Resoluções de fraca intensidade. Refiro-me às minhas. Tinha decidido fazer um jejum mais ou menos prolongado de compra de livros. Necessitei, porém, de ir à FNAC comprar uns livros de fotografia de Sebastião Salgado para oferecer. Ofertas não estavam incluídas na penitência. Descobri, de imediato, que afinal a minha decisão não era uma decisão, mas um desejo vago de me santificar pela renúncia. Cedi à primeira – e a mais vergonhosa, diga-se – tentação. Um livro de fantasia, imagine-se. Trata-se de Os Túmulos de Atuan, o segundo volume do ciclo de Terramar de Ursula Le Guin. Este ciclo vem, não poucas vezes, indicado como literatura juvenil. Não argumento. Tinha lido há muitos anos os 3 volumes iniciais publicados na colecção de ficção científica dos Livros do Brasil. Lembro-me de ter gostado. Quando a Relógio d’Água, em 2024, publicou Um Feiticeiro de Terramar, o primeiro volume da saga, comprei-o de imediato e li-o, ainda com prazer. Fiquei a aguardar a continuação da publicação. Já desesperava. Gostava que a editora fosse mais rápida na publicação do conjunto, seis volumes, pois pelo ritmo actual ainda demorará oito anos para chegar ao fim. Caído na primeira tentação, o caminho estava aberto para outras. Havia que compensar com seriedade intelectual a queda juvenil. Não resisti a Cenas de Uma Infância, de John Fosse, e ao novo romance de Thomas Pynchon, Caso Fantasma. Leitura de intelectual sério. Ainda pensei, culpa do suplemento Ípsilon do Público, comprar o romance de Patrícia Portela, Hoje, 3 de Maio. Não comprei. Não foi, porém, uma renúncia. Não havia ou não o vi, apesar de o ter procurado. Quando cheguei ao carro pensei que talvez não tivesse vocação para a santidade, caso esta implique a renúncia. Para jejum, bastou ontem movido por causas médicas, disse para com os meus botões, que na altura eram apenas três, um nas calças e dois no pólo.
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