domingo, 21 de junho de 2026

Sem tragédia nem farsa

Na praceta aqui em baixo, um bando de crianças joga às escondidas. Sei que esse é o jogo porque oiço contar. Também quando era criança o jogo das escondidas tinha essas contagens. Aquele que ficava de descobrir os outros tapava os olhos e entregava-se a uma contagem, antes de lhe ser permitido procurar os companheiros de jogo, que, entretanto, se tinham escondido. Parece-me haver uma ligeira mudança. As contagens no meu tempo eram menos generosas. Há pouco, ouvi contar até sessenta. Parecia uma eternidade. Não me lembro até quanto se contava naqueles dias. Também não me lembro se havia uma regra fixa para a contagem. Há uma hipótese. Com a passagem dos anos, há uma dilatação do tempo concedido a quem se esconde. Se for assim, daqui a trinta ou quarenta anos, contar-se-á até cem e só depois se parte em busca dos colegas escondidos. Contudo, o que me espanta é haver gente, a esta hora, na rua entregue a estas actividades. O calor por aqui ainda é abrasador, apesar de já existirem sombras generosas. É provável que há sessenta anos também eu não sentisse calor, enquanto me escondia ou contava. Isso levou-me a uma célebre frase de Marx enxertada numa outra célebre frase de Hegel: Hegel observa algures que todos os grandes acontecimentos e personagens da história universal surgem, por assim dizer, duas vezes. Esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa. Estas frases são interessantes por aquilo que não dizem: os pequenos acontecimentos e as pequenas personagens que não ficam na história podem ocorrer repetidamente, pois não são tragédia que se replica como farsa. Eu joguei às escondidas repetindo o jogo de muitas gerações anteriores a mim. Aquelas crianças, passadas décadas continuam a repetir o jogo. Sem tragédia nem farsa, porque na repetição de geração em geração o que acontece é uma fuga à história e um mergulho num ritual cíclico que retornará eternamente na pureza da sua candura.

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