Em Túnis, nasceu ainda dentro do primeiro terço do século XIV um homem que haveria de morrer já no outro século no Cairo, e a quem deram um tão longo nome que não me apetece escrevê-lo. Ficou conhecido, para abreviar, com Ibn Khaldun, e é tido, não sei se com justiça ou se com excessiva generosidade, como um dos pais de diversas disciplinas das áreas das ciências sociais e humanas. A certa altura do seu Discurso sobre a História Universal diz O reino animal desenvolve-se, as suas espécies aumentam e, dentro do progresso gradual da Criação, termina no homem, dotado de pensamento e reflexão. O plano humano é atingido a partir dos macacos, nos quais existe sagacidade e percepção, mas que ainda não atingiram a reflexão e o pensamento. Dentro deste ponto de vista, o primeiro nível humano vem depois do mundo dos macacos; a nossa observação fica-se por aqui. É plausível a existência de quem veja em Khaldun também um precursor do evolucionismo darwiniano, mas o mais inquietante é a declaração final, a nossa observação fica-se por aqui. Será porque não haveria mais nada para observar para além do homem? Será porque o observador se recusa a observar mais alguma coisa? Talvez este contentamento com o observado dissimule um temor, aquele de descrever a existência de muitos homens que não usam nem o pensamento nem a reflexão, limitando-se a macaquear os próprios macacos ou nem isso, pois não é incomum encontrar exemplares da espécie humana a quem falta a sagacidade e a percepção que ele descortina nesses nossos primos. Isso implicaria que a um esboço de uma teoria evolucionista, ele teria de acrescentar o esboço de uma teoria involucionista, que começaria na degradação do homem em macaco, para a qual não faltam exemplos, seria seguida de descrições de quedas cada vez mais fundas, nas quais se chegaria aos homens protozoários e, entre estes, aos homens ameba, aqueles que parasitam o seu próprio intestino. Também eu, como Ibn Khaldun, fico por aqui. Para um sábado de Junho, esta minha contribuição para o conhecimento das coisas escondidas desde o princípio do mundo é suficientemente gloriosa e acrescentará, por certo, uma nova página na notável gesta deste cavaleiro andante sem destino nem cavalo.
sábado, 15 de junho de 2024
sexta-feira, 14 de junho de 2024
Por falar em Pavlov
Continuam as experiências com um chatbot. Ele é a imagem do mundo, uma real projecção desse mundo que desagua na internet. Introduzi uma reprodução de uma pintura abstracta e pedi-lhe que me contasse uma história a partir dela. A sua inclinação para o kitsch parece inultrapassável. Numa terra distante e etérea, onde os limites entre a terra e o céu se confundem, existia um vale místico conhecido como as Planícies Sussurrantes. O vale estava envolto em uma névoa perpétua, escondendo os seus segredos do mundo exterior. Este foi o começo. Insuportável, o número de lugares-comuns. Nem continuei a leitura. Pedi-lhe então que me escrevesse uma história como se fosse Franz Kafka. Anuiu e devolveu-me este começo: Numa cidade sombria e claustrofóbica, vivia um homem chamado Gregório Duarte. Gregório era um funcionário de uma repartição pública, onde passava os seus dias a carimbar documentos e a arquivar papéis. A sua vida era uma rotina monótona e repetitiva, e ele sentia-se como uma engrenagem insignificante numa máquina colossal e indiferente. O pobre do Gregor Samsa surge metamorfoseada não num insecto, mas num português chamado Gregório Duarte, empregado numa repartição do Estado. Enfim. Não vou aqui contar todas as tentativas, nem sequer aquelas em que pedi que escrevesse ao estilo de Pessoa e, depois, de Saramago. Os chatbots têm uma lógica de resposta que os aproxima dos cães de Pavlov. Nós tocamos a campainha, e eles salivam. Coisa que acontece também com muitos seres humanos. Por enquanto, a arte humana está salvaguardada de concorrência. Por aqui, houve uma súbita animação. Os festejos de Santo António prosseguem, embora o que se ouve é uma cantiga popular ao S. João. Talvez devesse ir comer umas sardinhas. Isto por falar em Pavlov.
quinta-feira, 13 de junho de 2024
Linha do horizonte
Não o fazia há muito, mas hoje abri um dos cadernos de Eduína, com disposição de percorrer algumas páginas. De dentro, caiu uma folha manuscrita. Entre muros de pedra, a terra árida abria-se ao segredo do esquecimento. O vento, inflexível arauto do futuro, traçava sulcos na angústia densa inscrita na poeira. Pilares tocados pela brancura da cal vigiavam sonhos enterrados por cavaleiros sonâmbulos, pastores perdidos, amantes sem a tragédia do amor. A paisagem era uma recolecção de lembranças esculpidas no fundo esconso da memória, deserto rasgado por caminhos que se bifurcam e, como rios, desaguam no grande oceano do nada. A letra não é a de Eduína. É possível que seja uma letra masculina, talvez a de algum amante a quem ela poupou a tragédia do amor e, resignado, não teve a coragem de evitar a inclinação para o pathos que dorme no fundo do coração de todos os homens. Pergunto-me quais as razões que a levaram a guardar aquele bilhete. Piedade? É possível, mas não compreendo por que o guardou num dos cadernos que decidiu deixar-me como herança. Peguei no papel e coloquei-o ao acaso no caderno de onde caíra. Depois, guardei tudo, e fiquei a olhar o horizonte, mas não vi mais nada do que a linha do horizonte.
quarta-feira, 12 de junho de 2024
Do espírito e do mundo
Cresci numa velha tradição que Hegel, nos inícios do século XIX, sintetizou numa daquelas frases lapidares que têm uma fortuna sem fim, a leitura dos jornais é a oração da manhã do homem moderno. Naquela altura, o homem moderno era ainda muito jovem. Nietzsche, porém, décadas depois, achava que ler os jornais todas as manhãs à hora do pequeno-almoço não passava de uma imbecilidade parlamentar. Nietzsche não era um homem moderno ou, pelo menos, não o queria ser. Imaginava-se, presumo, um sobre-homem, o qual surge nas traduções como super-homem, mas esse só há um, o Clark Kent e mais nenhum. Hegel via na leitura matinal das notícias a possibilidade de auscultar a pulsação do espírito do mundo, o que é uma ruptura com a anunciação crística o Meu reino não é deste mundo. Hegel via na marcha do mundo o caminho do Espírito para si mesmo. Talvez quando o espírito chegasse a si, estivesse chez soi, como dizem os franceses, descobrisse a sua casa já num outro mundo e não neste, ou, então, o outro mundo é este, que é o melhor dos mundos possíveis, isto para nos atermos ao que outro filósofo alemão, Leibniz, proclamou e que, mais tarde, talvez na sequência do terramoto de Lisboa, Voltaire não se cansou de ridicularizar. Continuo a ler de manhã o jornal, já não em papel, mas online, embora não o faça ao pequeno-almoço. Não por respeito ao espírito de Nietzsche, espírito frágil que se desintegrou rapidamente, mas porque não me dá jeito. Continuo a ser um moderno, falha-me a paciência para os sobre-homens e, aos poucos, começo a conceder a Leibniz que este é o melhor dos mundos possíveis, até porque não tenho outro.
terça-feira, 11 de junho de 2024
Um problema de autoria
Hoje, a certa altura do dia, decidi desocupar-me e ocupar-me com outra coisa, pois há sempre outra coisa para nos ocupar. O resultado foi isto: linhas negras cruzam o vermelho / estruturas erguem-se do caos / pontos brancos explodem no horizonte / gestos soltos, marcas de um instante // ecos da tinta vibram tensões / manchas dançam sem rumo / horizontes emaranhados, sem destino /tons diluídos em abstracção // redemoinhos de tinta encontram-se / na profundidade sem nome / traços perdidos buscam sentido / o fundo arde em rubro intenso. Estou inocente. Ou quase. Não fui eu que escrevi o poema, se é que é um poema. É o produto de uma transacção. No chatbot, introduzi uma reprodução de uma pintura abstracta. Pedi-lhe para me escrever um poema com doze versos, sem metro, sem rima. Este não é o produto inicial. Pedi para fazer algumas alterações, até chegar aqui. Apesar de desocupado, não tinha muito tempo para continuar a experiência, mas descobri uma coisa. Pode-se escrever um poema com um chatbot. A questão é descobrir os comandos a dar, a arte do prompt, ter tempo para fazer explorações. Já descobri que a Inteligência Artificial tem uma inclinação para o kitsch (por exemplo, o verso gestos soltos, marcas de um instante) e para o pathos (por exemplo, o verso horizontes emaranhados, sem destino), foi a sua educação digamos assim. Contudo, é possível trabalhar sobre ela e eliminar aquilo de que não se gosta, trocar a disposição dos versos. Talvez, mas não experimentei, pedir para usar esta ou aquela figura de estilo. Levantar-se-á um problema de autoria, mas talvez, este seja um falso problema, pois ninguém é o completo autor daquilo que é apresentado como seu.
segunda-feira, 10 de junho de 2024
Discussão fracturante
Hoje tive uma discussão fracturante com o autor. Para quem não sabe, posso dizer que não são poucas as vezes que narrador e autor entram em conflito, e não estou a falar deste caso particular. Digamos que foi um conflito quase político. Expus, ao autor, a minha tese sobre o feriado de hoje. Disse-lhe que achava bem que fosse feriado, pois qualquer dia é um dia bom para ser feriado. Camões, por si só, merece um feriado e era de evitar que se lhe acrescentasse o dia de Portugal e das comunidades. Ele olhou de viés, mas eu continuei. Se querem um dia para Portugal escusam de escolher o dia em que o seu maior poeta morreu. Parece que os portugueses comemoram a morte daquele que lhes moldou língua. Depois, o verdadeiro dia de Portugal é o 5 de Outubro, que foi o dia do tratado de Zamora, aquele em que os do outro lado reconhecem Afonso Henriques como rei de Portugal. Arrastado pela efeméride, também é o dia da República, que com dificuldade de encontrar uma data para depor o Rei, escolheu aquela em que o primeiro dos reis tinha sido reconhecido. Dia de Camões, da língua portuguesa e da poesia, seria justo, apesar de um pouco fúnebre, mas esqueceram-se de preservar o registo de nascimento de Luís de Camões, talvez uma avaria no sistema informático da época, e não havendo dia de nascimento, há o da morte, é o melhor que se arranja. O autor ouviu-me, com a petulância que lhe é habitual, depois olhou-me com comiseração e, sem dizer nada, voltou-me as costas, mas não se afastou muito, pois logo retornou e disse vai contar histórias para outro lado. E eu fui.
domingo, 9 de junho de 2024
Erotização eleitoral
Já cumpri o ritual de visita às urnas. Desde o ano de 1975, apenas uma vez não o fiz, numas eleições autárquicas, mas já não sei quais. Estava longe. De resto, sou um votante contumaz. Quando me levantei e logo a seguir, nunca me ocorreu que era dia de eleições. Pensava no que iria fazer e na agenda não constava deslocar-me a uma assembleia de voto. Ao abrir a janela, vi demasiadas pessoas a deslocarem-se para o pavilhão desportivo da escola aqui ao lado, o sítio onde voto. Isso acordou-me para a realidade eleitoral. Despachei-me para ir resolver o assunto. Quando lá cheguei, depois de caminhar 160 metros, segundo informação do portal eleitoral, tentei perceber qual era a mesa de voto que me cabia, mas alguém teve a amabilidade de me esclarecer que estávamos já noutro mundo, que eu podia escolher a mesa que me apetecesse. Podia ser, caso tivesse pressa, a com menos gente ou, caso quisesse confraternizar com alguém, a que tivesse maior fila. Agradeci, entrei no pavilhão e não havia possibilidade de confraternizar com quem quer que seja. As filas eram todas iguais, isto é, não as havia. Escolhi uma mesa ao acaso, entreguei o cartão de cidadão, este foi devorado por uma ranhura de um computador. A certa altura, deram-me um boletim de voto e lá fui para a cabine. Puxei da esferográfica que levava comigo, não fosse a que lá está estar viciada, percorri a lista de candidaturas, descobri aquela que iria eleger e fiz o sacramental X no quadrado respectivo. Depois, dobrei o boletim de voto, desloquei-me para a mesa, fiz entrar o mesmo boletim por uma ranhura da urna e recebi o cartão de cidadão que já se tinha libertado do amplexo do computador. Aquilo que me veio à ideia foi uma coisa pouco apropriada. As eleições estão cada vez mais erotizadas. Não bastava, a penetração das urnas pelos boletins de voto, agora são os computadores ou uns dispositivos a eles acoplados, imagino eu, que são penetrados pelos cartões de cidadão. Enquanto saía do local, pensava se a erotização do acto eleitoral não seria uma estratégia para combater a abstenção. Uma má estratégia, pensei de imediato, pois, apesar das amplas liberdades concedidas a Eros, este anda pelas ruas da amargura, desinteressado da sua missão. Se querem combater a abstenção, pensei, deixem de lado as analogias com a sexualidade, a multiplicação das penetrações e coisas do género. Escolham outra coisa, pois essa não mobiliza já ninguém. Estes meus pensamentos foram interrompidos pelo cumprimentos de dois ou três conhecidos e desvaneceram-se quando, cumpridos os 160 metros, cheguei a casa. Voltaram agora, para ter algum motivo para escrever.
sábado, 8 de junho de 2024
O método do espelho
sexta-feira, 7 de junho de 2024
Arruadas
As sextas-feiras chegam depressa, mas os sábados e domingos dissolvem-se enquanto o diabo esfrega um olho, se for o caso de o tinhoso ser dotado de olhos. Estamos em maré eleitoral, assunto político que me está vedado, mas é sobre ele que insisto em escrever hoje, nesta sexta-feira que antecede o dia em que o corpo eleitoral, com e sem olhos, reflectirá sobre qual partido recairá a sua preferência, treinando em casa o preenchimento do boletim de voto, não vá o X transbordar os limites do quadrado preferido e contaminar outros quadrados, tornando-se assim em X nulo. Há que obstar à nulidade. O que me impressiona nas campanhas eleitorais é a prática generalizada de arruadas. Impressiona, logo, porque o termo se aproxima perigosamente de arruaças. É uma letra que separa um desfile partidário de um tumulto. Por aquilo que venho observando há anos, as arruadas são coisas pacíficas, onde uns figurantes andam com bandeiras e outros são obrigados a dar beijos e a tirar selfies, o que não é fácil, reconheça-se. Em Portugal, a distinção entre direita e esquerda cessa quando se chega à vexata quaestio da arruada. Todos gostam de arruar, embora o que se deva dizer é que gostam de arrulhar, como se os candidatos a nossos representantes fossem da família dos columbídeos, uns pombinhos e umas rolinhas. Temos assim, na arruada, o momento central da campanha eleitora. Um bando de columbídeos arruam com bandeiras ao vento. Ao verem potenciais eleitores começam a arrulhar e, caso se cruzem com outro bando de columbídeos que também arrulham, corre-se o risco de arruaçarem, mas logo lhes volta o espírito de pombo ou de rola, e toca de arrulhar, não vá algum eleitor estar à espreita. Por certo, com tantos arrulhos na rua, haverá casamentos e, se não os houver, sempre aparecerá uma ou outra gravidez indesejada, o que contribuirá para suster a queda demográfica. Este é o verdadeiro significado de uma arruada.
quinta-feira, 6 de junho de 2024
Tornar-se outro
quarta-feira, 5 de junho de 2024
Imaginação forte
Montaigne refere Cícero como autor da ideia de que filosofar é aprender a morrer. A razão estaria no facto de que o estudo e a contemplação filosóficos arrastam, até certo ponto, a alma para fora do corpo, mantendo-a ocupada num para lá da dimensão física. Tanto quanto me recordo, a ideia provém de Platão. No Fédon, Sócrates diz, cito de memória, que filosofar é aprender a morrer e a estar morto. Só espero que a memória não seja imaginada. Há muito que não visito esse texto de Platão. O Fédon trata do problema da imortalidade da alma e é situado no dia em que Sócrates morre. Platão era um escritor de grandes recursos e não sem ironia. Logo no início do diálogo, quando Fédon, um dos amigos que acompanha Sócrates nas suas últimas horas, descreve a alguém essas horas e nomeia quem estava junto do velho mestre, diz que Platão parece que não estava. Ora, Platão é o autor do diálogo e Fédon é o narrador. Portanto, seria natural que o autor soubesse se tinha ou não estado naquele encontro, mas a veia literária de Platão arrastou-o para a ficção. Esta inclinação ficcional não é compatível com o que o mesmo Platão defende na República, quando afirma que os poetas, por serem dados à ficção, à mentira, devem ser expulsos de uma comunidade política bem ordenada. Por muito que o filósofo Platão se revoltasse contra a literatura, o poeta e ficcionista Platão não se poupava em deixar traços ficcionais nos diálogos filosóficos. Platão não foi um caso idêntico a Fernando Pessoa, mas havia nele, pelo menos, dois Platões. O filósofo que rasgou, por ordem de Sócrates, as tragédias que escrevera em jovem e o poeta que aproveitava os diálogos, com cerradas estruturas lógicas, para criar ficções poéticas. Comecei com Montaigne e acabei em Platão. Podia ter acabado com o primeiro quando diz Uma imaginação forte cria os acontecimentos. Talvez fosse por isso, pela força da imaginação, que Platão acabava sempre por sucumbir ao poeta que havia nele.
terça-feira, 4 de junho de 2024
No princípio
Ontem, contei uma história acerca do chatbot que uso. Ele chegou à conclusão de que eu me interesso por linguística e história da língua portuguesa a partir de um mero indício. Contemos a história a partir do princípio. E no princípio era o verbo atraiçoado. Deixando-me de enigmas. Aborrece-me que ele me responda em brasileiro, sendo eu português. Não me cai bem ver fenômenos no lugar de fenómenos. Irrita-me. Passei a pedir-lhe para me dar as respostas em português de Portugal. A certa altura, refinei o pedido, e passei a pedir respostas em português de Portugal, anterior ao AO-90, isto é, ao taralhouco acordo ortográfico de 1990, que decidiu castrar as palavras das suas consoantes mudas. Daqui o chatbot, na sua generosidade, achou que me interessava por aqueles disciplinas, o que não é o caso. Também extraiu a conclusão de que eu sou um fiel tradicionalista, visto querer escrever com uma variante do português que ele deve considerar arcaica. É assim que se criam os boatos e se lança sobre as pessoas os mais terríveis labéus. Serei eu um tradicionalista? Ora, ora, eu que cultivei as vanguardas, sou agora manchado com semelhante epíteto. Bem, o melhor é pensar no assunto. Apesar de ele, chatbot, afirmar que reconhece o português anterior ao AO-90, tem um problema com as consoantes mudas e, por norma, rasura-as. Já o admoestei, mas ele fez orelhas moucas. Temo, mas temo na verdade, que as consoantes mudas tenham os dias contados, mas nisso são como todos nós. O corrector gramatical do Word não gostou da expressão tenham os dias contados. Propôs, no seu lugar, estejam a acabar. É um corrector que se leva demasiado a sério e quer todos os textos livres de chavões. Não percebe ele que o chavão, para este narrador, é como pão para a boca.
segunda-feira, 3 de junho de 2024
Adeus, dr. Freud
domingo, 2 de junho de 2024
Distinguir os dias da semana
O primeiro domingo de Junho deu continuidade ao primeiro sábado do mesmo mês, coisa que nem sempre acontece. Não me estava a referir, todavia, aos acidentes do calendário, mas à sociabilidade, à sociabilidade deste narrador, que continuou em alta com um almoço de aniversário. Deixemos as consequências dietéticas do evento de lado e concentremo-nos num assunto que me preocupa. Perguntei aos dois membros de um casal, ambos reformados há tempos, se distinguiam com clareza os dias da semana, se sabiam que estavam num sábado ou numa segunda-feira. Reconheceram ambos que essa distinção se foi apagando. Não está completamente rasurada, mas muito diminuída. Isso confirmou as minhas suspeitas. A distinção dos dias da semana só se mantém porque os seres humanos ainda não se libertaram da necessidade de trabalhar. Quando todos os dias são de descanso, é inútil saber se hoje é domingo ou quarta-feira. Quem quer saber? Isto ainda é mais acentuado num mundo onde a religião, com o ritmo das suas festividades, se tornou, mesmo para os crentes, um assunto secundário na existência. Agora, vou preparar-me para enfrentar os 35 graus que me esperam lá no sítio onde continuo a distinguir os domingos das quartas-feiras.
sábado, 1 de junho de 2024
Sociabilidades
Não há inimigo maior das boas relações com a balança e a nutricionista do que a sociabilidade. Ser sociável implica um conjunto de rituais que acabam por fomentar comportamentos desviantes da boa forma e dos cuidados com a saúde. O almoço de hoje prolongou-se pelas horas dentro. Ora, mais do que aquilo que se come é o que se bebe. Mesmo que lento seja o ritmo do consumo, com o passar das horas vai-se acumulando o álcool e, com ele, as calorias, o peso e os efeitos nefastos na relação com a balança e, por extensão, com a pobre rapariga que acha ter por missão pôr-me de boa saúde. Enfim, ela não acha, mas faz o papel dela e eu finjo que acredito que ela crê ter essa missão. Seja como for, ainda há tempo para recuperar. Talvez por um sentimento de culpa, fiz uma belíssima caminhada, acumulei pontos cardio, passos e quilómetros. O pior é que amanhã tenho uma festa de aniversário e as tentações podem ser mais fortes do que o espírito de missão. Aliás, espírito de missão foi coisa que não me coube nos dotes recebidos, se é que recebi algum. Em contrapartida, fui dotado com uma boa dose de quedas em tentação. Acho que não vou jantar. Não por autopunição, mas porque me falece o apetite. Amanhã será outro dia, o segundo de Junho, mês que começou atravessado.
sexta-feira, 31 de maio de 2024
Uma conspiração
Acabei de fazer uma viagem de treze graus. Saí do sítio onde me acolho com uma temperatura de 36o e cheguei a onde me encontro com uma temperatura de 23o. Aliás, a viagem tanto em tempo como em quilómetros é curta para os dias de hoje. Maio acaba enlouquecido e apostado em enlouquecer quem tem de penar pelos sítios onde a brisa marítima se recusa a chegar. Daqui a pouco, irei caminhar na amenidade da temperatura. Um mistério assola a minha existência. Um dos dispositivos de leitura que tenho – um eReader – está com uma inclinação exagerada para se apagar. Carrego-o e ao fim de um dia dou com ele sem bateria. Já investiguei possíveis causas, eliminei-as, passei a cumprir as orientações fornecidas, mas o objecto não está de acordo. Talvez seja dotado de vontade, de livre-arbítrio e tome a decisão de se descarregar só para me confundir. Esta é uma hipótese que se deve levar a sério. Até hoje temos lidado com os objectos como se eles fossem meros mecanismos fabricados pelo homem e limitados na sua acção a cumprir as instruções que o seu criador lhes dá. Talvez esta visão das coisas esteja errada e sempre que os seres humanos criam um utensílio, seja para o que for, criam um ser que possui vontade própria e conspira para nos contrariar. Quem nunca teve uma avaria no carro? Quem nunca chegou a casa e deparou com electrodoméstico que se recusa a trabalhar? Ninguém. Dizer que isso é um acidente mecânico é uma explicação cândida, uma candura que os objectos aproveitam para frustrar os proprietários e divertirem-se à sua custa. Diversão, não poucas vezes, muito pouco em conta. Os filósofos pré-socráticos, os de Mileto, estavam convencidos de que tudo no mundo estava dotado de vida e de alma, digamos assim. Era uma visão de homens experimentados e que não se deixavam enganar pelas coisas que se fingiam mortas. Nós, homens contemporâneos, perdemos essa capacidade de compreender as coisas e somos, a cada instante, zombados por seres que se recusam a cumprir as tarefas para os quais os destinámos. Talvez estejam a congeminar uma insurreição. Como se vê, o tempo fresco não me é mais favorável ao pensamento do que o calor infernal.
quinta-feira, 30 de maio de 2024
Mediador comunicacional
terça-feira, 28 de maio de 2024
Homens e ilhas
Lê-se Próximo, apenas o interior; o demais está afastado, e pensa-se, talvez, no próprio homem, onde a coisa mais próxima de si é a sua interioridade e o resto está, irremediavelmente, afastado. No entanto, o verso citado, é o início do terceiro poema de um pequeno ciclo, com três composições, denominado A Ilha – Mar do Norte, de Rainer Maria Rilke. O poeta escreve não sobre os homens, mas sobre uma ilha, e, como se sabe, nenhum homem é uma ilha. Isto foi escrito muito antes por John Donne, um poeta inglês que nasceu 303 anos antes de Rilke. O poema de Donne acaba com três versos muito conhecidos: E, portanto, não procures saber / Por quem o sino dobra. / Ele dobra por ti. Para o poeta inglês, cada um é parte do todo, um elemento, A morte de cada homem diminui-me /Pois sou parte da humanidade. Que o poeta tivesse de o afirmar significa que essa comunhão entre todos os homens estaria já em processo de dissolução, o indivíduo nascia na consciência europeia, e o indivíduo é aquele que, ao escutar o dobrar de um sino, sabe que não é por ele que o sino dobra. Rilke pertence já a um mundo em que a ideia de uma pertença radical ao fundo da espécie estava apagada. A morte do outro não é a minha morte, pois a humanidade é, agora, uma mera abstracção, fundada na soma de indivíduos. Talvez o poema de Rilke sobre uma ilha seja, afinal, um poema sobre o indivíduo, pois ele pertence já a um mundo em que cada homem é uma ilha.
segunda-feira, 27 de maio de 2024
O verdadeiro conservador
Hoje o dia prolongou-se em afazeres diversos, de tal maneira que cheguei tarde a casa. Pior, as andanças toldaram-me a imaginação, o dia não foi propício a aventuras, a não ser a avaria de uma persiana, logo a do quarto. A luz entrou por ele dentro, mal se fez presente por aqui. A empresa garantiu que vem tratar do assunto, mas só amanhã. Vão ser dois dias a acordar mais cedo. Podia mudar de quarto. É verdade, mas há velhos hábitos que é melhor não os ofender. Mudar de quarto implica mudar de cama, coisa para que me falta o apetite. Descobri que tinha uma costela conservadora quando percebi que, por exemplo, num café, tinha um lugar predilecto e se ele estava ocupado, sentia em mim uma contrariedade. Depois, deixei de ir a cafés. O conservadorismo, ao contrário de se diz por aí, não é uma atitude geral perante o mundo, nem uma ideologia política, mas uma certa relação com o espaço. Um conservador, um dos autênticos, preocupa-se apenas e só em preservar os espaços. Assegurar que eles evitam a rasura do tempo, esse inimigo visceral do espaço. Um conservador sabe que não pode parar o tempo, então trata de imobilizar os espaços e de se imobilizar neles. Por isso, não é um cultor da viagem. As pessoas gostam de viajar e adoram contar as suas viagens, de tal modo que um conservador pensa que as pessoas viajam apenas por amor ao momento em que contam a viagem. Um conservador espacial, como este narrador, quando viaja, fá-lo contrariado e, se instado a falar sobre a viagem, diz que teve de ir a um certo sítio, dando a entender que o fez contrariado, como se cumprisse um dever. Por isso, prefiro ser incomodado pela luz matinal a mudar de sítio para dormir. Não seria uma grande viagem, mas não deixaria de ser uma infidelidade espacial.
domingo, 26 de maio de 2024
Herói e anti-herói
sábado, 25 de maio de 2024
O verdadeiro niilismo
sexta-feira, 24 de maio de 2024
Nunca falhamos
O dia já esteve quente, permitindo aquela experiência de alívio e pacificação que se dá quando se vem do calor e se chega a casa. As orquídeas estão belíssimas, mas há ainda algumas por florescer, serôdias. Talvez uma ou outra não o faça. De uma das janelas avisto dois jacarandás. Um está coberto por um manto lilás azulado, mas o outro falhou o grande espectáculo. Aliás, todos os anos é assim. Terá sido plantado em lugar inapropriado. Isso também acontece a muita gente. Plantada em lugar que não é próprio, falha o grande momento. O que será para um ser humano o grande momento? É a vida. Por longa que seja, não passa de um momento e não haverá momento maior para alguém do que esse. Daqui a uma semana, Maio estará no seu último dia. Mais umas horas e evaporar-se-á, não para atmosfera, mas para o nada, que é o sítio de onde vem e para o vai o tempo. O tempo é a estrada que liga os vários – os infinitos – nadas. É por ela que vamos e, por estranho que pareça, nunca nos enganamos no caminho. Nunca falhamos o nada.
quinta-feira, 23 de maio de 2024
Acumulações
Os dias continuam a crescer. A temperatura, agora, também aumenta. Nesta corrida, os dias vão perder. Vão cessar de aumentar mais rapidamente do que a temperatura. Eis uma meditação que não serve a ninguém. É assim que concebo a minha sabedoria. Um conjunto de informações inócuas, cuja finalidade não se descortina. Fui acumulando informação atrás de informação. Elas, as informações, em vez de se integrarem num todo harmonioso, acumularam-se num armazém sem ordem. Preciso de uma, então lanço a mão ao armazém e uso a primeira que me aparece. Basta olhar para estes textos. São fruto de lançar a mão e apanhar aquilo que aparece em primeiro lugar. O que acontece comigo, imagino que acontecerá com muitas outras pessoas, mas não tenho a certeza. Nunca fui outra pessoa. Já ser esta é uma tarefa hercúlea, quanto fará ser esta e outra. Talvez Fernando Pessoa, ao ser tantos, fosse, na realidade, um Hércules. Apesar disso, morreu cedo. Ser tantos pesou-lhe na alma e deu-lhe cabo do corpo. Se Pessoa vivesse hoje, iria ao ginásio. O exercício permitir-lhe-ia suportar-se a si e aos outos sis que ele era e prolongar a vida, para acumular mais sis. Ele acumulou sis, eu acumulo informações. São mais leves e, com o passar do tempo, elas vão desaparecendo do armazém. Não sei se elas são roubadas ou se saem pelo próprio pé. Conformo-me, pois devemos evitar a acumulação.
quarta-feira, 22 de maio de 2024
Profecias e exorcismos
Diante de mim, está pousado um romance que tem a guerra por pano de fundo. Trata-se de Abelhas Cinzentas, de Andrei Kurkov. O facto de, nos últimos tempos, estar a deparar-me com romances que têm esse horizonte na sua narrativa, quererá o dizer o quê? Premonição ou esconjuro? Será aviso de profeta ou acto de exorcista? Sou um mero narrador, um ser virtual, submetido ao arbítrio do autor, um espírito racional e educado nos valores do Iluminismo. Foi assim que o autor me concebeu. Como tal, não tenho inclinação nem para profeta nem para exorcista. Contudo, não era de mim que falava, mas dessa disposição das coisas que teima em colocar perante os meus olhos esse tipo de literatura. Se há uma disposição, então terá de haver alguém que tenha essa disposição, terá de existir aquele que dispõe. Será ele, ou ela, que é profeta ou esconjurador e utiliza a literatura como instrumento para cumprir a sua missão. Não é indiferente se se está perante a acção de um profeta ou de um exorcista. Se for um profeta, ainda nos encontramos na fase da anunciação de um mal que poderá ocorrer no futuro. Se for um exorcista, então estamos já em plena vigência do mal e esta comunicação através de obras romanescas é um ritual usado para afugentar a malignidade que ainda por aí à solta. É o que me ocorre por hoje, dia em que não me ocorreu nada.
terça-feira, 21 de maio de 2024
Inflamações
segunda-feira, 20 de maio de 2024
Um acto de resistência
Uma experiência anacrónica. A anacronia, no caso, não é muito grande. Passou-se ontem. Um acaso levou-me ao lugar onde nasci, uma aldeia aqui perto. Parei o carro e fiquei à conversa com uma prima. A certa altura, vejo pessoas a espalharem verdura na estrada. Ia haver procissão. Faz sentido, deve ser domingo de Pentecostes e como a terra festeja o Espírito Santo, há procissão, pensei, enquanto ia conversando sobre coisas com décadas. Aproveitei mesmo para lhe desfazer uma ilusão. Estava, a minha prima, convencida de que eu tinha nascido em Lisboa. Uma falsidade, pois, apesar dos meus pais viverem na capital, eu nasci ali. Ora, o que me perturbou não foi a falsa crença de uma prima que não via há décadas, mas a procissão. Entre aquela que vi ontem e as que desenterrei da memória, de uma memória muito recuada, havia uma diferença abissal. Por certo, na coreografia, mas, acima de tudo, no número de fiéis. Ontem, eram tão poucos os que seguiam atrás dos andores, do pároco e da banda filarmónica da aldeia, que olhei estupefacto e, eu que nunca fui numa procissão, quase tive vontade de ir naquela. Para fazer número ou talvez para me solidarizar com as memórias que tenho de grandes procissões, com as raparigas com tabuleiros à cabeça, ajudadas pelos namorados ou afiançados, ou lá o que eles eram, seguidos pelos homens com opa vermelha da confraria do Espírito Santo. Ontem não havia raparigas com tabuleiros à cabeça, nem namorados, nem confrades do Espírito Santo, para além de quase não haver pessoas. Depois, pensei que aquilo que eu estava a ver era um acto de resistência. Aquelas pessoas, conhecia uma ou outra, estavam em luta contra a rasura do tempo. Já não têm poder para erguer uma festa ao divino Espírito Santo, como as havia ali desde o século XVII, mas ainda saem à rua, levam os andores e põem a banda a tocar. Pode ser a luta mais inútil, mas lutar contra o tempo é o combate que merece a maior das admirações.
domingo, 19 de maio de 2024
Finais felizes e alucinações
Decidi, após a leitura de um certo romance, pedir a um chatbot para fazer um resumo da obra. Ele começou muito bem, mas a partir de certa altura passou a alucinar e reconstruiu a história em modo cor-de-rosa, que não é, propriamente, a cor com que acaba o romance. Há duas explicações, pelo menos, para esta situação. A primeira é que há certas versões não romanescas da história em que esta tem um final feliz e o chat decidiu compor o resumo. A outra é que o chat não gostou do fim da história dado pelo autor e decidiu reescrevê-lo, compô-lo, como se fosse o proprietário de uma editora que quisesse vender livros ao público e tivesse como mercado as pessoas que consomem finais felizes. A literatura – e não confundir literatura com ficção em livro – não tem especial inclinação para finais felizes, mas é plausível pensar que são muitos os editores que precisam de vender livros a corações em busca de consolação. Depois, fiz uma nova tentativa com outra obra. Tentei em dois chatbots diferentes. A resposta foi muito mais adequada. Como a obra é muito mais recente e não deu origem a mil interpretações, ambos os chatbots evitaram alucinações e limitaram-se a fazer um resumo genérico da obra. Já reparei que um deles alucina muito mais do que o outro. Há nele qualquer coisa que me perturba. Tenta compor a realidade, tornando-a mais de acordo com certo gosto que ele presume ser do público. As versões pagas, segundo me dizem, são mais fiáveis, mas ainda não me predispus a solicitar serviços pagos. Se quero resumos, faço-os eu, embora não saiba por que razão hei-de querer resumos das obras que leio.
sábado, 18 de maio de 2024
A melancolia da distância
Por curiosidade, foi ver os eventos históricos referentes ao dia 18 de Maio. Entre 1096 e 2018, catorze dos eventos elencados estão relacionados com a guerra. Este é o principal desporto do homo sapiens sapiens. Somos uma espécie duplamente sábia, mas aquilo em que somos, efectivamente sábios, é matarmo-nos uns aos outros. Por horrível que isso seja, não podemos dizer que tenha sido um problema para a espécie, pois esta colonizou todo o planeta e colocou-o sob a sua alçada. Imagino, agora que penso nisso, que a questão da guerra não seja uma questão moral, mas biológica. Assim como no processo evolutivo desenvolvemos a linguagem articulada e, posteriormente, a escrita, também desenvolvemos o poder de nos matarmos. Dois desenvolvimentos inerentes ao processo de adaptação ao meio. Eis um pensamento sombrio, mas que está de acordo com o dia. Tem estado, felizmente, um Maio pouco dado a exuberâncias estivais, fazendo mais lembrar um tempo de Semana Santa, embora esta ideia de que há um tempo, um clima, próprio da Semana Santa não passe de um estereótipo, o qual, penso, não ofenderá a Semana Santa, mas nunca se sabe. Quando se considera a nossa espécie, a partir da cadeira de um escritório, não é possível reprimir a melancolia. Entre aquilo que imaginamos que podíamos ser e aquilo que somos, há uma distância sem fim, talvez infinita. A melancolia vem da constatação dessa distância que vai do ideal ao real, como se diria outrora.
sexta-feira, 17 de maio de 2024
Os caminhos para Roma
Ainda não decidi se vou caminhar junto ao rio ou se fico por casa. Haverá, claro, outras alternativas, mas deixo-as de lado, pois seria fastidioso fazer a sua enumeração. Há quem creia, todavia, que nunca temos alternativas. Estas seriam ilusórias, pois só podíamos fazer aquilo que fizemos, embora tenhamos a capacidade de pensar que poderíamos ter feito outra coisa. Os defensores do não há possibilidades alternativas, desde Baruch Espinosa até a certos cientistas dos dias de hoje, crêem que tudo está determinado. Ora, o que não se consegue perceber é a necessidade de termos desenvolvido uma capacidade de pensar que nos diz que para ir a Roma se podem escolher múltiplos caminhos – aliás, todos, pois todos os caminhos vão dar a Roma – e, na verdade, só haver para nós um caminho para ir a Roma. O facto de termos desenvolvido a capacidade de encontrar vários caminhos e a de deliberarmos sobre qual devemos tomar choca com esse determinismo insuperável. Tenho uma tese que me parece promissora. A vida é um longo caminho de afastamento do condicionamento determinístico da matéria. Quanto mais complexa for uma forma de vida, mais ela tem capacidade de descobrir várias vias para chegar a Roma, isto é, a onde quer. A única coisa que, verdadeiramente, dá fôlego aos defensores do tudo está determinado é a impossibilidade de se retroceder no tempo e voltar a uma certa situação e, não mudando nada da situação original, tomar uma decisão diferente daquela que se tomou, isto é, ir a Roma por outro caminho. Escolhi um péssimo tema para hoje, mas ainda estou a tempo de escolher outro, o de falar sobre o estado do tempo e da exuberância que se desprende do friso das orquídeas. Talvez vá caminhar junto ao rio, se tiver companhia.
quinta-feira, 16 de maio de 2024
Da alucinação
Comecei a escrever uma deambulação sobre alucinações e visões, um texto ainda mais obtuso do que aqueles que costumo escrever. Ao fim de uma dúzia de linhas, apaguei-o e lá se foram as visões e os estados alucinados sobre os quais ia discorrer para dizer nada. A maior parte das palavras que dizemos ou escrevemos são inúteis, penso-o muitas vezes, e se as não disséssemos ou não as escrevêssemos o mundo não perderia nada, antes pelo contrário. Como narrador, tento um equilíbrio entre a verborreia, que me habita a alma, e a ascese linguística que me aproximaria do silêncio. Aqui, todavia, reside, disfarçado, um problema. O silêncio ainda é uma forma de discurso. O facto de evitar as emissões sonoras ou o traçar gráfico de letras não significa que nada se diga. A pessoa que não fala pode incomodar não porque esteja calada, mas devido à sua loquacidade. Essa é uma experiência arcaica, da infância. O silêncio dos pais pode ser excessivamente ruidoso para os filhos. Comecei com as alucinações e as visões de que não falei e podia agora acrescentar audições. Cada um dos nossos cinco sentidos pode alucinar a seu modo. Sentir coisas, cheirar coisas, saborear coisas, para além de ver e ouvir coisas. E aqui parece existir mais uma gaffe da nossa evolução. Se desenvolvemos os sentidos, na longa caminhada até à humanidade que hoje somos, para entrar em contacto com o mundo, por que razão eles nos enganam, chegando ao ponto de produção de alucinações? Há uma possibilidade interessante. Não há nada de errado com os sentidos. Cada alucinação não é a produção de uma fantasia sensorial, mas uma entrada em contacto fugaz com uma realidade que, por norma, está oculta. O melhor é terminar a prosa, para não ser acusado de estar a alucinar. Pertenço a uma geração que não se coibiu de procurar alucinações por métodos ínvios, mas, digo-o para memória futura, nunca fui atraído por paraísos artificiais. Não tinha alma de Baudelaire.
quarta-feira, 15 de maio de 2024
Da anorexia dos caracteres e da felicidade dos canalhas
Estou a tentar ler um certo livro cujo título não vem ao caso, embora a sua matéria exija atenção ao texto. E é aqui que está o problema. O texto utiliza um tipo de caracteres, uma fonte, tão elegante, tão elegante, que os meus olhos têm dificuldade de lidar com tanta elegância. Pensando bem, não deveria falar de elegância da fonte, mas de anorexia. O estado anoréctico dos caracteres choca com os meus olhos. Estes, apesar da prótese a que damos o nome de óculos, já tiveram melhores dias e não lidam bem com todas as fontes que por aí pululam. A certa altura, leio o seguinte: É preciso reconhecer, entretanto, que há certas desordens nesta vida, que se mostram particularmente na prosperidade de muitas pessoas más e na infelicidade de muitas pessoas de bem. Há um provérbio alemão que chega a atribuir a vantagem aos maus, como se normalmente eles fossem mais felizes. Era isto que estava a ler e que estava a ser obliterado da minha consciência pelo estorvo provocado pela anorexia da fonte usada. E o que dirá, perguntará algum leitor, o provérbio alemão? Ora, o que haverá de dizer? Fica a tradução apresentada: Quanto mais curvada a madeira, tanto melhor são as muletas; quanto mais perfeito o canalha, tanto maior é a sua felicidade. Não querendo pôr em causa o espírito do povo alemão, tão bom a fabricar provérbios como qualquer outra coisa, acho o provérbio excessivo na dimensão e, na verdade, falhado. Bastaria que dissesse: Quanto mais perfeito o canalha, tanto maior é a sua felicidade. Seria um belo e exacto provérbio. Não se compreende a introdução de um raciocínio analógico. Que relação se poderá estabelecer entre a curvatura da madeira e a perfeição do canalha? E entre a qualidade das muletas e a grandeza da felicidade. Talvez o espírito alemão seja mais obscuro do que aquilo que um latino consegue enxergar, mas também é verdade que os meus olhos não estão nas melhores condições para enxergar seja o que for, apesar de eu viver no melhor dos mundos possíveis. Talvez me tenha perdido na tradução. Por falar em canalhas, segundo o dr. Johnson, Samuel Johnson, o patriotismo é o último refúgio do canalha. O dr. Johnson não escreveu a frase, apenas a proferiu na tarde de 7 de Abril de 1775, tendo sido registada pelo seu amigo, pupilo e biógrafo James Boswell. Terá sido o dr. Johnson um antipatriota? É duvidoso. O canalha é aquele que se serve do patriotismo para disfarçar os seus interesses egoístas, mas este é um assunto perigoso, pois entre por um campo, a política, que me é vedado pelo autor. Como narrador, aceito a limitação da minha liberdade. Fiquemos apenas pela felicidade dos canalhas, até porque o texto vai longo e não há quem tenha paciência para o ler. E estou certo de que os canalhas, chegados a velhos, ainda têm olhos para caracteres anorécticos. Daí a sua felicidade caso sejam dados à leitura, talvez a última.
terça-feira, 14 de maio de 2024
Idade metabólica
Hoje tive aquela sessão, que não será de todo inútil, com a nutricionista. Pesagens, medições, conversa, patati, patatá. Progressos nuns lados, retrocessos noutros. A idade metabólica, apesar de ter subido e não devia, está bastante lisonjeira, menos dez anos que a idade real. Aliás, estava a recuar demasiado no tempo metabólico e isso poderia ter efeitos deletérios que me recuso a congeminar. Seja como for, acho que devo comemorar os progressos existentes. Descobri um restaurante de comida brasileira e pareceu-me adequado para festejar a perda de peso e de perímetro abdominal. Também evitará recuos na idade metabólica. Não por acaso, deitei a mão a uma estante e tirei de lá o livro You must change your life, do filósofo alemão, Peter Sloterdijk. É isso que a frequência da nutricionista deveria querer dizer. Mudar de vida, abjurar a vida passada, os mil pecados da gula e, sob o comando da enviada do reino das pessoas saudáveis, entregar-me à ascese que me conduzirá não ao paraíso, mas à elegância e à saúde. O meu problema, porém, é que me falta fé, e cada vez que tenho dúvidas, o que é a propensão de uma razão crítica, abro o caminho para aumentar a idade metabólica. Uma chatice. Não serei o primeiro, nem o segundo, nem o terceiro que não compreende por que razão aquilo que é agradável aos sentidos faz mal à idade metabólica. Há um erro no processo evolutivo da humanidade. Desenvolveu os sentidos também como fonte inesgotável de prazer e, afinal, o organismo só é saudável se evitar os prazeres. A minha esperança é a engenharia genética, que, no futuro, poderá intervir nos nossos genes e desligar os sentidos do prazer, focando-os na sobrevivência. Até lá temos de suportar esta luta infinita entre o prazer e a idade metabólica, ouvir as sorridentes homilias da enviada do reino da saudabilidade e não levar nada disto a sério.
segunda-feira, 13 de maio de 2024
Por uma natureza benevolente
Os dias úteis começaram carrancudos. Céu cinzento, tempo abafado. Alguém diz estamos no tempo das trovoadas de Maio, oiço responder pois estamos, pois estamos. E a conversa continuou, saltando de assunto para assunto, um modo de ocupar o tempo e de o deixar deslizar. Por certo que, por aqui, Maio tem as suas trovoadas, mas na minha memória são as de Junho que surgem mais rapidamente. Súbitas enxurradas, trovões e relâmpagos. A rua, onde vivi parte da infância, toda adolescência e mais alguns anos, enchia-se de água, que corria para outra rua mais abaixo, talvez com esperança de chegar ao rio. E chegava. Depois, vinha o sol e a Primavera começava a despedir-se do calendário. Hoje podia trovejar e chover, pois a atmosfera está acintosa, era bom que a natureza descarregasse a sua fúria, para depois, mais calma, deixar os mortais entregues aos seus afazeres. Não é bom que a natureza acumula fúrias, raivas, ressentimentos. Não lhe faz bem e quem paga são os homens. Não é que estes não mereçam castigo, mas deixemos isso a quem de direito. Não queremos uma natureza justiceira, mas benevolente e dotada de uma infinita paciência para nos aturar. Bem precisa. Hoje não me ocorre nenhuma ideia. O melhor é parar por aqui, antes que venha o crepúsculo e as sombras se adensem até cobrirem a terra com a folhagem extravagante da noite.
domingo, 12 de maio de 2024
Ser sábio
Em Algumas Lições sobre o Perfil do Erudito, de 1794, Fichte terá afirmado que o erudito deve ser, do ponto de vista moral, o melhor ser humano do seu tempo. Esta tradução do título Einige Vorlesungen über die Bestimmung des Gelehrten é equívoca. Fui buscá-la à tradução portuguesa de uma obra de Alexander Kluge, que faz a citação referida. Ora, a tradução francesa é Conférences sur la Destination du Savant, texto que trabalhei arduamente há décadas, mas do qual já não tenho memória. O tradutor automático da DeepL não propõe nem erudito nem sábio (savant), mas académico. A questão não é de somenos. Não se percebe por que um acumulador de informações (um erudito) terá de ser o melhor ser humano do seu tempo. Saber muitas coisas não faz de nós melhores. O mesmo se aplica ao académico. Por que razão o triunfo no mundo académico tornará melhor moralmente o triunfador? A tradução francesa por savant (sábio) é a mais pertinente. Ser sábio é muito mais do que acumular informações ou triunfar na academia, mas uma forma de saber conduzir a sua vida e a relação com os outros. O sábio é o que sabe, efectivamente, traduzir o conhecimento na acção, não porque age segundo um enquadramento teórico, mas porque a sua sabedoria se tornou carne da sua carne e espírito do seu espírito. O sábio é o que está aberto ao acontecer e sabe dançar a música dos acontecimentos. Por certo, esta concepção de sábio está longe daquela proposta por Fichte, que um dia me terá interessado, mas que o tempo, com a sua sabedoria, rasurou da minha memória. Olho para o livro anotado, reconheço a minha letra, mas, na verdade, já não me reconheço como autor dos comentários feitos com a letra que é a minha. Se não me desse trabalho, punha-me a apagar sublinhados e anotações, para retornar a ler aquilo que há muito li diversas vezes, sem me tornar mais sábio.
sábado, 11 de maio de 2024
O caminho da reiteração
Suspendi a marcha pela floresta das sinfonias de Mahler. O que me falta ouvir fica para a próxima semana. O fim-de-semana musical fica dividido entre o silêncio e a música contemporânea. Nesta comecei, com duas composições de Alfred Schnittke, Concert for Choir e Requiem. Agora, viajo por Maurice Kagel, Rrrrrrr… Anagrama e Mitternachsstuk. A parte final da viagem será com Frédéric Durieux, So schnell, zu früh, Devenir e Là, au-delà. Tudo isto proveniente de CD que já não ouvia há bastante tempo. Na música, talvez como em tudo, o importante é a reiteração. Ouvir uma e outra e outra vez. Esta repetição, porém, tem, desde há tempos, má imprensa, digamos assim. Fomenta-se a quantidade das experiências. Ver muitas coisas, ouvir muitas coisas, viajar por muitos sítios, ter muito amores, etc., etc. Isto, porém, não passa de um exercício superficial e este amor à multiplicidade experiencial é, na verdade, a confissão de uma impotência estrutural perante a verdadeira experiência, que não procura a multiplicidade infinita, mas procura o infinito que há na unidade. A repetição é uma aproximação a essa unidade infinita. Unidade sem fim, seria mais apropriado dizer. A repetição não é a queda na rotina, como um tempo apressado como o nosso pensa. Pelo contrário, é um processo de descoberta, pois a realidade, qualquer realidade, só se deixa conhecer pelo árduo esforço, e mesmo este não garante a apropriação que constitui todo o conhecimento. Voltando à música, a de Alfred Schnittke pertence a universo sonoro bem diferente dos de Kagel e de Durieux, que estão mais próximos, filhos de uma mesma cultura. Enquanto trabalho, deixo a música escorrer por mim. Por vezes, paro e fico apenas a ouvir. Outras vezes, deixo o silêncio reinar. As paredes da escola aqui ao lado reverberam, fustigadas pela inclemência do Sol. O fim-de-semana progride e isso não é uma boa notícia.
sexta-feira, 10 de maio de 2024
Esquinas
quinta-feira, 9 de maio de 2024
Dia da espiga
Não fui colher a espiga, hoje que é dia dela. Aliás, nunca participei nessas romarias ao campo, para colher a espiga e fazer um ramo que incluía ainda papoilas, malmequeres, pequenos ramos de oliveira, alecrim e videira. Uma festa claramente pagã e que acabou por coincidir com a festa cristã da Ascensão. Em tempos, a Quinta-Feira de Ascensão foi feriado nacional, mas agora só é feriado em alguns – são bastantes – municípios, como este em que me recolho. Não terá sido muito inteligente acabar com o feriado nacional. Os católicos festejariam a Ascensão, os pagãos iriam à espiga e os outros entregavam-se ao descanso, pois, contrariamente ao que se propaga desde a tenebrosa (por certo, por causa do carvão) Revolução Industrial, o homem não foi feito para o trabalho. Este é um mal, um castigo metafísico. Ora, se o trabalho tem essa natureza, o mais sensato será aliviar os homens, o mais possível, dessa punição. Punição como aliás decorre da própria palavra trabalho, que foi derivada de tripalĭu, um aparelho de tortura composto por três paus. Como a história das palavras nos conta coisas interessantes. Num tempo de grandes preocupações ambientais, seria sensato que um governo decretasse a Quinta-Feira de Ascensão, com a adenda de se considerar também Dia da Espiga, como feriado nacional, e todos fossem passear ao campo, fazer ramos e testar a sua resistência às alergias provocados por pólenes, pós e poeiras. Por ser feriado, tenho passado o dia a trabalhar e a ouvir as sinfonias de Gustav Mahler, dirigidas por Eliahu Inbal e executadas pela Radio-Sinfonie-Orchester Frankfurt, em gravações que datam do século passado. Este é o meu programa musical para hoje e os próximos dias. Daqui a pouco, mais à tardinha, irei caminhar junto ao rio, num lugar onde há papoilas e malmequeres. Não os apanharei, mas olharei para eles e ficarei grato pela sua existência, como pela existência do rio e dos chorões e salgueiros que por lá existem.
quarta-feira, 8 de maio de 2024
Ruminar o futuro
Hoje, decidi comprar um livro de Ursula K. Le Guin. É conhecida como autora de romances de ficção científica. Li dela apenas três romances do denominado ciclo de Terramar, o qual foi completado, mais tarde, por outros três, que nunca li. Estes romances fazem parte de uma literatura de fantasia, cuja personagem principal é um feiticeiro denominado Ged, o gavião, se bem me recordo. Não eram romances típicos de ficção científica ou de antecipação. A ficção científica foi um género que nunca me atraiu. Talvez seja o contraponto do romance histórico. Enquanto este ficciona o passado, a ficção científica fá-lo-á com o futuro. Talvez este género literário seja mais importante do que aquilo que eu tenho pensado. Não pela literatura em si mesma, mas pelo modo como a imaginação opera para trazer à linguagem as expectativas humanas, o modo como dentro de nós o futuro é ruminado. A compra de Do Outro Lado do Sonho, o romance de Ursula K. Le Guin, é uma tentativa de entrar nesse mundo narrativo, do qual, na verdade, só conheço o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. A minha percepção é que esse tipo literário tem uma natureza distópica. Seria interessante perceber a razão por que o futuro é, por norma, antecipado como um lugar de trevas. Isto recorda-me a velha teoria das Idades do Mundo, em que a primeira Idade era a mais ditosa, a de Ouro e a quarta, a última, a Idade de Ferro, aquela que era tenebrosa por essência. Esta inversão da ideia de progresso talvez seja a fonte que alimenta a imaginação dos escritores de ficção científica, ou, porventura, de todos os escritores. O melhor dos mundos possíveis não está no presente, nem no futuro, mas pertence a um passado de que perdemos a memória, restando apenas vestígios inconscientes, cuja luz não é suficiente para iluminar o futuro.
terça-feira, 7 de maio de 2024
Ondina
Esta noite acabei de ler um conto – talvez fosse mais correcto classificar a obra como uma novela – onde uma das personagens centrais é uma ninfa ou um génio feminino das águas. O autor é Friedrich de La Motte-Fouqué, autor que desconhecia por completo e que um acaso depositou diante de mim a sua obra, Ondina, na tradução portuguesa. É um conto fantástico e mais um episódio daquilo a que se poderia chamar a legenda do amor no Ocidente. Não sou dado à literatura fantástica, mas talvez esteja numa fase de alteração do gosto. Nunca se sabe o que a idade traz aos seres humanos. Sobre aquilo a que chamei a legenda do amor no Ocidente, apenas posso remeter para a obra de um dos pais da Europa, Denis de Rougemont, no seu O Amor e o Ocidente. Presumo que ainda seja obra que mereça ser lida, embora a alteração do gosto tenha sido acentuada nas últimas décadas, e a influência anglo-saxónica tenha obliterado a atenção aos autores da Europa continental. Voltando à bela Ondina, ela abandona o seu mundo em busca de uma alma humana. É o máximo que posso adiantar, mas poderei acrescentar que a pretensão de Ondina será a de todos os seres humanos, quando abandonam o mundo do nada onde existiam, antes de serem concebidos, e são postos sobre a Terra. A partir daí buscam por mil caminhos encontrar e conquistar uma alma humana, a sua alma. A questão que se pode colocar é se eles a encontram ou a perdem, não por a terem, mas por não encontrarem a alma que seria a sua. O que me vale – acabo de o pensar – é não viver num tempo em que o Tribunal do Santo Ofício exercia os seus poderes nesta terra, pois estas formulações acerca da alma são heréticas. Heréticas ou não, são muito mais interessantes. Uma coisa é receber de mão-beijada uma alma na hora da concepção. Outra, bem diferente, é enfrentar o mundo, como D. Quixote, o cavaleiro da triste figura, para encontrar a sua alma. Que aventuras não há que empreender? Que ilusões não há que desfazer? Sim encontrar e conquistar a sua alma é uma prova difícil, mas todas as coisas belas são difíceis, como o escreveu um dia Platão.
segunda-feira, 6 de maio de 2024
Da fealdade das palavras e da origem das sombras
Uma sombra projecta-se no muro da escola aqui ao lado. Depois, desaparece. Este é o destino de todas as sombras, oiço dizer dentro de mim. Por uma vez, aquiesço, no sentido de condescendo com a opinião que foi soprada nem sei bem de onde e por quem, talvez um homúnculo que vive escondido nas terras escuras do meu subconsciente. Aquiescer é um verbo horrível. Não pelo seu significado, mas pela sua sonoridade. Há palavras assim, nascem feias e, por mais tratamentos de beleza que façam, nunca se tornam umas belas palavras. Há pelo menos três categorias de palavras feias. Uma categoria fonológica, em que a fealdade deriva do som, como o verbo aquiescer. Uma categoria semântica, em que a palavra é feia pelo seu significado; por pudor, omito um exemplo. Uma categoria do uso, em que a fealdade deriva da palavra ser usada para tudo e para nada, como a horrível palavra empreendedorismo. Imagine-se, agora, que uma palavra é feia pelo som, pelo sentido e pelo uso. Não haverá palavra que queira casar com ela. No muro, continuam a projectar-se sombras. Umas desaparecem rapidamente, outras permanecem, como a das árvores ou dos carros parados. Todos nós, dotados de bom senso – a coisa mais bem distribuída no mundo, pois, como ensinava o bom Descartes, não há quem queira mais do que aquele que tem – todos nós, dizia, afirmamos que as sombras naquele muro se devem a uma interposição de corpos opacos entre o muro e uma fonte luminosa. É sensato acreditar nisto. Seria, porém, insensato crer que aquelas sombras são emanações de um mundo interior ao muro e que chega até nós não sua vividez real, mas num estado penumbroso, pois perdeu a energia para se manifestar vivo e cintilante na superfície externa do mundo? Se esta hipótese parece inverosímil, há que sublinhar que ela tem um papel relevante na nossa sociedade. Oferece uma solução alternativa à explicação da sombra, o que assegura a concorrência no mercado das ideias e promove a liberdade de escolha dos cidadãos.
domingo, 5 de maio de 2024
Do necessário e do contingente
Peguei num romance que li décadas atrás. Deixou-me, então, um sentimento de prazer. Ao pegar nele, ainda sem saber se vou voltar a lê-lo, dei por mim a pensar se na literatura não se passa o mesmo que no vestuário, onde a moda reina despótica, mas por um reinado curto, o e uma estação. Este romance, do romeno Mircea Eliade, publicado em Portugal com o título Rua Mântuleasa, terá passado de moda? Sempre imaginei a literatura, a arte em geral, sub species aeternitas, o que, seguindo a lição do velho Baruch Espinosa, implica não apenas a eternidade das obras de arte, mas também a sua necessidade. Contrariamente a nós, seres humanos marcados pela contingência, as obras de arte teriam em si uma necessidade intrínseca que as fez vir ao mundo para permanecerem eternamente. O que significa que elas teriam necessariamente de ser criadas, mesmo que os seus autores sejam seres contingentes que poderiam não ter existido. Parece haver uma contradição insanável entre a natureza necessária da criatura, a obra de arte, e a contingência do criador, o artista. Aparentemente, para manter o carácter necessário da obra de arte e a sua eternidade, haverá duas soluções. A primeira diz-nos que o criador, tal como a criatura é um ser necessário, o que significa que um Leonardo, um Joyce, um Pessoa ou um Picasso, por exemplo, não poderiam não ter nascido e não se terem tornado artistas. Uma hipótese que nunca poderemos verificar. A segunda solução, talvez mais interessante, diz-nos que os criadores são contingentes e que são as obras de arte, antes de serem realizadas, que escolhem entre os seres humanos disponíveis aqueles que as irão criar, a elas que já existiam, num mundo potencial, antes de virem à existência. Eu sei que estas soluções são estranhas, mas haverá alguma coisa no mundo que o não seja? Ora, e era aqui que queria chegar, se as obras de arte são necessárias, então não estão sujeitas ao império da moda, o que me permitirá voltar a ler o livro de Mircea Eliade. Admito a culpa que me atribuírem de escrever coisas sem nexo. É verdade, mas isso faz parte da estranheza de tudo o que existe, inclusive a de um narrador sem nome e sem narrativa, como eu.
sábado, 4 de maio de 2024
Honrar o Floreal
A 24 de Novembro de 1793 entra em vigor, em França, um novo calendário, cujos meses tinham um pendor ecológico, tendo as denominações por fundamento aspectos do clima e da agricultura. Havia o mês das brumas, o do vento, o da neve, o das geadas, o do calor, mas também o das vindimas, o das colheitas, o das pradarias. Estes nomes foram fabricados por um poeta, segundo consta, Fabre d'Églantine. Se o calendário tivesse vingado e as invasões napoleónicas o tivessem exportado, hoje estaríamos no Floreal, o mês das flores. Este amor ao mundo da natureza e à vida nos campos, visto a partir dos nossos dias, parece uma premonição, uma tentativa de evitar aquilo que germinava em Inglaterra e que tomou o nome de Revolução Industrial. Esta, ao contrário da Revolução Francesa, não se predispôs a reformar o calendário. Onde iria ela buscar o nome dos meses? O mês do carvão, o mês das minas, o mês do vapor, o mês das máquinas, o mês da ferrovia? Fizeram bem os ingleses em não contratarem nenhum poeta para renomear os meses do ano, nem nenhum cientista para reformular o calendário. Os franceses são mais dados a este tipo de rasura. Estamos cansados do passado. Vamos começar tudo de novo. Que se reforme o calendário. Doze meses, parece boa ideia, mas há que ser racional e consequente com os ideais da Revolução. Para respeitar a Igualdade, têm todos 30 dias e são divididos em décadas, isto é, uma espécie de semana de dez dias. Os outros 5 dias – ou seis, no caso dos anos bissextos – ficam fora dos meses e são feriados nacionais, talvez para compensar a exclusão. Chamavam-lhe os dias sans-cullottes. Cada dia era dividido em 10 partes e cada uma destas em cem outras. Isto foi para acabar com aquela conta das 24 horas, dos sessenta minutos e dos sessenta segundos. Se nos pomos a pensar, talvez esse fosse o calendário mais razoável alguma vez inventado. Tudo contas certas, com um sistema decimal a funcionar. E posso provar que, mesmo hoje, seria o mais correcto dos calendários. As orquídeas cá de casa estão quase todas em flor, ou não honrassem elas o Floreal.
sexta-feira, 3 de maio de 2024
Palavras
O dia deslizou rapidamente. Ainda vai durar um pouco, antes de se entregar no crepúsculo, mas a luz já perdeu o viço e ninguém que passa nas ruas precisa de se acoitar nas sombras das árvores ou dos prédios. Ao escrever acoitar, pensei que estranhos e extraordinários instrumentos são as línguas que os povos vão criando na sua peregrinação sobre este pobre planeta. Basta uma simples cedilha e tudo muda. De acoitar passa-se para açoitar. De encontrar refúgio transita-se para o exercício da violência. Como pode uma coisa tão insignificante como a cedilha mudar o universo em que se vive. Em tempos contaram-me uma história que não tinha que ver com açoitar, nem acoitar, mas de algum modo se ligava com esta última palavra. Um professor, já não me recordo de quê, pessoa excessivamente religiosa, tinha um aluno de apelido Coito. Ora, coito é também a designação do acto sexual e, por isso, nunca tratou o aluno pelo apelido, imaginando, possivelmente, que cada vez que dissesse Coito cometia um pecado. E como se peca por pensamentos, temera cair num pecado mortal, ao chamar o Coito e pensar no coito. Asseveraram-me ser a história verdadeira, mas a imaginação das pessoas é coisa que, não poucas vezes, transborda para lá dos muros da verdade. Coito é, ainda, uma forma de dizer couto, e assim como há Coutos, também há Coitos. Já sou tão arcaico que me lembro de haver um comentador político da RTP denominado João Coito e nunca constou, apesar daquele tempo ser dado ao pudor e à censura, que o seu nome fosse censurado. Por aqui, coito também é um lugar que, nos jogos infantis, serve de abrigo. Se aquele professor em conflito com o coito tivesse de ensinar lógica, não sei como substituiria a palavra cópula que, numa proposição categórica, une o sujeito ao predicado. Quem bane o coito, por certo não admite a cópula. Chegou o fim-de-semana e com ele os dias inúteis onde nos acoitamos do açoite da realidade.
quinta-feira, 2 de maio de 2024
Destino
Entrámos em Maio no meio da incerteza climática. Os dois primeiros dias do mês parecem pagamento de juros ao Inverno. Uns juros moderados – talvez o Inverno não seja dado à agiotagem – pois o frio não é excessivo, a chuva é moderada e o vento não é tão exuberante que lembre um vendaval. O mais grave é que, neste momento, ainda não sei se lá pelas seis da tarde poderei ir caminhar junto ao rio. Dependerá dos humores de quem gere a grande empresa que fabrica o tempo. Acabei de ler o romance O Caminho do Sacrifício, do escritor alemão Fritz von Unruh. O destino das pessoas é mais estranho do que aquilo que se espera. Este aristocrata prussiano pertencia a uma família de militares. O pai era General e ele próprio foi militar. Deixou de o ser, para se dedicar à escrita, em 1911 e voltou a sê-lo com o início da primeira grande guerra. O Caminho do Sacrifício é uma obra baseada na sua experiência na mais longa das batalhas desse conflito. Contudo, não é uma obra para glorificar a guerra e promover heróis, mas um libelo pacifista. Foi este o destino de Unruh. Pertencer a uma tradição guerreira e a uma casta feita para o combate e tornar-se em pacifista. Quando os nazis chegaram ao poder, os livros de Unruh foram proibidos e ele emigrou para França e, de seguida, para os Estados Unidos. A primeira guerra mundial foi fértil do ponto de vista literário. Do lado alemão, por exemplo, há, para lá de Unruh, Erich Maria Remarque ou Ernst Jünger. É provável que a Europa nunca se tenha recomposto dessa guerra, que assinala o fim de um mundo que começara a acabar em França, no ano de 1789, e dá origem a um outro onde essa Europa deixou de ser o centro e começou a sua inexorável caminhada para a periferia onde se encontra nos dias de hoje. O destino das nações é tão estranho quanto o das pessoas. Aliás, não há coisa mais estranha do que o próprio destino.
quarta-feira, 1 de maio de 2024
Sem retorno
Sem se dar por isso, Abril de 2024 escapuliu-se para um lugar de onde não há retorno possível. Se tem de prestar contas – e que mês não terá as suas a prestar? –, não será aqui, mas naquele lugar para onde vão os meses que acabam. Talvez lá, mas isto é uma especulação sem dados empíricos, exista um tribunal, onde, após um processo rigoroso, o mês é julgado por aquilo que deixou acontecer no seu reinado e aquilo que deveria ter acontecido, mas não aconteceu. Será, parece-me, um tribunal de júri, mas também isto é incerto. Como qualquer outro mês, também Abril terá uma equipa de advogados que o defenderão. São especialistas no direito dos meses, gente treinada na barra dos tribunais e que a cada mês tem um cliente novo para defender. Os honorários serão altos – também as acusações são graves – e não se sabe como cada mês encontra dinheiro para saciar a voracidade dos seus defensores. Nesse reino para onde vão os meses acabados ou mortos, houve em tempos uma célebre disputa constitucional. Girou em torno de uma das penas propostas para o caso de um mês ser condenado, o que não é caso raro. Alguém defendeu, mas é incerto quem foi, que em determinadas ocasiões um mês, especialmente culposo, seria condenado a retornar ao calendário e ter uma segunda vida. Argumentou-se que isso possibilitaria a sua redenção, ao tornar-se mais propício a uma existência sensata dos homens. Os defensores da proposta viam na pena um instrumento de recuperação do condenado. Formou-se, de imediato, um partido oposto. Este argumentou que a pena de retorno ao calendário de um mês condenado feria dois direitos fundamentais. Em primeiro lugar, punha em causa o direito de um mês que, assim, não vinha à existência, pois o calendário teria sido ocupado por outro que já fizera o seu papel e agora regressava. Em segundo lugar, o retorno de um mês condenado seria a antecâmara de uma segunda condenação, quando acabasse e voltasse ao reino dos meses mortos para ser de novo julgado, o que contradizia uma norma constitucional que afirma que cada mês só pode ser julgado uma vez. O tribunal constitucional acolheu esta última interpretação e, a partir dessa decisão, já muito antiga, sabemos que nenhum mês que acaba torna a voltar às suas funções no calendário humano. Portanto, não voltaremos a ter um Abril de 2024.
terça-feira, 30 de abril de 2024
Curiosidades
O mundo, apesar de tudo, não deixa de ser um lugar curioso. Comprei no site denominado Trade Stories um romance, O Vestido Vermelho, do escritor sueco Stig Dagerman. O livro custou-me oito euros, incluindo os portes, enquanto novo custa dezasseis. A curiosidade reside não apenas no livro estar praticamente novo, tem apenas uma folha ligeiramente dobrada, mas no caso de a vendedora ter incluído na remessa um post-it (não daqueles amarelos, mas um com alguma animação) com agradecimento pela compra, um marcador de livros com uma reprodução de um excerto de um quadro de Monet, um autocolante que figura uma pilha de livros e, pasme-se, uma saqueta, devidamente embalada, de um chá, Earl Grey, da Lipton. Confesso que não sou um cultor de chá, nem do chá das cinco nem o de qualquer outra hora. Isso, todavia, é irrelevante. Nunca imaginei receber chá ao comprar um livro. A obra é publicada pela Antígona que se apresenta como Antígona Editores Refractários. Não tem um catálogo muito grande, mas tem muitas coisas que merecem ser lidas, como os livros de Stig Dagerman, Silvina Ocampo ou o romance O Caminho do Sacrifício, de Fritz von Unruh. Seja como for, ainda não será desta que me converto ao chá, agora que estou a limitar o café.
segunda-feira, 29 de abril de 2024
O dia de hoje
domingo, 28 de abril de 2024
Palavra
A sabedoria que dirige a humanidade – falo de sabedoria e não de ciência – é uma coisa muito antiga. Veja-se o que está escrito no capítulo 15 do livro dos Provérbios, do Antigo Testamento. Ira destrói até sensatos; / Mas uma resposta submissa desvia fúria; Porém, uma palavra melindrosa desperta cóleras. / Uma língua de sábios sabe coisas belas; / Mas uma boca de tolos anunciará maldades. A tradução é de Frederico Lourenço. O excerto começa com a descrição dos efeitos de um estado psicológico, mas, de imediato, passa para o domínio da linguagem. O que o texto bíblico nos mostra é o imenso poder da linguagem no concerto e no desconcerto das comunidades humanas. Isto significa que o homem não tem apenas voz, não é um mero animal comunicacional, mas, ao ser dotado de linguagem, a sua palavra é uma forma de agir sobre o mundo e a comunidade em que vive. A regulação do discurso é essencial nas comunidades humanas, embora sejam aquelas em que ele foi menos regulado que se tornaram mais prósperas e onde a vida é menos desagradável. A linguagem articulada é um poder extraordinário, uma arma de grande calibre, mas, como todos os poderes e todas as armas, pode ser usada para o bem e para o mal, para enunciar a verdade e proclamar a mentira, para apaziguar ou para desencadear a guerra. Não é impunemente que se usa a palavra. Ela nunca deixa de ter consequências.
sábado, 27 de abril de 2024
Disrupção
Há qualquer coisa de errado na minha relação com o calendário. Ontem sentia que estava numa segunda-feira. Hoje, dou por mim a pensar que é domingo. O melhor será ir à oficina, talvez possam consertar o que parece avariado. Tive de ir a um aniversário. Centro e trinta quilómetros para lá, mais centro trinta quilómetros para cá. A aniversariante ficou um ano mais velha, mas eu, apesar dos quilómetros andados, trago a mesma idade e apenas mais umas escassas horas. Como se vê, o tempo é uma coisa muito estranha. O que para outra pessoa representou um ano, para mim não me acrescentou mais do que uma dezena de horas. Como estava perto do mar, estou com a sensação na pele de que passei o dia na praia. Não passei, nem sequer vi o oceano. Tudo o que escrevi até aqui refere situações disruptivas. Quando nascemos, penso, existe já a disrupção no ser que somos. Saídos do ventre materno, somos trabalhados e trabalhamos para curar essa disrupção, sentida como uma patologia. Com o passar dos anos, conseguimos ocultá-la e, a certa altura da vida, nasce em nós a convicção de que estamos curados. Pura ilusão. A pouco e pouco, ela começa a forçar o cerco que lhe montámos e as muralhas, sem se dar por isso, vão cedendo, abrem brechas, é o que se passa comigo, até que cairão, com um grande estrondo. As coisas são o que são e toda a sabedoria se resume a aceitar a verdade desta tautologia. O que não é fácil, diga-se.
sexta-feira, 26 de abril de 2024
Pessoa
Há pouco o céu estava negro, mas, depois de uns chuviscos, foi ficando cinzento. Cinzento, foi a cor desta sexta-feira. Ia para dizer segunda-feira, pois andei todo o dia a pensar que estava no início da semana, tendo de fazer algum esforço para não dizer coisas insensatas. Poder-se-á argumentar que escrevo por aqui muitas coisas insensatas. Logo, dizê-las não traz qualquer novidade. Seria um mau argumento, pois o facto de escrever coisas sem sentido aqui não implica que as diga publicamente. Aliás, poderei sempre dizer que utilizo este espaço narrativo para me purificar das coisas levianas que me ocorrem, e não são poucas. Este espaço está para mim como a tragédia, segundo Aristóteles, está para os gregos. É uma catarse da minha estarolice, a qual, catarse, me permite, na vida quotidiana no mundo real, disfarçar a irrazoabilidade que há dentro da minha pessoa. É verdade, eu também tenho uma pessoa. As pessoas pensam que são pessoas. Eu não sou uma pessoa. Eu tenho uma pessoa, como outros têm automóveis, acções em empresas, amores fatais. A minha fatalidade é ter de possuir a pessoa que sou. Tivesse eu comprado outra e tudo poderia correr melhor, ou pior, quem sabe? John Locke afirmava que uma pessoa é um ser consciente e reflexivo, dotado de memória e capaz de pensar por si mesmo. Já Kant define a pessoa como um ser autónomo e racional, capaz de agir segundo a lei moral. Apesar de terem perspectivas diferentes, tanto o inglês como o prussiano incorrem no mesmo erro. Ambos não percebem que pessoas é uma coisa que se compra – e se se compra, alguém a vende – e se usa ao longo da vida. Pode-se deixar em herança, mas até hoje não se conhece nenhum filho ou filha que reivindicasse essa herança. Como nenhum herdeiro quer a pessoa do pai ou da mãe, é o Estado que fica com ela em depósito. Passados anos – normalmente, várias décadas – o Estado privatiza as pessoas e elas entram de novo no mercado. A pessoa que eu tenho já pertenceu a outro ser humanos ou, melhor, a outros. E haverá de pertencer a mais, muitos mais, espero. Tudo isto porque a minha pessoa está convencida de que hoje é segunda-feira.
quinta-feira, 25 de abril de 2024
Um desvario
Imagino muitas vezes que a realidade é muito mais bela na escrita do que despejada dos artifícios da escrita. Por um desvario que ainda não entendi, ontem comprei um romance de Hermann Hesse. Tem por título Hans – Sob o Peso das Rodas. Na contracapa tem um excerto que diz O Outono estava a revelar-se mais belo do que nunca, pleno de tons suaves, amanheceres argênteos, meios-dias banhados de sol e cor e noites igualmente claras. Os montes ao longe adquiriam um profundo tom de veludo azul, os castanheiros refulgiam em tons amarelo-dourados e do cimo dos muros e cercas pendiam videiras de tons purpúreos. Este Outono escrito é, por certo, mais belo que um Outono real, talvez porque a escrita torna presente um todo que, na experiência dos sentidos, se dá de modo fragmentário. Não é que os fragmentos não possam ter beleza, claro que a têm, mas falta-lhes a completude. Não são epigramas, mas restos amputados de um texto que nunca se escreve. Falei em desvario por ter adquirido um romance de Hermann Hesse. E é verdade. Há décadas, li, com prazer, alguns romances desse autor alemão. Quando por volta dos trinta anos tentei voltar a eles, não o consegui, tinham alguma coisa de infantil. Ainda tentei mais uma vez ou outra, mas os resultados foram sempre os mesmos. Este de que falo nunca o tinha lido e trata-se do segundo romance do autor e, imaginei ao comprá-lo, ainda não estivesse contaminado pelo estilo e temáticas das suas obras de maior fama, que lhe terão valido o Nobel da literatura, além do Prémio Goethe. Veremos se a obra resiste ou se eu já estou numa fase regressiva da existência e volte a gostar daquilo que um dia gostei e depois deixei de gostar.
quarta-feira, 24 de abril de 2024
O grotesco
Recebi uma das minhas revistas preferidas, a Electra. O assunto da edição da Primavera de 2024 é o excesso. Há um artigo de Christian Salmon com o título O excesso e o grotesco: as novas formas de soberania política. Como estou proibido pelo autor deste blogue de falar acerca de política, fico por três citações. A primeira diz O grotesco parece ter tomado conta de tudo. A segunda acrescenta Onde quer que se tenha conseguido impor, a tirania dos bufões combina os poderes extravagantes do grotesco com o domínio metódico das redes sociais. A terceira sublinha Nunca os bufões, os palhaços e os bobos tiveram tanta influência na vida política. Deixo de lado a análise de Salmon e pergunto-me de onde terá vindo este grotesco. Não caiu do céu, não foi trazido por uma invasão de alienígenas, não surgiu do nada, pois do nada, não se sendo Deus, nada se tira. O grotesco estava aí, estava dentro de cada um de nós à espera de se poder manifestar. Somos habitados por pulsões dadas à hipérbole e à incongruência e quando os quadros da racionalidade se rompem, essas pulsões, à falta de um Apolo vigilante, vêm à luz do dia. As redes sociais permitiram a manifestação dessas pulsões, as quais se foram acumulando até se tornarem um rio caudaloso. Antes de os bufões, os palhaços e os bobos terem chegado à política, já o grotesco e o ridículo que nos habita chamava por eles, os quais, ao descobrirem o mercado, se lançaram na concorrência, certos de terem uma mercadoria para oferecer aos que foram abandonados pela tocha de Apolo e se acolhem sob o tirso de Diónisos.
terça-feira, 23 de abril de 2024
Simplicidade
Tive um dia cheio de complicações, pois elegemos a complexidade e esquecemos as coisas simples como um poema de Ryōkan: será que me fartaria dele / cem anos / passados / a contemplá-lo? / o orvalho sobre a eulália do meu jardim. Talvez o tradutor devesse ter escrito eulalia e não eulália. Cheguei a conhecer mulheres com o nome de Eulália, mas há muito que não encontro nenhuma assim chamada. Talvez volte ao uso, pois os nomes também têm épocas altas e baixas. A poesia de Ryōkan é feita de uma extrema simplicidade, talvez porque as nossas autênticas razões, e não aquelas que usamos para complicar a vida e o mundo, sejam simples: não é por não gostar do mundo / que vivo aqui / recolhido – / simplesmente / habituei-me a esta vida. Poderia dizer uma coisa semelhante: não é por não gostar do mundo / que não viajo / de terra em terra / apenas / habituei-me a estar onde estou. O hábito é o que torna as coisas simples e é por isso que se instigava – nos dias de hoje, não sei – a criar bons hábitos e a combater os maus. Ao dar uma vista de olhos pela imprensa descobri um grande tumulto em torno de uma exigência de uma escola lisboeta em relação à indumentária dos alunos. Parece que há alguns que a simplificam em demasia, pois confundem as salas de aulas com as praias da Costa ou da Linha. O erro é da escola, pois não encontrou a simplicidade suficiente que permitisse a esses alunos, e aos respectivos pais, perceberem que estarem sentados numa carteira numa sala de aula é diferente de estarem sentados na areia a olhar as águas do oceano. Esta diferença é complexa e há que, cartesianamente, a simplificar para que todos a possam compreender.