quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Destinos

Uma coisa boa trazida pela idade é o desinteresse pelos balanços do ano que finda e pelas profecias sobre o que está a chegar. Há umas décadas, dava algum tempo para ler, nos jornais que então comprava, e eram alguns, essas prosas feitas sobre o que o ano fez ao mundo e aquilo que o que vier há-de fazer. Olhava para trás e olhava para diante. Imagino agora que essa literatura não seria particularmente interessante. A única prova – e é uma prova enviesada – é que fui deixando de a ler. Há uma outra alternativa para explicar essa desistência: o medo. Sim, o medo de ter um destino como a mulher de Lot, por um lado, e como o de Actéon, por outro. A Lot foi dito para abandonarem Sodoma, mas que não olhassem para trás. A mulher não resistiu e foi transformada em estátua de sal. Pior destino teve o pobre Actéon. Olhou para a frente e viu Diana despida. A deusa não gostou e transformou-o num cervo. Ora, os seus cães, ao avistá-lo e vendo nele o cervo que agora era, não hesitaram e estraçalharam-no. Se posso dar um conselho, neste último dia do ano, é o de não se preocuparem com o ano que passou, para não se tornarem em estátuas de sal, nem tentem olhar para o que aí vem, não seja o caso de estar alguma deusa nua que condene o voyeur à condição de presa da sua própria matilha. Há que ter cuidado com o destino. De resto, um bom ano.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Uma tarde

A tarde passou num instante. Um jogo de Xadrez com o meu neto. Depois, uma rápida saída, com ele, ao supermercado para fazer umas pequenas compras. Deixadas estas em casa, fomos visitar a Letrinhas. Não por minha iniciativa, mas dele. A Letrinhas é a gata da livraria do outro lado da rua. Ele confraternizou com a gata, não muito, pois ela nem sempre está pelos ajustes. Resultado: comprei-lhe dois livros da Enid Blyton. Imagino que não sejam dela, mas adaptações com imagens coloridas e texto curto e com letras de dimensões próprias para idade do contemplado. Uma adaptação das aventuras dos Cinco. Já não me recordo a idade em que li essas aventuras, mas era, por certo, mais velho do que ele. Conheci um advogado que ainda na casa dos cinquenta lia as aventuras dos cinco. Dizia-o com orgulho, como se fosse uma idiossincrasia digna de se ostentar. E talvez fosse. Não tenho propensão para esse retorno à casa de partida, mas nunca se sabe. Agora, ele foi-se embora, depois de ver não sei quantos episódios da Pantera Cor-de-Rosa. Na minha companhia, pois se as aventuras da Enid Blyton são coisas enterradas na infância, ainda me rio com os desmandos da mais inteligente pantera que este mundo – e talvez outros – viu em acção.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Um moralista falhado

Observemos os seguintes começos de romances: “Eu andava, aquele Inverno, sacudido por abstractos furores.”; “Erica chegou à grande cidade no final duma guerra. Era Inverno, fazia frio e as fontes das praças estavam geladas.”; “O Inverno de 44, em Milão, foi o mais calmo que tinha havido desde um quarto de século...”. O primeiro começo pertence a Gente da Sicília; o segundo, a Erica e os Irmãos; o terceiro, a Os Homens e os Outros. Estes começos têm duas coisas em comum: pertencem a romances escritos por Elio Vittorini e, como se terá reparado, referem, todos eles, o Inverno. Disto nasce um enigma: o Inverno será uma estação universalmente propensa a figurar no início de um romance ou será apenas uma idiossincrasia de Vittorini? Contudo, o enigma não me motivou para qualquer investigação. Preferi levantar-me e ir comer uns quadrados, em forma rectangular, de chocolate preto com amêndoas. E esta é a minha lição moral de hoje: sempre que um enigma se ponha à porta da consciência, o melhor a fazer, para não desvendar os segredos que nascem no inconsciente, é comer chocolate. É uma modalidade prática e quase sem custos para manter os enigmas no seu estado enigmático. Não há nada de mais infeliz do que ver um enigma deixar de o ser; não apenas aquilo que é enigmático se trivializa, como essa trivialização contamina aqueles que viam o enigma como tal. Devia ter feito vida — penso-o agora que é demasiado tarde — de moralista. Percorreria o país, talvez o mundo, a dar lições de moral, distribuindo injunções, mandamentos, preceitos, prescrições e imperativos. Seria, estou certo, um moralista completo, e quem me escutasse haveria de tornar-se num ser moral. Das coisas mais triviais ou das mais absurdas haveria de extrair uma lição e mesmo uma máxima. Não me ocorreu, enquanto era tempo, a possibilidade. Talvez tenha falhado a existência, mas também não é todos os dias que se encontram três romances do mesmo autor com o Inverno dentro do começo. E o Inverno é uma óptima estação para moralizar. Ou talvez não, quem sabe.

domingo, 28 de dezembro de 2025

O céu estrelado

O ano espraia-se em lenta agonia, agora que o porto está próximo e da amurada do navio já se avista o cais e a nova pátria a que todos os nós, migrantes no tempo, ansiamos chegar. Que conversa mole, pensei. Depois, o pensamento rodopiou, caiu aqui e ali e ficou-se, por instantes, numa experiência cada vez mais rara. Contemplar o céu nocturno sem que a poluição luminosa interfira com o olhar, deixar-se envolver pelo tremendo espectáculo estelar. Como um macaco mal amestrado, a mente saltou de imediato para uma passagem, de tonalidade lírica, de Kant, no início da Conclusão da Crítica da Razão Prática: Duas coisas enchem o ânimo de admiração e veneração sempre novas e crescentes, quanto mais frequente e persistentemente a reflexão nelas se ocupa: o céu estrelado sobre mim e a lei moral em mim. Não devo buscar ambas como se estivessem envoltas em trevas ou no transcendente, fora do meu horizonte, nem apenas supô-las; vejo-as diante de mim e ligo-as directamente à consciência da minha existência. Talvez por ter sido educado – educado filosoficamente – na rigorosa disciplina de Kant e do Idealismo Alemão, estas palavras do filósofo de Konigsberg nunca deixam de me surpreender. Sim, é inverosímil que um animal traga em si os ditames da lei moral, que somos mais do que a matéria de que somos feitos e haveremos de entregar à Terra de onde foi retirada, e esse mais manifesta-se na posse da lei moral. Contudo, o céu estrelado sobre mim é uma experiência decisiva. Como Kant sublinha, olhar para uma multidão inumerável de mundos aniquila, por assim dizer, a minha importância como criatura animal. É essa experiência de aniquilação do eu que tantas vezes procurei na vertigem de olhar, na escuridão da noite, o céu estrelado, a multidão inumerável de mundos, a impotência de os perscrutar e de saber deles mais do que as poucas trivialidades – embora grandiosas – que a Astronomia deles me pode dizer. O fim do ano aproxima-se, o que não se aproxima é esses mundo incontáveis, com os seus mistérios e o mistério de todos os mistérios: por que razão tudo isto, comigo incluído, e não o nada, a pura ausência seja do que for, isto para voltar à decisiva questão posta por Leibniz, Cur magis est aliquid quam nihil? (Por que existe algo em vez de nada?), que Heidegger retomou, não sem dramatismo, no século XX. Talvez a pergunta tenha perdido sentido, não porque ela não seja a mais importante, mas porque já não vemos o céu estrelado sobre nós ou porque o que importa seja as festividade de passagem de ano; o que, do ponto de vista pragmático, será o mais sensato.

sábado, 27 de dezembro de 2025

Antigas angústias

Pior do que a angústia do guarda-redes no momento do penalty, era a do bebedor de café nos dias de Natal e de Ano Novo. Naqueles tempos em que se frequentava cafés, estes tinham uma prazer sádico em fecharem as portas nos dois dias em que eram mais necessários. Numa vila de província, o que então esta cidade era, havia um desporto. Encontrar um café que tivesse rompido a concertação dos proprietários e oferecesse aos seus clientes – e aos dos concorrentes – a oportunidade de tomar um café a sério, e não aquele que se podia beber em casa, por melhor que fosse o lote e a cafeteira Bodum, passe a publicidade, e outras engenhocas como cafeteiras de êmbolo, sistemas de filtro, cafeteiras de balão ou vácuo. Sim, o café era excelente – quando era –, mas nada que se comparasse a um café no café, que naquele tempo dava pelo nome de bica, aqui para estes lados, e, lá para cima, de cimbalino. É verdade, tomei bicas e até cimbalinos. E resisti. O pior era encontrar naqueles dias um sítio que abrisse as portas e os servisse. Isto é a minha experiência de habitante de uma pequena vila, de um vilão, para ser mais exacto. Depois, nem Deus sabe a razão, a vila foi elevada a cidade. Houve uma metamorfose, embora seja imprecisa a sua natureza: os cafés terão começado a abrir naqueles dias aziagos ou terei deixado de ir ao café? Talvez as duas coisas, mas não consigo precisar o que aconteceu. Os tempos mudaram, os próprios guarda-redes deixaram de se sentir angustiados no momento do penalty, e eu bebo café em casa, numa daquelas máquinas que mói o café e oferece uma bebida digna de ser bebida com devoção, dependendo do lote, da angústia do bebedor e do penalty ser a favor ou contra a sua equipa. Sim, os guarda-redes já não sentem angústia, mas o adepto sente. O que não é o meu caso. Sou um adepto não praticante, e mesmo o café bebo com moderação, não vá o árbitro mostrar-me cartão vermelho. O que me custa é que a cidade não seja promovida a vila, coisa que era no tempo da fundação da nacionalidade, que eu seja considerado um citadino, conquanto a minha alma continue a ser a de um vilão, que um dia bebeu bicas e cimbalinos e sentiu, na busca por um café aberto, a angústia do guarda-redes no momento do penalty, isto para dar um ar de erudito e citar Peter Handke.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Encerrado para balanço

Em tempos, talvez há muitos anos, não me lembro se entre o Natal e o Ano Novo, se após o Ano Novo, os estabelecimentos comerciais ostentavam na porta uma comunicação ao público: Encerrado para Balanço. E assim ficavam uns dias, embora nunca tenha descoberto como, dentro dessas casas respeitáveis, proprietários e empregados se balanceavam, ou qual a intensidade do balanceamento para que tão distintas empresas tivessem de estar encerradas, privando a estimada clientela dos seus serviços. É possível que aqueles que nelas trabalhavam ou mandavam rodopiassem a grande velocidade, o que não lhes permitiria ter as portas abertas, não fosse alguém projectado pela porta e atingisse um estimado cliente que, de susto ou com a violência do choque, pudesse ir parar ao hospital em estado comatoso, com prognóstico reservado e com possibilidade de aí a uma semana lhe estar a ser rezada por alma a missa do sétimo dia. Imagino que essa tradição de encerramento para balanço e as respectivas actividades de balanceamento tenham sido abolidas, pois, por mais que procure, não encontro estabelecimento com a velha frase. Talvez o perigo que nelas havia tenha levado algum grupo parlamentar preocupado com a saúde de proprietários e empregados, bem como com a segurança da estimada clientela, a legislar no sentido de proibir a actividade, no que, num momento raro, foi secundado por todos os outros grupos parlamentares, que, após a aprovação do diploma de proibição, se aplaudiram uns aos outros, esquecendo não apenas rivalidades pessoais como diferenças ideológicas irreconciliáveis. Terá sido uma verdadeira união nacional, muito mais verdadeira do que aquela que existiu no século passado. Agora está sempre tudo aberto, ninguém faz balanços nem se balanceia, nem aborrece a estimadíssima clientela que nunca se lembrava de que o estabelecimento fecharia para balanço e, não poucas vezes, batia com a nariz na porta, fracturando o septo nasal e entupindo as urgências dos hospitais e dando trabalho a uma legião de cirurgiões.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Tempo de Natal

Não tarda e a noite de Natal estará consumada. Depois, virá o dia de Natal, que também passará após vinte e quatro horas, entre uma e outra meia-noite. É sempre assim, mas devo sofrer de um problema de adaptação à realidade, pois, dentro de mim e apesar de saber que nada mudará, tenho sempre a esperança de que o tempo de Natal se dilate. Não por causa das festividades, almoços e jantares, mas para abrir uma clareira temporal para que possa compreender o que é, na verdade, o Natal. A mistura deste com a temporalidade comum retira-lhe aquilo que tem de diferente. O tempo, porém, resiste à dilatação, passa a galope, desejoso de chegar ao fim do ano e entrar, de novo, na realidade. Estou a ser impreciso. O tempo não se desvia da realidade. São os homens que, nestes dias, se desviam da realidade, mas lá estará o 2 de Janeiro para lhes lembrar aquilo que é. O que se passa por aqui com o Natal, passar-se-á noutros lugares com outras festividades. Também aí haverá quem espere a dilatação do tempo para compreender o que se vive, mas este terá um comportamento absolutamente democrático e frustrará a esses aquilo que me frustra a mim. O tempo não tem religião, cultura ou visão do mundo. Limita-se a passar. Caso exista, coisa que que não é clara.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Palavras equívocas

Resisti a comprar uns livros do filósofo francês Alain Badiou. A resistência é uma modalidade de se relacionar com a tentação. Que outras modalidades haverá? Talvez existam mais do que se possa pensar. Isso, porém, é assunto que não me interessa no anoitecer deste dia. O que me interessa é a distinção entre verdadeira e real. Ainda por causa de Badiou. Estava a percorrer a listagem dos seus livros, numa venda online, e deparo-me com uma edição portuguesa com o título Metafísica da Verdadeira Felicidade, mas logo de seguida apareceu-me a edição francesa:  Métaphysique du bonheur réel. Isto mostra a elasticidade do termo verdadeira. Pode designar que uma certa afirmação está de acordo com os factos. Por exemplo: Lisboa é a capital de Portugal. Como pode designar que uma certa coisa tem realidade. Como não conheço o livro, não sei se a tradução de réel por verdadeira está ajustada ao conteúdo. Todavia, caso fosse eu o tradutor manteria o título o mais próximo possível do original: Metafísica da Felicidade Real. Qual o motivo? Já o título original tem três palavras e todas elas são bastante equívocas, a começar por metafísica. A troca de real por verdadeira acrescenta equivocidade à equivocidade. Soa bem em português, mas imagino que num tratado de filosofia não seja o som que esteja em causa, mas o sentido, isto para usarmos essa feliz expressão som e sentido que alimentou, em forma de querela, não pouco debates no campo da poesia.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Cromos da bola

Acontece a muitos filósofos – dos mais importantes – aquilo que acontece às pessoas comuns que evitam dedicar-se à filosofia: com a idade, mudam de ponto de vista. Isto devia fazer suspeitar aos filósofos que as suas teorias são fruto da idade, o que introduz o mais terrível dos relativismos. Ora isto pode levar-nos para uma mar tumultuoso. O que pensaria Platão aos 120 anos? E Kant, aos 150, ainda aceitaria a fase crítica, aquela que lhe trouxe a glória e um lugar especial no altar da capela filosófica? Fala-se no primeiro e no segundo Wittgensteins. Também existe um primeiro Heidegger e um segundo. Mas se eles vivessem 250 anos, quantos haveria? Seriam tantos quantos os heterónimos de Fernando Pessoa? Não o podemos saber, mas temos direito a desconfiar que seriam legião, caso os filósofos fossem verdadeiros matusaléns, com direito a quase mil anos de vida. Mudariam, pelo menos, vinte vezes de posição. O que lhes valeria é a existência de um secreto armazém onde se guardam milhares de milhões de posições filosóficas possíveis. Portanto, não haveria perigo de o mercado se esgotar, desde que houvesse talento para as descobrir, abandonando, sem piedade, as anteriores. Renegando-as, caso fosse necessário. Uma pessoa comum, como este narrador, não precisa de se dedicar à filosofia, para mudar de ponto de vista. Basta acordar com o desejo de ver as coisas de outro modo. Procuro no armazém e passo a ver as coisas de outra maneira. O mais interessante, porém, é que as coisas são de grande cordialidade. Não se revoltam, nem sequer protestam. Aceitam impávidas e silenciosas as minhas idiossincrasias, e ainda mais as dos filósofos. Esta falta de temor das coisas radica numa certeza que as habita: os humanos podem mudar mil vezes de ponto de vita sobre nós, isso, porém, não altera um grama aquilo que somos, coisa que nunca saberão. Que envelheçam a coleccionar pontos de vista como, antigamente, os rapazes coleccionavam cromos da bola.

domingo, 21 de dezembro de 2025

Um texto solsticial

Este é o dia mais pequeno do ano. Também este deve ser o texto mais pequeno, não apenas em dimensão, mas na relevância dos assuntos. É um texto solsticial de Inverno que tem a energia de nada dizer. Deixa que as palavras a escrever soçobrem no silêncio, como a luz se dissolve nas trevas. A matéria do mundo e o espírito extramundano calam-se, como se tudo estivesse para acabar na sonolência do crepúsculo.

sábado, 20 de dezembro de 2025

Tábua de salvação

A suspensão voluntária da descrença proposta por Coleridge, como uma espécie de fé poética, seria aquilo que permitiria ao leitor acompanhar a leitura de obras com personagens fantásticas como se estas fossem reais; um pacto tácito entre autor e leitor. A expressão teve – e tem – um enorme sucesso, tendo-se transferido do terreno da literatura fantástica para outros géneros fantásticos, como a ficção científica, mas também para a ficção literária. Não seria descabido, todavia, pensar que, para ler, por exemplo, livros de História baseados em investigação séria, também é preciso suspender voluntariamente a descrença, descrença aqui baseada na desconfiança na possibilidade de recuperar, através da investigação, o passado – melhor, de construir uma imagem ou representação exacta desse passado. Todavia, essa não será ainda a utilização mais proveitosa e corrente que se faz da tese de Coleridge. Onde ela é mais eficaz é na nossa relação quotidiana com a realidade, tanto a natural como a social e a individual. Vivemos segundo um conjunto de crenças sobre essas realidades que estão muito longe de terem fundamento. Ora, se procurássemos o fundamento dessas crenças, a vida tornar-se-ia impossível, pois ficaríamos presos em investigações que nunca teriam fim. A educação é o processo em que aprendemos a suspender a descrença sem que nos apercebamos disso. Formamos crenças sobre a ameaça da descrença, mas esta, pelo hábito em que somos formatados, está suspensa. Voluntariamente? Não, se se olha do ponto de vista do indivíduo; sim, se se observa a partir da espécie. A espécie humana é aquela que aprendeu a suspender a descrença para poder persistir. Só de modo muito limitado e controlado é que se permite o questionamento das crenças e se põe de lado essa suspensão voluntária da descrença, que é a tábua de salvação de uma espécie que teve por destino ser dotada de razão.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Lassidão

Numa da estantes, estava um pequeno caderno de capa dura. Na prática, um bloco-notas. Terá já uns anos, apesar de parecer novo. O que desmente essa plausível juventude é o elástico que se apresenta lasso e incapaz de cumprir a sua função de manter o caderno fechado. Está em branco, com a excepção da primeira página, onde descubro uma lista de nomes, escrita com a minha letra, mas cujo nexo não consigo entender. Seis desses nomes eram-me desconhecidos. Os outros dois eram os romancistas László Krasznahorkai, o Nobel da literatura deste ano, e Elsa Morante, autora do romance A História. Os outros nomes, fui pesquisar, eram de um mestre zen japonês, de dois místicos medievais, de um autor, também medieval, de legendas de santos, de um psicólogo norte-americano e de um historiador holandês. Gostava de saber duas coisas: há quantos anos escrevi essa lista; o que estava a fazer aquela gente junta. Depois do nome de László Krasznahorkai estão, entre parêntesis e separadas por ponto e vírgula, duas palavras, mas não consigo decifrar nenhuma. Há uma lição, porém, que é evidente. Muitas das coisas que fazemos, se não a maioria, morre sem dar qualquer fruto. Nem tentativas são, apenas esboço que, por certo, não chegou ao estatuto de ideia. Olho o bloco-notas, a sua bela encadernação e apiedo-me dele, pelo elástico castanho bambo e pela página conspurcada pela minha letra, sem que disso tenha havido qualquer resultado. Também os objectos não devem ser usados em vão.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Docta ignorantia

Mais uma semana e estar-se-á naquele dia de azáfama preparatória que culminará com o jantar da noite de Natal. Uma semana talvez seja suficiente para a preparação dessa noite. Tal como no futebol – pelo menos, no de antigamente, que é aquele que conheço – havia uma semana para preparar um jogo que estava liquidado em menos de duas horas. Hoje, nada sei de futebol, embora ainda vá sabendo alguma coisa de noites de Natal, mas mesmo nesta sabedoria estou a caminho da docta ignorantia. Não sobre Deus, que era a douta ignorância de Nicolau de Cusa. Este sublinhava, assim, a limitação da razão humana para conhecer o absoluto. A minha, porém, é sobre as coisas mais triviais que os homens têm a pretensão de conhecer, seja com a razão, seja com os sentidos. Sou mais radical que o velho Cusano. A minha ignorância é, ao mesmo tempo, infinitamente grande e infinitamente pequena. Um problema de coincidentia oppositorum. No caso deste narrador desprovido de veia narrativa, a ignorância é sobre o infinitamente grande, sobre o infinitamente pequeno e sobre aquilo que fica entre os dois. O que perfaz uma verdadeira coincidência de desconhecimento. Um agnóstico. Mesmo o que sabe sobre as noites de Natal é mais ignorância do que sabedoria. Resta a sabedoria do futebol de antigamente, mas também essa não é uma autêntica sabedoria histórica, mas um conjunto de memórias que insistem em não ser apagadas com a passagem dos anos. Por vezes, entro por dentro de um discurso e descubro que ele é um labirinto. Descubro também que Ariadne se esqueceu de me dar o fio que me traria a bom porto. Perco-me e perder-se é ainda uma forma de ignorância, mas pouco douta.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

No princípio, era a onomatopeia

Ao ler um verso – levando a mão à boca entoei a canção inteira das onomatopeias – de Herberto Helder, ocorreu-me que todas as palavras que usamos podem ter a sua origem remota em onomatopeias, em imitações de sons naturais. O problema, porém, é se esta imaginação foi agora produzida por mim ou se é o resultado de uma leitura antiga que o tempo apagou. Sei que há quem pense que as palavras que usamos são metáforas mortas, que estando mortas passam a ter uma significação corrente, vulgar, que permite a comunicação entre nós. No princípio estava a poesia, que o tempo transformou em prosa. Contudo, a hipótese onomatopaica da origem da língua talvez seja mais interessante: seria a natureza a falar através do aparelho de fonação humano. Com o correr dos séculos, aquilo que era uma expressão criada por uma imitação directa dos sons naturais, perdeu o contacto com essa natureza, autonomizou-se e ficou submetido à memória e às regras humanas do uso da linguagem. Isto que estou a imaginar, porém, já deve ter sido pensado por alguém, mas desconheço quem, ou não me lembro por quem. Pensemos na palavra árvore. Quase ouvimos o vento passar entre os ramos, mas esta é uma palavra muito tardia, descendente da latina arbŏre. Esta terá tido um antecedente indo-europeu, e este outros que nem reconstruídos conseguimos imaginar. Deixemos esta arqueologia para os arqueólogos da linguagem. Se for aceitável a origem onomatopaica de todas as palavras, o poeta não podia ter cantado a canção inteira das onomatopeias. Faltar-lhe-ia o fôlego para projecto tão hiperbólico. Talvez ele quisesse impressionar o leitor. E o verso seguinte, separado não apenas pela mudança de linha, mas também por um ponto e vírgula, parece confirmar este desejo de impressionar o leitor ao escrever: era guerra. Como se caça uma fêmea com tanto sangue entre as ancas? Um problema impressionante e difícil de resolver. Pelo menos enquanto não soubermos que onomatopeias estiveram na origem de palavras como guerra, caça, fêmea, sangue e, de modo especial, ancas. Tivesse eu acesso a essas onomatopeias – as primeiras que saíram da boca humana – logo explicaria a estratégia de caça. Assim, limito-me a esperar que alguma fêmea me cace, enquanto procuro o arco. Elas são nisso muito melhores do que os machos, apesar destes pensarem o contrário. Elas conhecem a origem onomatopaica da linguagem, mas recusam-se a partilhá-la, a não ser com as suas filhas fêmeas, para que estas sejam, também elas, caçadoras, cheias de onomatopeias prontas a lançar do arco das suas bocas.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Uma parábola

Os dias continuam a empequenecer. O pior, para eles, é que isso não deriva de uma escolha sua, tão pouco é o resultado das suas acções. Os dias são puros, virginais, contudo não se conseguem subtrair à acção do destino. E este é injusto. Para uns dias, decretou ele a pequenez; para outros, a grandeza. O mais absurdo é que os dias pequenos se sentem culpados da sua pequenez, e os grandes, da sua grandeza. Deixaram-se contaminar pela narrativa meritocrática, dir-se-á. A verdade, porém, é que pequenez e grandeza – dos dias, note-se – são decretadas por uma entidade que nem pequenos nem grandes dominam ou sequer conhecem. Se eles conhecessem aquilo que lhes determina a dimensão, teriam outra percepção da sua vida. Os pequenos sentir-se-iam menos infelizes; os grandes, menos orgulhosos. Será isto uma parábola sobre a grandeza e a pequenez dos homens? Não, claro que não. Os homens são responsáveis. Ora se alguém tem um metro e sessenta, isso deve-se a más decisões suas. Também aqueles que têm um metro e noventa, têm-no porque fizeram boas escolhas. Sim, este texto é uma parábola, mas a sua referência são as coisas que não existem como os dias e as noites.

domingo, 14 de dezembro de 2025

Um jesuíta não se reforma

Há muito tempo que não o ouvia, disse, respondendo à saudação vinda pelo telemóvel. Tenho andado ocupado. Uma viagem a Itália, assuntos de família, e actividades da Companhia. Quando é que um jesuíta se reforma, perguntei ao meu amigo, padre Lodovico Settembrini, padre Lodo, como é conhecido. Um jesuíta nunca se reforma, respondeu. Pode é não ter forças para prosseguir no caminho. Por vezes, vão me faltando, mas, apesar dos oitenta terem chegado já há uns anos, ainda resisto. Uma questão de persistência, sublinhei. Isso, respondeu, mais do que resisto, persisto, sem problemas de maior, talvez um pouco surdo e algum reumático, mas há uns santos analgésicos que ajudam a suportar as crises, disse. Na verdade, continuou, a actividade é reduzida, o que me dá tempo para ler. O que anda a ler? Jon Fosse, respondeu. Quer descobrir a razão por que ele se converteu, perguntei. Não tenho essa ilusão. O que leva as pessoas a converterem-se, nem as próprias sabem. Foi o que aconteceu consigo? Claro, uma improbabilidade, mas aqui estou. Voltando ao norueguês, prosseguiu, parece um exercício litúrgico em forma de narrativa. Há uma iteração constante, respondi, e iteração por iteração, prefiro o Thomas Bernhard. Ouvi um riso. Sim, sim, é a sua costela de cínico misantropo, mas eu acho, continuou, que, mais tarde ou mais cedo, vai preferir Fosse a Bernhard. Talvez eles sejam estações num caminho. No início, o austríaco e, no fim, o Fosse. Não foi, porém, para discutir literatura que liguei, mas para saber quando vem a Lisboa. Descobri um belo restaurante para os lados da Lapa, onde se podem experimentar pratos dos sítios por onde os portugueses andaram. Podemos juntar o grupo. Respondi, que marcasse o dia. Contudo, informei, estou condenado à frugalidade. Estamos no Advento, não na Quaresma, ouvi. Imagino, disse eu, mas, por questões de saúde, entrei para uma Quaresma sem fim à vista, a não ser aquele que está destinado a cada um. Uma cedência pontual à gula, respondeu, não é pecado mortal. Ri-me.

sábado, 13 de dezembro de 2025

A loucura da Terra

Veio a noite. Uma constatação. Contudo, há nesta constatação uma presunção que denuncia um erro do espírito. As noites e os dias não vêm nem vão. Também é uma imprecisão afirmar: caiu a noite. Não, a noite não cai. Se ela caísse, ouvir-se-ia um estrondo, alguém ou alguma coisa poderia ficar esborrachado. Nada disso acontece. Nem sequer podemos dizer que, como sucede em casa, se apagou a luz. Não há um interruptor para ligar e desligar a luz do dia. O facto é que apenas o planeta rodou sobre si mesmo e pôs-nos, por algumas horas, escondidos do Sol, o qual permanece, em aparência, estático, cabendo aos planetas o triste serviço de rodarem à volta de si mesmos, como se tivessem enlouquecido, enquanto orbitam o astro. Portanto, nem a noite nem qualquer agente humano ou divino são sujeitos da acção veio a noite ou caiu a noite. O único sujeito é a Terra que girou sobre si mesma, o que, como foi dito acima, é sinal loucura. Talvez o verdadeiro sujeito de frases como veio a noite, veio o dia, caiu a noite, levantou-se o dia seja não a Terra, mas a sua loucura. Se temos noite e dia, devemo-lo à loucura que se apoderou da Terra que, num acesso de melancolia, se pôs a girar sobre si mesma. Um dia, quem sabe, o Sol como patriarca do sistema solar, a mande internar num hospício para planetas. Então, deixaremos de ter dia e noite. Uns terão só dia; outros apenas noite. A Terra, porém, curar-se-á e ficará imóvel, como imóvel estava o deus de Aristóteles, a que este dava o prosaico nome de primeiro-motor: não se movia, mas fazia mover o mundo. Também eu gostava de ser um motor imóvel. Saiu-me um destino avesso ao desejo: sou móvel, mas de motor nada tenho.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Um mistério

Num dos livros, em segundo mão, que comprei online e que me chegou ontem, havia, por baixo da dedicatória do autor a um seu amigo, uma assinatura de posse e a indicação do mês – Novembro – e do ano – 1964. O nome é feminino e a assinatura é clara, permitindo o nome da desconhecida proprietária da obra. Procurei, dentro do livro, mais vestígios daquela mulher, em vão. A única coisa que me resta é um nome próprio composto por dois, um que caiu em desuso e outro, Maria, que parece nunca ter passado de moda, seguido de um apelido reduzido à inicial e um outro completo. A letra, apesar de muito bem desenhada, afasta-se dos estereótipos da letra feminina da época. Quem em 1964 leria, em Portugal, Ignazio Silone, o autor do pequeno romance A Raposa e as Camélias? Talvez a detentora do livro fosse professora num Liceu de província. Para matar as horas enxameadas da melancolia do interior, lia romances. Talvez fosse uma leitora contumaz, uma intelectual em formação, em tempos de universidade. Não. Prefiro-a como professora, ainda no início de carreira. Sem marido. Claro que ela, tal como a vejo dentro da sua letra, merece um marido, mas esse tipo de coisas pouco tem que ver com o mérito. Há nela, percebo-o pelo modo como coloca o hífen entre Novembro e 1964, uma beleza discreta, rodeada por um leve pudor e uma segurança que afastaria os homens. Todos? Ela esperava que não, disso estou certo. Se casou, perguntam-me. Ainda não o sei. Só saberei se, um dia, num outro livro comprado num alfarrabista vier uma assinatura de posse com aquela letra, aquele nome adornado com o acréscimo de um apelido. Se ela tivesse menos vinte anos, por certo não me importaria, tal como a vejo no desenho da sua letra, que fosse o meu. Não foi, ela não tinha menos 20 anos.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Falibilidades

Há pouco, nem sei a razão, pensei que hoje era dia 12 de Dezembro. Enfim, acertei no mês, apesar de falhar no dia. E quando não se falha no dia, há-de ser na hora ou no minuto, pois quanto aos segundos, são tão fugidios que falhar neles não é falhar, mas acertar por aproximação, umas vezes por excesso; outras por defeito. O meu nível de falibilidade já está no grau três. O grau quatro é falhar no mês, e o cinco é não acertar no ano em que se está. A partir daí é inútil introduzir novos valores na escala de falência temporal. Quando se atinge o grau quatro, a situação é grave. A patologia avançou mais do que devia. Trocar o dia 11 com o 12 ainda é aceitável, trocar o mês, mesmo para um ser humano, é falibilidade em excesso. E há quem o troque. Diga: Ah! Este Junho está frio, até parece que estamos em Dezembro. Mais raro, também há quem pense: este ano de 1987 está a ser difícil, ou que afiance que estamos em Dezembro de 2056. Haverá tratamento para isso? Não sei. Quando vou ao médico nunca lhe falo do assunto, senão manda-me fazer pilates. Já fui assim insultado por dois, por motivos diferentes. A princípio pensei que ele estava a falar de Pilatos, de Pôncio Pilatos. Achei estranho que a conversa derivasse para acontecimentos bíblicos e nem percebi a que propósito eu devia fazer de Pilatos. Ainda olhei para as mãos, para ver se as tinha de lavar. Tudo em ordem. E Pilatos não era pilates. Depois, percebi que era qualquer coisa tipo ginástica. Franzi o sobrolho. Disse que sim senhora, cumprimentei o médico, saí do consultório, paguei a consulta. Chegado à rua perguntei-me: em que raio de ano estamos nós? Não consegui perceber. 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

O primeiro Maigret

Acabei de ler o primeiro caso do comissário Maigret, Pietr, o letão. Provavelmente, já o teria lido há muito, numa época distante em que lia os casos de Maigret. Simenon não é um escritor de policiais. É um grande escritor, mesmo nos policiais. Não é a lógica que dirige o inquérito, como em Sherlock Holmes, mas a manifestação da humanidade no criminoso, humanidade essa marcada pela finitude e pela falibilidade. Isto torna o criminoso num homem como outro qualquer. É a sua humanidade que o conduz ao crime. E é isso que o autor explora neste primeiro romance. Não é apenas esta atenção à humanidade, à sua condição existencial, que é fundamental. É também a concepção de justiça. Refiro-me à justiça retributiva. Simenon não nega que a justiça deva retribuir o mal com o mal (qualquer pena é sempre a aplicação de um mal para punir o mal), mas, como no caso deste primeiro romance, a humanidade do criminoso é essencial para que o comissário da polícia lhe permita escolher a dignidade ou a infâmia. Na cultura ocidental, há duas execuções que são arquetípicas. A de Sócrates, que se auto-executa, ao tomar a beberagem venenosa, e a de Cristo, que é submetido à mais infamante das execuções. Só um deus – neste caso, o filho de Deus –pode suportar a cruz, sem que a sua humanidade seja aniquilada. Na morte de Sócrates, há uma afirmação de uma dignidade humana que transcende a aplicação mais radical do direito penal. E Maigret, nesta primeira aventura, surge como um juiz moral que dá a escolher ao culpado a natureza da sua morte.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Monotonia da secretária

Ainda não estou preparado para caminhar à chuva. Por isso, fiquei em casa em vez de me submeter à agrura dos elementos. Tenho de comprar equipamento adequado, mas hesito, hesito…. Não sei se, mesmo equipado para enfrentar o mau tempo, me apetecerá ir para a rua e expor-me ao delírios chuvosos de S. Pedro. Dir-me-ão – e com razão, reconheço – que estamos em tempo de chuva. Estamos. Diante de mim tenho o romance Fontamara (1930), de Ignazio Silone, publicado em Portugal em 1959. A editora é a Publicações Europa América, que chegou a ser uma das grandes editoras do país, mas que não resistiu às intempéries. O romance mais conhecido de Silone é Vinho e Pão, que, um dia destes, talvez leia. Lembro-me, perfeitamente, de o ver nas livrarias, mas nunca o cheguei a comprar, até que, há dias, decidi adquiri-lo a um alfarrabista. O título é claramente eucarístico, embora a temática, segundo me constou, seja mais de natureza política e, ao mesmo tempo, existencial, o que estaria no espírito da época. A obra é de 1936. Isto recordou-me um quadro de Júlio Pomar, O Almoço do Trolha, que é, na verdade, uma refiguração da Sagrada Família, na sua estrutura triangular. Seria interessante – e talvez tenha já sido feito – estudar como as figuras do espírito revolucionário – nomeadamente, nas diversas artes – dos séculos XIX e XX se fundam na simbólica do cristianismo e que, sem essa simbólica, provavelmente nunca teriam existido. Somos aquilo que somos, e o que somos enraíza-se em Atenas, Roma e Jerusalém. Convém dar atenção às três e não deitar nenhuma borda fora. É o que me ocorre neste dia de chuva, que me impediu – quero dizer: me deu uma justificação ou uma desculpa – de ir fazer a minha caminhada diária. O relógio – um smartwatch que me controla a existência – está a mandar-me mexer, como quem diz: põe-te a andar. Deve estar farto da monotonia da secretária.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Estratagemas da natureza

A neta mais nova esteve cá todo este fim-de-semana. Veio em busca de apoio da avó em todas aquelas disciplinas do nono ano que detesta. Uma agenda de trabalho rigorosa, mas com espaços para respiração. Os seus quase quinze anos encheram a casa. Agora, voltou para Lisboa; o dia anoiteceu rapidamente. Os netos são uma espécie de segunda luz. Haverá nesta relação entre avós e netos um estratagema da natureza. Oferece aos mais velhos uma esperança para o tempo que lhes resta. Uma promessa de que a vida continua, não a pessoal, mas a de alguma coisa inexprimível por palavras, mas que se sente no amor entre gerações, nos olhares de expectativa, nos projectos que sendo dos netos, ainda são, por instantes, os dos avós. Agora, vou procurar um jogo de Xadrez a sério. Para o meu neto, claro. Para o ensinar a jogar. O Xadrez é um jogo militar, mas também a vida é milícia que exige um pensamento estratégico claro. O peão avança duas casas e as brancas preparam-se para ocupar o centro, apesar de o negrume da noite ter triunfado sobre a luz anémica do dia.

domingo, 7 de dezembro de 2025

Sombras dominicais

Um domingo de sombras. De manhã, fui caminhar. Na rua onde costuma haver gatos ao sol, não encontrei sequer um. Não havia sol. Pensei: os gatos são animais meticulosos. Se não há sol, não desperdiçam energia vindo para o espaço publico. Se há, ocupam sempre os mesmo lugares. A ausência dos animais foi compensada pela multidão de folhas mortas a ocupar, como um exército invasor, os passeios. Com a humidade, o processo de decomposição acelera-se e o  risco de queda dos transeuntes aumenta exponencialmente, ainda por cima em passeios calcetados, uma fixação dos autarcas e uma ameaça contínua para os cidadãos. Seja a humidade do tempo frio, seja o polimento das pedras de calcário no tempo quente, a queda é sempre uma possibilidade real. Contudo, que importância podem ter meia dúzia de quedas perante o olhar embevecido de um autarca? Sempre que posso, escolho o alcatrão, mas são poucas as ruas em que isso é possível. Enquanto caminhava, ia ouvindo o Quator pour la Fin du Temps, de Olivier Messiaen. O compositor tomou por inspiração um versículo de S. João: Não haverá mais tempo. Ora a música distribui-se pelo tempo, pôr fim ao tempo é também pôr fim à música. Talvez esta seja uma reminiscência da eternidade, mas uma música eterna é uma contradição. Aquilo de que a música é uma cópia, para falar à maneira de Platão, nunca, neste mundo, o saberemos. E nesta ignorância, uma pessoa caminha, observa os gatos ou a sua ausência, as folhas caídas, com a música em fundo, como uma promessa de eternidade num acto da mais prosaica temporalidade. As sombras ainda não desapareceram deste domingo, nem da minha mente, nem daquilo que escrevo. Hélas!

sábado, 6 de dezembro de 2025

Não ter silêncio

Maurice Maeterlink escreveu que há indivíduos que não têm silêncio, e que matam o silêncio à sua volta. Note-se que esses indivíduos têm uma deficiência ontológica: não têm em si silêncio. Têm no seu ser uma deficiência irremediável. Falta-lhes o silêncio como a outros falta a visão, a audição ou a fala. E isso é uma calamidade para quem os rodeia. Como a patologia não é reconhecida, ninguém se preocupa com a cura ou a minimização do problema. E aquele que não tem silêncio em si, não pára de derramar o ruído onde quer que esteja. A única solução é o afastamento. Perante alguém que não tem silêncio, a melhor conduta é ir para longe. Nem sempre, porém, é possível. Acontece – e não tão poucas vezes quanto se pensa – que nos deparamos com uma irmandade destes doentes, a que é difícil fugir, pois ela funciona em onda e, ao mesmo tempo, em rede. Sentimo-nos afogados no ruído ou presos nas malhas da vozearia. É nessas horas infelizes que descobrimos a paciência como uma das mais valiosas virtudes.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Leitura e halterofilia

Não sei o que me perturba mais, se o ensaio da banda de rock da escola aqui ao lado ou o número de páginas do novo romance de Gonçalo M. Tavares, 912, segundo vi no Público. À primeira vista, o ensaio é mais invasivo, mas só se realiza à sexta-feira e dura relativamente pouco tempo, pois os músicos, um deles um rapaz da minha idade, os outros não conheço, não terão o fôlego que um dia tiveram. Acontece a todos. E o problema reside mesmo no fôlego, no que toca ao romance – O Fim dos Estados Unidos da América - Epopeia. Não o fôlego para enfrentar aquelas páginas todas, mas para segurar o livro nas mãos. Fui ver ao site da editora as características do livro. Queria saber se, por acaso, estava lá o peso. Fiquei admirado: estava mesmo. Uns módicos 1166 gramas; isto é, quase um quilo e duzentos gramas. Não posso com o livro, pensei. Ao fim de uns minutos de leitura vai-me doer a coluna – a partir de certa altura da vida, a coluna tem tendência a doer. Ainda pensei: Bem, talvez o livro seja bom para exercitar a musculatura dos braços – a partir de certa altura da vida, os músculos têm tendência a definhar. Afastei, porém, o pensamento e a futura musculação. Para que me servem os dispositivos de leitura electrónica que pululam nesta casa, perguntei-me. Lá fui pesquisar nas livrarias do Kindle e do Kobo. A editora, porém, preocupa-se imenso com a musculatura dos braços dos leitores e não abre os seus livros (haverá uma ou outra excepção) a ciberleitores, como seria o meu caso. Parece que o ensaio do conjunto já acabou, também o dia definha. O problema da leitura do romance é que está por resolver. Se decidir comprar o livro, inscrevo-me também no ginásio que há ao fundo da avenida e faço musculação durante um mês antes de começar a ler o romance. É possível que no fim da leitura, não apenas tenha uma musculatura de braços digna de um halterofilista, como os próprios Estados Unidas da América tenha acabado e dado lugar a outros países. Nunca se sabe o que pode acontecer quando se começa a fazer musculatura para ler um livro.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Teatralidades

Mais logo, terei de me deslocar à capital do distrito aqui ao lado, o que fica para Norte. Vou ao teatro, mas não faço ideia do que vou ver. Queres ir ao teatro? Respondi que sim, mas não sei se perguntei para ir ver o quê ou quem. Provavelmente, não. Daqui a pouco irei olhar para os bilhetes electrónicos e descobrir o que houver para descobrir sobre o assunto. Nisto há uma mistura de confiança em quem propõe e diminuto entusiasmo pela arte dramática. Há tempos cheguei à triste conclusão de que prefiro ler as peças a vê-las encenadas. Um encenação é sempre um exercício de limitação, uma fronteira que se traça à imaginação. A leitura tem a vantagem de deixar a livre imaginação fluir, tanto no cenário como nas personagens, seja no seu aspecto, na sua voz, no modo como se vestem. Tudo isso está em aberto e é o leitor que o fecha. Na representação, o número de coisas fechadas é grande, e o espaço para imaginação, continuando a existir, é diminuído de modo drástico. Aquele actor, aquela actriz, aquelas vozes, aquele cenário. São esses limites, porém, que tornam o teatro possível, pois este é representação e toda a representação é uma interpretação, a qual é sempre um traçar de limites. Talvez nesta inclinação para a leitura esteja um laivo de misantropia. Uma peça teatral implica a presença da humanidade na pessoa dos actores. No texto, apenas existem palavras combinadas. Quem as produziu, não é visível. Seja como for, sempre posso dar a justificação teórica de que não é misantropia que me move na indiferença pelo teatro, mas a limitação da imaginação que toda a representação impõe. Corro menos riscos, num mundo em que é fácil correr riscos por se ter opinião pouco humanitária sobre isto ou sobre aquilo. Seja como for, não posso dizer que não sou um humanista. Sou, mas um pouco misantropo. Aliás, é plausível que os maiores humanistas sejam, ao mesmo tempo, os maiores misantropos.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Pretéritos imperfeitos

É possível que já tenha escrito aqui sobre o pretérito imperfeito. Também é possível que não, que nunca o tenha feito. Não, temos de ser exactos, pois a verdade também reside na casa da exactidão: no outro dia, escrevi sobre ele. Uma pesquisa no word revelou-me que foi há pouco tempo. Volto a ele porque é assim que me sinto perante este dia, cinzento e frio. Sou uma imperfeição pretérita. Não haja equívocos. Não é a imperfeição que é coisa do passado, sou eu. A imperfeição continua presente, persiste, vence os obstáculos que o desejo de perfeição – se eu tivesse tal desejo – lhe possa pôr no caminho. Sou uma acumulação de pretéritos. Aqueles que me são mais próprios são os pretéritos imperfeitos do conjuntivo. Se eu soubesse escrever, seria escritor. A imperfeição nasce-me de as minhas preposições condicionais nunca se transformarem em categóricas. Falta-me o talento para preencher as condições, logo o meu destino é a imperfeição de cada dia. Sim, é verdade, eu podia falar de outra coisa, caso não me faltasse imaginação e me ocorresse alguma.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Frugalidade imoral

Enquanto contemplava a chuva, dei por mim a pensar sobre o Abade de Mably (1709-1785). Não teria grande vocação eclesiástica; interessava-o, fundamentalmente, a filosofia política e a economia. Pode ser contado entre os precursores da vaga de igualitarismo que explodiu no século XIX, com repercussões ainda no XX. Para além do igualitarismo, tinha opiniões ao arrepio da cosmovisão em que vivemos. Por exemplo, defendia a ideia de que o luxo e o comércio excessivo corrompem. Pior ainda: o Estado deve promover a frugalidade. A justa medida – para evitar o excesso e a corrupção dos costumes – e a frugalidade são ideias moralmente valiosas, mas que os nossos dias não suportam. Se todos formos frugais e evitarmos o excesso de consumo, a economia mundial entrará em colapso, com repercussões nos rendimentos da generalidade dos seres humanos. No mundo de hoje, será pouco caridoso ser frugal. A sobriedade e a moderação podem ser boas para o indivíduo, mas não passarão de um exercício egoísta. Um egoísmo que recusa, em nome da moral, oferecer ao seu ego todos os objectos dos  seus desejos possíveis e mesmo alguns dos impossíveis. Talvez exista um problema qualquer quando aquilo que é moralmente saudável se torna um problema para os outros. A moralidade, que nasceu da necessidade de respeito pelo outro, tornou-se uma imoralidade. Também a chuva que há pouco caiu foi frugal. As nuvens recusaram-se a verter mais água, retiraram-se e deixaram o sol brilhar. Uma conduta imoral, pois sempre precisamos de água para encher as barragens e podermos consumi-la segundo o excesso que a nossa virtude contemporânea exige.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Dia do desacastelhanamento

Esta manhã, ao fazer a caminhada diária, estranhei, sendo segunda-feira, o ar de domingo que o dia me mostrava. Poucos carros a circular e ainda menos gente pelas ruas. Uma caminhada solitária, quase num deserto povoado de fantasmas. Depois, ao ver alguns gatos a apanhar sol, sem preocupação com o modo de ganhar a vida, assaltou-me a ideia de que estivessem em dia feriado. Afinal, não eram eles, mas nós, portugueses, que celebramos mais um aniversário de nos termos visto livres de um rei espanhol, de uma corte espanhola, de uma monarquia que, apesar de se dizer o contrário, era, efectivamente, espanhola. Se há país de que gosto, é de Espanha. Contudo, nem por um minuto gostava de ser espanhol ou, pior, estar sob o domínio dos senhoritos de Castela e Leão. Também nada tenho contra os castelhanos, mas não quero ser castelhano. Por isso, acho bem que o dia 1 de Dezembro seja feriado e nos possamos congratular com a decisão do Duque de Bragança aceitar a coroa das mãos dos insurrectos e apagar as leviandades de um rei que julgava estar numa época, mas estava noutra. O que lhe foi fatal lá para as terras da moirama. A ele e a nós, que tivemos de acastelhanar durante sessenta longos anos. Merecemos o feriado, os humanos portugueses porque se libertaram dos castelhanos; os gatos porque não sabem viver sem feriados, e um mundo sem gatos, mesmo castelhanos ou leoneses, o que não era o caso, como me apercebi ao falar com eles, não seria a mesma coisa.

domingo, 30 de novembro de 2025

Novembro

Despede-te Novembro, o tempo que te foi dado para seres marco do tempo está a acabar. Não voltarás. O próximo Novembro será outro, talvez tão efémero quanto tu. Esforçaste-te. Dias de sol, de chuva, de sombra, de frio. Até ontem me ofereceste uma noite de nevoeiro. Esqueceste-te, porém, de enviar com ele D. Sebastião. Eu sei que o Rei virá numa manhã e ontem era de noite quanto te enevoeiraste, mas podias ter feito uma surpresa. Não mais serias esquecido, pelo menos por aqui, enquanto os daqui fossem descendentes daquilo que são hoje. Era, porém, pedir-te mais do que poderias dar. Não sei se devo avaliar-te como agora se avaliam os serviços e as pessoas que os prestam. Numa escala de zero a dez – em que zero é não em absoluto e dez é um sim absoluto – recomendaria os serviços deste mês de Novembro a familiares ou amigos? Depois de te atribuir um número, para aferir a intensidade da minha recomendação, teria ainda a possibilidade de fornecer razões para justificar a minha avaliação. Poupo-te, porém, à humilhação do processo. Mesmo que voltasses para o ano, eu não te exporia aos humores do CEO do calendário, um inútil sem alma, que julga os meses pelas médias obtidas em inquéritos mais estrábicos que o mais estrábico dos homens. Despede-te da Terra, do tempo e do convívio, nem sempre agradável, com os humanos. Espera-te a eternidade, onde dormirás esquecido destes 30 dias, em que o mundo não melhorou um avo.

sábado, 29 de novembro de 2025

Informação

Quem me visse pensaria que estou decadente. Sentado diante do computador, cabeça inclinada sobre o peito, dormindo, como se o dia tivesse sido cansativo. Não foi, mas existe um conflito, cada vez mais agudo, entre um almoço tardio e estar sentado e desperto a fazer seja o que for. Contudo, a experiência, apesar de humilhante, não me foi inútil. Descobri que a aplicação que no relógio me controla e avalia o sono não deu por nada. Estava eu a dormir e ela devia estar a fazer a mesma coisa, em vez de, como um anjo da guarda, estar atenta e cuidar de colher os dados para me manter ao corrente do que se passa. Fiquei sem informação sobre, nesta sesta involuntária, quais as percentagens de sono profundo, leve e REM. Uma informação que, apesar de não saber o que fazer com ela, nem para o que serve, me seria muito útil, pois a utilidade da informação reside nela própria e não naquilo que se poderá obter com ela. Somos homens informados e, sendo essa a nossa condição, todos os dados não são demais para alimentarmos essa nossa natureza.

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Talento

Descobri há pouco que era sexta-feira. Ainda não tinha tido necessidade de me sintonizar com o devir da semana. Tanto me fazia que fosse sexta, terça ou sábado. Quando o descobri também não precisava da informação. Foi um acaso. Ao tomar consciência do dia não me aconteceu nada de extraordinário. Fiz o que estava para fazer e, agora, não sei o que fazer com essa informação; ou para que serve. Claro que me dá um tema para esta narrativa, mas podia colher o tema noutro lugar qualquer. Não faltam por aí coisas risíveis para escrever. E a mim não me falta talento para as escolher. Cada um tem os talentos que lhe foram dados. O meu é o de escrever, nuns dias, sobre nada, noutros derramo sobre coisa nenhuma, em alguns, como o de hoje, sobre coisas ridículas. É nestes que as prosas têm mais conteúdo, apesar da forma permanecer informe, como é hábito. E o hábito é uma segunda natureza.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Sorte

Esta coisa de juntar palavras e delas nascerem frases, textos, discursos… Mostra que a sorte não está desligada da existência. É espantoso como ela opera sobre a linguagem humana. Estamos convencidos – como em tudo, a espécie humana transborda de convicções – de que compomos todos esses produtos da nossa linguagem. Orgulhamo-nos deles e até inventámos prémios para aqueles que apresentam as combinações de palavras mais originais. Ora, navegamos num equívoco. Não somos nós que compomos seja o que for. É a sorte que ordena os sons que saem das nossas bocas e os sinais que saltam dos nossos dedos. É a sorte que compõem os belos discursos e os grandes poemas ou romances. Mesmo os tratados de Filosofia ou as narrativas dos historiadores nascem dessa sorte. Pomo-nos a falar ou a escrever e as palavras começam a sair de nós, sem que tenhamos mãos nelas. Não são nossas. Acontecem-nos. Talvez por orgulho ou por medo de confessar que nada do que dizemos é nosso, convencemo-nos que somos autores. Não somos. As palavras borbulham como numa tômbola e saem, formando configurações que, por pura sorte, parecem fazer sentido. Não fazem. Somos nós que lho atribuímos para não parecermos que estamos loucos. Mas estamos.

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Convenções

Os dias continuam a encurtar. Os dias não encurtam, têm sempre 24 horas. Essa é apenas uma razão para eles não se tornarem mais pequenos. Outra, talvez mais séria, seja o simples facto de não existirem dias. Estes são uma convenção engenhosa, baseada, por certo, em observações astronómicas aturadas, mas uma convenção não é uma coisa, mas um arranjo de coisas. Não há dias para uma rocha, uma couve, um protozoário ou uma girafa. Esses seres não têm convenções, ou, se as têm, não as conhecemos. Ao contrário de todos os outros seres que conhecemos, nós temos uma inclinação insuperável para gerar convenções. Na Europa, por exemplo, geram-se, nos dias de hoje, mais convenções do que filhos. A razão disso não é difícil de perceber. Filhos têm de ser educados, o que está longe de ser uma tarefa fácil, e para a qual não há pai que esteja preparado antes de chegar a avô. Quanto às convenções, por difíceis que sejam os partos, não há necessidade de as educar. Se asa avaliamos como desagradáveis, rasgamo-las e fazemos outras. Coisa que não se pode fazer com os filhos. A convenção que tem o nome de dia parece ser do agrado geral, talvez porque tenha utilidade. Por isso, não a rasgámos, ainda. O dia tem uma ontologia convencional. O que não tem neste momento é luz, pois o crepúsculo já quase soçobrou no seio firme da noite.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Militâncias e filosofias

Há coisas que não devia fazer, mas continuo a fazê-las. Por exemplo, comprar um livro – um ensaio de um filósofo contemporâneo – que, à partida, tem tudo para me desgostar. Foi o que aconteceu. Comprei-o e, sempre que o abro para ler isto ou aquilo, a única coisa que encontro é o meu desgosto por aquela prosa enfática, semeada de referências, cheia de entusiasmos. Talvez o autor, quando escreveu a obra, tivesse suspendido a sua condição de filósofo. Ou talvez nunca a tenha tido, mantendo apenas uma aparência cultivada de modo militante. Julguei, por instantes, que entre a Filosofia e a militância haveria um conflito irreconciliável. Depois, pensando melhor, descobri que, desde a origem, os filósofos tiveram uma certa inclinação para essa militância. Platão, com as suas estapafúrdias tentativas de converter tiranos em políticos racionais ou com a fundação da Academia. Também Aristóteles não fugiu à tentação, ao aceitar o cargo de educador de Alexandre. Estes exemplos são mais do que factos, são modelos. Por isso, é natural que haja filósofos – ou quem ostente essa designação – que se sintam tentados a copiá-los. Apesar desta reconsideração sobre a relação entre Filosofia e acção política, não consigo deixar de sentir desgosto – por vezes, confesso, vergonha – por aquela prosa, que seria excelente caso não fosse produzida.

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Factos

A pequena luz deste dia apagou-se. Sobre ela veio, mal despontou, uma névoa de sombra, que não mais a largou, até que o decreto do tempo trouxe com a noite a firme couraça da escuridão. Isto devia bastar como aprendizagem da vida, pois ali, nessa luta entre luz e trevas, resume-se tudo o que é a vida. Não se trata de uma pequena alegoria, nem de uma analogia, tão pouco de uma metáfora, apenas de comunicação factual. O problema é se existem olhos para ver e ouvidos para escutar, mas isso é outro assunto, sobre o qual nada me ocorre para dizer. Deixemos a noite navegar no oceano tenebroso, até que encalhe no grande porto da aurora.

domingo, 23 de novembro de 2025

Da morte da literatura

Um autor com ideias não pouco estranhas para nós que vivemos no mundo que nos puseram à disposição, numa obra publicada em 1945, comunicou-nos que vivíamos no reino da quantidade. A mim, não, pois ainda não tinha nascido, e quando nasci não sabia fazer contas. Esta ideia do reino da quantidade saltitou na minha mente quando, nem sei bem a razão, me pus a pensar na quantidade de escritores existentes. Nem estou a falar da quantidade dos que escrevem livros, mas apenas daqueles cujos livros merecem ser lidos. Isto que parece uma vida exuberante, será uma espécie de morte da literatura. Esta não residirá no esgotamento das formas tradicionais ou na morte como instituição cultural da literatura. Esta está a morrer de overdose, da multiplicação dos talentos, da incessante produção de excelentes obras. Talvez no próximo século já não exista literatura, o que poderá ser um bom sinal, o sinal de que nesse deserto literário poderá vir a nascer uma Ilíada, uma Odisseia, um Dom Quixote, meia dúzia de obras e não mais do que isso, que os poucos leitores sagrarão no altar da leitura.

sábado, 22 de novembro de 2025

Caminhada

Fui caminhar de manhã. O frio era iluminado por uma luz vibrante e tudo parecia mais vivo, mesmo a natureza morta onde vivem os objectos. Numa das ruas por onde passei, havia gatos. Cismavam ao sol, silenciosos, imóveis, e nisso pareciam os velhos que, na minha infância, via parados, pensativos, sem dentes na boca ou palavras nos lábios. Tal como os gatos de hoje, eram mudos, temiam que as palavras lhes levassem o calor que o corpo recebia, como uma dádiva de um deus avaro. Depois, ao dobrar a esquina da rua, os gatos desapareceram do horizonte e eu esqueci esses anciãos agrilhoados na infância. Entreguei-me à luz solar, enquanto meditava nas coisas do mundo e aguardava o momento em que chegaria ao lugar de onde parti.

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Imperfeição

Chegou a noite. Veio inclinada para terra, bojuda nas suas vestes negras, silenciosa na varanda do céu e, depois, cantante como um contágio de azul sobre as águas do mar. Podia falar de transfigurações nocturnas ou do ócio dos planetas que, num delíquio de gravidade, se fundem na sua estrela. Podia dizer os perigos que o tempo envia sobre a florescência íngreme da humanidade. Podia calar o vento que sopra do paraíso e nos empurra para o fim do tempo. A anáfora nunca deixa de trazer com ela uma cintilação estelar, mas o que resplandece, no fim de tudo, é a imperfeição do pretérito que, na verdade, nega as minhas possibilidades. Devia perder a candura de escrever textos destes, mas também o dever está maculado por essa imperfeição do pretérito, a mais terrível e a mais sublime. Num outro mundo possível, num daqueles em que os planetas não se fundem, como amantes tresloucados, nas suas estrelas, serei um gramático respeitável, que procura decifrar o mistério da imperfeição, seja ela pretérita, presente ou futura. Em todos os mundos possíveis onde existo, é ela, a imperfeição, o dom mais elevado que me foi doado.

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Rock

O enorme romance – sempre são umas 770 páginas – do norueguês e putativo candidato a Nobel Karl Ove Knausgård, Os Lobos da Floresta da Eternidade, começa com o relato da audição de um álbum da banda de rock Status Quo. Conta que, aos doze anos, aquando do lançamento do disco, o ouviu sem parar, mas que, a partir daí, nunca mais o ouvira até ao dia em que começa a narrativa. Ouviu-o com um frémito de excitação. E mais uma vez pensei no meu desajustamento institucional com a minha geração. Nunca um disco de rock teve qualquer poder sobre mim. Ouvi alguns, claro, mas aquele mundo nunca foi o meu. Para dizer a verdade, nem sei se alguma vez soube que existia um grupo chamado Status Quo. Não se trata de uma preferência desde muito cedo pela música erudita. Não, esse gosto fui-o adquirindo mais tarde, numa descoberta progressiva e num exercício de auto-educação. Trata-se de outra coisa. Aquela música, a do rock, sempre a senti estranha à cultura de base onde nasci. A minha geração, talvez a primeira que, através dessa música, trocou a influência francesa pela norte-americana, a minha geração, dizia, banqueteou-se ali, recebeu daquele lugar uma orientação espiritual, digamos assim. Nunca compreendi. Devo ter perdido alguma coisa, mas agora é tarde, muito tarde para a procurar, quanto mais para a encontrar. E se a encontrasse, acho que não iria gostar do achado. A cada um os seus preconceitos.

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Menoridade

Há dias comprei, numa pequena livraria ao lado de casa, dois livros. Há pouco, quis vê-los, mas não sabia onde estavam. O pior é que nem sequer fazia ideia de que livros eram. Tinham-se evaporado da memória, deixando apenas um leve traço do gesto de aquisição. Andei para um lado e para o outro e descobri um. Sim, aquele é um dos livros comprados. E o outro? Embora não saiba qual é, sei que esse outro é o que me interessa realmente, pois o que descobri só me interessa acidentalmente. Será um romance? Um livro de Filosofia? Não faço a menor ideia. Devia ser interditado de comprar livros. Aliás, devia ser interditado de muitas coisas e não me estou a referir a compras. Aqui, a velha costela iluminista, grita: onde está a tua autonomia, não sabes dirigir a tua vontade? Agora que estás velho, queres um tutor? Esqueceste que a Aufklärung é a saída do homem da menoridade de que ele próprio é culpado? Queres voltar à infância ou sentes falta da culpa? Encolhi os ombros e pensei qualquer coisa de não muito comunicável. Já não tenho idade para os dramas do século XVIII. Preocupa-me descobrir o livro que comprei – caso o tenha comprado – e que estou desejoso de ler, pelo menos enquanto não souber qual é.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Realidade

Voltou o sol. A manhã ainda se deixou ensombrecer por nuvens retardadas na sua jornada, mas a tarde resplandece sob o comando uma luz solar vibrante. Nada que contenha o chora de uma criança no parque lá em baixo. Não se comove com as metamorfoses atmosféricas e o clima não é, por agora, uma das suas preocupações. Apenas  o desejo insatisfeito a atormenta, rasga-lhe a alma, nesse momento em que aprende a sua finitude, sem dela ter consciência. Terá sido assim que todos aprendemos a nossa, chocando com o império do não perante o ímpeto do nosso querer. A aceitação da realidade é sempre um processo doloroso, mesmo numa tarde soalheira, mesmo sob a bênção  de uma luz  benévola. Saber-se finito quando o desejo é infinito, eis a mais terrível das dores.

domingo, 16 de novembro de 2025

Do egoísmo da bondade

No Livro dos Provérbios e das Reflexões, Arthur Schnitzler tem um pequeno conjunto de dísticos, a que deu o nome de dísticos ateus. O quinto diz: Humedece-vos os olhos, a compaixão… mas receio bem que a segunda lágrima / Já a verteste, com extrema comoção, pela vossa própria bondade. Esta desconfiança perante a bondade dos homens é um lugar-comum muito antigo. Isso levou Kant a declarar que as acções bondosas feitas por uma inclinação natural para o bem são destituídas de valor moral. A pessoa não cumpre o dever de fazer o bem por amor ao dever, mas por, digamos assim, um prazer egoísta de satisfazer a sua natureza. De outro modo, de um modo poético, é o que diz o escritor austríaco. O mundo não seria um lugar pior do que é, pelo contrário, se todo o egoísmo humano se revelasse num prazer de alguém se sentir comovido com a sua própria bondade. Mesmo que o acto bondoso tivesse, no agente, uma raiz patológica, ele seria, para o paciente da acção, uma bênção. E para o agente talvez o seu destino não fosse o inferno, pois um egoísmo fundado no bem dos outros não apenas é melhor do que um egoísmo ancorado no mal de terceiros, como há nele um passo, talvez pequeno, para fora desse mesmo egoísmo.

sábado, 15 de novembro de 2025

Transitoriedade

Passámos o meio de Novembro e o tempo, novembroso como está, não desmerece da época. O crepúsculo é ferido pelo anúncio de néon de uma cadeia de hambúrgueres. Quanto tempo demorará o bosque da escola aqui ao lado a ocultar aquele símbolo de um mundo que importámos daquele lugar que foi abençoado com uma dose não pequena de mau-gosto. Nada contra os hambúrgueres, quem os come ou vende. Apenas a invasão contínua do espaço público pela poluição estética é o alvo de um desabafo, que, aliás, é feito sem convicção, pois tenho pouca convicção em armazém e há que guardá-la para algo mais decisivo. Ora, são poucas as coisas decisivas ao cimo deste planeta, ou talvez seja mais verdadeiro dizer que nada há de decisivo. Nele, tudo é transitório.  E o que é transitório não pode ser decisivo. Se as pessoas pensassem assim, o mundo iria, por certo, melhor. Contudo, fazem precisamente o contrário, em tudo vêem coisas decisivas e afundam-se nesse abismo de ignorância, como o dia, agora que as janelas do crepúsculo se fecham, se afunda na noite. Sim, anoitece muito cedo.

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Ferida narcísica horoscópica

Agora que a realidade se tornou menos real, dedico-me, por vezes, a coisa nenhuma. É uma dedicação em que se corre riscos mais perigosos do que se pensa. Não ter inclinação conflituosa, nem propensão para causar o mal, o sentimento de uma certa bondade para com os seres, tudo isso fazia parte da imagem que construí de mim mesmo. Há umas semanas, mas já não sei quantas, decidi pedir um horóscopo da minha pessoa a um desses modelos de linguagem de inteligência artificial. Não porque haja em mim fé nos astros e nas suas conjugações, mas porque a realidade, ao tornar-se difusa, me faz ter pensamentos pouco dignos. E foi nesse lance infeliz que descobri que tudo aquilo que pensava sobre uma suposta bondade, pouca inclinação ao conflito, etc., etc., não era nada que se fundasse num mérito pessoal, mas no simples caso de ter Marte em Peixes. Parece que Peixes é um péssimo sítio para Marte, pois dissolve a marcialidade do planeta. Uma ferida narcísica que me atingiu na virtude. Pior, fez-me pensar que seria virtuoso se armasse conflitos por tudo e por nada, pois isso exigiria de mim a superação dessa penosa situação de Marte na hora em que nasci. Fiquei a considerar o assunto, a pensar com quem poderia armar conflitos, mas o esforço que isso me exigia seria tanto que decidi abdicar de ser virtuoso. Se nasci com Marte em Peixes, é assim que tenho de viver. Com isso e com não sei quantos planetas e o ascendente (haverá um descendente?), mas não o Sol, em Escorpião. O mais enigmático, porém, é que nunca fui pacifista, considero o exército coisa séria e indispensável, pois nunca sabemos quando outras potências têm Marte em Carneiro ou em Escorpião, o que parece ser terrível. Apesar de tudo, ainda tive sorte. Com tantos astros em Escorpião, Marte decidiu ficar-se por Peixes.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Neste ínterim

A tempestade acordou-me pelas seis da manhã. Não, não foi a tempestade, mas fui eu que acordei e ouvi um trovejar dos antigos, daqueles que só existiam no princípio do mundo. A trovoada manteve-se – ora mais longe, ora mais perto – até depois da nove. Não lhe faltou persistência, substituindo pelo rufar do bombo celeste o clarim que devia acordar o soldado para mais um dia de campanha. Não faltou chuva. Numa aberta, fui ao café aqui ao lado – onde há uns bolos de perder a cabeça –, de lá, depois de ter cedido à tentação, dei um salto até à farmácia. Aí não havia nada que fizesse perder a cabeça, mas talvez houvesse alguma coisa para quem anda de cabeça perdida, mas, como não é o meu caso, não indaguei. Da farmácia, outro salto até à frutaria, e desta outro para casa. Tudo resolvido em menos mil passos, que a vigilância electrónica a que me submeto através de uma aplicação do telemóvel bem os contou. Não choveu nesse ínterim, ao contrário do que acontece agora. Enquanto limpo as lentes dos óculos, contemplo a rua pela janela. Os elementos estão à solta, mas eu estou recolhido para pensar em palavras como ínterim, que se usam tão pouco, vítima de uma exclusão tempestuosa originada em  alguma alteração atmosférica ou no pouco prazer que os portugueses sentem pela língua que – sem o merecerem – receberam como um presente de Natal. Um daqueles que se olha com curiosidade, se guarda num lugar esconso, onde fica esquecido para o resto da vida. Oiço um trovão, mas é ao longe, muito ao longe.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

À espera de Godot

Tenho uma tendência não desprezível para a iteração. Volto uma e outra vez aos mesmos assuntos, preso por um fascínio difícil de explicar. Um dos meus preferidos é a crença – a estranha crença – de que um dos elementos do Juramento de Hipócrates, a base mítica da deontologia médica, é a prescrição de que um médico nunca deve cumprir a hora agendada para a consulta. Esta ideia foi-se tornando em mim uma certeza devido à constatação da diferença abissal entre aqueles que não cumprem e os que cumprem, excepções raras e preciosas, mas que não devem estar dispostos a ler o Juramento de Hipócrates. Eu também não li, mas não sou médico. A maioria dos médicos deve tê-lo lido e, confrontada com a prescrição – ou será um imperativo categórico? – de deixar o paciente na dúvida sobre se o médico existe ou se a sua estadia ali é fruto de uma alucinação, obriga-se a cumprir religiosamente a máxima de atender o paciente no momento em que este desespera por pensar que talvez o médico – ou a médica – seja o verdadeiro Godot, embora nunca tenha imaginado um Godot feminino. Talvez o objectivo do médico seja salvar o paciente, se não da doença que o aflige, pelo menos do desespero de pensar que está a sofrer de alucinações. Não falo por falar. Um acaso – infeliz, por certo – determinou que tivesse duas consultas com médicos diferentes, e em sistemas de saúde diferentes, em dois dias consecutivos: ontem e hoje. Nos dois casos, por outro infeliz acaso, esperei uma hora e um quarto, setenta e cinco minutos para ser atendido, isto é, para descobrir que aqueles médicos existiam mesmo, que não havia nenhum Godot, com calças ou com saias, e que eu não estava louco. Em ambos os casos, entrei desesperado e saí agradecido.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

S. Martinho

As castanhas, a água-pé e um Verão tardio que se esqueceu de marcar presença. É a pequena mitologia que cabe a um S. Martinho que, não muito longe daqui, tem uma feira com o seu nome, mas da qual, desconfio, se afastaria a passo rápido. É um mistério — ou talvez não — este costume de associarem nomes de santos a eventos profanos, nos quais não se vislumbra uma sombra da razão que um dia ligou aquele acontecimento a tal santo. Contrariamente ao Verão efectivo, o de S. Martinho dá-me prazer, e sinto a sua ausência como uma ofensa pessoal. Exagero. Deve-se a uma certa inclinação que há em mim para a hipérbole. Passando ao lado da inflação da ofensa, o que posso dizer é que uns dias de Sol, com Novembro já próximo do meio, funcionam como uma espécie de vitamina que ajuda o corpo a resistir aos dias sombrios que se aproximam. Tenho a tarde para ler Cesário Verde e os heterónimos de Pessoa. Um pedido de ajuda da neta mais velha. Tenho de imaginar como a posso ajudar, pois, entre o que para mim significa a poesia e aquilo que a escola determina que ela é, haverá um abismo intransponível. Talvez comece por lhe explicar que todo o poeta é um fingidor, mas nem todos fingem tão completamente, pois falta-lhes a dor — precisamente aquela que deveriam fingir, mas que não têm. Presumo que este não será o melhor caminho de ajuda.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Um olhar vespertino

Os dias alinham-se agora sob uma atmosfera húmida, esperando sem impaciência a chegada do Advento. Em certos corações, descobre-se uma exigência de silêncio, um desejo apaziguado de contemplar o mundo, de desocultar o que habita sob o império do ruído. Olho pela janela do escritório. Ao longe, o hospital oferece-se ao olhar numa brancura imaculada, depois de anos e anos ensombrecido por camadas de fungos, derrotadas, por momentos, pelos trabalhos de pintura. O vento que há pouco inclinava as folhas das árvores aquietou-se, e os liquidâmbares refulgem no acobreado das folhas, de onde se evola um cântico, na hora que antecede a queda. O Outono triunfou, mas na tez das suas manhãs demora-se já a anunciação do Inverno.

sábado, 25 de outubro de 2025

Desejar, não pensar

Em dias sombrios como o de hoje, penso nas verdades eternas. Não nelas mesmas, mas numa suspeita que há em mim. Essa suspeita diz: como podes tu, ser efémero, finito e limitado, pensar naquilo que é eterno. Uma verdade eterna seria qualquer coisa que se manteria verdadeira por toda a eternidade. O problema está na expressão qualquer coisa. Qualquer coisa significa aqui uma proposição, uma afirmação. Tudo isto supõe que, em primeiro lugar, que o pensamento humano, na sua finitude, consegue captar aquilo que é eterno e, depois, que a linguagem o consiga expressar com uma exactidão tal que assim se manteria por toda a eternidade. Uma fantasia. O melhor que consigo arranjar, num dia como o de hoje, é uma ideia mais plausível: a consciência que temos da nossa mortalidade abre em nós um desejo de continuidade. E como todo o desejo, o de persistir é infinito. Daí a ideia de eternidade. Isto não significa que não existam coisas eternas e, entre elas, verdades eternas. Significa apenas que para nós, na melhor das hipóteses, se apresentam sob a forma de uma objecto do nosso desejo. Este é o sinalizador de algo que está fora da nossa experiência possível. Não pensamos no eterno. Desejamo-lo. Mesmo quando julgamos estar a pensar na eternidade ou em verdades eternas, apenas estamos na esfera obscura do desejo, da pulsão, na cabana de eros e não no palácio do logos. Agora, porém, vou ver se chove. A vida é feita de coisas prosaicas.

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Emmanuel e Immanuel

Terá nascido em 1688 e morrido em 1772 e foi, durante parte substancial da sua vida adulta, um respeitável cientista. Emmanuel Swedenborg, um sueco, interessou-se por matemática, geologia, anatomia, fisiologia, astronomia. Esta amplitude de interesses não era rara naqueles dias. Por volta dos 56 anos, porém, teve uma série de sonhos, visões, experiências místicas. Estas aventuras culminaram com uma visão de Jesus Cristo, que, segundo Swedenborg, o terá instruído a escrever sobre assuntos espirituais. A partir de então, substituiu as múltiplas ciências pela sua muito particular teologia. Argumentou que se lhe tinham aberto os sentidos espirituais, o que lhe permitia comunicar com anjos, espíritos e visitar o mundo espiritual. A sua teoria mais conhecida é a doutrina das correspondências. Defende que o mundo físico é um reflexo do mundo espiritual, cada objecto material corresponde a uma verdade espiritual, o que não difere muito do platonismo. Um outro Emanuel – precisamente, Immanuel – agora alemão, e de apelido Kant, chegou a interessar-se pelo homónimo sueco. Contudo ao ler a obra principal, Arcana Coelestia ficou em estado de choque. Em 1766, escreveu Träume eines Geistersehers, erläutert durch Träume der Metaphysik, o que significa em português: Sonhos de um Vidente, Esclarecidos por Sonhos da Metafísica. Kant nunca achou que Swedenborg fosse um charlatão, mas uma mente sonhadora fruto de uma doença mental ou de uma imaginação sem controlo. O problema das crenças do sueco residia, segundo o alemão, em que o primeiro ultrapassava os inflexíveis limites da experiência possível. Talvez seja neste momento que Kant descobre o caminho para se tornar o Kant que conhecemos. Não acreditava em sentidos espirituais, mas apenas naqueles que nos dão informação sobre o mundo, os prosaico cinco sentidos. O conhecimento do mundo espiritual, segundo o filósofo alemão, está-nos interdito. A metafísica, enquanto ciência, é uma impossibilidade. Ora, até aos 56 anos, Swedenborg não parece ter tido grande interesse por esse mundo metafísicos. O enigma, porém, não reside no sueco, mas no alemão. O que seria Kant se, aos 56 anos, tivesse o conjunto de experiências que teve Swedenborg? Tornar-se-ia um vidente sonhador ou procuraria um médico para se tratar?

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Outonados

Apesar de ameaçar chuva, o calor resiste e não se dobra a um Outono que consumou já o primeiro terço do seu percurso. Ontem, em conversa com um amigo reforçámos a consciência daquilo que é uma certeza. Este já não é o nosso tempo. Não nos estávamos a referir ao clima, ao desconcerto – ou ao desconserto – das estações, mas à época em que vivemos. O nosso tempo passou e não mais voltará. Isto, porém, será sentido por todos aqueles que chegam à idade a que já chegámos. É evidente – presunção e água benta cada um toma a que quer – que concordámos que, no mundo, se move qualquer coisa de tenebrosa que se prepara para enterrar os nossos luminosos dias, que na verdade, concordámos, também nisso, nunca foram muito luminosos. Estamos outonados, não tarda invernosos, e nem dos dias primaveris nos haveremos de recordar. Contamos os amigos mortos. São assim os dias de Outono.

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Despovoamento

Numa entrevista, de 1999, dada à revista Arte Ibérica, citada pelo Público, João Queiroz dizia: Há gestos que tinham que ser e outros que podiam não ser… Por isso estou atento a como o meu corpo aprende os gestos. Agora, o pintor deixou de atentar ao modo como o seu corpo aprende os gestos. Morreu hoje, aos 68 anos. Deixa uma das obras fundamentais da pintura portuguesa da transição do século XX para o XXI. Fomos colegas de curso, depois ele abandonou os conceitos e escolheu a pintura. Trocou a lógica pelo gesto, mas, basta ver as suas obras, nunca abandonou a metafísica, uma forma muito própria de se relacionar com ela. É assim que o mundo se despovoa.

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Avós

Lembrei-me das minhas avós, como elas eram no tempo em que descobri que existiam avós. Não foi, na verdade, uma descoberta. Elas estavam lá, quando nasci, no lugar que era o delas, com as suas especificidades, as suas diferenças, os seus olhares sobre o mundo. Lembrei-me delas ao ler um poema do poeta polaco Zbignew Herbert, com o título Avó. Herbert escreve sobre o que ela lhe contava e, fundamentalmente, o que lhe ocultou, o massacre dos arménios pelos turcos, para o poupar na sua infância, para lhe conceder vários anos de ilusão, sabendo que ele um dia o descobriria. Pergunto-me o que me terão ocultado as minhas avós, na esperança de que eu o haveria de descobrir. Talvez não existisse nada a ocultar. Ou talvez houvesse, mas o meu talento para a descoberta fosse e seja diminuto.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Falar, falar, falar

Nas suas reflexões sobre a obra de arte, o escrito austríaco Arthur Schnitzler, escreve, no aforismo 78, de “Obra e Repercussão” (in Livros dos Provérbios e das Reflexões): A primeira pergunta do crítico deveria ser: Tu, obra, o que tens para me dizer? Mas, regra geral, isso pouco lhe importa. O seu primeiro impulso é antes: Agora, obra, presta atenção ao que tenho para te dizer! Uma experiência quotidiana mostra que esta atitude do crítico de arte se enraíza numa inclinação mais geral que há nos seres humanos. Raramente numa conversa, os interlocutores se prestam a escutar o que os outros têm para dizer. Seguem a divisa: Presta atenção ao que tenho para dizer. Se supusermos um observador não humano, mas dotado de razão, facilmente podemos imaginar a sua perplexidade perante a utilidade da conversação entre os seres da nossa espécie. Se esse ser for suficientemente perspicaz, porém, descobrirá que esses monólogos conjuntos dão um prazer aos interlocutores. Não o da intercomunicação e da partilha, mas o de cada um se ouvir a si mesmo, perante testemunhas. O testemunho dos outros é a prova de que falei para mim mesmo, claro, mas que consegui articular palavras e frases. Uma conversa em grupo é fecunda, não pela partilha de ideias, mas pela expansão do universo de testemunhas que podem provar, caso um tribunal as convoque, que cada eu fui capaz de falar comigo mesmo. A dura disciplina da escuta, se alguma vez foi praticada pela humanidade, há muito caiu em desuso, afectada pela má imprensa e por uma pedagogia social fundada no inexorável direito à palavra.

domingo, 19 de outubro de 2025

Destinos

É bem anterior aos gregos a ideia de que o destino dos heróis é decidido em concílio dos deuses. A grandeza de um herói não está na sua capacidade de moldar um destino, de dobrar o mundo às suas decisões, mas em cumprir e suportar um destino – por norma, adverso – que lhe é imposto. Isto para nós, homens modernos, é estranho, pois concebemos a grandeza fundada no livre-arbítrio e no poder de realizar aquilo que decidimos. Talvez por isso, um herói moderno, como D. Quixote, seja, na verdade, ridículo, ou destituído de qualidades, como Ulrich, do romance de Musil. A grandeza humana é, para o homem pré-moderno, não humana. O que os homens são, não são ou deixam de ser é-lhes dado pela decisão dos deuses. Resta saber, todavia, se essa decisão é livre ou fruto de um acaso que acaba por determinar os humores dos deuses quando se sentam para deliberar destinos humanos e, por certo, entregarem-se à bebida.

sábado, 18 de outubro de 2025

Manhã de sábado

Hoje não fui caminhar de manhã. Dormi mais do que é hábito. Quando a manhã já se inclinava para o meio-dia, saí, sentei-me na esplanada do café aqui ao lado e fiquei a saborear a frescura que ainda se fazia sentir. As acácias deixam amarelecer as primeiras folhas, mas ainda são um mar de verdura a caminho do céu. Havia gente em trânsito, mas ninguém com pressa. Pais com filhos pequenos, casais reconciliados, um ou outro solitário. Numa mesa ou noutra, havia quem lesse o jornal, mas agora esses leitores são raros. As pessoas preferem os telemóveis. Entram neles e perdem-se num labirinto, sem que um fio de Ariadne os conduza para a liberdade. Ali ficam à espera de que o Minotauro as encontre e devore. Os tributos são para pagar. Depois, levantei-me e dei um pequeno passeio pelas redondezas, e em todo o lado o espírito do dia era o mesmo. As manhãs de sábado, na província, são assim. Ou talvez de outra maneira, sei lá como elas são naqueles lugares onde não me encontro. Tenho de domesticar a tendência para a generalização, embora saiba que quanto mais particular é a experiência, mais universal é.

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Autenticidade

O hábito inclina-nos a pensar a autenticidade como sinónimo de sinceridade ou de veracidade. Contudo, essa qualidade está ligada, em primeira instância, à de autoridade. Não de uma autoridade proveniente de um desígnio legal, mas da autoridade de quem é autor. Assim, a autenticidade é a qualidade – ou a virtude – daquele que realiza alguma coisa, que a faz vir à existência. Quando tomamos a autenticidade no sentido de veracidade já estamos a perder um elemento essencial. O verdadeiro resulta do acordo entre um pensamento e a realidade que ele pensa. Por seu turno, a sinceridade é acordo entre aquilo que um sujeito expressa e aquilo que sente ou pensa. Em ambos os casos, perdemos a dimensão de realização e, com ela, a de autoria. A pessoa que ostenta a virtude da autenticidade é virtuosa não porque pensa verdadeiramente ou se expressa com sinceridade, mas porque faz acontecer algo no mundo. A autenticidade – para usar o jargão filosófico – pertence ao domínio da ontologia e não da epistemologia ou da ética.

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Acessórios

Num livro de 1932, A Arte do Cinema (Film als Kunst), Rudolf Arnheim salienta uma característica decisiva do cinema: o mais recente progresso do cinema consiste em tratar o actor como um acessório que se escolhe  pelas suas características e… se monta no sítio certo. A constatação de Arnheim, porém, sofre de uma desatenção essencial. Não ao cinema, mas ao próprio homem. Não é o actor que, com o advento do cinema, passou a acessório a encaixar no sítio adequado. Isso acontece num mundo em que os próprios indivíduos são acessórios, sofrendo, não poucas vezes, a dor de não encontrarem o sítio certo que lhes deveria corresponder. Nas sociedades de castas ou estamentos, todos tinham o sítio certo, dado a priori. Quando essas estruturas se começam a dissolver e o indivíduo emerge no panorama social, ele torna-se um acessório, no duplo sentido da palavra. É acessório no sentido substantivo porque é uma peça de uma engrenagem, de um maquinismo. É acessório no sentido adjectivo porque não é, na verdade, fundamental para o movimento da máquina, podendo ser substituído a qualquer momento. O actor de cinema – uma arte mecânica – é a emanação desse indivíduo acessório de um mundo que, desde o século XVII, se tornou mecânico, num processo em contínuo aprofundamento. Somos todos acessórios na grande máquina social, substituíveis, a qualquer momento, por obsolescência ou por razão nenhuma, a não ser o arbítrio de um qualquer outro ser acessório, mas com uma posição mais elevada no mecanismo. Somos todos substantiva e adjectivamente acessórios.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Pensamento

Há pouco passei os olhos pelos títulos de uma revista a sair em breve. Um deles reteve-me: Recuperar a hegemonia do pensamento progressista. Há aqui um equívoco doloroso. O uso da palavra pensamento. Onde há pensamento autêntico não há progressismo nem regressismo, não há revolução nem reacção. Muito menos um desejo de hegemonia. Tudo isto faz parte do não pensamento a que se dá, não sem correcção, o nome de ideologia. Pensar é abrir-se ao inesperado e comprometer-se com a verdade, seja do que for. Ora, a ideologia – qualquer que seja – usa os mecanismos do pensamento, as estruturas lógicas e as técnicas retóricas não para descobrir o que ainda não foi pensado e a verdade que aí reside, mas para impor um conjunto de simplificações sobre a ordem social e moral. Se há uma coisa incapaz de hegemonia é o pensamento, a acção mais frágil que um homem pode empreender em busca da verdade, a flor mais rara presente no jardim botânico da mente humana. Onde há hegemonia, ou busca de hegemonia, o que está em jogo não é pensar, mas alcançar ou manter o poder sobre os outros. Há palavras cujo uso deveria ser muito parco. Pensamento é uma delas, pois são raras as vezes que um ser humano, de facto, pensa.

terça-feira, 14 de outubro de 2025

Sombras

Continuo a caminhar ao crepúsculo. Em vez de pessoas, cruzo-me com sombras, e também eu me transformo numa para quem comigo se cruza. A essa hora ainda está algum calor, mas ignoro-o tentando descortinar se existe alguém por detrás de cada sombra. O resultado é incerto. Por vezes, está lá um conhecido, outras um desconhecido. O mais das vezes, é apenas a sombra de coisa nenhuma. Às 19:15, confirmei pelo relógio, acende-se a iluminação pública e as sombras transformam-se. Umas ganham auréola, outras extinguem-se, como se lhes tivesse acabado o prazo de validade. Uma cola-se a mim, persegue-me, ultrapassa-me, retrocede e vigia-me. Reconheço-a: é a minha sombra. Isto é, sou eu.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Um email

Hoje fui caminhar ao cair da noite. Esperava encontrar, ao crepúsculo, alguns anjos ou velhos deuses pagãos. Nada. Não sei onde se meteram. Que saiba não está a decorrer nenhum congresso de anjos ou concílio de deuses. Faltaram, uns e outros, ao encontro aprazado. Imagino que cada um dos bandos decidiu não vir por causa do outro. Fiquei sem companhia nas minhas andanças. Tinha-lhes dito que podíamos parar num bar de vinhos, sempre se conversava e se bebia um copo. Pareceram interessados, mas esqueceram-se. Talvez tenham algum conflito com compromissos ou a memória já não seja o que era. Entretive-me a observar os transeuntes, mas em nenhum encontrei um traço angélico ou um porte divino. Uma jovem mulher ainda me pareceu, ao longe, angelical, mas ao aproximar-me, o rosto foi-se transformando, de tal modo que, caso tivesse idade e condição para isso, nunca a pediria em casamento. Isto, porém, é uma presunção, pois nem tenho idade nem a lei autoriza a poligamia. Estes pensamento tranquilizaram-me e fizeram-me esquecer a desdita de um encontro falhado com agentes de outros mundos. Ficará para a próxima. Pelo menos é o que diz um email recebido mesmo agora. Não sei se enviado por algum anjo ou por uma divindade grega. Ah… parece que é de Afrodite. Pelo menos, sinto-me lisonjeado, apesar de posto ao longe.

domingo, 12 de outubro de 2025

Má-fé

No périplo que me levou do meu escritório, onde estava acantonado e em meditação transcendental para obter uma iluminação, à cabine de voto, onde exerci o meu direito de eleger, embora sem que a iluminação me chegasse, ouve-se dos transeuntes – vêm ou vão fazer o que eu fiz; também eles, pela cara que ostentavam, sem iluminação alguma – pedaços de conversas, mensagens truncadas vindas de mundos desconhecidos. Numa dessas conversas, alguém diz que fulano agiu de má-fé, tentou prejudicar beltrano. Uma coisa tenebrosa, pensei, sem saber quem eram fulano e beltrano, em que consistia a intenção dolosa e a deslealdade catalogadas como má-fé. Depois, ocorreu-me que a mais autêntica má-fé é a mentira a si mesmo, a negação da sua liberdade. Isto aprende-se lendo O Ser e o Nada, de Jean-Paul Sartre. Quando alguém tem de tomar uma decisão e decide não decidir, está de má-fé, está a negar a sua liberdade, embora nunca se possa fugir a ela. Decidir não decidir é ainda uma tomada de decisão, um acto de liberdade.  Pensei que não era desta má-fé que sofria o fulano. Pelo contrário, agira mesmo de modo determinado e perfeitamente consciente da sua liberdade quando prejudicou beltrano. Uma maldade, talvez uma canalhice, mas ainda um acto livre em plena consciência, o que lhe retira o estatuto de má-fé. Pode-se ser mau de boa-fé, isto é, com plena consciência de que se está a ser malvado.

sábado, 11 de outubro de 2025

Canto de sereia

O Verão parece ter voltado. Talvez tenha sido contaminado pelo espírito do tempo, em que potências políticas de diversos tamanhos e graus de importância sonham tornar-se grandes. Não dou exemplos, pois eles abundam, e mesmo uma pessoa distraída acabará por tropeçar num desses casos patológicos. Esta é uma assunção política, que deveria ter evitado, segundo a orientação da casa. Decidi não me conter, mesmo que o autor fique furioso e me venha lembrar que ainda não foi decretada a autonomia do narrador. Voltando ao Verão. Também ele sonhará com um Grande Verão que irá de meados da Primavera até ao Verão de S. Martinho, antiga colónia do Estio, anexada há milénios pelo Outono. Se o Inverno, porém, se lembrar de declarar que também ele pretende reconstituir o Grande Inverno, acabaremos por ficar sem as duas estações mais apaziguadoras e cuja beleza suscita ora os encantos do amor nascente, ora a pacificação dos desejos ardentes. Também as estações do ano estão a sofrer da doença da polarização, embaladas pelo canto de sereia da radicalização.

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Está a acabar

Está a acabar. As comitivas partidárias fazem, por hábito antigo e falta de imaginação, os últimos circuitos pela cidade. Buzinando como se fossem adeptos de um clube de futebol acabado de se sagrar campeão. Estou a mentir. Falta-lhes a convicção dos adeptos. Esperam que chegue a hora de jantar, para regressarem a casa, comer uma boa refeição e sair à noite, pois hoje é sexta-feira. O dia de amanhã é de desintoxicação, mas os candidatos que vejo pela rua não me parecem intoxicados. Cumprem o seu papel de modo administrativo e aguardam o resultado das urnas. Os que ganharem hão-de improvisar uma caravana com cachecóis e bandeiras, gastarão uns litros de gasolina, ferirão alguns tímpanos sensíveis, mas depois voltarão sossegados para casa como se nada se tivesse passado. Haverá um ou outro crente que estará convicto que o mundo mudou, mas este recusa-se cooperar. Não se pense que sou um adepto da não ida às urnas. Vou sempre, não porque espere uma redenção, mas porque tenho o dever de ir. E os deveres são por cumprir por amor ao dever.