sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Um koan para meditação

Estamos a 20 de Dezembro, e o estado do mundo não me parece muito saudável. Isso, todavia, não é uma novidade. É da sua natureza estar doente. O mundo sofre de uma patologia crónica. Mesmo nos bons momentos, caso existam, continua doente. Não geme, mas a palidez que lhe recobre a face não permite outra conclusão. Outras alturas, além da doença crónica, de ordem física – os organismos sociais não chegam a ter uma natureza biológica, não passando de estruturas mecânicas –, o mundo sofre de acentuada paranóia. É para lá que se caminha. Ora, quando uma ordem mecânica se torna paranóica, aquilo que podemos esperar não é o internamento compulsivo dessas massas nos hospícios, mas vê-las a ditar ordens e a serem servidas por aqueles que deveriam trazer ordem e razão. Nestes momentos, a doença do mundo torna-se aguda. Inflamado, começa a borbulhar em incêndios. As consequências são sempre piores do que se espera. Com esta análise, este narrador desocupado deu um precioso contributo para uma hermenêutica da realidade, coisa que todos afirmam ser a casa onde vivem, mas que ninguém sabe o que é. Há dias que aqui se narram os feitos heróicos que constituem a gesta do narrador. Não havendo gigantes a vencer ou eixos para pôr no lugar, o narrador contribui com a sua especulação não apenas para a elevação da metafísica a ciência – coisa que nem Kant percebeu ser possível –, mas ainda para o diagnóstico da moléstia viciosa que se apoderou do mundo desde que o homem, ao entrar nele, o constituiu. Esta última afirmação parece bizarra, mas deverá ser considerada como um koan para meditação, caso alguém queira dedicar-se ao Zen.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

O enjambement do Inverno

O Outono aproxima-se do fim. Pouco mais de trinta e seis horas e ouvir-se-á pancadas na porta. É o Inverno que chega e quer entrar na casa grande do ano, embora o ano tenha apenas mais uns dias e logo dá o último suspiro e entrega a alma ao criador. Por isso, a estação fria tem de recorrer ao enjambement e espraiar-se no verso seguinte, introduzindo um infeliz desalinhamento da disposição métrica e sintáctica do ano com a estrutura semântica. Tivesse este narrador sido chamado para criar as estações do ano, outro seria o calendário. Nada de começar no fim, que é aquilo que o Inverno faz. Parece que meteu uma cunha, coisa normal neste país, para apanhar o subsídio e os presentes de Natal,  bem como a folia de fim de ano. Não compreende – certamente, por falta de inteligência – este narrador o cultivo que certos sectores da sociedade fazem da natureza como padrão dos comportamentos. Se o metro-padrão fosse natural, um dia teríamos um metro do tamanho de noventa centímetros e no outro mediria centro e doze, com mais um ou dois milímetros. Outra coisa que me irrita é, para além da data, a hora do começo. Neste infeliz ano, o Inverno começa no dia 21 de Dezembro às 9 horas e 19 minutos. Por que raio, não começa às zero horas? Que sentido faz uma pessoa olhar para o relógio, ver que são 9 horas e 15 minutos e pensar que ainda está no Outono? Deixo aqui o meu contributo decisivo para um mundo melhor. O próximo Inverno, depois deste, deverá começar às zero horas do dia 1 de Janeiro de 2026. Temos de começar a pôr ordem no caos que os homens introduzem na vida sempre que se dispõem a regular seja o que for por padrões da natureza.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Desordem da natureza

Uma das editoras a que compro livros tem por hábito oferecer-me pequenos contos em livros de dimensões frugais, 15,5 X 10,5 cm, com cerca de vinte páginas. O último que li, de Alphonse Daudet, tem o inusitado título de A Mula do Papa. Inusitado porque se espera que um Papa, ainda por cima de Avignon, se desloque de cavalo e não num ser híbrido, fruto de relações sexuais não previstas na ordem natural do mundo. Que ordem é essa? A de que cavalos se cruzem com éguas e burros com burras. Contudo, num momento de desatenção, a ordem do mundo desordenou-se, e um cavalo enamorou-se de uma burra, ou um burro seduziu, não a burra que lhe fora destinada, mas uma égua. Desse cruzamento ímpio nasceu a tal mula que os acasos do mundo fizeram que se tornasse propriedade de um Santo Padre de nome Bonifácio. Ora, apesar de ser propriedade de um Sumo Pontífice, a mula não seguia os ensinamentos de Cristo, talvez pela sua origem duplamente pecaminosa: concebida no pecado da luxúria, como acontece a grande parte dos seres vivos, e de uma luxúria contra-natura, coisa que, sendo menos rara do que se pensa, ainda assim tem a sua raridade. Não estava disposta, essa criatura pactuada com o demónio, a dar a outra face e, será o pior, não era avara no cultivo do rancor. A isto adicionava uma memória persistente e viva, fruto, aposto, de uma longínqua hibridação em que um elefante terá dado um contributo genético que se veio a manifestar na memória da mula. Um tal Tristet Védène, um dia, pregou-lhe uma partida de mau gosto, uma cabriolice de adolescente. Ela, com todo o peso hereditário, onde se manifestavam os vícios em que a natureza se perde, jurou vingar-se. Esperou sete anos – um número cabalístico que é um princípio hermenêutico para interpretar a narrativa de Daudet – para consumar a vingança através de um extraordinário coice que, por certo, concentrou a força dos antepassados burros, cavalos e, suponho, elefantes. O pobre Tristet sumiu-se da Terra e a mula aplacou a raiva alimentada por sete anos de espera. Ficámos assim a saber que estes produtos híbridos, frutos do desejo desordenado, não são fiáveis, isto é, dignos de fé. O melhor é abstermo-nos de comércio com eles. Já basta o comércio espúrio de onde provêm. É plausível pensar que nunca mais Papa algum teve uma mula por animal de transporte. O cavalo seria mais digno da sua dignidade, apesar de Cristo ter preferido um burro.

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Meditações sobre o calendário

Daqui a uma semana, estaremos na véspera do dia de Natal. Daqui a duas semanas estaremos na véspera do dia de Ano Novo. No entanto, hoje, só estamos na véspera de amanhã, uma pobre quarta-feira, tão pobre que nem chega a ser uma quarta-feira de cinzas. Como se pode ver pelos exemplos, até o calendário é dado à desigualdade, tornando uns dias memoráveis e outros, infelizes, tão banais que nenhuma recordação deles se regista. Ao contrário do que se pode supor, esta desigualdade não resulta de uma conspiração de adeptos do inigualitarismo – se me for permitido usar o termo – nem, tão pouco, de injustas  relações entre os dias. Se todos os dias fossem ilustres, a memória humana perdia-se e acabava por não prestar atenção ao motivo de notabilidade de qualquer um deles. A nossa consciência não suporta demasiada luz. Pelo contrário, por cada dia cintilante, necessita de longas semanas de repouso. Pode-se pensar que um dia de Natal e um dia de Ano Novo, apenas com uma semana de distância, é uma overdose de dias fulgurantes. Há, contudo, uma sabedoria que aniquila esse excesso. O dia de Natal ocorre num ano e o dia de Ano Novo, noutro. Esta mudança de ano implica uma alteração radical na relação dos dias entre si. Um faz parte de um jogo a acabar e o outro é o começo de um novo jogo. Depois, virá o Carnaval, mas logo se transforma em cinzas, na quarta-feira seguinte. Contemplemos, porém, o crepúsculo de mais uma terça-feira indiferenciada, talvez a sua mediocridade tenha alguma coisa para nos ensinar.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Dias confusos

A ligeira indisposição que me acomete só em aparência foi causada por uma combinação de bolo rainha e de dois cookies de chocolate. Não se pense que a causa, por não ser material, esteja em mim, na minha alma inclinada à gula. O que aconteceu foi apenas uma ocasião para Deus manifestar o seu poder. Claro que não fui eu que imaginei semelhante explicação e muito menos seria possível imaginá-la à segunda-feira, dia em que não imagino seja o que for. Trata-se da opinião do célebre – nos dias de hoje, muito menos célebre – Nicolas Malebranche e do seu ocasionalismo. O filósofo francês do século XVII e início do XVIII defendia que as causas naturais – neste caso, as complexas transformações químicas promovidas em mim pelos bolos comidos em louvor da gula – não são causas reais, mas meras ocasiões para que Deus manifeste o seu poder causal, o único que existe. E aqui esse poder causal poderia ser pensado como um exercício punitivo de quem se deixa enredar nas malhas da tentação. Mesmo nas acções humanas, o verdadeiro poder causal é de Deus. Isto coloca um problema ao ocasionalismo de Malebranche, pois, se aceitarmos uma natureza, incluindo a humana, desprovida de autêntico poder causal, teremos de colocar na conta de Deus todo o mal moral, além do físico. Malebranche encontra uma escapatória. Deus é a causa dos movimentos do mundo, onde se incluem os dos homens, mas são estes que, tendo sido criados livres por Deus, são responsáveis pelas intenções que presidem aos actos que praticam, mas de que não são a sua causa real. Talvez a segunda-feira seja um dia confuso.

domingo, 15 de dezembro de 2024

Metamorfoses na capital do império

Acabado de chegar de um fim-de-semana na capital. De novo, uma sensação estranha. Lisboa está animada, cheia de vida e, no entanto, parece agonizante. A Lisboa genuína está a desaparecer devido à gloriosa era do turismo. Isso não será grande problema para os turistas, pois estes não sabem distinguir a realidade do simulacro. Enquanto, a ficção vai substituindo a vida verdadeira, o visitante acidental passeia por ali, sem compreender o que se está a passar, submetido que está à necessidade de olhar. O desenvolvimento dos meios de transportes teve um inesperado impacto nas cidades. Deixaram de ser lugares onde se vive, para se tornarem um espectáculo que se vê. Esta transformação da cidade biossocial na sociedade meramente visual é uma degradação das modalidades genuínas de ser cidade. Do ponto de vista ontológico, para recorrer ao jargão filosófico, passa-se da presença viva à mera representação. As pessoas estavam presentes naqueles espaços, pois era ali que decorria a sua vida, os seus dramas, as suas vitórias e derrotas. Agora, as pessoas estão ali para representarem um papel. É essa transição da presentificação à representação que torna, por vezes, desconfortável deambular pelos sítios que outrora ainda não tinham sido devorados pela sanguessuga turística. Lisboa não é a primeira cidade a que acontece tal metamorfose. Não será a última. Ao transformar-se em mercadoria, é essa a metamorfose porque passa, corre o risco inerente a inúmeras mercadorias. Desaparecer no acto de consumo.

sábado, 14 de dezembro de 2024

Entre o bife à Marrare e o gato de Schrödinger

Talvez o mais célebre bife da gastronomia portuguesa seja o bife à Marrare. Hoje decidi, em rememoração, ir almoçar um bife à Marrare num belo restaurante lisboeta. O normal seria fazer o exercício ao jantar, mas as rememorações nocturnas começam a ser penosas. Podemos imaginar que um bife à Marrare actual é uma repetição daqueles que, no início do século XIX, António Marrare criou num dos seus quatro cafés de Lisboa, todos tão mortos quanto o seu criador. Contudo, mesmo que as receitas usadas sejam as originais, não é de crer numa repetição. Não apenas porque nada se repete neste mundo, mas também porque uma receita culinária é como uma partitura musical. Terá de ser interpretada, e tudo depende da qualidade do maestro e dos músicos que ele dirige. Como na arte, seja a da música ou qualquer uma das outras, a criação sobrevive ao criador. Pode-se pensar que a culinária é uma arte do efémero, que morre no consumo do prato. Contudo, também nisso se pode estabelecer uma analogia com a música. Cada interpretação de uma sonata, de uma sinfonia ou de qualquer outra obra morre no momento da sua execução. Também ela é efémera. Resta a partitura, tal como, na culinária, resta a receita. Podemos pensar que esta analogia entre culinária e música não é extensível a artes como a literatura, a pintura ou a escultura. Isso, porém, reside numa visão fisicalista das obras de arte. O romance ou os poemas inscritos no papel dos livros são também partituras que só vivem na efemeridade da leitura. Se ninguém está neste momento a ler Os Maias, o romance de Eça de Queirós existe num estado idêntico ao do gato de Schrödinger: num estado de superposição, em que está vivo e morto ao mesmo tempo. É apenas a receita culinária que espera um chef – um leitor – que a actualize e a faça viver nesse momento de leitura. O mesmo se passa com as esculturas e as pinturas. São partituras que esperam os seus intérpretes e só nestes têm vida. Toda a arte é efémera. Melhor, toda a arte é uma colecção de efemeridades: aquelas em que um leitor ou espectador as trazem de um limbo onde, repito, são verdadeiros gatos de Schrödinger.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

Julgamentos

Saí do carro e caminhei na avenida. Senti o frio sem saber se era uma graça ou uma maldição. Temos uma necessidade invencível de classificar as coisas, os acontecimentos e as pessoas. A nossa faculdade de julgar nunca está de férias e só descansa enquanto dormimos, e, mesmo neste caso, não é certo, pois os sonhos podem ser momentos em que ela opera, muitas vezes de forma distorcida. A minha sorte – ou a da minha faculdade de julgar – é que raramente me lembro de sonhar. A maior parte das vezes, a nossa faculdade de julgar é determinante: parte de um princípio universal e determina um caso particular; parte de uma ideia de justiça e avalia se um certo comportamento é justo ou injusto. Noutros casos, ela é reflexionante: parte de casos particulares e tenta encontrar ou criar um princípio que dê sentido a esses casos. Por exemplo, na ausência de um conceito a priori de beleza, a faculdade de julgar parte de uma certa obra de arte e, através da reflexão, tenta reconhecer essa beleza. Era assim que, no século XVIII, pensava o senhor Immanuel Kant. Aproveito-o para lidar com a minha ignorância acerca de o frio sentido na avenida ser uma graça ou uma maldição. Também estas noções sofrem de uma deficiência de definição a priori. Tenho de partir da experiência e entregar-me a uma cadeia de reflexões. Talvez o faça, pois já não sinto frio, nem estou na rua. O pior é que já não tenho a experiência do frio sentido, mas apenas a sua memória. Este é um verdadeiro pensamento de sexta-feira, dia em que a utilidade cede o seu lugar às coisas inúteis. Eu já entrei nestas.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Suburbano

Este doze de Dezembro fez-me lembrar o Natal. Não o Natal real, mas um Natal idealizado, arquetípico. Por certo, os natais arquetípicos são diferentes de país para país, isto naqueles em que o acontecimento faz sentido. No meu caso, o Natal arquetípico tem frio, mas não chuva. Tem sol, uma luz vibrante, mas a necessidade de roupa adequada para enfrentar o destempero do tempo. Foi o dia estar frio, aquele frio que nos leva a fugir das sombras e a procurar os espaços iluminados pelo astro regente deste sistema perdido na periferia da galáxia, que me trouxe tudo isso à memória. Em tempos, os seres humanos pensavam que viviam num condomínio luxuoso – embora cravado até ao pescoço no vício – no centro da capital. Hoje, a visão é outra. Habitamos a periferia da periferia, num galinheiro a cair de podre. Já mudei de assunto, mas foi de propósito. O outro rendia pouco. Essa descoberta de que éramos suburbanos foi o resultado do trabalho conjugado de Copérnico, Kepler e Galileu. Alguém, maldoso, disse que constituía uma ferida narcísica. E assim como ainda não recuperámos da queda adâmica, também o nosso ego não se curou do golpe dado por astrónomos mais interessados na descrição do universo do que na saúde mental da humanidade. Com o ego a sangrar, não admira que a humanidade se comporte como comporta, não espanta que nem dê por estes magníficos dias de sol, onde o meu Natal arquetípico se manifesta, talvez como paliativo da minha ferida – humana, demasiado humana – de não habitar no centro do universo, mas na periferia de uma galáxia perdida numa terra sem nome. A ferida narcísica de não passar de um suburbano.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Coisas sem sentido

É um facto que a perversidade – tal como a bondade – pode atingir limites extremos. Existem dilemas éticos que nascem da perversidade dos homens, do acaso da existência ou da imaginação. Alguns são dilemas que merecem ser pensados, como o chamado dilema de Sofia, baseado num caso presente num romance de William Styron, Sophie’s Choice, que foi adaptado, posteriormente, ao cinema. Nele, a personagem, Sofia Zawistowska, uma detida no campo de concentração de Auschwitz, é posta, por um oficial nazi, perante um dilema maligno: ou escolhe um dos seus dois filhos para ir para a câmara de gás, salvando o outro, ou irão ambos. Não sei se o caso é meramente ficcional, mas a maldade humana é muito capaz de o pôr em prática na vida real. Eis um dilema ético sério, pois implica uma escolha trágica. Há, por outro lado, dilemas éticos idiotas. Por exemplo, o seguinte: Um médico tem cinco pacientes que morrerão se não receberem transplantes de órgãos. Um sexto paciente saudável, sem família, aparece para um check-up. Se o médico retirar os órgãos desse paciente saudável, salvará os outros cinco, mas matará o sexto. A pergunta que o dilema coloca é se será moralmente aceitável matar o paciente saudável para salvar os outros cinco. Quando se acha que isto é um dilema, que esta situação coloca uma verdadeira situação trágica, então já se perdeu por completo a sensatez e o sentimento moral – já não digo o juízo moral – está completamente degradado. Quando se imagina que essa situação é problemática, então já se entrou no declive escorregadio que poerá conduzir à perversidade do oficial nazi.

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Necessidades

Os dias passam, agora, cada vez mais rapidamente, numa cavalgada sem freio. Por vezes, tento agarrar as horas, mas nunca se deixam prender. Quando parece que as tenho bem seguras nas mãos, elas escapam-se-me pelos dedos, incomodadas pelo aperto a que tento submetê-las. Nem sempre as horas foram assim. Lembro-me de um tempo muito antigo em que elas pareciam intérminas. No relógio, o ponteiro dos minutos deslocava-se com uma lentidão que me enlouquecia, enquanto o das horas parecia imobilizado na eternidade. Esse desejo imaturo de que o tempo passe mais depressa nunca devia ter sido desejado. O tempo, esse que então não passava, tratou de o realizar, dando-me horas feitas de minutos tomados pela febre da velocidade. Foi devido a isso que perdi hoje uma reunião. O tempo passou tão depressa que nem dei pela sua passagem. A reunião foi-se. Devia dizer não que perdi uma reunião, mas que a ganhei. Para quem nasceu com alma avessa a certo tipo de convivialidades, perder uma reunião é ganhá-la. As pessoas – refiro-me à generalidade e não a todas – amam reuniões, assembleias, congressos. Marcam presença e ficam convencidas de que existem. Nada pior do que pessoas que precisam de se convencer da sua existência. A minha existência, por exemplo, é coisa por provar. Se penso, se escrevo, se falo, não existo? Provavelmente. Se existisse realmente, que necessidade teria de pensar, de escrever, de falar?

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Um dia difícil

Uma segunda-feira cheia de ocupações. Foi a melhor maneira de esquecer que hoje começa realmente a semana útil. A ideia, subjacente à ordem do mundo, é a de que nos enterremos de tal modo nas coisas úteis até que nos tornemos completamente fúteis. Há, entre a utilidade e a futilidade, um nexo sólido, uma cadeia de aço inoxidável, muito difícil de corroer. Aço inoxidável? Não. Cadeia de titânio, de tungsténio, de zircónio. Não sei o que me levou para esta deriva sobre metais, dos quais, para além do nome, nada sei, e mesmo o nome tem fortes possibilidades de ser sabido num dia e esquecido noutro. Contudo, titânio, tungsténio e zircónio são vocábulos que se adaptam bem a poemas concretos, os quais não posso reproduzir aqui devido às regras estritas que orientam este blogue. Texto corrido, sem parágrafos, sem intervalos além do espaçamento normal entre palavras, sem qualquer inovação. Estes textos são blocos, mesmo quando falam de coisas diversas. Formam um tijolo, embora não sirvam para fazer paredes ou muros. São inúteis, e é pela sua inutilidade que este narrador narra o que narra. Um dia difícil, o de hoje.

domingo, 8 de dezembro de 2024

Estranho e absurdo

Agora que estamos em pleno Advento e que o Natal se aproxima, a que coisa responde esse acontecimento do nascimento de um Menino no presépio de Belém? Faz-se esta pergunta porque todos os acontecimentos podem ser encarados como respostas a perguntas, embora não tenhamos clara consciência do facto. Os cinco primeiros versos do poema Paraíso Perdido, de John Milton, dão-nos uma resposta: Da rebelia adâmica, e o fruto / Da árvore- interdita, e mortal prova / Que ao mundo trouxe morte e toda a dor, / Com perda do Éden, ‘té que homem maior / Nos restaure, e o lugar feliz nos ganhe.  O que está em jogo é a restauração daquilo que os homens eram antes da rebelião adâmica e da prova do fruto da árvore proibida. O Natal é o nascimento do Adão restaurador, mas a restauração só se dará pela sua morte, pois foi através de Adão que a morte veio ao mundo. O acontecimento de Belém é apenas o início do fechamento de um ciclo, o qual só estará concluído na ressurreição desse Adão que expirou no Gólgota. Da vida plena à morte e à vida degradada, e desta, de novo, à morte e à vida plena. Não admira que Tertuliano tenha afirmado Credo quia ineptum est, isto é, Creio porque é absurdo. A interpretação da frase terá arrastado longas controvérsias, como é habitual no mundo humano das ideias, mas ela sublinha que se está perante uma implausibilidade, tendo em conta a ordem conhecida da natureza. É irrelevante a interpretação que se faça do dito de Tertuliano, como é irrelevante sublinhar-se uma eventual oposição entre o absurdo e o plausível ou razoável. Toda a razoabilidade humana, toda a racionalidade, se funda numa dimensão não razoável e não racional, numa dimensão absurda. A razão é aquela faculdade que os homens receberam – ou desenvolveram – para encontrar um sentido naquilo que, por natureza, é destituído dele, mas que tem uma força propulsora da vida. Daí as inúmeras interpretações desse estranho ciclo que liga o Éden e a árvore do conhecimento, o nascimento em Belém, a morte no Gólgota e a ressurreição ao terceiro dia. Este ciclo manter-se-á vivo enquanto a sua estranheza e o que tem de absurdo para a nossa razão assim se mantiver, estranho e absurdo.

sábado, 7 de dezembro de 2024

Recordações

Estes dias finais de Outono lembram já os de Inverno, quando, de súbito, no meio das chuvas, irrompem dias de sol frios, com noites gélidas, mas iluminados por uma luz vibrante. Uma memória antiga atravessou-me a mente: aqueles velhos – cujo nome esqueci ou nunca soube – sentados no cruzeiro, cismando, sem trocar palavra, banhados na luz solar, vieram da minha infância até a estes dias em que já sou tão velho, ou quase, quanto eles o eram então. Aqueciam o corpo e a alma na cintilação dessa luz. Depois regressavam, devagar, em passo hesitante, apoiados em pobres bengalas, às suas casas, onde as mulheres, um pouco mais novas, os esperavam, não sei se com alegria ou tomadas pelo tédio. Já não estavam no Outono da vida, mas no Inverno. Naquele tempo, as estações da existência eram mais curtas e, apesar da lentidão dos dias, tudo se consumava rapidamente. Os anos eram bens escassos, mais escassos do que são hoje. O meu avô paterno, nascido em 1889, não teve direito a mais do que quarenta e três. Para ele, foi tudo rápido, demasiado rápido e, para mim – imagino que para todos os seus netos –, é uma sombra longínqua, misteriosa, mas que guardamos na memória, pois todos nós, os seres humanos, temos memórias do que não vivemos nem conhecemos. Não teve direito, na sua existência, nem ao Outono nem ao Inverno, atormentado por um coração falível que a medicina da altura não conseguiu reparar. Imagino que nunca se renderia ao Inverno da vida. Talvez por isso tenha tido de se render à precariedade do corpo. Agora, vou ver como a minha neta mais velha enfrenta o positivismo do Círculo de Viena e o falsificacionismo popperiano. Quando tiver a minha idade, que pensará ela de mim?

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Espírito mercantil

As pessoas começam a entrar em ebulição. Aproximam-se as festas – ou deverei escrever as Festas? – e os mortais, aqueles que pertencem a estes festejos e não a outros, azafamam-se nas compras. Entram nas grandes catedrais do comércio, mas também nas pequenas capelas, na ânsia de despacharem o que têm na lista ou de descobrirem qualquer coisa que se adeqúe ao destinatário. O motivo – a desculpa, dir-se-ia – é o do nascimento de um menino num estábulo, na mais vincada pobreza. Como essa comemoração de um nascimento em berço de palha se transformou numa grande época comercial é um caso que a imaginação mercantil saberá explicar, mas que a imaginação não mercantil terá dificuldade em compreender. Talvez por falta de inteligência. Li que no leste da Alemanha, naquela zona que, em tempos, fora – por arbítrio da geopolítica do pós-guerra – independente da parte ocidental, havia um número considerável de nostálgicos dessa antiga Alemanha que, entretanto, se dissolvera no nevoeiro. Ora, os bancos, essas instituições onde o espírito mercantil cintila acima de quaisquer outras, não tiveram meias-medidas e toca de fazer uns cartões de crédito ou de débito – não me lembro bem – com a efígie de Karl Marx. O que terá sido legítimo, sendo Marx alemão, embora do Ocidente, e tendo escrito uma obra designada O Capital. O espírito mercantil tem por essência transformar tudo em mercadoria, isto é, em coisas que se vendem e compram. Por aqui, ninguém sente nostalgia de Marx que leve os bancos a colocarem-no nos cartões com que se pagam os presentes de Natal, mas também não sei que nostalgia haverá daquele nascimento de um menino em berço de palha. Aquilo que anima o espírito natalício é a obsessão de esquecer que, afinal, o menino não nasceu em berço de ouro, o único tipo de nascimento que estamos dispostos a comemorar. De resto, só falhados nascem num estábulo.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Preocupações

Decidi fazer uma pequena experiência. Perguntei a um chatbot a razão por que uma língua humana é um cemitério de metáforas mortas. Não se fez rogado e deu uma resposta bastante convincente. Uma das informações que teve a gentileza de me fornecer dizia respeito à palavra relógio. Transcrevo: A palavra "relógio" vem do latim horologium (instrumento que "fala" as horas). O dicionário da Porto Editora é mais comedido e refere que horologiu- significa “que diz a hora”. Ora, entre os relógios latinos e os actuais deu-se uma metamorfose. Os antigos falavam, diziam; os actuais mostram – daí terem um mostrador. Desconheço se os latinos tinham aparelho fonador, mas se falavam, era natural que tivessem. O mundo é composto de mudança. Houve um tempo em que não apenas os animais falavam, mas também os objectos o faziam. O mais loquaz seria, pelo nome, o relógio, mas, por certo, todos os outros se exercitavam no uso da palavra. O mais estranho é que tanto animais como objectos emudeceram. Não sei se isso será a anunciação de que também nós, os mais palradores da criação, estamos a caminho da mudez, ou se eles foram vítimas de uma conspiração que os reduziu ao silêncio. Seja qual for a resposta ao enigma, ela será sempre preocupante.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Colapso do universo

Uma das experiências insólitas trazidas pela idade é a da transformação do tamanho das letras dos livros. Durante anos, décadas, a letra dos meus livros era estável. Tinha uma certa dimensão que se mantinha obstinadamente constante. Não aumentava, mas também nunca diminuía. Eu, ainda que não o dissesse a ninguém, admirava essa estabilidade. Prezava o carácter firme dos caracteres. Há uns anos, todavia, a realidade alterou-se, e esses mesmo caracteres tornaram-se estranhamente volúveis. Talvez não seja esse o termo. Adoecerem e começaram a sofrer de uma qualquer atrofia. É possível que passem fome, chego a imaginar, e por isso perdem dimensão, empequenecem. Presumi que o problema fosse dos meus olhos e passei a usar óculos de leitura, mas isso não tem qualquer efeito nas pobres letras que enxameiam os meus livros, jornais, revistas. Admito que pode haver um retardamento no decréscimo do seu tamanho, talvez uma ilusão provocada pelas lentes. Eles continuam a minguar. As pessoas hão-de julgar que é um problema meu, dos meus olhos, que este texto é a prova de que endoideci. Pura ilusão. É uma transformação na natureza das coisas, o fenómeno é de dimensão ontológica e não biológica. A realidade está a empequenecer, como se se preparasse para colapsar. A diminuição dos caracteres é a anunciação do colapso do universo.

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Fazer cenários

O carrossel da noite instalou-se há muito. Nele viajam figurantes de um drama, pois essa é a natureza dos homens. Por vezes, o próprio nascimento é um drama. Depois, a saída de cena, mesmo quando há quem se rejubile, não deixa de ser dramática, por mais prosaica que seja. E o que vai da hora do nascimento até à hora da morte nunca deixa de ter os seus dramas. A palavra grega δρᾶμα (drama) deriva do verbo δρᾶν (agir) e significa acção. Contudo, não se deve confundir com acção enquanto πρᾶξις (praxis), que se refere à acção derivada de decisões e escolhas de natureza ética e política. Enquanto acção, drama é uma representação teatral. Ora, quando se diz que a vida, ou partes dela, e a morte são dramas, temos de entender que são representações. Dito de outra maneira, o dramático é dramático porque resulta de uma encenação. A expressão, ao gosto popular, estás a fazer cenários, colhe, na sua crueza jocosa, o sentido da dramaticidade da vida e da morte. Não se pense, porém, que isto é uma crítica aos dramas da vida e da morte. São eles que nos tornam humanos. São jogos rituais que conferem um sentido ao que, na verdade, são meros acontecimentos perdidos num universo sem medida humana. A nossa vida e a nossa morte só têm sentido num universo representacional, num mundo encenado. O carrossel da noite continua a girar. Nele entram e saem figurantes. Na verdade, na grande representação da vida e da morte, não há grandes estrelas; só figurantes.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Estrelas

Os dias continuam a minguar. Saí de casa para ir à farmácia; o exército da noite já tinha tomado de assalto a avenida, agora sujeita à rutilância dos adereços de Natal. Ora, mudando de conversa, se a história do nascimento do Menino fosse nos nossos dias, os Reis Magos não viriam do Oriente, pois, com a poluição luminosa, não conseguiriam descortinar nos céus a estrela que os haveria de guiar. É preciso que a noite não seja incomodada com simulacros do dia, para que certas estrelas – aquelas que guiam os que procuram um destino – possam ser vistas e permitam aos videntes fazerem-se ao ao caminho, sem temor de se perderem por falta do astro benevolente que os norteie, mesmo que seja o Sul que os espera. É certo que existem GPS, o Google Maps e o Waze, mas esses só nos levam, quando levam, a destinos onde não nascem Messias. Se, por acaso, um desses dispositivos ou uma dessas aplicações nos levar a um sítio onde está a nascer um salvador, o melhor será fugir enquanto houver tempo, pois salvadores humanos são coisas – repito, são coisas – que conduzem os pobres homens à perdição. Imagino que estou a dramatizar, mas, com a diminuição constante dos dias, não tarda estaremos mergulhados nas trevas eternas.

domingo, 1 de dezembro de 2024

Esquecimento

No Público de ontem, José Pacheco Pereira escreve sobre a perda das duas culturas. O que está em causa não é o objecto de Meditação de C. P. Snow num célebre ensaio, de 1959, denominado As duas culturas. Nele, o autor argumentava que a cisão da cultura ocidental entre as ciências e as humanidades – as tais duas culturas – impedia uma compreensão mais profunda da realidade e dos desafios que enfrentamos. O texto de Pacheco Pereira refere-se já não a uma espécie de conflito entre as ciências e as humanidades, mas à perda pura e simples das referências das duas culturas que estão na base daquilo que nós, ocidentais, somos. A cultura greco-latina e a cultura judaico-cristã. Se há 65 anos, o drama estava na separação de dois reinos, hoje ele reside no apagamento da memória constituinte daquilo que somos. Tanto as ciências como as humanidades têm as suas raízes nessas duas culturas, que uma amnésia geral está a apagar. Elas são muito diferentes, mas têm um ponto que as une. São bastante exigentes e propõem, cada uma à sua maneira, um caminho de superação dos limites da nossa humanidade. O esforço é o seu núcleo comum. Foi essa lição que nos trouxe até aqui, mas que estamos a rasurar a toda a velocidade. Platão e Aristóteles não são fáceis. Homero ou Virgílio também não. O caminho do Cristo, com as suas exigências éticas e espirituais, não é um passeio na marginal. Contudo, foram essas dificuldades que permitiram criar um ideal de superação, que nos levou a ir mais longe e mais alto. Se se consumar a perda das duas culturas, resta-nos, primeiro, a cave e, depois, o abismo.