segunda-feira, 10 de maio de 2021

A língua originária

Fui trocar a lâmpada fundida de um dos piscas. Custou, com o trabalho de tirar uma e colocar outra, um euro e meio. Fiquei espantado, pois pensava que iria pagar mais. Talvez as lâmpadas dos carros tenham desvalorizado ou a vida na província seja mais barata. O dia alterna períodos de aguaceiros intensos com outros de sol, num Maio que, felizmente, ainda não mostrou as suas garras feitas de calor. Leio, num livro de um famoso teólogo alemão do século XX, que Salimbene, um frade franciscano do XIII, conta uma história terrível de Frederico II de Hohenstaufen. Este mandou recolher vários órfãos ainda em período de amamentação. Ordenou que fossem tratados da melhor maneira possível. No entanto, era rigorosamente proibido falar com eles. Aqui descobre-se, em Frederico II, um verdadeiro ímpeto experimental, pois a finalidade da proibição seria verificar qual a primeira língua que, espontaneamente, as crianças falariam, se o latim, se o hebreu, se o grego, as hipóteses de base do experimento. Desse modo descobrir-se-ia qual a língua originária dos homens. A verdade é que as crianças não começaram por falar nenhuma delas, nem sequer o dialecto dos pais, mas morreram. Morreram à míngua de palavras, literalmente. A tarde progride, as pessoas deambulam vagarosas pela avenida e eu penso que é uma bênção viver num mundo em que aos reis e magistrados não lhes é permitido entregar-se a devaneios experimentais. Muito gostam os homens de endeusar o passado, mas quando visto de perto, descobre-se um filme de terror.

sábado, 8 de maio de 2021

Da vida das máquinas

Há coisas que não compreendo. O meu leitor de CD, na verdade um leitor de DVD adaptado a uma versão apenas musical, decidiu ler o disco que acabei de lá colocar. Fi-lo apenas para confirmar que ele estava definitivamente avariado, pois das últimas vezes recusou-se a trabalhar. Desconfio que passou a ter opinião musical e finge-se morto quando não gosta da música que escolho. Hoje não protestou com os estudos para piano de György Ligeti. Imagino que nós, os seres humanos, temos uma relação distorcida com os objectos mecânicos que produzimos. Pensamo-los como uma espécie de criados que estão aí para o nosso serviço. Um erro. Eles protestam, avariam-se, recusam-se a trabalhar. Tudo isto para chamar a nossa atenção, com a esperança vã de alterar o modo de nos relacionarmos com eles. São entidades sensíveis que escondem os seus afectos sob um aparato mecânico. Os sábados de província são propícios para este tipo de reflexões. Como não se passa nada, nós, os provincianos, começamos a enlouquecer, é um processo lento, embora inexorável. O primeiro passo é falar sozinho, mas quando se chega ao momento em que se descobre uma vida afectiva nas máquinas, então a coisa está já avançada. Quando o disco se calar, levanto-me e saio. Na rua disfarçarei a degradação mental, o que não é mau. Mesmo os mais luminosos sábados nunca deixam de conter neles uma sombra.

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Adicções e possibilidades

Voltaram as velhas sextas-feiras. Chegam prenhes de luz e calor, anjos a anunciar o Estio por vir. Os telhados metálicos da escola ao lado reverberam, batidos pela impiedade solar. Oiço extensas conversas dos pássaros meus vizinhos. São diálogos amenos entre pais e filhos. Suponho que a época de acasalamento já foi e não terá sido por aqui. Na Sá Carneiro pais e netos levam crianças para casa, agora que a tormenta escolar foi interrompida por dois dias. Os carros passam vagarosos, indulgentes, fingindo-se civilizados. Tocam à porta. Atendo. Tenho aqui para uma encomenda para o senhor, dizem. Pode mandar pelo elevador, respondo. Recebido o pacote, abro-o. Contém livros comprados num alfarrabista. Autores portugueses que ninguém lê. Eu também não, embora não tenha perdido a esperança. Por vezes, fazem-se descobertas surpreendentes. Talvez eu, ao insistir em comprar livros que não leio, sofra de uma adicção. Hoje em dias há teorias que mostram que todos os comportamentos são patológicos. Todos estamos doentes. Depois de arrumar os livros, desinfecto as mãos, não estejam os livros carregados de vírus. Um casal conhecido caminha pela avenida, ele à frente, ela atrás. O espaço que os separa parece crescer a cada passo. Talvez assim evitem a infelicidade, essa doença surgida quando se determinou que casamentos só por amor e que, não bastando o eflúvio afectivo, devem ser uma festa erótica em exaltação contínua, com sedução permanente para que se evite o tédio, a rotina, o enfado e o hábito. Quando se quer o impossível, não se deve estranhar que ele não seja possível.

quinta-feira, 6 de maio de 2021

Do outro lado

É possível que o que é contrário ao que somos nos atraia com muito mais força do que aquilo a que nos assemelhamos. Pensei isto ao ler, Bajo las Estrellas de Otoño, o primeiro romance da Trilogia do Vagabundo, de Knut Hamsun. Tanto quanto sei nenhum dos romances da trilogia foi publicado em Portugal. Não há nada que me seja mais estranho do que o nomadismo a que o narrador e personagem principal – por acaso, chamado Knut Pedderson, o verdadeiro nome do autor – se entrega, em pleno Outono, por uma Noruega rural de finais do XIX ou início do XX. No entanto, sinto-me completamente fascinado. Hamsun é um dos grandes da literatura mundial, um autor decisivo para compreender o que foi o romance do século XX, e que isso contribui para o fascínio. Não é, contudo, só isso. É o próprio vaguear sem destino, sem compromissos a não ser com o estritamente necessário, que surge como uma vida mais autêntica do que o sedentarismo a que me entrego, pois estabelece uma relação menos tensa com os homens e mais funda com a Terra. O sedentarismo é o pai da civilização, mas a existência nómada será a mãe da autenticidade. Estas reflexões são um alívio daquilo que já tive de fazer hoje. Nem sempre fazer o que está certo significa realizar o agradável. Na rua, o sol já queima, apesar do vento de noroeste.

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Da beleza

As orquídeas, no seu friso, continuam esplendorosas. Por vezes, chego-me perto delas e fico a contemplá-las, a olhar os padrões que cada uma apresenta, as cores que nunca são exactamente iguais, num exercício de diferenciação a proclamar que nada na natureza é igual a outra coisa. Talvez aquilo a que damos, sem muito pensar, o nome de natureza não seja mais que um contínuo exercício de criar diferenças, para multiplicar as possibilidades de espanto. Caso as orquídeas fossem todas exactamente iguais, o prazer de as olhar depressa se extinguiria. Descobre-se, então, que a multiplicação sem fim das diferenças não passa de uma manobra de sedução. Não há nada mais sedutor que uma beleza única, diferente de todas as outras. Semelhanças e analogias não passam de pobres estratagemas de mentes incapazes de suportar o terrível que existe no que é belo. Um poeta romeno escreveu o verso a luz continua a trabalhar sob a casca dos frutos. Imagino, de imediato, a luz numa grande e invisível azáfama, até que o fruto se ilumine por dentro e se torne num relâmpago ao sentir os dentes da boca que o há-de comer. Um triste destino o do fruto e de tudo o que é belo.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

O que vemos e ouvimos

Volto, à falta de melhor, às minhas narrativas meteorológicas. O calor está de volta, embora com moderação. Muitas vezes, por aqui, Maio é um mês impiedoso, sem contemplações para com aquelas almas – o melhor seria escrever aqueles corpos – que têm uma pendência irresolúvel com as temperaturas altas. As pessoas aproveitaram de imediato o facto de se chegar aos 23 graus para se porem à vontade, isto é, aliviaram-se de roupa e entregarem, com a habitual falta de pudor, as carnes esbranquiçadas aos olhares incautos que, confiantes no bom senso, são apanhados nessas armadilhas, tendo de sofrer aquilo que se depara diante deles. Não devia escrever estas coisas, mas como tenho cuidado em não ferir a sensibilidade estética dos outros com a minha vontade de exibição das tristezas do corpo que me cabe, não consigo conter a veia venenosa que há no fundo de mim. Num prédio das redondezas alguém percute uma parede com um berbequim. O barulho destas máquinas – e de outras semelhantes – é uma verdadeira anunciação do inferno. Este não será apenas feito de chamas eternas, mas também de roncos de corta-relvas, berbequins, betoneiras e tudo o que o engenho moderno inventou para fazer descansar os corpos e tornar as pessoas surdas. Só que no inferno há legiões de diabos otorrinolaringologistas – só a palavra lembra uma artimanha do chifrudo – que, mal um condenado fica surdo, logo se dispõem, de forma gratuita e rápida, a curá-lo da surdez, e assim continuar a ouvir a sinfonia maldita dos berbequins ínferos. Um célebre escritor-filósofo francês dizia que o inferno são os outros, pois frustram o nosso desejo. O problema não está na frustração do que queremos, mas naquilo que os outros nos fazem ver e ouvir, sem querermos. Isso, sim, é infernal.

domingo, 2 de maio de 2021

O grande reformador

Hoje é o Dia da Mãe. Há na designação qualquer coisa sombria. Antigamente, poucos os dias eram dias de qualquer coisa. Nesse tempo, o Dia da Mãe possuía uma aura que hoje não tem. A proliferação dos dias disto e daquilo foi a melhor forma de aniquilar isto e aquilo e tornou a mãe perdida no labirinto do seu dia, que é agora mais um. A escassez valoriza, a abundância corrói. Uma questão de mercado. Talvez as entidades laicas que superintendem a designação dos dias relativos a uma qualquer coisa pudessem aprender com a Igreja Católica que, por volta de 609 ou 610 da nossa era, criou o Dia de Todos-os-Santos e, lá para o século nono, o universalizou. Assim, teríamos o Dia de Todos-os-Dias, onde cada um escolheria a causa da sua devoção para a ela dedicar o pensamento e, talvez, a acção. Tendo em consideração a quantidade de coisas sem nexo que me ocorrem, suspeito que teria dado um grande reformador, uma daquelas pessoas que, cheia de ideias, pegam em qualquer coisa que funciona mais ou menos e, devido ao seu espírito intrépido e inovador, a deixam de rastos. Depois, serão condecorados e haverá, quando morrem, alguém que lhe escreverá o epitáfio, que há-de reverberar no túmulo. Não faço ideia como cheguei ao que cheguei, mas tornei-me incapaz de compreender esses espíritos sempre prontos a reformar, a inovar, a renovar, que não será outra coisa senão a síntese entre reformar e inovar. Não é que eu ache que não deva haver mudanças. Deve, mas todo o palavreado em torno delas tem o condão de as destruir. Quem melhora as coisas fá-lo sem abrir a boca sobre o assunto, como aqueles monges cartuxos que entregaram a vida ao silêncio. Muito eu gostaria que as pessoas públicas tivessem almas de cartuxos. Não têm. Hélas!

sábado, 1 de maio de 2021

Distracções e esquecimentos

Ando completamente distraído. Começou Maio e nem tinha dado por Abril ter acabado. Uma pessoa caminha distraída pela vida fora e nem repara naquilo que realmente importa. Hoje, só dei que era feriado quando bati com o nariz na porta do bar, onde decidira almoçar. Estava fechado. Olhei para o horário. Aberto aos sábados desde as onze da manhã até à meia-noite. O que terá acontecido, perguntei-me, enquanto virava costas e ia à procura de alternativa. Depois, fez-se luz. Hoje é primeiro de Maio e, sabe-se lá a razão, naquele bar parece haver fidelização ao dia. Lá encontrei outro, agora infiel. A seguir ao almoço, atravessei de carro a cidade. Não havia nela sinais de feriado, tudo estava vestido de fim-de-semana, as pessoas arrastavam os corpos ainda cansadas da corveia semanal, as lojas de rua fechadas e tudo tinha, para dizer a verdade, um ar de sexta-feira santa. Enquanto escrevo estas coisas para memória futura, como chocolates. É a metafísica que me resta, comer chocolates, agora que nem um cigarro devo fumar. Um dia destes, ainda me dirão chocolates, não convém comer. O mal dos interditos é começarem. Nunca se sabe a proibição que vem a seguir. O dia está desabrido e não me lembro de um início de Maio tão invernoso. Também é certo que a minha memória é uma faculdade em rápida deterioração. Há pouco quis-me lembrar do nome do escritor italiano Italo Calvino. Foi um exercício penoso e inútil. O que me valeu foi digitar o nome de um dos seus livros e a memória prodigiosa do senhor Google devolveu-me o nome. O pior será quando não souber o que é o Google ou, então, como se digitam palavras.

sexta-feira, 30 de abril de 2021

Pequenos mistérios

A meio da manhã recebo uma chamada no telemóvel. Atendo e oiço dizer é o carteiro, tenho aqui uma encomenda vinda de Espanha, não está ninguém em casa. Posso deixar na caixa do correio, perguntou. Respondi que sim, que agradecia. Uma drástica mudança no modus operandi. Para melhor. Quando abri a encomenda deparei-me com um pequeno mistério. No dia 27 de Abril encomendei no mesmo site – e na mesma encomenda – dois livros. No dia 28, recebo a indicação de que teriam enviado apenas um. No dia 29, recebo a indicação de que acabaram de enviar o que estava em falta. Hoje, dia 30 de Abril, recebo este e não o que foi enviado em primeiro lugar, o qual, por certo e apesar de ser do mesmo autor, gostará mais de andar a viajar e a visitar lugares desconhecidos. Os livros possuem vontade própria, é a única conclusão a que consigo chegar. A luz solar reverbera nas paredes do hospital, no telhado branco do pavilhão desportivo da escola vizinha e nas folhas das oliveiras, as quais se agitam entontecidas pelo ventania soprada de noroeste. Dentro de meia-hora terei de estar em videoconferência. Uma sessão de três horas. A massa neuronal há-de ficar como o puré de batata, não pela complexidade da coisa, mas pelo tempo de duração e porque hoje é sexta-feira, e este narrador não ter já idade nem apetite para certas coisas. Dantes, quando me faltava o apetite, coisa que ocorria sistematicamente, davam-me Ceregumil. Não sei se fazia alguma coisa, mas levou-me até ao momento em que não mais tive falta de apetite. Algum mérito haveria de ter. Se houvesse Ceregumil para videoconferências, mandava já vir uma caixa.

quarta-feira, 28 de abril de 2021

Ilusões

Foi apenas em 1657 que um quadro conseguiu dar a ilusão de movimento. Trata-se de Las Hilanderas, de Velázquez. Uma fina nuvem, quase transparente, preenche o interior de uma roda de fiar, imitando aquilo que qualquer um veria devido à velocidade de rotação da roda, arrastando velozmente os raios. Talvez se possa formular a lei que guia o olhar. Quanto maior for a vontade de imitar a realidade, maior terá de ser a ilusão criada. Com isto será possível perceber que realidade e ilusão são irmãs gémeas. A discussão, se for caso disso, será sobre se serão gémeas falsas ou verdadeiras. Inclino-me – pelo menos no dia de hoje – para que serão verdadeiras. Terão exactamente o mesmo código genético. Muito eu gostaria de saber a razão por que estou a pensar coisas tão inúteis. Há pouco, e isso foi uma novidade do desconfinamento, o conjunto musical – um verdadeiro grupo de baile – da escola minha vizinha voltou aos ensaios. Tornei a ouvir as músicas que terão animado as gentes nos anos setenta e oitenta do século passado. Não estarão a preparar nenhuma matinée dançante, presumo. O quadro de Velázquez tem outra nota. Uma fiandeira mostra o joelho, e este desvia o olhar da roda para a pele branca da rapariga. Uma ilusão nunca vem só.

terça-feira, 27 de abril de 2021

De olhos trocados

Voltei às caminhadas. As ruas continuam como estavam, apenas uma obra municipal deu dois passos. Um facto assinalável. Há coisas que se movem muito lentamente. Ainda mais do que a tartaruga. A que derrotou Aquiles. Sempre tive pena do pobre herói. Não lhe bastou a monumental zanga que apanhou logo no Início da Ilíada, ainda foi derrotado pela quase imóvel tartaruga, afundando-se no infinito do paradoxo. Recebi um email de denúncia da campanha de vacinação contra COVID-19. Não passará tudo de uma maquinação genocida de poderes ocultos, à qual o nosso governo, como quase todos os outros, obedecem. Há pessoas com uma imaginação delirante. Conseguem ver conspirações terríveis onde elas não existem, mas são incapazes de as ver onde existem. Devem ter nascido com os olhos trocados. Por outro lado, têm uma grande propensão para a evangelização. Andam sempre a anunciar a boa nova, que é sempre má. Não admira que o mundo seja como é e esteja fora dos eixos. Um corvo plana sobre o pequeno bosque da escola vizinha. Traz com ele a noite.

segunda-feira, 26 de abril de 2021

Pequenos interesses

Agora que me preparava para fazer uma caminhada, o céu decidiu encobrir-se de um denso manto de nuvens negras. Ameaça uma chuvada das antigas, talvez com direito a bombos e fogo-de-artifício. Abril, Maio e Junho, por aqui, são meses que, por vezes, se deixam tentar pela exuberância das tempestades. Nunca são catastróficas, a não ser para agricultura quando elas vêm acompanhadas de fortes bátegas de granizo, mas isso costuma ser mais tarde. Como se vê, os meus interesses resumem-se, à falta de uma aventura no reino dos Esculápios, ao registo do estado do clima. Qualquer dia restrinjo-me àquilo que se fazia num certo blogue, em tempos famoso, mas cujo nome não me ocorre. Todos os dias publicava uma fotografia. Sempre do mesmo lugar, sempre do mesmo ângulo. Era um registo do passar do tempo, caso exista tempo e ele passe. Isto, porém, não é para aqui chamado. Talvez existam pessoas que todos os dias, a uma certa hora, se fotografem. Imagino que sim. Podem tomar consciência de como o seu rosto se vai metamorfoseando. Isso permitir-lhes-á escrever um romance designado A Desilusão de Narciso. Os pássaros que a Primavera arrastou para a minha vizinhança não se calam. O seu cântico mistura-se com o do The Hilliard Ensemble acompanhado por Jan Garbarek. O céu está cada vez mais negro. Espero o primeiro relâmpago.

domingo, 25 de abril de 2021

Um feriado ao domingo

Um feriado ao domingo é coisa que não lembra a ninguém. Para tornar as coisas mais penosas o céu decidiu intervir na calma pacífica do dia. Parece que estava com excesso de água e decidiu abrir as comportas. Enxurradas misturadas com estados de acalmia marcam o feriado. Perante a intolerância celestial, recuso-me a sair de casa. Precisava de fazer uma visita e passar por um supermercado, mas tudo terá de ficar para outro dia. À minha volta estão quatro livros de poesia. Nenhum, português. Lembrei-me, ao escrever isto, aquilo que dizia um artigo de jornal. Portugal tem bons vinhos, excelentes, mas não tem os melhores vinhos do mundo. O mesmo se passa com a poesia. Há excelentes poetas, mas não temos, ao contrário do que algum nacionalismo patareco gosta de propalar, a melhor poesia do mundo. Aqui, contudo, há uma diferença grande relativamente aos vinhos. Estes podem comparar-se, mas a poesia não. Talvez seja possível dizer em Portugal existe a melhor poesia do mundo escrita em português europeu. Poemas são coisas intraduzíveis, embora não faltem traduções, as quais, como se sabe, não passam de traições. Traduttore, traditore, diz o provérbio italiano. Há pouco falei com o padre Lodo, Lodovico Settembrini. Não há feriado do 25 de Abril que não telefone aos amigos. Tornou-me a dizer que os Settembrini sempre comemoraram intensamente o 25 de Abril, o da queda de Mussolini. Depois acrescentou que, devido ao seu estado na Companhia, não devia ter estas paixões, mas são de família, o que se pode fazer contra o sangue, perguntou. Quando cheguei a Portugal, achei curioso haver também por cá um 25 de Abril. Adoptei-o como meu, disse-me. Apesar de padre e jesuíta, não deixo de ser um Settembrini, acrescentou. Tenho uma velha costela Iluminista herdada, juntamente com o nome, do meu avô. Fiquei satisfeito com o seu estado de espírito. Aquilo que lhe disse, porém, não o partilho aqui, pois o autor destes textos não me permite qualquer comentário político. Obediente que sou, obedeço.

sábado, 24 de abril de 2021

Uma narrativa médica

Dois temas absorvem os interesses das pessoas que chegam a certa idade. Previsões meteorológicas e narrativas médicas. Descobri que também eu cheguei a certa idade. Falo do tempo ou faço narrativas ligadas à saúde. O tempo não está grande coisa. Contribuirá para encher as barragens e deixar mais água nos solos. De resto, impede-me de ir fazer a minha caminhada por sertões e veredas, isto é, por becos e vielas desta pequena cidade, que seria uma vila interessante, caso não tivesse sido promovida à patente acima, como aconteceu à maior parte das vilas deste país. Quanto às narrativas médicas, o que posso dizer é que ontem me submeti a um exercício tecnológico interessante, o qual ia acompanhando em directo. Quando perdi numa sala de operações a vesícula, não assisti ao assalto. A quadrilha adormeceu-me e, aproveitando-se do meu estado, levou-me, através de uns buraquinhos discretos, uma coisa que não estava a ser nada indiscreta. Isto, porém, já foi há uns anos. Ontem foi muito mais emocionante. Depois de me raparem a pelagem nos braços e em sítios indiscritíveis, levaram-me para uma sala onde um bando, depois de me apalpar o braço, decidiu enfiar-me uma arma por uma artéria acima e andar ali como quem anda nos carros da feira, aqueles que eram para crianças e não os de choque. O bando era composto por dois médicos cardiologistas, um técnico cardiopneumologista, um técnico de radiologia, que fazia o papel de cameraman, um enfermeiro e uma estimável enfermeira, que eu convidaria para jantar caso fosse mais novo e descomprometido. Eu pensava que estava nas filmagens do 2001 Odisseia no Espaço. Os médicos divertiam-se a ver um filme, embora um deles estivesse a escarafunchar-me as artérias com a tal arma que, para disfarçar, davam o nome de cateter. O filme, apesar de ser feito no momento como se fosse uma improvisação num concerto de Jazz, parece que tinha enredo, pois os facultativos comentavam entre si as peripécias, o cameramen recebia instruções deles para colocar a câmara em certas posições, debitando os ângulos, o que me lembrou que a minha neta devia estar a ser massacrada pela avó com assuntos de geometria. A enfermeira perguntava-me se queria pipocas. Eu dizia que não, que estava tudo bem, eu nem estava a ver o filme. A verdade é que os médicos se apoderaram do monitor e, apesar de ter pago bilhete, nem uma sequência vi. Quando se cansaram da história, foram para uma sala ao lado bichanar. Depois de se terem informado dos resultados do futebol, das peripécias da política internacional e dos dramas de meia dúzia de famílias reais europeias, um deles veio ter comigo e disse-me bem, apesar da coisa não estar lá muito boa, há umas calcificações aqui e ali – eu pensei que se deviam à água daqui ser muito calcária – a coisa não está tão má quanto eu pensava. Não lhe vamos pôr nenhuma anilha, coisa a que ele deu o nome esotérico de stent. Temos de acertar a terapêutica medicamentosa em consulta. Daqui a três horas pode ir-se embora, mas já vou ao quarto falar consigo. E foi mesmo, eu saí e fiquei com assunto para hoje. De que falaria? Do tempo?

quinta-feira, 22 de abril de 2021

Exsudados

Resultado: Negativo. Amostra: Exsudado Nasofaríngeo. Foi isto que li no relatório com o título Virologia SARS-CoV-2. Ontem foi o dia de obtenção da amostra, uma prova iniciática que inclui a introdução nas duas narinas de um objecto acutilante, embora rodeado, na extremidade, de algodão, a que dão o desconfortável nome de zaragatoa. Não contente com a penetração, a colectora de exsudados – mais parecia um astronauta a desembarcar na Lua – achou que se devia divertir e fazer aquela coisa rodar, rodar pelos canais que tinha invadido. Depois cansou-se, tirou a arma da minha narina e exclamou já está. Antes disso perguntou-se se era a primeira vez. Completamente, informei. Então vou fazê-lo chorar. Especializei-me em fazer chorar as pessoas, acrescentou. Eis uma mulher perigosa. Não hesita em partir corações, apenas com o fito de recolher uma matéria nojenta, a que, para disfarçar, se dá o nome de exsudado. O relatório tem uma outra particularidade. Tem uma versão em inglês. Result: Negative. Sample: Nasopharyngeal swab. Isto para o caso que eu queira apanhar um avião e pôr-me a milhas daqui. Era uma ideia, mas para onde iria eu?

quarta-feira, 21 de abril de 2021

Metamorfoses

Hoje o dia tem estado, por aqui, particularmente tristonho. Vento de sudoeste e uma chuva moderada, mas inquieta, toldam o horizonte. A temperatura não passará dos 17o. Apesar da tristeza, as pessoas andam pela rua, erguem guarda-chuvas e vão com o passo lento, como se se quisessem demorar e, desse modo, tomar parte da melancolia que escorre de todo o lado. Os pássaros remeteram-se ao silêncio. Apenas as orquídeas, no seu friso, se entregam com volúpia à exuberância da beleza, mesmo as duas mais contidas, que apresentam uma floração quase rente à terra do vaso. No bar, do outro lado da avenida, há pessoas na esplanada. A saudade de estar em lugares assim deve ser de tal modo grande que afrontam com fervor, disfarçando incómodos, a indisposição do clima. Há dias encomendei em Inglaterra um livro de arte, mas já não me lembro qual, nem a razão por que o fiz. Deve-me ter parecido de grande importância e de suma urgência fazê-lo, agora já nem consigo ordenar as razões do acto. Há muito que descobri que a vida é isto. Aquilo que parece crucial numa dada hora, será visto na seguinte como despiciendo e esquecido na terceira. Ou então sou eu que fui criado com um carácter volúvel. Leio um email recebido e, de imediato, sinto uma grande saudade do tempo em que os homens eram tratados por senhor seguido do último apelido e não por senhor mais nome próprio. São coisas destas que mostram que o mundo se transforma. Chove bem neste momento, a inclinação da água confirma o vento de sudoeste.

terça-feira, 20 de abril de 2021

Como no Monopólio

Estamos nisto há mais de um ano e não há prognóstico para o fim do estado em que nos encontramos. As coisas, porém, sofisticaram-se. Hoje fui à clínica de cardiologia levantar uma requisição para um exame. Não se entra, espera-se à porta, depois chega a menina, impecável na brancura da bata, saca de um termómetro-pistola e aponta-me à testa. Ia levantando as mãos, a que se seguiria o inevitável rendo-me. Contive-me. Convém parecer uma pessoa sensata, caso contrário não há quem queira tratar de mim. Lá me foi dado o papel e, curiosamente, não me tornaram a apontar nenhum objecto à cabeça. O mundo mudou. Antes da chegada do vírus não se apontava uma pistola-termómetro – ou será um termómetro-pistola? – à cabeça de qualquer incauto. O mundo, todavia, vai-se enchendo de cores, as pessoas entregam-se à existência com o sonho de voltar precisamente ao sítio em que estavam, como se tudo isto não fosse mais que uma tarde de adolescência passada a jogar monopólio. Uma poetisa americana escreve Mais tarde, volto a casa para apanhar lenha. Também ela sonhava voltar ao sítio de onde partira, talvez porque levasse vida de campo e neste tudo é regulado pelo ciclo das estações, pelo eterno retorno do mesmo.

segunda-feira, 19 de abril de 2021

Exílios

Não sei a razão, mas de súbito perpassou na minha consciência a palavra azáleas. Eu sei que são flores, mas não sei mais do que isso. Por que razão a palavra me assaltou, não o sei. De azáleas, o pensamento saltou para zínias, mas aqui tudo é mais fácil de explicar. Estas, como as azáleas, são flores e também ostentam no nome a letra zê. Associações, todos as compreendem, mas eclosões, aquelas coisas que nos chegam de lado nenhum, são um mistério. E se toda a realidade não passar de uma eclosão, sem que se possa ao certo saber de onde ela vem? Por vezes, ocorrem-me pensamentos destes e eu fico a olhá-los desapontado. Com tanta coisa interessante para ser pensada, entrego o meu tempo a coisa nenhuma. Talvez por ser segunda-feira, talvez por me ter desinteressado de todas as coisas que há por pensar, talvez por não me ocorrer mais nada, talvez por ser esta a minha maneira de me exilar do mundo e de mim mesmo.

domingo, 18 de abril de 2021

Sol de domingo

Há certa forma de o sol brilhar que só acontece ao domingo. A radiação veste-se com uma pacatez melancólica que os outros dias da semana, mesmo o sábado, rejeitam, pois são tomados pela darandina do trabalho ou da diversão. Talvez o facto de outrora o domingo ser um dia sagrado lhe tenha dado uma tonalidade que, mesmo num tempo em que a religião se tornou coisa privada, continua presente como uma mnemónica daquilo que já fomos. As coisas têm razões que a nossa razão não alcança. Aliás, a minha alcança pouca coisa. Tristan Tzara, o papa do dadaísmo, tem uma receita para fazer poemas que, na época, foi original. Pegar num jornal, escolher um artigo, cortar cada uma das suas palavras, colocá-las num saco e agitar com suavidade. A seguir retirar os recortes um a um e copiar as palavras pela ordem em que foram saindo do saco. Ficará um belo poema. Talvez devesse escrever assim estes textos, embora inovasse num aspecto. Em vez de um artigo, escolheria três. Um sobre futebol, outro sobre política e, por fim, um que relatasse um crime passional. Mesmo que não fizesse sentido, não teria menos do que aquilo que escrevo sem recurso a técnicas de vanguarda. Seria um dadaísta provinciano e com um século de atraso, mas sempre fui serôdio e com uma grande tendência ao paroquialismo. Esqueci-me há pouco de referir que o sol de domingo se apanhado com cabeça descoberta está longe de ser benéfico para a saúde mental. Não sei, porém, se Tzara apanhava sol na cabeça ao domingo ou ao sábado, que é o domingo dos judeus.

sábado, 17 de abril de 2021

Desamizades

Coube-me hoje a vez de ser vacinado. Sobre o assunto nem sei o que dizer. A picada da agulha não se sente – ou eu não a senti – e o tempo que demora o processo quase não dei por ele. A enfermeira disse já está. Está? Retorqui. Está, mesmo. Que me sentasse meia hora para ver o que acontecia. Foi isso que fiz. Enquanto esperava e via o que acontecia, um conhecido abordou-me e perguntou-me se eu o tinha desamigado no Facebook, pois não via as minhas coisas nem tinha acesso à minha página. Fiquei perplexo, não me ocorreu que esta interpretação podia acontecer. Disse-lhe que não, não sou pessoa para andar a desamigar outras, mas que tinha fechado a conta. Fechar uma conta no Facebook, pensei, equivale a desamigar toda a gente que tinha o estatuto de amigo. Parece uma devastação. Para mim foi como se tivesse deixado de ir a um certo restaurante. Cansei-me e, sem dar contas a ninguém, desalvorei. Imagino, agora, que deveria ter feito uma proclamação solene dizendo meus caros amigos, sois todos muito estimáveis, mas esta conta fechar-se-á dentro 99 horas 32 minutos e 56 segundos. Punha um desses relógios que fazem contagens e, passado o último segundo, a conta fechava-se com fogo-de-artifício. Não me ocorreu. A perfeição não é um dos meus dons. Será que irei ter reacções adversas à vacina? Já fui vacinado há duas horas, mas estas coisas podem ser como o meu entendimento, lentas. Está um sol vivo, quase radioso. Uma mosca poisa na parte exterior do vidro da janela. A vida não passa de uma colecção de pequenos nadas, por mais exuberantes que eles nos pareçam.

sexta-feira, 16 de abril de 2021

Trivialidades

Um acontecimento. Sentar-me numa esplanada e aí almoçar, num dia que anuncia a estiagem que há-de vir. Isto seria uma coisa trivial, mas desde há mais de um ano que o trivial passou a ser coisa de excepção. Foram estas palavras que ouvi, há pouco, ao padre Lodo. Já não falávamos há uns tempos, mas sabia-o desgostoso com as impossibilidades trazidas pelo maldito vírus. Quis saber quando iria a Lisboa, pois queria reunir o velho grupo. Para a próxima semana, espero ir, mas não estarei em situação de deambulações grupais nem visitas a restaurantes, mesmo com esplanada. Pareceu ficar decepcionado. Depois contou-me episódios deste tempo de confinamento, não sem que uma ironia fina se desprendesse das suas palavras. Comentou que noutros tempos uma pandemia haveria de fazer muitas conversões. Agora já não paga o investimento e isso prova que ela não foi enviada por Deus. É melhor procurarem o morcego. E vacinarem-se, acrescentou. Perguntei-lhe se já tinha sido inoculado, como não se cansam de repetir na comunicação social. Sim, sim. Foi com a da AstraZeneca. Não me preocupei nada, disse. Até porque já estou muito longe de ser novo, não sou mulher, nem tomei a pílula. E riu-se. O que é que a pílula tem a ver com assunto, perguntei. Não faço ideia, mas estão sempre a fazer comparações entre uma coisa e outra que pensei que talvez tivesse. Não são só os caminhos do Senhor que são insondáveis, também os dos homens e os dos vírus, sentenciou.

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Um tempo tenso

Imaginei que não tinha tempo para vir aqui escrever. Afinal, o tempo apareceu trazido pela chuva da tarde. Sem poder ir fazer a minha caminhada, retido em casa em vez de andar a deambular por aí ao deus-dará, sobrou-me tempo que não me apetece ocupar com alguma coisa mais momentosa. Ainda saí, fiz umas centenas de metros, mas logo um aguaceiro se anunciou nos pingos grossos que decidiram cair sobre mim. Vai para casa, diziam. Obediente, eu vim. A tarde tem estado tensa. As aplicações meteorológicas anunciavam trovoadas, mas não trovejou nem relampejou. O que ficou foi uma ameaça a pairar sobre os corpos, uma tensão que se abate sobre os ombros e desliza pelo peito, o esboço de uma angústia que se infiltra no coração. Será a angústia para o jantar? Será a angústia do guarda-redes antes do penalty? Lembrei-me de que ainda hoje não fiz as palavras cruzadas do jornal. Nunca tive o hábito de as fazer, mas há umas semanas que comecei a dedicar-me ao cruzadismo. Gosto particularmente dos prefixos que exprimem a ideia dista ou daquilo, das interjeições, dos elementos de formação de palavras e, acima de tudo, dos regionalismos. Também não acho desagradáveis os símbolos químicos. Símbolo químico do Érbio ou do Rubídio. Talvez as palavras cruzadas sejam um símbolo do mundo, no qual se cruzam múltiplos universos formando universos possíveis que logo se esgotam. Como é visível, ando falhado de motivos que alcem à glória escriturária. Sempre me podia ocorrer um assunto metafísico, mas não ocorre. Pena que não tenha podido ir caminhar.

terça-feira, 13 de abril de 2021

O galope do tempo

Nunca tinha passado por aquela rua. É espantosa a minha falta de curiosidade. A cidade é pequena e vivo nela há muitas décadas. Apesar disso ainda há rua antigas pelas quais nunca passei. Na caminhada de hoje, descobri uma. Pequena, pouco mais que uma travessa, com moradias baixas. Fez-me pensar nas aldeias de antigamente. Pequenos jardins, nespereiras e limoeiros, um ar de tranquilidade, de um lugar onde as pessoas levam uma vida sensata, em que o dia e a noite se distinguem com clareza. Agora oiço o Quator pour la fin du Temps, de Messiaen. A sua tonalidade apocalíptica choca com a rememoração tranquila do passeio dado. O compositor escreveu a obra quando estava preso na Alemanha pelos nazis. Não tinha à disposição ruas pequenas com casas orladas por árvores de fruto, nem um sentimento de sensatez. Ali, onde o reinaria a maior ausência de sentido, só o fim do tempo poderia dançar na imaginação com uma promessa de libertação. Anoitece, o tempo galopa, galopa, mas talvez não tenha um fim que o liberte da sua correria desenfreada.

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Sonatas dos Mistérios

Olho para uma das estantes do escritório e vejo uma pilha de CD fora do lugar. A entropia é isto, pensei. A desordem vai crescendo dentro do sistema. Em vez de ir arrumar os discos, coloquei um na aparelhagem e deixo-me estar a ouvi-lo enquanto permaneço sentado. Se o crescimento da desordem for musical, talvez não seja uma situação entrópica. A música tem um poder de salvação tal que até da doença da entropia ela é capaz de salvar uma casa. Escuto as Sonatas dos Mistérios, de von Biber. No século XVII, havia uma bela imaginação para colocar nomes, mesmo num sítio tão hirsuto como a Boémia. Chamava-se ele Heinrich Ignaz Franz von Biber. Um nome barroco, tal como a música. Também o dia está barroco, cheio de rococós. Isto não é verdade. Está um dia pesado, quase lutuoso. Na avenida, as pessoas passam, algumas abrem o guarda-chuva, outras afivelam máscaras, mas também há quem se sente na esplanada do bar e, enquanto bebe uma cerveja, pede aos céus para se conterem e não derramarem águas que lhes estrague o interlúdio. Estas sonatas de Biber acompanham os mistérios do rosário. São as gozosas, as dolorosas e as gloriosas. Deste modo, o Príncipe Arcebispo de Salzburgo podia acompanhar a oração desse mesmo rosário, de que era um adepto fervoroso, pareço estar a falar de futebol, com a nobreza e a elevação que seria a de um príncipe e de um arcebispo, em vez de misturar a sua voz à do rebanho. Hoje, e não fosse o caso da pandemia, talvez ele fosse mesmo ao estádio apoiar a equipa da cidade. Consta que o próprio Papa não se coíbe de partilhar com o mundo o clube do coração. O mundo está cheio de coisas insensatas, mas essa será a sua natureza. Refiro-me ao mundo. Como o bom julgador a si se julga, está tudo dito.

sábado, 10 de abril de 2021

O mistério de tudo

Um terço de Abril está cumprido e não têm faltado as águas mil. Há pouco fui espreitar a Sá Carneiro. Só para ver o movimento. Não o havia ou quase não se dava por ele. No seu friso, as orquídeas estão, todas elas, esplendorosas. Contaram-me, então, uma história de alguém que também tem orquídeas em casa, mas que estas nunca florescem. Elas não gostam da proprietária, expliquei. Talvez seja eu que não goste dela, embora não tenha qualquer motivo para isso, mas nunca se sabe aquilo que move as nossas palavras. Especulo, porém, que o problema dessas orquídeas reside na má relação com quem se apropriou delas. O dia tem estado triste por aqui. Há pouco liguei para uma amiga. De um momento para o outro, caiu-lhe o céu em cima e ela não é gaulesa. Foi diagnosticada uma doença daquelas muito desagradáveis ao marido. Ela procura encontrar dentro de si forças e esperança perante a ameaça. Vivemos todos nós como se a vida fosse ora um Natal, ora um Carnaval. Nunca nos lembramos da Sexta-Feira de Paixão e do calvário, a não ser quando nos batem à porta. Nunca se está preparado para aquilo que desejamos que nunca aconteça. O dia corre, sob bátegas de água, para a caverna da noite. Da janela do escritório, avisto uma paisagem de cinza recortada pelo anúncio luminoso de uma cadeia de hambúrgueres. Mais ao longe, as paredes outrora brancas do hospital continuam a cobrir-se de fungos, enquanto oiço o Cântico ao Sol, da russa Sofia Gubaidolina. São misteriosas as almas russas, assim como as orquídeas, assim como a vida.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

Sou um taxinomista

Sentei-me pela primeira vez numa esplanada. Um acontecimento. Na verdade, um acontecimento infeliz, pois estava um vento demasiado fresco e a chuva ameaçava a cada instante. Penso no interior vazio do café, e desconfio que nos metemos todos num grande sarilho e não fazemos a mínima ideia de como sair dele ou se ele tem saída. O país televisivo passou a tarde muito entretido e agora deve andar por aí a alardear opiniões inflamadas, embora as opiniões não passem de paixões da alma. Num artigo de um site há conselhos para pessoas indecisas. Podia propor ter três passos ou sete, talvez nove para acabar com a indecisão, mas não. Terão de ser cinco passos. Pensei de imediato que a precisão é a alma do negócio. Todavia, ao olhar para eles pensei que qualquer indeciso, perante para cada um daqueles milagrosos passos, ficaria indeciso se o devia dar ou não. Por isso é que é indeciso. Observo o que escrevi e dou com um erro. Nem digo qual para não ferir susceptibilidades, mas não era ortográfico. Perante os erros, vivo como como o guarda-redes antes do penalty. Com angústia pela possibilidade de deixar passar uma palavra mal escrita. Como dar erros é inevitável, substituo a angústia do erro pela sua classificação, tentando descobrir-lhe a origem. Tenho uma alma de taxinomista. A maioria dos erros são compreensíveis, bastando olhar para o teclado. Outros devem-se a certos cruzamentos das linhas cerebrais. Outros há, porém, que possuem motivação secreta. Que força estranha e inimiga me terá levado àquele erro, pergunto-me, mas não descubro. Esses são os piores. Falar sobre erros ao anoitecer de sexta-feira é tontice, mas a generalidade das coisas que me ocorrem são tontices, portanto nem estranho.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

O retorno das águas

Voltou a chuva. Talvez as potências que governam o clima tenham decidido que chegara a altura de cumprir o ditado Abril, águas mil. Os provérbios populares fizeram-se para que sejam tomados a sério. Neste momento, cai uma bátega enorme, a água desce furiosa de um céu de chumbo. Olho para o pequeno bosque da escola ao lado e parece que uma cortina se intromete, tornando os contornos das árvores incertos. Das esplanadas da avenida, os ocupantes tiveram de fugir e que passam ergue, como um estandarte, chapéus de chuva. Ouviram-se gritos de excitação, mas agora tudo está silencioso, para que eu possa escutar o ruído das águas ao despenharem-se sobre o alcatrão e as pedras do passeio. A caminhada que tinha pensado fazer foi adiada para um tempo em que o tempo tenha melhor cara. A chuva abrandou e os campos de jogos estão cobertos por um fino lençol líquido. Reverberam batidos pela ténue luz da tarde. Havia uma tensão no ar, sentia-a no corpo e na consciência, mas agora dissipou-se. Pára um carro, de dentro dele sai uma mulher sem idade, abre o guarda-chuva e dirige-se para a porta de um prédio. Na secretária repousam os mil afazeres e eu repouso com eles. Oiço uma porta ranger e passos pela casa. Na rua, voltaram as vozes. Trazem nelas o ferrete da adolescência. Desequilibradas, perdidas entre guinchos e grunhidos. É a isto que se chama vida. Podia ser pior.

P. S. Este blogue teve durante dezasseis meses um ritmo diário. A partir de agora terá uma actualização mais irregular. Mais do que de coisas certas, a existência é feita de irregularidades.

domingo, 4 de abril de 2021

Mãe e mãiiii

No parque infantil, as crianças continuam a correr e a gritar. Uma chama pela mãe, prolongando desmesuradamente um i final, como se uma mãe fosse, de facto, uma mãi e neste i estivesse contido todo o universo. Talvez seja assim. Para os filhos, as mães começam por ser o universo, todo o universo. Crescer significa fazer encolher a dimensão de universo que é uma mãe. Enquanto os filhos crescem, as mães diminuem. Passam a galáxia quando os filhos chegam à escola, depois a sistema solar, de seguida a planeta e, conforme os filhos envelhecem, as mães vão-se tornando mais reais, até atingirem a dimensão que é a delas, a de serem mães. Os pais são construções das mães e, para os filhos, são sempre mais reais, pois não foram nunca o universo, mas o símbolo da realidade. Temo que estas opiniões que me ocorreram agora possam ser mal interpretados e sobre elas seja lançado qualquer anátema. São apenas opiniões que me ocorreram. Foram estas, poderiam ter sido outras, mesmo contraditórias, mas a verdade é que eu ouvi um i longuíssimo preso à palavra mãe. Seja como for, a família recolheu-se, pois não tarda é hora de almoço, ainda por cima é domingo de Páscoa e as pessoas, mesmo que não saibam o que significa a Páscoa, gostam do almoço do domingo de Páscoa. Sobreveio um grande silêncio. Um sinal para me calar.

sábado, 3 de abril de 2021

Tempo de amêndoas

Das várias perspectivas sobre a arte, agrada-me aquelas que estabelecem analogia entre o mundo da arte e o universo. Estão ambos em expansão. Isto permite pensar que não existe uma definição de arte, uma definição onde se captaria a essência da arte, uma característica que estaria presente em todos os objectos artísticos e só neles. Não há, e isso deixa perceber que sob a ideia de arte se esconda um universo em expansão, a que se vão juntando novos e novos objectos. Isto há-de contrariar aqueles que pensam saber o que é a arte e estão sempre prontos a lançar anátemas sobre aquilo de que não gostam ou não compreendem. Seja como for, hoje é Sábado de Aleluia e talvez não seja o dia mais indicado para pensamentos destes. Segunda-feira, intuo-o, serão bem mais justificados. In illo tempore, quero dizer no tempo em que a existência de pandemias era uma coisa longínqua, um conhecimento abstracto e por ouvir dizer, a casa estaria cheia. Filhos e netos trariam uma luz suplementar a quem aqui vive. Este ano, mais uma vez, cada um estará no seu lugar, cumprindo instruções das autoridades e esperando que tudo isto se possa mandar para trás das costas. Enquanto o dia desce o declive em direcção ao oceano da noite, oiço a cantora de jazz Maria Viana, filha de um conhecido artista de revista – e pintor – José Viana. Nunca o vi actuar, pois a revista sempre me foi uma coisa estranha, mas nunca esqueci uma cantiga, Zé Cacilheiro, por ele cantada e que havia num LP lá por casa. Talvez a memória tivesse ficado presa aos versos E navegando / A idade foi chegando / O cabelo branqueando / Mas o Tejo é sempre novo. E uma súbita saudade de ver o Tejo acometeu-me, o pior é que é proibido circular entre concelhos e o rio da minha terra não é o Tejo, mas apenas um pobre afluente do rio que vindo de Espanha vai morrer ali mesmo para os lados de Lisboa. O melhor é ir comer uma amêndoa. De chocolate, que é mais metafísica das amêndoas.

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Proibido proibir

Talvez ainda hoje seja assim, pelo menos em certos círculos. A Sexta-Feira de Paixão estava marcada por um conjunto de proibições. Lembro-me que, na infância, a própria televisão suspendia o seu ruído diário, um ruído inocente, diga-se, e apenas transmitia música clássica. Não sei se a finalidade era marcar o luto religioso com a grande música, ou se se pretendia ligar esta, aos olhos das pessoas, a momentos lutuosos. Quem em casa recebia uma educação religiosa, talvez a maioria das pessoas, era iniciado nesse jogo de permissões e proibições, que pautavam a vida. Hoje em dia tudo isso parece abolido. Suspeito que se deverá, a abolição, ao princípio utilitarista da felicidade geral. As proibições tornam as pessoas infelizes e vivemos numa época em que cada um não aspira a mais do que participar nessa exigência da felicidade. Não há coisa mais espantosa do que a reivindicação do direito a ser feliz, como se isso pudesse ser garantido por algum poder ou por alguma instância, como se fosse possível recorrer a um tribunal para reivindicar o preenchimento do direito sonegado. Admitindo, com certo filósofo, que vivemos no melhor dos mundos possíveis, já se constatou que dentro desse melhor cabem infelicidades sem fim, que não resultam de nada a não ser do acaso, e não há direito que lhes valha. A prosa está demasiado meditabunda. Talvez seja o cinzento do dia que inclina o espírito para este tipo de cogitações. Há quem jure que o destino de cada um é regulado pelos astros. Em vez da astrologia, proponho a climatologia. As conjugações climáticas trazem-nos dores e o alívio delas, flectem o espírito às trevas ou deixam-no galhofeiro, como um aldeão antigo a caminho da romaria. Oiço o ranger das roldanas das cadeiras de baloiço no parque infantil da praceta. Constou-me que a sua frequência estava proibida, mas isso tornaria as crianças e os pais infelizes. No fundo, somos todos herdeiros do proibido proibir. É o que me ocorre, nesta sexta-feira nebulosa.