sábado, 13 de dezembro de 2025

A loucura da Terra

Veio a noite. Uma constatação. Contudo, há nesta constatação uma presunção que denuncia um erro do espírito. As noites e os dias não vêm nem vão. Também é uma imprecisão afirmar: caiu a noite. Não, a noite não cai. Se ela caísse, ouvir-se-ia um estrondo, alguém ou alguma coisa poderia ficar esborrachado. Nada disso acontece. Nem sequer podemos dizer que, como sucede em casa, se apagou a luz. Não há um interruptor para ligar e desligar a luz do dia. O facto é que apenas o planeta rodou sobre si mesmo e pôs-nos, por algumas horas, escondidos do Sol, o qual permanece, em aparência, estático, cabendo aos planetas o triste serviço de rodarem à volta de si mesmos, como se tivessem enlouquecido, enquanto orbitam o astro. Portanto, nem a noite nem qualquer agente humano ou divino são sujeitos da acção veio a noite ou caiu a noite. O único sujeito é a Terra que girou sobre si mesma, o que, como foi dito acima, é sinal loucura. Talvez o verdadeiro sujeito de frases como veio a noite, veio o dia, caiu a noite, levantou-se o dia seja não a Terra, mas a sua loucura. Se temos noite e dia, devemo-lo à loucura que se apoderou da Terra que, num acesso de melancolia, se pôs a girar sobre si mesma. Um dia, quem sabe, o Sol como patriarca do sistema solar, a mande internar num hospício para planetas. Então, deixaremos de ter dia e noite. Uns terão só dia; outros apenas noite. A Terra, porém, curar-se-á e ficará imóvel, como imóvel estava o deus de Aristóteles, a que este dava o prosaico nome de primeiro-motor: não se movia, mas fazia mover o mundo. Também eu gostava de ser um motor imóvel. Saiu-me um destino avesso ao desejo: sou móvel, mas de motor nada tenho.

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