segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Da interpretação dos sonhos

Um acaso levou-me a um texto escrito em português mas com um vocábulo alemão por título. Traumdeutung, interpretação dos sonhos. Invejo as pessoas que têm sonhos para interpretar. Muito raramente me recordo de um e quando isso acontece, vejo-o apagar-se e voltar para o esconso lugar de onde veio, privando-me da arte da interpretação. Quem não tem sonhos para deles fazer hermenêutica é uma espécie de ocioso psicológico ou, no pior dos casos, um indigente da psicologia, que nem um sonho tem para contar. A noite chegou e aquilo que estive a fazer não me deu o melhor dos humores. Talvez aqueles que não têm sonhos para submeter à busca da sua significação devessem tentar interpretar a variação de humor que sofrem. O gargalo da noite partiu-se e os demónios saíram da garrafa, saltitam pelas ruas sempre prontos a tentar as almas que vão por aí transidas de frio. Como todos sabem, o material das almas é muito sensível à temperatura. Muito calor, elas evaporam-se. Muito frio, e elas encolhem tanto que o seu proprietário parece um desalmado. Se eu tivesse um sonho para interpretar escusava de estar a falar daquilo de que não se pode falar. O melhor é seguir o conselho do senhor Wittgenstein e calar-me.

domingo, 8 de dezembro de 2019

Fim das actualizações

Há uma semana que os presépios tomaram conta da sala. A um canto, está o presépio tradicional embora sem musgo e depois, distribuídos pelos móveis, múltiplos pequenos presépios que com os anos se foram acumulando. Já ninguém se lembra como a coisa começou e, verdade seja dita, não foi assim há tanto tempo. A cada um as suas idiossincrasias. Hoje ainda não saí de casa. A névoa cobre a terra, oculta o hospital que haveria de se ver da minha secretária, abre-se num horizonte de cinza contra o qual se recorta o pequeno bosque da escola ao fundo da rua. O Outono corre para o Inverno, deixando na memória estes dias que pedem recolhimento. Inopinadamente, enquanto escrevo isto, a Microsoft informa-me que o meu Office vai deixar de ser actualizado. Recomenda-me que adquira uma versão mais consentânea com os dias de hoje. Também eu há muito deixei de ser actualizado e, por mais voltas que dê, não consigo comprar uma versão mais moderna de mim. Sempre posso usar um daqueles programas gratuitos alternativos aos da Microsoft, mas no meu caso nem gratuita há uma versão alternativa. Não porque eu seja uma singularidade, mas porque não há qualquer vantagem em haver outra versão de mim. A natureza é sábia e usa a frugalidade para evitar a multiplicação do erro. Tenho muito que fazer. A corveia que me permite enfrentar a dura necessidade não me dá descanso. Oiço uma música chamada Ships Along the Harbor. Vejo o cais, os barcos atracados, o ondulado das águas, sinto o sopro do vento marítimo e os meus pés a caminhar na humidade do porto. Tudo isto sentado com uma pilha de papéis na frente para ler. O Natal aproxima-se e ainda não cuidei da secção dos presentes.

sábado, 7 de dezembro de 2019

O deslizar do sábado

O sábado deslizou-me da mão num ápice. Esteve luminoso, mas já se embrulhou num cobertor de cinza e não tarda veste o roupão negro da noite. Se eu fosse o autor destas frases, haveria de pintar a cara de negro. Recordo-me com melancolia do tempo em que as horas subiam e desciam a encosta do dia com um passo tão vagaroso que parecia haver uma suspensão do tempo. Era uma antevisão da eternidade, mas nessa altura a eternidade não me interessava para nada e aquilo que mais queria era que o tempo passasse até àquela hora em que algum prazer, modesto que fosse, esperasse por mim. Pelo acumular de pretéritos imperfeitos do conjuntivo só posso suspeitar que mesmo para um prazer modesto o desejo era grande. Não devia entregar-me a hermenêuticas gramaticais que raramente levam a bom porto. Hoje comprei um bolo-rei, o primeiro da época. Confesso que me tornei desleal ao rei e, por norma, presto vassalagem à rainha, desde que esta saiu do tabuleiro de xadrez para se transformar em bolo de Natal e Ano Novo até aos Reis, mas hoje as rainhas não estavam disponíveis. Muito gente abomina a fruta cristalizada. Eu sei que é uma grande xaropada, mas condescendo com ela e não sinto que, ao comê-la, os parentes sejam arrastados pela lama. Também não devia usar expressões ao gosto popular. Ainda por cima é o segundo não devia que uso. Talvez devesse – mais um pretérito imperfeito do conjuntivo – psicanalisar-me para descobrir o trauma que me leva a repetir o desconsolado não devia.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Passar para a página seguinte

Crianças de um jardim de infância das redondezas aterraram no parque aqui em baixo. As vozes são agulhas que se espetam pelos ouvidos, até a cabeça explodir. A quietude das tardes de sexta-feira foi imolada ao deus da infância. Como em tudo, também aqui os deuses estão em desacordo. Enquanto o da infância olha com desvelo o burburinho e a verrumante agudeza dos gritos, o da velhice franze o sobrolho e vigia o tumulto com rancor e mal dissimulado ressentimento. Apesar deste ser o melhor dos mundos possíveis, a sua ordem está longe da perfeição. Abro ao acaso um livro e a página pergunta-me, com ar sobranceiro, se as pessoas são responsáveis pelo que fazem. Não sei o que dizer. Se digo que não, serei acusado de irresponsável. Se digo que sim, não faltará quem me chame presunçoso. A solução será passar para a página seguinte e fingir que não se viu qualquer pergunta. As vozes calaram-se, as crianças voltaram para o seu lugar. Na avenida, uma mulher passeia vagarosa um cão. Um carro pára junto à passadeira e outra mulher atravessa-a. Chegada ao outro lado, hesita como se não soubesse o que fazer com o corpo. Decide-se e recomeça a caminhada, presa ao desconforto de ser quem é. Vejo as iluminações de Natal ainda apagadas e lembro-me da tristeza que sobre mim cai sempre que estão acesas. Eu sei que ninguém se interessa pelo Natal, mas as autoridades públicas podiam disfarçar. Logo à noite, terei um jantar natalício. Espero que ninguém se lembre de cantar.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Do amor aos adjectivos

A manhã desceu não sem ímpeto a escadaria em direcção aos arrabaldes da tarde. Nos dias em que o Outono se vai desfazendo das suas folhas mortas e o Inverno assoma impante no horizonte, a fronteira que separa a manhã e a tarde torna-se mais porosa, contaminando-se uma à outra, deixando-me sem saber a quantas ando. Num dos jornais de hoje, uma escritora afirma que os adjectivos não servem para nada. Fico pesaroso por eles, pela desconsideração e vexame públicos que assim os atinge. Poderia perguntar quem, se não os adjectivos, há-de, por exemplo, qualificar e determinar o pobre do substantivo, mas não pergunto. Já não sei onde, Roland Barthes diz que se usa o adjectivo agradável quando não se quer dizer nada. Como foi a nossa noite de amor, pergunta ele e ela responde, hum… agradável, agradável. É para isto que servem os adjectivos. Que achas do meu texto? Magnífico, se possível com ponto de exclamação, responde-se. Isto é uma qualificação do texto? Não, é apenas a forma que temos para não dizer nada. Usar adjectivos – e não apenas o agradável – é de uma grande utilidade, pois a maior parte das vezes não temos nada para dizer ou temos e não o queremos fazer. O adjectivo é um indício de uma civilização superior que utiliza a qualificação para ostentar o silêncio. No horizonte, nuvens esbranquiçadas toldam o azul dos céus. A tarde, depois de garrotear a manhã, chegou ameaçadora. Estou por conta da ameaça. Não posso dizer que seja agradável.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

O esplendor de um dia de Inverno

Não há dias mais gloriosos que os frios banhados pelo sol. Olho para a frase e lembro-me de um poema de Eugénio de Andrade que começa assim Obedecem-me agora muito menos, / as palavras. Penso na sorte que ele teve por ter havido um tempo em que elas lhe acataram as ordens. A mim sempre recusaram submissão, talvez por falta de talento para usar nelas a rédea ou o chicote. Ocorreu-me agora um dito de Nietzsche sobre a necessidade de levar o chicote, mas recuso-me a partilhá-lo não vá ofender a sensibilidade da época. Também é possível que a máxima do filósofo alemão não quisesse dizer nada, nem aquilo que nela está dito nem aquilo que nela se subentende. Seria apenas o esplendor de um dia de Inverno em que a neve cintila sob a luz impiedosa do sol, um exercício de pirotecnia para semear o céu com fogos-fátuos e a terra com invólucros destroçados pelo rebentar da pólvora. Passa-me pela cabeça que não se deve confiar em filósofos, principalmente se são alemães, mas também devo abjurar este pensamento, tão pouco ao gosto dos dias que correm. Como eu quereria dizer se frequentas as palavras, não esqueças o chicote. Não o digo, pois não foi a vocação de domador aquela que os deuses depositaram nas volutas do meu código genético.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Cair em tentação

Não sei como nem porquê, a toranja tornou-se aqui em casa um bem de primeira necessidade. Há pessoas para tudo e até para uma coisa dessas. Tendo-se acabado as que havia, fui ao hipermercado aqui ao lado em busca do santo graal, não propriamente o cálice sagrado onde José de Arimateia recolheu o sangue de Cristo, mas dos frutos amargos que dão um excelente sumo para começar o dia. Ainda dentro da superfície comercial, não resisti a passar pela zona dos vinhos. Trazia o cálice e o sangue. O pior foi ao sair. Um cheiro a farturas atropelou-me. De saco de compras na mão, como um sonâmbulo, lá me encaminhei para a roulotte. No caminho, murmurava não me deixes cair em tentação, não me deixes cair em tentação, olha a balança. Ninguém me ouviu, ninguém quis saber da balança, nem do colesterol, nem da saúde, nem me quis aliviar da tentação. Eu também não. Uma fartura. É assim que o mundo se perde. Vem a serpente, tenta uma pessoa, o cãozinho pavloviano que há em nós saliva e o mal está consumado. Talvez o sumo de toranja compense. Há que não perder a fé.

Há que desconfiar

Todos os dias alteio mais um pouco o muro que me rodeia. Fecho-me lentamente ao mundo, cubro com cimento as fendas na muralha, certifico-me da qualidade do isolamento sonoro. Ainda não é perfeito, mas a perfeição não é coisa que se consiga de um dia para o outro. Ponho-me a imaginar que o que sou é apenas o resultado de um programa genético. Uma bela desculpa para a minha falência, embora tenha o inconveniente de rasurar algum pequeno mérito que possa, aqui ou ali, ter tido. A última coisa que quero neste momento é uma meditação sobre o livre-arbítrio. Estava a falar do software que me faz ser o que sou e este parece que me conduz a um inexorável isolamento. Nos dias em que estou de humor benigno digo que deveria ter entrado para um convento, daqueles mais rigorosos, para a trapa ou para a cartuxa. Riem-se do dislate e ninguém acredita. Eu também não, mas lentamente vou construindo a minha cartuxa, limpando-a do incómodo que a presença do mundo traz e entregando-me a um silêncio cada vez mais espesso. Falta-me o talento para a oração e há no mundo algumas coisas que ainda fazem cintilar os meus olhos, mas até isso pode ser um exagero. Há que desconfiar de tudo, principalmente de mim mesmo.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Da possibilidade da perfeição

Vinha aqui dissertar sobre a imperfeição e a identidade entre o ontem e o amanhã, mas a quem podem interessar coisas como essas? Há pessoas, cruzo-me com elas todos os dias, que aderem de tal modo à realidade que chegam a parecer reais. Há muito que desisti da minha realidade e até da minha aparência. Como se vê é muito fácil dizer coisas sem sentido. Difícil é encontrar alguma com sentido para dizer. Fará sentido afirmar que lá em baixo um bando de adolescentes se alarga na efusão dos sentimentos contaminado pela efervescência das hormonas? Sobre a espécie humana, as árvores apresentam uma vantagem desmedida. São silenciosas e nos dias de sol projectam uma sombra benfazeja. Li um romance em que a personagem central se transformava numa árvore. Parece bizarro, mas nessa transformação há mais sabedoria do que nas vãs pretensões que alimentam a mente dos homens. Enraizar-se na terra, estender-se para o céu e fazer um voto de silêncio para a vida. Talvez a perfeição não seja impossível.

domingo, 1 de dezembro de 2019

Dia da defenestração

Faz hoje anos que os Braganças substituíram os Filipes no trono de Portugal. Por muito que goste de Espanha, e gosto muito, dá-me sempre uma boa disposição particular o facto de não ser espanhol. Depois há aquele pormenor insidioso da defenestração do Miguel de Vasconcelos. A política tem destas coisas, uma certa tendência para o exagero e para actos irreversíveis. Ia contar que a execução do colaborador dos espanhóis – supremo símbolo do traidor em Portugal – tinha sido o primeiro assassinato político de que tinha consciência. Seria uma mentira e embora seja obrigado a mentir muitas vezes nestes textos não o faço de propósito. O primeiro foi o de John Kennedy e ainda recordo o meu pai a comentar o assunto com a minha mãe. O caso do Vasconcelos, narrado numa aula da escola primária por um professor ou professora patriota, ficou preso à imaginação pela palavra e pelo modus operandi. Não era todos os dias que se ouvia uma palavra como defenestrar, ainda por cima aplicada a alguém que não só não merecia ir para o céu como todo o castigo aplicado era pouco. Não se pense que falar do céu é coisa despropositada. Lembro-me muito bem, na sequência das aulas de história recebidas naqueles tempos em que a razão não tinha sido contaminada pelo vírus da crítica, de ter pensado como era bom pertencer a um povo cujos governantes e personagens históricas eram não apenas grandes heróis como pessoas particularmente santas. Deviam estar todas na glória de Deus. Talvez o feriado de 1 de Dezembro sirva para assinalar o caso do único português que pela sua aleivosia foi atirado pela janela e só parou de cair quando Satanás o apanhou e o levou para o reino dos infernos. Ainda hoje dou comigo a pensar que as nossas elites se já não são heróicas, os tempos não estão propícios para a coragem, continuam firmes no caminho da santidade. Pelo menos, não tem havido defenestrações.

sábado, 30 de novembro de 2019

Disposição para a culpa

No lugar onde me encontro neste momento chove de mansinho, uma água hesitante, como se as nuvens se sentissem culpadas de molharem quem passa, mas a culpa não fosse suficientemente forte para se conterem. É isto que também se passa com as acções dos homens. Se eu fosse uma pessoa decente e moderna diria acções dos homens e das mulheres, mas sou anacrónico, certo tipo de decências passam-me ao lado e se cultivo a anáfora tento evitar a redundância. Como as nuvens, também eu não consegui conter-me e deixei que o fel impregnasse a malfadada prosa e me desviasse daquilo que queria dizer. As más acções humanas nascem muitas vezes duma hesitação trazida por um sentimento de culpa não suficientemente treinado e vigoroso. Uma boa educação deveria começar por incrustar bem fundo na alma a disposição para a culpa. O autor destas palavras, ao pô-las na minha boca, não tem qualquer consideração por mim. Que Deus lhe perdoe. A chuva não pára, as pessoas passam alheadas, chapéu aberto, e não tarda tenho de pôr-me a caminho. O que vale é que não me esqueci do guarda-chuva.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Os lírios do campo

A sexta-feira progride entre o cinzento dos céus e a tristeza da cidade. Há sempre neste dia da semana um pathos que, contra o que seria de esperar, faz descer nos corações um véu de melancolia, como se o desejado fim-de-semana fosse mais uma ameaça pela sua transitoriedade que um motivo de júbilo pela sua existência. Somos difíceis de contentar. Talvez exista uma memória histórica que se tenha entranhado no nosso código genético e que dispara, sem que se saiba porquê, estes estados de alma. Li que hoje em dia os seres humanos livres trabalham muito mais que os servos da Idade Média. Eu sei que todo o fulgor que nos rodeia, essa possibilidade de fazer compras sem fim, de não perder qualquer promoção, de nos atafulharmos de tudo o que não precisamos, eu sei, dizia, que isso exige muito trabalho, que devemos estar sempre mobilizados para a grande batalha produtiva. E depois lembro-me que os lírios do campo não trabalham nem fiam, mas que Salomão em toda a sua glória nunca se vestiu como qualquer um deles. Temo que a educação religiosa que recebi me tornou completamente desadequado ao mundo onde sobrevivo. Ou talvez eu fosse já desadequado e que a educação recebida, a que não dei a sequência que era desejada, me sirva de desculpa. São ínvios os caminhos do Senhor.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

O caso do santo que não faz milagres

À tarde um acaso profissional levou-me a pensar em Perry Mason e Paul Drake. Não me esqueci, claro, de Della Street. Há muitos anos que não convivo com estas pessoas, mas houve uma altura em que a sua companhia foi para mim fonte de grande prazer. Pensei em Mason e Drake porque necessitava dos seus serviços para uma das tarefas que a existência me impõe. Foi um pensamento instrumental, confesso. Talvez eles possam ajudar-me a resolver o caso do santo que não faz milagres. Sei que estou a tornar-me obscuro, mas a vida também é feita de obscuridades. Quem seja o santo e que milagres queria eu dele, não vem agora à colação. De Della Street lembro-me da imutabilidade da sua aparência, de nunca se aventurar na casa dos trinta anos e da eficiência e fidelidade profissionais. Talvez numa parte recôndita da minha alma habitasse, naquele tempo, um fraquinho por ela. Tudo é possível, pois são mais as coisas que não sabemos que aquelas que sabemos. Estas são as cogitações que me obrigam a pensar, muitas vezes contra a minha vontade, mas quando se é o produto da imaginação doentia de um déspota não é de esperar outra coisa. Se soubesse onde é que guardei o número do escritório do Mason, ainda lhe ligava hoje.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Um belo livro

Tenho entre mãos o belíssimo livro de poesia de Ana Luísa Amaral, Ágora. Comprei-o há pouco e ainda não tive tempo para ler qualquer poema, mas a beleza do objecto, antes que a do espírito se manifeste, vem-lhe do corpo. Uma edição de capa dura, onde se reproduz a pintura Jacob lutando com o anjo, de Bartholomeus  Breenbergh, nascido em Utreque no ano de 1598. Cada poema é acompanhado pela reprodução de um quadro. Num deles, de Georges de La Tour, vê-se uma Madalena penitente, e todo o livro é um jogo de diluição de fronteiras ou de contaminação. A tarde parecia propícia para a leitura. Hoje não houve até agora ensaio do grupo de baile da escola aqui ao lado, mas um aspirador ruidoso teima em assegurar o asseio de um dos apartamentos do prédio. Também nas instalações da antiga agência bancária, prossegue uma batucada sem ritmo, que se repercute nas paredes e desagua em mim. Folheio o livro com cuidado e vejo as pinturas. Há duas Salomés, mas o que me prende os olhos é uma reprodução de Ecce Ancilla Domini, de Dante Gabriel Rossetti. Ali vejo tudo o que há de feminino numa mulher, mas esta minha frase precisa de ser censurada, pois os dias não correm de feição a considerações metafísicas. Enquanto a tarde desliza brandamente sob um céu mesclado de azul e cinza, eu fico a olhar com demora a escrava do Senhor. Afinal, o grupo de baile sempre tem direito ao seu ensaio.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Submetidos à irmandade

Gostaria muito de crer que a proposição “os pinguins são seres humanos” é verdadeira, como me afiançaram talvez por desfaçatez ou distracção. Nunca se sabe o que move os indivíduos pertencentes à nossa espécie. Apesar do meu esforço em torcer a consciência, tive de me declarar incrédulo. Não ser crente num mundo como aquele que frequento para obstar à maldita necessidade é errado e começa a ser perigoso. A minha realidade existencial é superintendida por uma espécie particular de teólogos. Estes têm por divisa o quanto mais absurdas forem as nossas crenças com mais empenho as devemos impor. Fazem-no com denodo e sem cansaço. Com o passar dos anos a produção teológica tornou-se exorbitante e não se observa nenhum sinal de abrandamento. A matéria de fé é tão extensa e a dogmática tão hiperbólica que é impossível que qualquer um dos superentendidos pela irmandade não seja numa qualquer altura um verdadeiro heresiarca. Como todos sabemos, os heresiarcas não costumam ter um bom destino, e talvez seja por isso que aqueles que como eu se submetem à irmandade tenham sempre a consciência pesada. Não por um qualquer pecado capital, mas por sustentarem por palavras e acções uma qualquer heresia da qual não têm consciência. Já pensei estabelecer uma correlação entre o tipo de textos que escrevo e os dias da semana. Talvez se mostrasse que as terças-feiras não são especialmente propícias para escrever coisas com nexo. Fico por aqui, pois espera-me uma tarefa sem a qual o mundo ficaria bem pior.

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Versão free

Avariou-se o termóstato da caldeira. Pressuroso, fui à etiqueta colada ao dispositivo para ver o número de telemóvel de quem cuida destas coisas, uma empresa familiar. Queria falar para o filho, mas digitei o número do pai que estava na linha de cima. Apareceu uma senhora que não era a mãe, nada sabia de termóstatos e muito menos de caldeiras. Depois de me desculpar, pensei que não estava mal. Dois erros numa única tarefa, das mais simples que se pode atribuir a alguém. Se pudesse despedia-me a mim mesmo e substituía-me por uma versão melhorada, que se enganasse menos ou visse melhor. Temo, porém, que nem numa versão premium, daquelas pagas e renováveis ano a ano, o serviço estaria ao nível desejado. Pensando bem fico-me pela versão gratuita ou para parecer cosmopolita, coisa que não sou, pela free. Não é grande coisa mas tem a vantagem de contribuir para a poupança nacional.

domingo, 24 de novembro de 2019

Neblinas e inacabamentos

O domingo nasceu coberto de neblina. O hospital é apenas um esboço suave perdido numa planície de cinza e o arvoredo da escola ao fundo parece uma cortina de pano escuro suspensa de um tecto indeciso. Os pombos rasgam o céu de penumbra, abrindo pequenas fendas por onde brota mais e mais neblina. Um corvo perdido na paisagem urbana funde-se na névoa e tudo é quietude e silêncio. O café da praceta aqui ao lado está fechado e as crianças que costumam ocupar o parque infantil desertaram, levadas pelos pais para lugares menos húmidos. Estou aqui sentado a enrolar palavras como quem enrola tabaco para se entregar ao prazer de o queimar. Também todas as minhas palavras têm como destino arder, dissolver-se em fumo e mostrar que nelas nada há. Daqui a pouco o meu neto será baptizado e talvez isso mude a sua vida. A minha teria sido muito diferente caso não tivesse sido levado à pia baptismal? O hospital acabou de desaparecer. Agora só vejo um prédio erguido num descampado que uma qualquer crise não deixou acabar. Aquele prédio não é mais que a imagem da vida, um exercício inacabado que dura até que a última crise consagra o inacabamento definitivo. Talvez um dia fale aqui de uma carta que Max Weber dirigiu à viúva de um amigo acabado de morrer. Talvez.

sábado, 23 de novembro de 2019

Encontro com o mordomo

Hoje tive, logo pela manhã, um novo desentendimento com a balança. Mais trezentos gramas que no sábado passado. Depois de uma semana inteira de intensa meditação transcendental e de recitações do mantra sagrado e as coisas estão piores. Só pode ser da pilha, pensei. O mais assisado é mudar-lhe a fonte de energia. E foi com estes pensamentos que saí de casa. No café que, uma vez por outra, me acolhe, alguém, voltando-se para mim, diz bom dia. Havia por certo no meu rosto um sinal de perplexidade, pois ouço-o dizer então não me conhece? E sem deixar-me responder, acrescentou sou o mordomo. Ainda há dias falou de mim. Claro, era o mordomo. Deixei a cozinheira de lado e perguntei-lhe pela duquesa. É espanhola, respondeu-me. Não sabia. Sim, continuou, muito próxima do Rei. Ao ver o ricto que se me desenhou na face, riu-se com duas gargalhadas sonoras. Você é um patriota, mas não se preocupe, o Filipe está muito ocupado com a Catalunha que não tem tempo para pensar em invadir Portugal. Essa coisa dos Filipes foi há muito e a traição dos Braganças já foi vingada. Além disso esses eram Habsburgos e este é Bourbon, disse ele com entoação castelhana. Pensei perguntar-lhe o que fazia ali, mas evitei dar-lhe oportunidade à confissão. Declarei que um dia gostaria de conhecer a duquesa, embora estivesse mais interessado na cozinheira, o que omiti. Como despedida perguntei-lhe se ele se lembrava da frase de Talleyrand sobre os Bourbons, ao que respondeu que era um simples mordomo. Eu sorri da vitória e saí. O sábado começou mal, mas compôs-se.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

A aceleração do tempo

As minhas sextas-feiras estão longe da perfeição. Começam com uma lentidão exasperante, com os segundos a arrastarem-se trôpegos e indecisos pelo caminho, quase incapazes de se transformarem em minutos, evitando o mais que podem que estes se combinem em horas, ronceiros a fazer gala na indolência, madraços subjugados ao pecado mortal da preguiça. Imagino que por virtude de um almoço revigorante, chegada a tarde, esses mesmos segundos são tomados por uma louca azáfama e dão em acelerar pela pista fora, como se tivessem por missão conquistar a pole position e saírem na frente da corrida. Nada lhes tolhe as pernas e quanto maior é a presteza com que passam, mais rápido se movem. Chegada a noite, cada minuto passa à velocidade de um segundo e não há sinalização de trânsito nem radar que os leve a amolecer o ímpeto. Se eu fosse um homem de engenho, apunhalava uns tantos, deixando-os a sangrar para que os outros segundos os vissem com olhos de ver e tomassem tento, aprendendo com Zenão e tornando-se em verdadeiros Aquiles que nunca hão-de alcançar a vagarosa tartaruga. Falta-me veia para executor e, dir-me-ão, arte para encontrar motivo para escrever coisas decentes, que animem o mundo ou edifiquem as gentes para que estas não entrem no caminho da perdição. Muitas são as vias que nos levam à loucura, umas mais lentas outras mais rápidas. Haverei de lá chegar.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Moral da história

Estava a ler uma pequena história que metia um mordomo e uma cozinheira. Histórias destas são sempre edificantes, mas não a vou contar, pois falta-me talento para pregador. O mais que posso desejar é que um e outro possam prosseguir tranquilos a vida dentro da história, que esta cresça e se torne primeiro numa novela e, depois, num grande romance. Aqui, porém, a realidade torna-se complexa e pode acontecer que o mordomo de passagem pela cozinha e ao ver a faca da cozinheira se sinta inclinado ou a matá-la, ao sentir-se traído pelo motorista, ou a suicidar-se, cansado de esperar o amor da proprietária da faca. Nessa altura o leitor fica confuso, pois não sabe se a faca pertence à cozinheira ou se é propriedade da duquesa para quem a cozinheira dá o melhor dos seus talentos. E uma nova perturbação é introduzida com esta última frase, pois não fica claro que talentos oferece à duquesa a sua cozinheira, pois esta pode ser pessoa de engenho e que sirva na cozinha e noutros lugares do palácio, que por pudor, não me atrevo a especificar. O mais certo, porém, é que o mordomo evite a cozinha, não veja a faca e à falta do objecto não se desencadeie nele a pulsão de morte, o que seria de lamentar. Sempre gostava de saber, por mórbida curiosidade, quem é que anda a dormir com quem e que relações há entre a duquesa e o pessoal que dela cuida, para poder extrair uma moral para história e vir aqui fazer grande pregação.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Inclinação para o plágio

Hoje enrolei o dia com o manto das coisas inúteis. A frase é pretensiosa, mas não me ocorreu melhor início para este diário. Quanto mais inúteis são elas, mais merecem aplauso e consideração. Não estou a protestar contra a ordem da natureza, mas a sublinhar que é assim. Já não tenho idade para me revoltar contra a realidade, até porque ela não deixaria de ser o que é, por mais que eu reclamasse. Este é o melhor dos mundos possíveis e as coisas estão sabiamente ordenadas. Contrariam os meus desejos, desmentem as minhas crenças, riem-se das minhas convicções. Não fosse assim, o mundo não seria mais que a projecção do caos que me habita. Não sei se estas filosofices que me saem dos dedos – e não da razão, pois a minha já teve melhores dias – se devem ao culto do inútil a que me ative todo o dia ou se à sanha esburacadora com que o homem do berbequim eléctrico enfrenta a dureza das paredes naquele sítio que já foi uma agência bancária. Tenho a secretária cheia de livros, mas não se pense que é por avidez de leitura. Estão desarrumados, esperam que tenha piedade deles e os ponha nos seus devidos lugares. Sobre o homem do berbequim têm a infinita vantagem de não fazerem barulho e, se os interrogo sobre o que está neles, mantêm-se mudos. Esta é a segunda citação filosófica não identificada que faço. Ainda sou acusado de plágio. Na escola aqui do lado, o grupo de baile continua perdido no seu Brideshead. Acho que tenho de ir mostrar a garganta à médica. Aposto que um dos dois não vai cumprir o horário.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Da imperfeição do mundo

Um brruuum contínuo está apostado em estragar-me os poucos momentos que tenho para aqui estar. Decorrem obras no lugar onde existia uma agência bancária que, tomada de inquietação, se cansou de estar onde estava, no rés-do-chão deste prédio. O cansaço dos bancos nunca é coisa que tenha bons resultados. Em vez de haver lá por baixo pessoas com ar grave a tratar de negócios em surdina, temos gente armada de berbequim que fez uma promessa de propagar dores de cabeça pelo prédio inteiro. O mundo nunca se cansa de nos fazer reparar na sua imperfeição. O brruuum persiste e mistura-se com o som de um alarme, os latidos de um cão e os gritos de adolescentes que correm à chuva. Não tarda e há-de passar uma ambulância com a sirene a multiplicar aflição. A realidade não passa de um concerto, embora os nossos ouvidos nem sempre estejam preparados para a musicalidade que dela nasce. Olho para a rua e as árvores estão imóveis, estátuas vivas de deuses cujos nomes esquecemos. Terei de sair e talvez quando voltar o silêncio tenha regressado. A esperança não deixa de ser uma virtude, apesar de alguém ter confundido as paredes com um bombo, em que bate numa cadência descuidada e irritadiça. Uma ópera.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Vou espirrar

Uma das acácias que ainda há poucos dias mostrava a folhagem de um verde exuberante deixa agora ver os primeiros assaltos do amarelo. Só a terceira resiste. Que não amareleçam as três ao mesmo tempo, elas que estão tão próximas, é um enigma ou, para ser mais exacto, a prova da minha ignorância acerca do mundo vegetal. Parece que me constipei. Entrego-me ao ritual dos espirros como quem está numa cerimónia religiosa. Devoto e compungido. Os dias continuam a encolher devorados pelas trevas da noite. É pena que já não temamos a possibilidade do Sol desaparecer e sintamos pleno júbilo no momento em que a luz vence as trevas e os dias vão-se tornando maiores. Havia grandeza no temor e no júbilo, como se o futuro nunca estivesse garantido e fosse preciso propiciar as forças ocultas para que elas não nos arrastassem sabe-se lá para onde. Isto, porém, sou eu a falar comigo, levado pela minha tentação de anacronismo, uma doença grave no dizer dos profetas do progresso e do futuro, os quais não sabem que o único futuro que nos espera é a morte. Não estou tétrico, mas acordei com pouca paciência para os anunciadores de futuros risonhos, frades pregadores da felicidade e comerciantes da auto-ajuda. Vou espirrar, o que vale é que tenho um lenço à mão.

domingo, 17 de novembro de 2019

A minha bipolaridade

Segundo opiniões escutadas aqui e ali, consta que sofro de bipolaridade. Umas vezes pareço leve e irónico e outras que transporto em mim toda a escuridão disponível no mercado dos lutos. Aquilo que sou, eu que não passo de um ser virtual, pois nem sequer de papel é a minha natureza, devo-o ao autor destas palavras, que manipula o meu ser, fazendo-me à sua vontade, mas talvez não à sua imagem e semelhança. Ele não é Deus, por muito que isso lhe possa doer. Se vejo o mundo como um dia escuro e tempestuoso, uma sexta-feira santa, ou se me entrego ao júbilo de um domingo de Páscoa, isso está para além da minha vontade. Todos os meus exageros, todas os meus esgares, todo o riso sardónico que ostento, nada disso sendo meu me pertence. Sofro-o sem possibilidade de lhe fugir. Um raio de luz fende as nuvens e abre-se com um sorriso triste sobre o casario, logo em mim se esboça uma alegria, não porque eu seja alegre, mas porque aquele que escreve quer que o seja por instantes. Lá fora passa um cão e eu sinto-me irmanado com ele, pois a realidade do animal não é maior nem menor que a minha. O pior é a tosse, se tivesse uns rebuçados peitorais Dr. Bayard seria mais fácil.

sábado, 16 de novembro de 2019

Balanças incrédulas

Guardo para os sábados, ao levantar-me, um ritual que não aconselho a ninguém. Ponho-me em cima da balança e vejo o veredicto. Hoje não foi diferente. A julgadora, amante de hipérboles, concedeu-me uns números excessivos, que não lhe asseguram a meus olhos qualquer credibilidade. Saí de cima dela, respirei fundo e dei-lhe uns segundos para repensar a mensagem que me queria transmitir. Voltei ao rito, ela, contudo, também cultiva a anáfora e devolveu-me o mesmo peso. Tudo isto é inexplicável. Há três semanas que sigo um programa rigoroso de emagrecimento e nada. Todos os dias sento-me tranquilo e apaziguado e dedico vinte minutos a uma profunda meditação transcendental, seguida de cinquenta recitações do mantra Om Mani Padme Hum e, no fim de cada uma, projecto no universo a minha imagem sem barriga e outras adiposidades que não vêm ao caso. A balança, na sua essência digital, não se comove. Estou arrependido de a ter comprado, mancomunada que está com a interpretação científica do mundo, pouco dada à espiritualidade. Se ela não se arrepende e converte substituo-a por uma analógica, que não há-de ter aqueles inconvenientes que Heidegger aponta à técnica moderna. Oiço uma voz insidiosa a exclamar e que tal fazer exercício. Atónito, nem consigo perceber se foi alguém que falou ou se a minha consciência adquiriu alforria e pensa que deve ser o meu personal trainer. Digo silêncio, sento-me e a partir de agora serão trinta minutos de meditação transcendental e cem recitações do mantra sagrado. Hei-de chegar ao peso dos vinte anos.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Ser apócrifo

Entre o original que foi concebido e o que sou vai uma grande distância. Não passo de uma falsificação de mim mesmo, um exercício de apocrifia, como aqueles evangelhos onde Cristo se excede em actos e revelações mas que a Igreja nega-se a reconhecer. Estão lá coisas interessantes, a verdade, porém, está noutro lado. Como todas as pessoas, também gostava de ser o eu autêntico, mas chegado a sexta-feira à noite descubro que não passo de um apócrifo. Vieram os dias frios e isso consola-me. Imagino estar sentado à lareira, com um gato ao pé, a fumar cachimbo, enquanto o lume crepita e o tempo passa a caminho da Primavera. É o meu lado de contrafacção, aliás o único que tenho. A casa não tem lareira, eu não tenho gato nem fumo e o crepitar da lenha no lume não me comove. Quando era adolescente imaginava-me piloto de fórmula 1 e talvez essa tenha sido a única coisa em que me imaginei, embora por escasso tempo. Hoje conduzo resignado e não tenho paciência para saber de carros. Só espero não me enganar na via quando entro para uma auto-estrada. A vida não passa de um conjunto de foras-de-jogo e penaltis falhados.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Da bastardia das acácias

Há pouco desesperei do meu talento de taxinomista (quando escrevo esta palavra penso sempre em taxidermista). Tinha classificado duas árvores que vejo daqui como acácias bastardas. Ter chegado a essa categorização não foi para mim, possuidor de uma ignorância generalizada sobre tudo o que é flora, um exercício fácil. Hoje ao olhar para as árvores lembrei-me que essas acácias são de folha caduca e elas, com Novembro já meio vazio, estão de um verde contumaz. Se são de folha persistente, então não são acácias vítimas de bastardia. Logo veio a ironia fácil e pensei que terão nascido dentro do casamento e são legítimas. Levantei-me, fui à janela para as olhar com mais atenção e tentar perceber mais uma vez o formato da folha. Nesse momento fui salvo. Ao lado das duas está uma irmã, que não via da secretária, já com a folhagem amarela, prenunciando a caducidade das folhas. São-me ocultas as razões que terão levado uma a amarelecer mais depressa que as outras. O meu mundo reduz-se a cada dia que passa. Chove, venta, os astros e os humores andam indispostos e eu penso em coisas tão importantes como a bastardia das acácias, a caducidade das folhas, a caducidade de tudo o que penso, a minha caducidade inexorável. Teria sido mais sensato ter-me dedicado à taxidermia, mas agora é tarde.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Ida à lavandaria

Saí para ir buscar uns livros à lavandaria. Os tempos modernos são assim. Encomendam-se livros online, escolhe-se um sítio onde se podem ir buscar e vai-se lá levantá-los. Antes de termos atingido este grau de modernidade, íamos aos correios e cumpríamos um denso e complicado ritual até termos na mão aquilo que era nosso. Agora, neste tempo em que tudo foi dessacralizado, pode-se fazê-lo na lavandaria ao lado de casa, o que é uma vantagem muito grande. Ficamos certos de que os livros vêm lavados e engomados, prontos a vestir. Também é verdade que já ninguém põe goma na roupa, mas tenho uma certa inclinação para o anacronismo. Quando saí com a encomenda debaixo do braço, a noite tinha caído e na rua havia já vestígios do frio que a partir de amanhã há-de vir da serra para cair sobre os incautos transeuntes. Pego nos livros, cheiro-os, sinto o aroma a asseado. Para ser sincero, dois deles têm um papel reles e é possível que não aguentem muitas idas à máquina de lavar. Quando o mundo começa a trocar as categorias, quando tudo parece fora dos eixos, não sou eu que tenho a sorte maldita de ter de o endireitar. Não há nada como acabar com uma citação de Shakespeare e assim encobrir a funda ignorância que me acomete.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Shift+F7

Chega-se a terça-feira e tudo está perdido. Nessas alturas, tomado por um desvario, quase acredito que seria óptimo crer no bom selvagem, mas logo penso que me falta tempo para conviver com a prolixidade do senhor Rousseau e passo à frente. Da janela avisto um bando de adolescentes. Não disfarçam o selvagem, mas esquivam-se a mostrar a bondade. Já estão corrompidos pelo processo civilizacional, admito. Agora deixo mesmo o genebrino em paz. Tenho uns documentos para concluir, mas sempre convivi não sem beatitude com a procrastinação. Alguém me segreda não guardes para amanhã o que podes fazer hoje. Ah essas memórias vindas do passado são insolências que se intrometem para impedir uma vida feliz. Também o thesaurus do word deu em protelar. Com a palavra a substituir seleccionada, bem carrego no Shif+F7, mas nada se move, deixando-me desolado na minha ânsia de trocar o vocábulo amaldiçoado. Se pudesse também me seleccionava, carregava em Shift+F7 e ficaria à espera de um sinónimo que me servisse melhor do que o original, mas nem para isso estou apto. O céu está cinzento, respiro devagar e vejo o tempo a escorrer. Pressinto a glória do futuro, esse momento em que estaremos todos mortos, e rio como se riem os loucos.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Zé ninguém

Acordei com uma ideia que não me abandonou até agora. Não há grandeza maior do que ser nada, não ter nome, ser ninguém. Terá sido um mau sonho ou terei acordado com os pés de fora. Ao ouvir a algaravia vinda da rua, rio-me da ideia ou de mim, que não serei mais que uma ideia. Toda a gente quer ser alguma coisa, até o maior dos colectivistas ama a colectividade para lhe impor o seu nome. Se a vida fosse uma cartuxa ou uma trapa, haveria menos ruído e qualquer zé ninguém não seria mais nem menos que um zé ninguém. De súbito, descubro que num mundo onde toda a gente é alguém o melhor é ser um zé ninguém. Por vezes, sou levado a dizer coisas com que não concordo, mas não está nas minhas mãos ser dono das palavras que escrevo. Poderia acabar com uma injunção bíblica do tipo quem tiver ouvidos, oiça!, mas não acabo, pois ainda não é chegado o tempo.

domingo, 10 de novembro de 2019

Nostalgia de domingo à tarde

Há pouco tive de passar por um dos supermercados de origem alemã que existem por aqui. Fiquei espantado com a quantidade de pessoas que falavam uma língua que não sei se era russo ou ucraniano. É possível que uns falassem uma e outros, a outra, mas aos meus ouvidos a musicalidade era a mesma. Imaginei que combinassem encontrar-se num sítio daqueles para sentirem estar perto do lugar onde nasceram, criando por instantes uma ilusão que lhes suavizasse a nostalgia das terras do norte. Talvez fosse apenas um mero acaso, irrepetível, fruto do dia triste e chuvoso que desabou sobre a cidade. Os domingos são sempre tristes nas pequenas cidades de província. E ao dizer isto também eu fui tocado pela nostalgia do tempo em que esta cidade era uma vila. Essa designação era justa e nela havia uma nobreza reforçada pela história. Se eu vivesse agora nas terras frias da Ucrânia e da Rússia, também iria a um supermercado para ver se alguém falava a minha língua, para poder recordar-me do pequeno rio que, sob o olhar apaziguado das torres do castelo, atravessa a avenida, numa caminhada solta até se afogar no Tejo. A noite bate-me à janela e eu recebo-a como se recebesse a dádiva de um deus.