domingo, 28 de junho de 2026

O bem, o belo e o terrível

Talvez a beleza seja sempre terrível. Consta que Platão terá dito que as coisas belas são difíceis. Deveria antes ter dito que são terríveis. Veja-se a segunda estrofe do poema Im Osten (No Leste), de 1914, de Georg Trakl, na tradução de João Barrento: De sobrolhos desfeitos, braços de prata, / A noite acena para os soldados moribundos. / À sombra do freixo outonal / Soluçam os espíritos dos que caíram mortos. A beleza do poema, que a tradução não trai, é uma encenação do terrível. Será por isso que as mulheres verdadeiramente belas, que não devem ser confundias com as convencionalmente belas, surgem envoltas num véu que, ao mesmo tempo, esconde e manifesta um perigo. Não que sejam agentes dos poderes do mal. Pelo contrário. Reflectem algo de divino e, por isso, de bom. O bem, todavia, é tão excessivo para os mortais que muitas vezes lhes surge como um perigo, como terrível, como beleza. No poema de Trakl, não é a guerra que é bela, mas o poema onde ela se declina. Esse poema, como uma mulher bela, traz consigo a sombra do terrível, que se projecta sobre nós e nos deixa perplexos, perdidos entre o fascínio e o temor.

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