terça-feira, 3 de março de 2020

A insurgência contra a voz

O céu sobre o hospital parece chumbo, tão carregadas estão as nuvens. Tenho alguns assuntos pouco entusiasmantes para resolver, mas folheio um livro de memórias de Elias Canetti, O Archote no Ouvido – História de Uma Vida. Leio umas frases aqui, outras ali, saltitando com inconstância, enquanto vou espreitando os meteoros. Já ninguém emprega esta palavra para designar o que acontece na atmosfera. A terceira parte do livro, que trata da vida do autor em Viena entre 1926 e 1928, tem um título extraordinário, A Escola do Ouvir. Será, por certo, uma metáfora, mas representa um modo de existência. Aprender a ouvir e aprender ouvindo são a mais profunda forma de aprender a viver. Só a voz toca as cordas do coração e abre caminhos insuspeitos, muitos dos quais se manterão secretos até que, por um qualquer acidente de percurso, eles se revelem, com o que têm de benfazejo. Hoje ninguém quer aprender a ouvir. Não se suporta escutar uma voz. As crianças não devem aprender ouvindo, diz-se, mas devem fazer, experimentar, como se estivessem todas condenadas à fabricação. O que me impressiona é o medo que se tem de saber escutar. Esse medo nasce da recusa da voz. Os filhos não escutam a voz dos pais. Os alunos recusam a voz dos professores. Temem que essas vozes não sejam as do futuro ou não foram educados a suportar o imenso peso do passado que uma voz traz em si. Não é por acaso que um certo livro do Novo Testamento começa dizendo que no princípio era o Verbo. No início está a voz que profere a palavra. A insurgência contra a voz, a recusa da escola do ouvir, não representa progresso algum, mas a perda da nossa humanidade, que está toda ela nessa voz que faz ouvir e que se escuta. Hoje cheguei à tarde envolvido num pathos metafísico, o mais sensato será ir comer chocolate.

2 comentários:

  1. Acho que mesmo depois de comer chocolate continuaria a concordar consigo, muita gente deixou simplesmente de ouvir, ou melhor ainda, de escutar.
    ~CC~

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    1. O importante é falar, ter voz, mesmo que não se tenha nada para dizer. Não se sabe que para ter voz é necessário antes escutar.

      HV

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