apanhar a espiga, mas tanto quanto me lembro não era a espiga que me interessava, embora já não saiba o que era. Talvez um ramalhete rubro de papoulas. Dá sempre jeito, desde que não venha acompanhado de imposturas tolas.
quarta-feira, 25 de maio de 2022
As quatro estações
Quando volto para casa, depois de uma manhã de múltiplos afazeres, fico especado em frente à porta. Revolvo os bolsos em busca da chave. Nada. Devo ter feito uma cara de estúpido, mas ninguém teve o prazer de a ver. Talvez a porta, mas essa é muda. Toquei à campainha. A porta abriu-se e fui olhado com ironia. Com que então a chave abandonada na porta durante quase cinco horas. Anuí e não disse mais nada para não engrandecer a heróica aventura de que tinha sido sujeito ou a que fora sujeito. Certamente, não foi uma aventura galante, como aquelas que preencheram a vida do Marquês de Bradomín, o mais admirável Don Juan, pois segunda uma tia, era feio, sentimental e católico. Contudo, pode haver não pouca galanteria num esquecimento, mas não foi o caso. O Marquês de Bradomín é uma personagem de Ramón del Valle Inclán, de uma série de romances dedicada às quatros estações. Estas, as quatro estações, têm um enorme sucesso no mundo da arte. Os concertos de Vivaldi, os romances de Inclán, os filmes de Éric Rohmer. É a estes que estou a dedicar os meus tempos livres. Já vi os filmes referentes à Primavera, ao Inverno e ao Verão (esta é a ordem). Falta-me o Outono, a minha estação preferida. Sou uma pessoa outonal e outonada, talvez mais do que o necessário. Estes filmes giram, como é hábito no realizador francês, à volta da equivocidade do amor ou, melhor, dos amantes. A minha homenagem de hoje, porém, não é para o amor, mesmo o galante, mas para as quatro estações, até porque vivo num lugar que ainda não as aboliu de jure, mas extinguiu-as de facto. Aqui só há duas. Ora é Inverno, ora é Verão. Isto é péssimo para a arte. Uma coisa são As Quatro Estações, de Vivaldi, que, aliás, fazem parte de doze concertos para violino, cordas e baixo contínuo, com o nome de Il cimento dell'armonia e dell'inventione. Outra, bem mais rasteira, seria As Duas Estações, sem os galanteios da Primavera, sem a prudente sabedoria do Outono. Ninguém me perguntou, mas eu informo. Prefiro o Marquês de Bradomín ao Marquês de Sade.