Reconheço. Ontem gostei mais de ver jogar Portugal. Os usbeques não serão uma potência do pontapé na bola, mas isso não invalida o juízo de gosto feito atrás. Note-se uma coisa para aclarar o valor das minhas afirmações sobre futebol. Porventura, sobre todo o resto. Eu faço juízos de gosto. Não faço juízos estéticos, juízo técnicos, juízos cognitivos. Dito de outra maneira, não faço juízos avaliativos. Expresso um sentimento meramente subjectivo, sem que por detrás dele exista capacidade para fundamentar com conhecimento um juízo de avaliação. Gosto ou desgosto de um jogo do mesmo modo que gosto de laranjas e detesto figos. Sobre laranjas e figos, nunca pensei. Saboreei e isso bastou. No outro dia vi um jogo de que gostei bastante, o Uruguai – Cabo Verde, mas também vi outro de que não gostei, o Argentina – Áustria. Razões para isso? Não tenho razões universais. Não tenho capacidade para avaliar o jogo do ponto de vista da beleza ou da técnica. Falta-me conhecimento. O que me leva então a fazer as afirmações que fiz? Bem, o jogo entre o Uruguai e Cabo verde soube-me a um boa laranja. Já o da Argentina e da Áustria soube-me quase a figo. Era um pouco melhor, mas, mesmo assim, longe de uma boa laranja. Olho para o que escrevo e penso: este narrador está a ficar um adepto. Não, mas temos de acompanhar o espírito do tempo, e o tempo, além de quente, está impregnado de bola. Contudo, há uma coisa a que não consigo converter-me, aos comentadores dos jogos. Então quando joga Portugal, tudo aquilo desaba num patriotismo sem pés nem cabeça, numa gritaria absurda como se isso fosse a mais alta expressão de patriotismo. O dissidente polaco Adam Michnick e o historiador italiano Carlo Guinzburg propõem uma visão do patriotismo mais funda, baseada na vergonha. Michnik: O patriotismo define-se pela medida de vergonha que uma pessoa sente pelos crimes cometidos em nome do seu povo. Por seu lado, o italiano escreve logo no início de Il Vincolo della Vergogna: Há muito tempo apercebi-me subitamente de que o país a que pertencemos não é, como quer a retórica, aquele que amamos, mas aquele de que nos envergonhamos, ou de que nos podemos envergonhar. A vergonha pode ser um laço mais forte do que o amor. Verifiquei esta hipótese junto de amigos provenientes de diversos países. Tanto Michnik como Guinzburg tornam manifesto que sentir vergonha por um acto da sua comunidade expõem um laço de pertença muito mais profundo do que as exibições vulgares de patriotismo, aquele de que o Dr. Johnson dizia: O patriotismo é o último refúgio de um canalha. Esta deriva sobre o patriotismo, dirá o leitor, nada tem que ver com o futebol e o juízos de gosto sobre ele. Talvez tenha, pois assim como se qualifica como bom o jogo de que se gostou, também reconhecemos como nossa a pátria que nos desgostou. Podemos transformar o sentimento da vergonha num juízo de gosto, no caso de desgosto. E ouvir a retórica patrioteira incrustada no bico de uma chuteira causa-me, além de desconforto, vergonha.
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