domingo, 1 de março de 2026

O insondável

Hoje, por motivos insondáveis, não fui caminhar de manhã. Imagino que esses motivos são insondáveis porque o mercado não conseguiu responder à procura de sondas. Tivesse uma sonda e… As que existem, se é que existem, devem custar os olhos da cara, pois quem não quer uma para evitar os buracos insondáveis. Deliro, claro. Perante mim repousa um livro com o belíssimo, mas talvez insondável, título Crepúsculo de Outono – poesia completa de Georg Trakl, na tradução, sempre apreciável, de João Barrento. O poema No Leste, página 206, começa assim: Os órgãos violentos da tempestade de Inverno / São como a ira sombria do povo, / A vaga purpúrea da batalha, / De estrelas desfolhadas. Penso, com uma mancha negra no coração, na ira sombria do povo. Medito na vaga purpúrea da batalha, mas o que me prende são as estrelas desfolhadas. Imagino ver na rua belas mulheres a colher as pétalas dessas rosas e orquídeas estelares. Deus, cansado da previsibilidade humana, entretém-se, antes da hora do juízo final, a desfolhar lentamente as estrelas que criou, mas fá-lo tão lentamente que cada estrela durará mais do que pode imaginar a mente humana. Talvez também se entretenha a contemplar essas colhedoras de pétalas. Vê-las-á com o seu olhar infinito. Eu imagino-as, pois os meus olhos, por reais que sejam, não conseguem ver aquilo que é o mais digno de ser visto. A beleza é uma coisa perigosa e Deus, na sua insondável misericórdia, poupa-me a esse perigo.