Pode-se pensar no assunto em analogia com uma prescrição médica. Imaginemos que se vai ao médico e ele receita, durante três ou quatro semanas, a toma diária de um medicamento. É o que me acontece agora com o Mundial de Futebol. Vejo um jogo por dia. E, como deve acontecer com a medicação, se falho um dia, não vejo dois no outro. O problema, e há sempre um problema que espera por nós ao virar da esquina, é que a analogia ainda contém uma outra coisa. Enunciemo-la em forma de pergunta: Se tomo um medicamento diariamente para resolver uma situação patológica, qual será a patologia que pretendo curar ao ver um jogo de futebol diário? Quando enunciei, pela primeira vez, esta interrogação, pensei em várias possibilidades. Nenhuma, porém, me pareceu ser tratável com jogos de futebol. Um leitor precipitado dirá: não é possível que jogos de futebol tratem doenças, nem do foro psiquiátrico. Isto, porém, é apenas uma presunção. A minha resposta – provisória e falsificável como todas as afirmações científicas – é a seguinte: se os jogos de futebol são fármacos, então é necessário que exista pelo menos uma doença a que essa medicação seja aplicada. O facto de não a conhecermos, não significa que não exista. Talvez esta proposição não seja muito falsificável. Aqui joga-se um drama epistemológico entre a falsificabilidade e a falácia dita argumentum ad ignorantiam. Mas não vou contar a história desse drama, pois é tão maçadora quanto a forma de Portugal jogar.
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