quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Um calor de ananases

Oiço uma milonga e a tarde abre-se como um enorme poço de nostalgia. Os portugueses, pensei, têm uma grande fixação pela música brasileira, mas há uma profundidade de sentimento naquela que nasce na Argentina que me parece inultrapassável. Talvez o fado se lhe equipare, mas não estou certo disso. Lembrei-me disto porque ontem estiveram cá uns amigos da geração intermédia. Um deles tocava violão, mas apesar de argentino apenas se interessava pela Bossa Nova, a qual estudava com um afinco profissional. Ao longe, uma outra música se intromete na Milonga del Solitario, a célebre Mrs. Robinson, de Simon & Garfunkel. Será outra nostalgia, pensei. Uma notícia informa-me que a bandeira vermelha para indicar praia cheia já foi hasteada quase 2 500 vezes. A minha consciência sorriu plena de orgulho. Em nenhuma dessas vezes a lotação esgotada se deveu à minha presença. Gosto de tal maneira da areia da praia que evito pisá-la. Nunca se deve pôr os pés em cima daquilo que amamos. Estas graçolas secas dão a medida do meu talento. Agosto caminha para a meia idade, não tarda estará velho. Depois, virá o mês em que a realidade reclama a pesada corveia, cheia de projectos, objectivos, cheia de humanidade e um rosário de abjecções e coisas sem sentido. Estará um tempo de escachar, de rachar, de derreter os untos, de ananases. De todas estas expressões ao gosto popular, em uso no tempo do Eça, a que mais me agrada é a de ananases. Um calor de ananases. Um dia ainda vou investigar a origem da expressão, mas é possível que já não exista ninguém que tenha assistido ao seu nascimento. A milonga acabou há muito, agora oiço uma zamba, Luna Tucumana, e uma melancolia suave escorre sobre o dia.

2 comentários:

  1. Talvez porque as estufas de ananases são muito quentes: se bem me lembro estava um calor imenso [de ananases ;)] quando visitei as estufas em "Sã Meguel".
    E um cheirinho intenso a ananás, claro.

    Um bom resto de tarde.
    🍍

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    1. Parece que é mesmo por isso, pela necessidade de imenso calor para criar ananases.

      Um resto de boa tarde.

      HV

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