sábado, 15 de agosto de 2026

Palavras

Sim, disse ela / e aquele sim como que se afundou dentro de mim, sim, foi quase como se eu tivesse engolido a palavra e ela se me tivesse cravado no estômago. Nada disto me pertence. Foi Jon Fosse que o escreveu em Vaim. Então, o que faz isso neste local? Haverá muitas razões. Umas plausíveis, outras nem por isso. Talvez a mais óbvia seja uma razão de gosto. Gostei do excerto e decidi, em modo de citação, apropriar-me dele. Contudo, pensando bem, nem gosto assim tanto daquelas frases. Há outras de gosto mais, muitas outras, para ser claro. Gostei, porém, de três imagens que dançam naquele texto. Palavras a afundar-se dentro de mim, engolir palavras, palavras cravadas no estômago. Assim, posso pensar nas minhas palavras a afundar-se dentro de mim, como pequenos veleiros a afundarem-se no oceano. Se essas palavras se combinam num texto, então são como grandes transatlânticos a soçobrar num mar agitado e frio. A outras palavras, eu engulo-as, como se fossem pílulas para a insónia. Durante a noite, perante a resistência do sono em tornar-se presente, levanto-me, tomo uma mão-cheia de palavras e engulo-as. Depois, adormeço e acordo estremunhado. Outras palavras, as mais perigosas e as mais dignas de estima, são punhais. Cravam-se-me no estômago e dilaceram-me. São palavras trágicas e permitem-me fingir que a vida é uma tragédia, embora a vida seja apenas vida, e as palavras sejam apenas palavras. Já eu não sei o que sou, mas conheço um bom número de palavras que rasgariam o mundo ao meio, sem que alguém o pudesse cerzir. São palavras terríveis. Guardo-as dentro da caixa e ofereço-as a Pandora.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Trauma

O tempo, por aqui, ainda não recuperou do trauma do eclipse. Mantém-se cinzento, sombrio, carregado de maus pensamentos e de dores que dificilmente esconde. Para os homens, os eclipses são actualmente apenas fenómenos astronómicos, um evento calculável pelas regras da física. Não o temem, fazendo dele aquilo que fizeram da sua vida: um grande espectáculo. Contudo, os elementos, entre eles o clima, são fiéis às antigas tradições e agem em conformidade com elas. O que haverá de mais perturbador do que essa experiência de o Sol, a fonte de vida, poder ser apagado, nem que seja por instantes, pela Lua? Quem sabe se esse apagamento momentâneo não é o sinal do que há-de vir? Enquanto os homens contabilizam o prazer do acontecimento, esses velhos elementos sofrem ainda com aquilo que aconteceu e que, de um momento para o outro, se pode tornar eterno. Está uma tarde crepuscular.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Da história

Pertence a George Steiner a frase para que a “ideia de Europa” não se afunde nesse grande museu de sonhos passados a que chamamos história. Não me interessa, de momento, a ideia de Europa, caso exista tal ideia. Foi outra coisa que me chamou a atenção, a benevolência com que o autor trata a história: grande museu de sonhos passados. Sim, Steiner pretende ser irónico. Não com a história, mas com os sonhos. Entende-se não poucas vezes por sonho, no contexto da história, ideias benevolentes que nem o espaço nem o tempo admitiram. Contudo, se a história é um museu, e um museu onírico, o que se expõe nele são os pesadelos, mas aqueles que se vivem em plena vigília. São de tal maneira vivos, que quem passa por eles perde o sono e pede que o fim chegue depressa e, se possível, indolor.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Amor e grafia

Comecemos uma história de amor de uma inusitada forma: tachibana no / kagoto gamashiki / awase kana. Isto não é nenhuma língua inventada por este narrador desocupado, mas a transcrição em Rōmaji (no alfabeto latino) de um haiku japonês, de Yosa Buson. A tradução em português, de Joaquim M. Palma, é a seguinte: a túnica de linho / traz com ela / a história de um velho amor. A tradução do poema é acompanhada por uma nota do poeta: Alguém me enviou uma túnica com um recado no seu interior escrito por uma mulher que amei há muitos anos. Um ocidental interessar-se-á menos pelo registo de uma emoção do que pelo conteúdo do recado. O que escreveu aquela mulher que foi amada há muitos anos pelo poeta? A verdade do acontecimento parece fora do haiku, ela está oculta. O fundamental é desocultá-la. Ora, o poema apenas a insinua, e essa insinuação ainda é uma forma de a esconder. Talvez o poeta tenha sentido isso mesmo, quando decidiu deixar uma nota junto ao poema. A túnica traz a história de um velho amor, e o recado escrito pela mulher, que diz ele? Pedi a um Modelo de Linguagem que transcrevesse o texto para caracteres japoneses. O que recebi de volta foi isto: 橘のかごとがましき袷かな.Não sei se está correcto ou não. Sei apenas que é uma caligrafia belíssima. Quem quer saber da verdade, se pode escrever assim?

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Preguiça

Uma pilha de livros acumula-se em cima de uma mesa que, por estes dias, faz de secretária. A explicação para o acumular é simples: preguiça. Esta parece ser um vício terrível, um pecado capital. Um pecado é capital se for a cabeça (de caput, em latim) de um corpo composto por outros pecados, uma infinidade deles, tantos como os órgãos de um corpo, ou mesmo tantos quanto as células que o compõem. Temos assim, no campo da pecaminosidade, apenas sete cabeças, o que significa que o poderoso exército que arrasta o pobre homem de queda em queda é composto por apenas sete militares, intrépidos, sempre actuantes. Observo aquele que agora me acomete, impedindo-me de arrumar os livros que amontoei, e não consigo perceber como é que a preguiça é a cabeça de coisa alguma, quanto mais de um corpo pecaminoso. A verdade é que, originalmente, esse pecado não era a preguiça, mas a acédia, uma indiferença espiritual, uma melancolia metafísica. Isso sim, um verdadeiro pecado em forma de cabeça. Talvez isso fosse difícil de explicar ao corpo dos fiéis e, lentamente, para facilitar a compreensão, o pecado foi ele mesmo caindo de estatuto, até chegar a essa coisa mole e viscosa que é a preguiça. Tenho também uma explicação mais social e política. Com o desenvolvimento do capitalismo na era moderna, o trabalho, que sempre tivera má imprensa, passou a ser uma virtude que os indivíduos deviam ostentar. O problema eram os preguiçosos. Para os pôr na ordem, eliminou-se a acédia, assunto de monges do deserto e de intelectuais de mosteiro, e decretou-se a preguiça como coisa que podia levar a alma a arder por toda a eternidade. Quando sofro de preguiça, a única coisa que me apetece é ser preguiçoso, abrir a boca e bocejar, sentar-me sem a menor intenção de mexer uma palha. Não me sinto tentado a nada, nem a cometer pecados veniais. Talvez fosse boa ideia repor as coisas no devido lugar, até porque um preguiçoso não é agente da sua preguiça. Ele sofre-a, não a produz. Chega por hoje. A preguiça impede-me de escrever. Acho que vou sair e beber uma cerveja num bar de praia.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Inconformados

Foi numa obra do antropólogo Edmund Leach, Cultura e Comunicação, que encontrei a seguinte ideia: Uma frase (musical), um movimento e a sinfonia no seu conjunto constituem para o ouvinte sensível, um sistema de unidades interligadas. Pode demorar uma hora a execução completa, mas a mensagem é veiculada como se tudo tivesse ocorrido em simultaneidade. Parece haver uma tensão entre a processualidade objectiva e a simultaneidade semântica subjectiva. Vou tentar mergulhar neste mar tenebroso dos conceitos. O pior que pode acontecer é afogar-me. Os processos que produzem coisas, entre estas, o próprio sentido, são temporais. A sinfonia, desde a primeira frase do primeiro movimento até à sua conclusão pode demorar mais de uma hora. Estrutura-se no tempo. Assim que soa o primeiro acorde, está instalado um passado, um presente e um futuro. Ora, este esforço na duração visa, como diz Leach, a simultaneidade. Esta é uma espécie de aniquilação, por homogeneização, do tempo. Dito de outra maneira, somos seres temporais, mas há em nós uma inclinação para a sua abolição. Seja nesta ideia de simultaneidade, seja na ideia de eternidade, seja na de imortalidade. Nunca nos conformamos com o simples facto de sermos seres temporais, embora a possibilidade de nos afogarmos, nem que seja num mar de conceitos, seja a prova dessa nossa temporalidade.

domingo, 9 de agosto de 2026

Provincianismo ontológico

Há pouco, a propósito de já não sei o quê, pensei que estávamos a 10 de Agosto. Prossegui o raciocínio, imagino que um raciocínio prático, fundado nessa convicção. Agora que escrevo, descubro que estava enganado. Afinal, estamos a nove desse mesmo mês. Qual o motivo do equívoco? Procuro bem dentro do meu espírito e só encontro um, o tédio do Verão e a nostalgia do Outono. Bem, afinal são dois motivos, embora ligados pelo sentimento. Os domingos de praia são tão soturnos como qualquer domingo numa pequena cidade de província, e em Portugal todas as cidades, mesmo as maiores, são pequenas cidades de província. Mesmo a capital que, enquanto se dá ares cosmopolitas ao encher-se de turistas estrangeiros em busca do pastel de nata, se torna mais e mais provinciana. Eu não deveria estar a lastimar-me do provincianismo pátrio. Não sou um cosmopolita, não sou um cidadão do mundo. Sou o mais provinciano dos provincianos, que nunca o deixaria de ser mesmo que tivesse nascido e vivido toda a vida na mais cosmopolita das cidades, caso exista alguma. Ser provinciano como eu o sou, não é uma questão cultural, de educação, de pertença social, o que quiserem. É uma natureza, uma questão genética. Todos os meus genes são provincianos, embora detestem os domingos nas cidades de província e nas praias para onde a província foge aos domingos de Verão. Aliás, o domingo também nasceu com genes provincianos. Só o Outono não é provinciano, embora também não seja cosmopolita. Como posso provar as últimas afirmações? Não posso, como aliás não posso provar qualquer afirmação que faça. Não sou um procurador que tenha de provar, perante meritíssimos juízes, qualquer acusação. Aliás, não passo de um narrador cansado da sua narrativa.

sábado, 8 de agosto de 2026

Abdico, não abdico

Acordei estremunhado. Sim, deitei-me depois de almoço, para evitar adormecer sentado e acordar com uma má-disposição insuportável. Deito-me e leio um pouco, pensei. Logo me levanto e economizo o tempo de uma sesta com uma leitura. O pior é que o corpo não me obedece. Ordeno-lhe uma coisa, ele, de imediato, faz outra. Não li uma linha, mas tive direito a uma sessão de sonhos, imagino que extraordinários, pois o estremunhamento que me atingiu deve ter vindo de algum lado. Inocenta-me neste processo, mais uma vez, a autonomia do corpo em relação à vontade. Não lhe ordenei que sonhasse, mas ele, talvez com saudades de ir ao cinema, decidiu oferecer-se uma sessão gratuita. Devia ir fazer uma caminhada, mas está um calor pegajoso, que nem o meu corpo nem eu estimamos. É triste chegar a esta idade e constatar que nada nem ninguém me obedece. Talvez seja essa a razão por que há pessoas que, chegadas a onde cheguei, adquirem um cão de companhia. Têm esperança de que ele lhes obedeça. Depois vêm para a rua passear o animal e dar-lhe ordens, só para manterem um imaginado estatuto social de autoridade. Nunca acontecerá comigo. Prefiro ser como um rei que abdica. Entrego o trono, outro que dê ordens no meu lugar. Duvido, porém, que esta seja uma boa ideia. Se entregar o comando ao meu corpo, não sei se ele será suficientemente astuto para não me pôr a fazer figuras tristes. Tenho de pensar mais demoradamente no assunto da abdicação. Sobre o clima, já desisti de lhe dar ordens. Também não me ajoelho para lhe fazer orações peticionárias, nem, em contrapartida, uma acção de graças. Sofro o que ele me enviar. Devo, agora que penso no assunto, preservar, por mais algum tempo, a ilusão de que ainda posso comandar o meu corpo. A vida seria impossível sem ilusões e fantasias.

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Um espírito humilde

Simone Weil, segundo Georges Steiner, seria, entre os grandes espíritos femininos, aquele que é mais evidentemente filosófico, o que está familiarizado com a abstracção especulativa. Ora, nisto reside um equívoco. Nem a especulação, nem a abstracção, nem, tão pouco, a síntese das duas são suficientes para produzir um espírito filosófico. Eu posso especular sobre abstracções como o livre-arbítrio, a existência de Deus, a imortalidade da alma, a sociedade justa, sem que em momento algum me eleve à filosofia. Considere-se o seguinte aforismo: “Deus é a totalidade presente sob a forma de uma alteridade ausente.” É um proposição abstracta e especulativa, mas estamos longe de estar perante um exercício filosófico. Para tal, seria necessário que se desenvolvesse uma argumentação para fundamentar e tentar provar a verdade da afirmação, coisa que não se faz. A filosofia não é um exercício literário ou uma colecção de máximas e aforismos, por interessantes, abstractos e especulativos que sejam. É no Fédon que Platão faz dizer a Sócrates que os poetas compõem ficções, os filósofos, argumentos. Isto não significa que máximas e aforismos não sejam interessantes e merecedores de meditação. Significa, antes, que a filosofia é um espírito mais humilde, um espírito que se obriga a dar razões que justifiquem as afirmações que propõe, e que o faz de forma que outros as possam avaliar. A proposição referida acima, apesar de abstracta e especulativa, tem a forma de uma afirmação dogmática, na qual se crê ou não, mas está longe de ser filosófica.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Omnividência

No quarto poema do ciclo Sete Pinheiros, do livro Velas de Ignição, de Durs Grünbein, o quarto e último verso da primeira estrofe fez-me pensar na vida privada. A estrofe conta-nos o seguinte: Formigas vacilam no bordo do caminho, / Exércitos de operárias, carregam com esforço / As suas agulhas de pinheiro. / Não há vida privada no seu mundo. Tudo o que se passa nele está exposto à publicidade. Ora, e no mundo dos homens? Por um momento na história da humanidade pensou-se que a vida privada não apenas tinha sido descoberta como teria um valor quase absoluto. Essa preeminência do privado foi, porém, sol de pouca dura. A espécie humana, com a ajuda das redes sociais e do controlo algorítmico, emancipou-se do privado, entregando-se alegre à exposição pública. Talvez neste mundo, e quem sabe se em qualquer outro, não haja lugar para a vida privada. É plausível pensar que a ideia venha da religião. Para Deus, nenhum acto humano é privado, pois Ele tudo vê, tudo sabe. Para Ele tudo é público. Quando os homens de algum modo pretendem substituir Deus, a última característica divina que alienariam seria esse omnividência da vida de qualquer um. A vida privada, na religião antropocêntrica em que se vive, é o maior dos pecados, o verdadeiro pecado contra o espírito, aquele que não será perdoável.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Atribuir estrelas

Há muito, embora já não me lembre quando e em que publicação, instituiu-se um hábito, que se tornou, como acontece com todos os hábitos enraizados, uma segunda natureza. Refiro-me à crítica literária e cinematográfica. Os críticos não se limitam a escrever sobre a obra em causa, como lhe dão uma classificação, através de um sistema de estrelas. De uma a cinco estrelas, embora já tenha visto filmes classificados com uma bola negra, que significa Mau. Há nesta prática uma infantilização que é absurda. Os críticos submetem obras a um sistema de avaliação decalcado do ensino básico, como se essas obras fossem o desempenho de alunos em busca de uma certificação académica, e eles, os críticos, examinadores com uma certificação superior aos examinados. Isto é absurdo e engana os leitores. A autoridade dos críticos é secreta, não se funda em nada que posso ser objectivamente reconhecido. Talvez gostassem de ser professores – um sonho de infância – para submeter os alunos ao jogo do castigo – porta-te bem ou levas uma estrela ou mesmo uma bola – e da recompensa – foste ao meu encontro, pensas como eu, levas cinco estrelas (expressão que me faz sempre lembrar as garrafas de vinho de um litro que antigamente existiam, e que continham uma bebida que estava longe de ser sequer suficiente). A infantilização encontra-se ainda num outro ponto. Qualquer ciência passa por diversas fases e, por analogia aos seres vivos, tem uma fase infantil. Em muitos casos, essa fase é de natureza classificatória, taxionómica. Distribui-se a realidade por classes, segundo certas características. Ao colocar obras de literatura ou de cinema sob classes identificadas pelo número de estrelas, o que se está a fazer é uma taxionomia. Mas é uma taxionomia secreta. Ninguém sabe quais são as características que permitem colocar uma obra em qualquer uma das classes. Isto é o grau zero do pensamento. Mais valia que as obras vítimas da atribuição de estrelas fossem classificadas por sorteio. Não seria mais injusto.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Vida quotidiana

O almoço, um peixe grelhado, acabou por se tornar pesado, vá lá saber-se a razão. O mundo e a vida das pessoas que estão no mundo é um mistério. Aquilo que parece ser uma coisa, olhado de perto mostra-se  ser outra e, caso se insista na redução da distância, ainda se há-de mostrar como uma outra. É uma questão de ponto de vista, de perspectiva de onde se olha. Franzo as sobrancelhas perante a ideia. Não bebi o suficiente ao almoço para me tornar um relativista, cogito com os meus botões. Foram todos para a praia, só eu fiquei preso na solidão, como se vivesse numa torre de marfim. Aqui, porém, não há torres e o marfim tornou-se mercadoria proibida, o que me parece da mais elementar justiça. Queria falar de coisas importantes. Por exemplo, comecei o dia, após o pequeno-almoço, com uma caminhada. A névoa protegeu-me do sol. Depois, cortei o cabelo e a fiz a barba. Pareço um militar. Olhei para o espelho e gostei do que vi. Disse-me: pareces um monge-guerreiro. Fiquei a contemplar a metamorfose, mas não cheguei a nenhuma conclusão metafísica. Disseram-me: é assim que gosto de te ver, mas isto foi apenas um juízo de gosto. Também sobre isso não exarei qualquer sentença. A vida quotidiana é um exercício difícil. Depois de me tornar em monge-guerreiro, fui tomar café e comer uma bola-de-berlim. Sem creme, note-se. Ainda tive medo de que no café me dissessem: templários estão proibidos de entrar neste estabelecimento. Ninguém notou que eu me tinha transformado em monge-guerreiro. A verdade é que eu ia disfarçado. Tinha um panamá – autêntico, note-se – e julgaram que era um turista. Olharam para nós, ia acompanhado pela avó dos meus netos, e em vez de me dizerem que membros das ordens militares não podiam entrar, mesmo acompanhados por senhoras, começaram a falar em inglês. Há duas coisas que me aborrecem neste mundo. Em primeiro lugar, que quando me pareço com um templário, ninguém o reconheça. Depois, acharem que não sou português. Irrita-me. Não fora a gula, objectivada no desejo da bola-de-berlim, e tinha voltado costas. Assim, sentei-me e esperei. O que me intriga, todavia, é a razão de um peixe grelhado se ter tornado uma refeição pesada. Não devia escrever no rescaldo de uma refeição que se tornou pesada. O Verão avança. Mas o Outono, o doce Outono, ainda vem longe.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Um novo contributo

Passo a mão pela cara e penso que tenho de fazer a barba. Depois, esqueço esse imperativo e distraio-me com as notícias do dia, novidades que nunca são novas. Basta raspar-lhes um pouco da carapaça com que se apresentam, e logo se vê o padrão imemorial em que se inscrevem. Ao pensar nisto, ocorreu-me fabricar uma teoria, uma ciência, para sere mais preciso. A tese central é a seguinte: O mundo das notícias é composto por um número definido e finito de padrões, existentes a priori. Cada notícia inscreve-se num desses padrões, uma espécie de actualização empírica. Daqui decorre que é impossível haver em qualquer notícia algo de absolutamente novo, nem mesmo de um pouco ou quase nada de novo. Uma antiga intuição desta teoria encontra-se no Eclesiastes, capítulo 1, versículo 9: O que foi tornará a ser; o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do Sol. Contudo, isto é uma mera intuição, uma suspeita ainda não elevada à dimensão da Ciência. É esta a minha tarefa no dia que corre. Elevar à cientificidade aquilo que foi intuído como sabedoria popular. Existe, porém, um problema. Os padrões existem a priori, contudo nós não os conhecemos desse modo, não basta consultar a razão pura para os descobrir. Há que investigar naquilo que se noticia o padrão imutável a que obedece. É por isso que estamos no domínio da ciência e não da filosofia. Perguntar-se-á a razão que levou este narrador a descobrir tão importante campo epistemológico no dia de hoje, 3 de Agosto. Uma razão meteorológica. Ia sair, mas estava a chover – estou a dizer a verdade. Como não tinha nada para fazer, pus-me a criar uma ciência para ajudar a humanidade a não abrir a boca de espanto perante acontecimentos que surgem como novidades. Não, eles não são mais do que a repetição de padrões eternos. Também podia ter feito a barba, talvez fosse esteticamente mais relevante, mas perderia uma oportunidade para dar mais um contributo benevolente e pro bono para o conhecimento e, como consequência, para o desenvolvimento da espécie a que me fizeram pertencer.

domingo, 2 de agosto de 2026

Na falta de ocorrências

Um poema, Vazio Interior, do alemão Durs Grünbein, começa com um terceto irónico: Sempre que nada me ocorre, escrevo uma fuga, / Diz Giuseppe Verdi. E o que faz Tchaikovsky? / Eu penso nos meus honorários. Assim se acumulam notas. A estrofe seguinte, uma oitava, sem rima nem metro, no primeiro verso, expõe o que faz o poeta, se nada lhe ocorre: Sempre que a mim nada me ocorre, lavo a loiça. Não é apenas a Verdi, a Tchaikovsy e a Grünbein que nada ocorre. Conheço uma mulher, das mais interessantes que conheci, que, ao sofrer uma insónia e nada lhe ocorrer para a derrotar, levanta-se e põe-se a passar a ferro, mesmo que tenha quem o faça por ela. Ora, também a mim, pobre narrador, há momentos, quase todos, em que nada me ocorre. Não sei escrever fugas, nem o meu pensamento se inclina para os honorários. Para a loiça, existe uma máquina, com vários programas, que a lavará melhor do que eu o faria. E quanto a passar a ferro, que isto me seja perdoado, não tenho inclinação para o trabalho doméstico. Fico assim desarmado perante essas horas sem fim em que nada me ocorre. Minto, como é habitual. Quando nada me ocorre, escrevo um texto que publico aqui. Um post, por lamentável que seja, é a minha fuga, a meditação sobre os meus honorários, a maneira como lavo a loiça, ou a roupa que passo nas horas em que nada me ocorre. Não me redime, mas evita-me esses trabalhos e pensamentos dolorosos para os quais a herança genética não me programou.

sábado, 1 de agosto de 2026

Primeiro dia de Inverno

Saí manhã cedo para caminhar. No percurso, lembraram-me de um velho ditado desta zona: primeiro de Agosto, primeiro de Inverno. É possível que se esteja perante uma hipérbole, mas convém não esquecer que a hipérbole é uma lente de aumentar. Exagera a realidade para mostrar aquilo que ela é. E nesse momento parecia estar em pleno Inverno. Uma atmosfera sombria e uma temperatura que não era a de Verão. Encolhi os ombros e pensei que não seria o Inverno propriamente dito, mas antes a minha estação preferida, o Outono. E foi sob uma atmosfera outonal que fiz o exercício. Em Agosto, virão dias estivais, mas o Outono há-de estar não poucas vezes presente. Haverá mesmo um ou outro dia vivaldiano, em que as quatro estações se sucederão em poucas horas. Não haverá, claro, dias de neve, nem frio avassalador, mas isso é coisa que nunca existe por estes sítios. Começarão, porém, a cair as primeiras folhas, numa anunciação do Outono, estação que mereceria uma Sagração como Igor Stravinsky compôs para a Primavera.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Afirmação de Si

Há dias, fui trocar Os Anéis de Saturno, de W. G. Sebald, recebido como presente. Já existia um exemplar na biblioteca cá de casa. A escolha foram dois romances que têm em comum serem criados por mulheres e de pertencerem a literaturas não ocidentais. A escolha recaiu em A Vegetariana, da sul-coreana Han Kang, e As Noites Frias da Infância, da turca Tezer Özlü. A primeira reflexão que, então me ocorreu, quando tomei consciência da nacionalidade das autoras, foi sobre o poder que o romance moderno, uma criação ocidental, tem para penetrar em muitas outras culturas. Isso mostra que esta espécie literária responde a uma necessidade universal da humanidade. Essa necessidade não é apenas de narrar histórias, mas de dar uma atenção especial à agência autónoma dos indivíduos, de os singularizar. Podemo-nos aventurar na especulação e afirmar que, apesar de muitas culturas serem ferozmente comunitárias e, de certo modo, inimigas da afirmação da subjectividade individual, os seres humanos trazem em si uma inclinação para se afirmarem na sua diferença em relação aos outros e ao todo. O romance moderno, nascido com o Quixote, de Miguel Cervantes, é uma resposta artística a essa inclinação para a valorização da subjectividade. Não poucas culturas tentam sufocar, com êxito maior ou menor, a afirmação de um eu autónomo. Contudo, a existência de uma literatura romanesca nas mais diversas áreas culturais manifesta que a ânsia de afirmação da subjectividade não constitui uma peculiaridade ocidental, mas antes um desejo universal, cuja consciência os ocidentais, por influência do cristianismo, terão sido os primeiros a explicitar.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Mapas e territórios

Tenho, neste dias de Julho, saltitado de romance em romance, mas devo ter encontrado um poiso seguro. Por poiso seguro quero dizer um romance que me apetece ler até ao fim. Trata-se de O Mapa e o Território, de Michel Houellebecq. Foi este que venceu a corrida para alcançar a meta da minha atenção. O título é, já por si, um elemento que mereceu o meu favor. Aparentemente, teríamos uma relação entre a representação, o mapa, e a coisa representada, o território. Contudo, a ideia principal, ainda por confirmar, estará num outro tipo de relação. O mapa, o melhor será dizer os mapas. Estes são as produções humanas e estas estão fadadas a tornarem-se representações de territórios que já não existem. Esta ideia remete de imediato para uma peculiaridade da vida contemporânea: tudo o que se faz traz em si a marca da sua obsolescência. Não são apenas os dispositivos que usamos, mas também a arte que praticamos, as políticas que são levadas a efeito, as crenças que abraçamos. Todos eles são mapas para uma realidade que já deixou de existir. Esta ideia, todavia, já estava presente em Hegel. Não se referia a todas as actividades humanas, mas àquela que estaria no cume dessas actividades, a filosofia. A frase, uma das mais célebres frases do filósofo alemão, diz: A ave de Minerva só levanta o voo ao romper do crepúsculo. A ave de Minerva é a filosofia. Esta só conhece aquilo que foi. É um saber crepuscular. Dito de outra maneira, a filosofia é um mapa de um território que já não existe. A ideia mais forte, tanto do romance de Houellebecq como do pensamento hegeliano, reside num outro lugar. Não temos qualquer mapa nem para o presente nem para o futuro. A vida não é uma representação, embora estejamos condenados a construir mapas para apaziguar em nós o medo que ela nos infunde.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

O sonho dos guerreiros

Encontramos em diversas sociedades pré-modernas quatro grandes orientações de vida humana. A mais elevada é a que conduz à busca da verdade. A segunda está orientada para a glória. A terceira centra-se na riqueza. Por fim, a mais baixa tem por objectivo os prazeres sensoriais. É ainda esta divisão que de alguma forma se reflecte na hedonismo de Stuart Mill, ao dividir os prazeres em superiores e inferiores, sendo estes os que homens e animais não racionais partilham. A glória é o objectivo perseguido pelo guerreiro, que a atinge através da coragem. Foi ela, durante muito tempo, o motor da história. Nos diários de viagem do grande poeta japonês Matsuo Bashô (1644-1694), encontramos a revelação da inutilidade dessa busca. Numa entrada desses diários, o poeta escreve no início: A glória de três gerações de Fujiwara desvaneceu-se como o sonho de uma noite. Os restos da entrada principal da mansão estão a um li de distância do conjunto das ruínas. A residência de Hidehira converteu-se num matagal e só resta em pé o monte Kinkei. A glória militar não passa de um devaneio onírico. A sua grandeza transforma-se num matagal. Bashô cita o poeta Du Fu: países são arrasados / os rios e as montanhas permanecem… / entre as ruínas do castelo / a primavera renasce  / e reverdecem as ervas. Tanto a prosa de Bashô como a poesia de Du Fu contrapõem a efemeridade da glória à permanência da natureza. É provável que ambos os poetas contrapusessem a vida que busca a sabedoria e a vida orientada para a glória. O mundo, porém, transformou-se, a glória militar soçobrou perante a busca da riqueza. A queda da glória não é um facto consumado. Durante o século XX, a glória guerreira foi mobilizada para levar a cabo grandes e inúteis devastações. Contudo, o que estava em causa não era a velha glória guerreira, mas interesses e pulsões mais baixas. Assistimos neste momento, com o primeiro quartel do XXI consumado, a um retorno ao espírito guerreiro e a uma cultura da glória. É uma farsa, mas esta não deixa de ser real. Um desejo de guerra e uma de busca da glória começam a desenhar-se nas pulsões de muitos adolescentes e jovens do sexo masculino. Fariam bem em meditar o haiku que Bashô escreveu perante a ruína da glória de três gerações de Fujiwara: ervas do estio / eis tudo o que resta / do sonho dos guerreiros.

terça-feira, 28 de julho de 2026

Parte relaxada

Uma revolta lombar, ouvi falar em lombalgia, decidiu levantar-se contra mim. Sem piedade. Dos colírios usados, consta um relaxante muscular. Resultado: imagino que os músculos se relaxem, pois todo o resto está relaxado. Em primeiro lugar o cérebro. A velocidade das sinapses reduziu-se assustadoramente, de tal maneira que estão proibidas de entrar na auto-estrada, mesmo que seja para andar só na faixa da direita. Ligar duas ideias é um esforço desmedido, e se escrevo o que estou a escrever é porque os efeitos do medicamento começam a moderar-se, depois de ter passado algumas horas numa sesta, onde não tive direito a sonhos, devaneios ou rêveries. A minha vontade é levar os responsáveis a tribunal, mas temo que o processo se arraste tanto tempo que, no momento do julgamento, nem lembre do que aconteceu. Uma parte do corpo que pede relaxantes só pode ser, apesar das aparências em contrário, uma parte relaxada.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Um elástico

Tenho de me despachar, penso ao sentar-me para escrever. Lisboa espera-me e não me apetece levar a parafernália que utilizo para a escrita destes textos. Só escrevo em computador. Um portátil, mas ligado a um monitor de 24 polegadas. Manipulo o tamanho do texto conforme me apetece, mas é desconfortável para levar em viagem. Ia para dizer uma mentira. Ia descrever o terror que me assola se o texto sai com algum erro, mas não sinto qualquer terror, apenas um leve incómodo se descubro alguma coisa que não devia estar lá. Após a escrita, faço uma revisão, mas demasiado apressada e sem a distância suficiente para não ler o que não está lá. Por vezes, as frases saem desagradáveis, constato-o, se leio o texto passado algum tempo. Paciência. Também não sou todos os dias uma pessoa agradável. Será que serei em algum? Isso não vem ao caso. Estou a arrastar o texto e não tarda estão-me a perguntar se demoro muito. Claro que não, não demoro muito, respondo sempre, mas vou demorando, esticando o tempo, como se ele fosse um elástico. Como um elástico, ele solta-se das mãos e atinge-me na cara. São coisas que acontecem. Tenho de me despachar, mesmo. O tempo já esticou o que tinha de esticar.

domingo, 26 de julho de 2026

As coisas belas

Está em exibição o filme Leibniz – Crónica de uma Pintura Perdida, de Edgar Reitz. Do realizador, apenas vi Heimat, mas, as três séries (na verdade um único filme), e os dois filmes realizados posteriormente, mas anteriores, no tempo da narrativa, às séries, contabilizam dezenas de horas. Ainda não vi o filme e não sei se tenho espaço temporal para o ver nestes dias. As reacções dos espectadores – aquelas que surgem como comentário num jornal – são absolutamente extremadas. Uma pessegada ou de fugir a sete pés, por um lado, e belíssimo filme ou um filme tão denso e intenso. Esta dissensão entre os espectadores não é uma questão de gosto. Ela nasce da equivocidade da palavra cinema. Esta designa tanto o entretenimento industrial, mais ou menos conseguido, como uma das artes contemporâneas, com a respectiva complexidade e exigência de uma educação quase formal. Os espectadores disponíveis para os dois ramos do cinema não são, na maioria dos casos, os mesmos. Uns procuram a insustentável leveza do ser, enquanto outros anseiam por qualquer coisa que sustente e confirme o mundo em que vivem. Quando isso não acontece, a decepção é grande. Não compreendem, nem compreenderão, a frase platónica: as coisas belas são difíceis. Insustentavelmente difíceis, acrescento eu.

Actualização: Afinal, o filme já não está em exibição. Sou um anacrónico. Além, disso, vejo mal ou não vejo. Terá chegado aos ecrãs nacionais em finais de Maio, mas já se evaporou.

sábado, 25 de julho de 2026

Efeitos do tempo

Li há pouco um poema de Georg Trakl, Primavera da Alma I, uma composição com cinco quadras. Depois de ler e de reler, fiquei a pensar no mundo que suportava aquele poema, pois todos os poemas se enraízam num mundo. Ora, esse mundo acabou. Não voltará. Também não será possível escrever o que está na quarta quadra: Renascem o pão e o vinho, / É mágico o som do órgão; / E envolve a cruz da Paixão / Um misterioso brilho. Tudo isso se tornou desconhecido, pois o enraizamento dessas palavras foi desfeito pelo passar do tempo. Sim, podemos culpar o progresso técnico, mas isso será um desvario de uma mente que se perdeu no caminho. O progresso técnico é apenas um agente do tempo, ao qual não faltam funcionários. Executa ordens, não as concebe, não as dá. Ora, pensamos que somos nós, seres humanos, que transformamos o mundo. Isso, porém, é uma ilusão. É o tempo. É habitado por uma inquietação tal que não apenas está sempre projectado para o amanhã, como sente necessidade de desfazer o que estava feito. Por isso, não podemos falar como falavam os nossos bisavós, nem avós, tão pouco como os nossos pais. E se alguém espera que filhos e netos falem como ele fala, então vive numa perfeita ilusão. O tempo torna estranho o idioma que parece o mesmo e é designado da mesma maneira. Não vivemos nem no mundo dos nossos pais nem dos nosso filhos, por isso falamos línguas diferentes de ambos. Não damos por isso, porque transportamos sempre connosco um tradutor automático. Não é infalível. Daí haver, não poucas vezes, entre pais e filhos, tal incompreensão que parecem estrangeiros uns aos outros. Também os tradutores automáticos sofrem os efeitos do tempo.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

O dia de hoje

No dia de hoje, mas de 1833, o duque da Terceira, ao comando das tropas liberais, fez a sua entrada triunfal em Lisboa, depois de derrotar as tropas miguelistas, na Cova da Piedade. Também a 24 de Julho, mas agora de 1921, nasceu o tenor italiano Giuseppe Di Stefano. Aliás, recebi a informação logo de manhã, quando no carro ia escutando a Antena 2. Contudo, há que pôr as coisas no seu lugar. O primeiro Di Stefano de que tomei conhecimento chamava-se Alfredo e tinha um acento no e, o que fazia dele Di Stéfano. Era argentino. Pertence à minha memória futebolística, como um dos jogadores míticos do grande Real Madrid, que antes dele chegar da Argentina não era assim tão grande. Claro que não me lembro dele jogar, mas do nome. Ele, diga-se, não devia fazer parte deste texto, pois nasceu a 4 de Julho e não a 24, mas a quase homonímia com o tenor italiano trouxe-o até aqui, e não vejo razão para o expulsar. Podemos discutir quem terá sido maior, se o italiano na Ópera, se o argentino no futebol. Vivemos num mundo dominado pelo totalitarismo da avaliação, onde existem métricas para tudo. Para tudo, mas não para o essencial, como é saber qual dos dois foi o maior no seu campo. Seja como for, tendo em conta o dia, a minha preferência vai para o Duque da Terceira, embora este tenha nascido a 18 de Março. Parece ser uma opção política, coisa que me está interdita. Contudo, um acontecimento político com quase 200 anos não é um acontecimento político, mas um fenómeno natural. Por exemplo, a Revolução Francesa, na sua época e durante muito tempo, foi considerada um fenómeno político, e ainda há quem assim pense. São pessoas anacrónicas, submersas pelas paixões do passado. A Revolução Francesa, vista daqui, ano de 2026, não se distingue da passagem de um cometa, da erupção de um vulcão, de um eclipse do Sol ou de um terramoto seguido de tsunami. Tudo fenómenos naturais. Também o 24 de Julho se tornou um fenómeno natural, um pequeno vendaval, em memória do qual se deu o nome a uma avenida de Lisboa. Devia procurar uma ópera com o Di Stefano e a Maria Callas, a Lucia di Lammermoor, por exemplo. Pensando melhor, vou procurar no YouTube o jogo da final da Taça dos Campeões Europeus de 1961/62, em que o Benfica de Eusébio ganhou 5-3 ao Real Madrid de Di Stéfano. Uma escavação arqueológica.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Um desacerto

Acabei de passar os olhos pela imprensa diária. Os olhos, pobres deles, bocejaram e disseram-me: não me podes oferecer novidades realmente novas? Contemplei-os e respondi-lhe: não há nada de novo sob o Sol. Eles encolheram os ombros e retrucaram: então por que nos submetes a esta tortura diária de ver as novidades que nunca são novas. Porque, respondi-lhes, não suportariam novidades efectivamente novas. Nem eles, nem eu, mas esta confissão foi omitida. Devo manter algum prestígio perante os olhos, mesmo que sejam os meus. Tenho uma tarefa para realizar com urgência, mas não tenho paciência para o que é urgente, nem vontade de realizar o que devo realizar. A vida é um desacerto. Quando tenho paciência para o urgente, não existem urgências. Quando tenho vontade de realizar qualquer coisa, não há que fazer. Não sei se já sonharam semiacordados. Depois de almoço, acontece-me não poucas vezes. O sonho repete-se, não sem prazer, confesso. Sonho com uma certa mulher, não como ela é agora, mas como seria neste momento se tivesse dois terços da idade que tem, sendo quem é, mantendo o mesmo nome, a mesma identidade, o mesmo tom de voz, o mesmo olhar. Ao escrever dois terços constato que o sonho terá uma natureza matemática. Sim, é um sonho matemático, no qual os meus olhos se confrontam com uma novidade que nunca viram, mas que desejam ver e, de certo modo, vêem, através do expediente de um número fraccionário. O que me atormenta, porém, é não saber se aquilo que eles vêem – sim, um corpo desejável e, por que não dizê-lo, desejado – é visto quando eles estão acordados ou quanto estão adormecidos. Estes estados intermédios mergulham-me numa penumbra da qual não sei como sair, logo eu que sou um adepto de ideias claras e distintas. Não sei, por isso, a quem devo repreender. Se aos meus olhos, se aos meus sonhos semiacordados. A mim não, por certo, pois eu sou um mero paciente: sofro os desmandos. Ora dos meus sentidos, ora dos meus estados oníricos. Não tenho mão neles. Caso tivesse, punha-os na ordem. Vou ler o jornal ou, talvez, sonhar semiacordado, mesmo que os dois terços sejam eliminados e o objecto do sonho se apresente com a idade que tem, na sua mais pura unidade.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

O declínio de um resistente

Um almoço de sardinhas acompanhado, claro, por um tinto. O resultado foi uma sesta, mas uma sesta a sério, deitado na cama, a ressonar, imagino. Não é que nos outros dias o sono, depois de almoço, não me tente, e eu não me deixe cair na tentação. Mas não chego ao que cheguei hoje. Sento-me, de preferência à frente do computador, e vou adormecendo e acordando. Isto recordou-me a longínqua infância e o pesadelo das tarde de Verão. Lá por casa, entendia-se que dormir a sesta era uma coisa muito saudável, o que tornou a sesta um imperativo. Podia ser, de facto, um imperativo, mas era, para mim, uma tortura. Não dormia, e o tempo passava tão devagar que cada minuto parecia-me uma hora. Depois, o imperativo foi-se tornando em facultativo, o que trouxe rapidamente a abolição dessa escravatura ao que é saudável, à malfadada sesta. Nisto, vejo-o agora, havia em mim a resistência portuguesa à espanholização dos costumes. Sestas só para lá da fronteira. Em Elvas devem ser proibidas, em Badajoz, obrigatórias. Hoje, sinto-me como um velho resistente à ditadura castelhana da sesta, militante que, sem ceder nos princípios inimigos da sesta, cede na prática à nefasta influência dos hábitos daqueles que vivem do outro lado da fronteira. E enquanto adormeço depois do almoço, vou sussurrando: Abaixo a sesta! Abaixo  Castela!

terça-feira, 21 de julho de 2026

A palavra perdida

Alguns dos últimos textos têm sido excessivamente grandes. Preocupa-me esta tendência para ser prolixo. A preocupação deve-se à crença – em mim, inabalável – de que quanto menos se tem para dizer, mais se escreve. É o que se passa comigo. O meu ideal secreto – mas que hoje partilho aqui – é ir reduzindo os textos cada vez mais. Isso coloca-me um problema. Se quanto menos se tem para dizer, mais se escreve, será verdade que quanto menos se escreve, mais se tem para dizer? Aceitemos esta possibilidade como uma verdade. Qual será o limiar textual mínimo admissível para comunicar grandes coisas? O silêncio é o principal candidato à modalidade de expressão com o máximo conteúdo. Aquele que nada diz é o que mais diz. Esta queda no paradoxo não me parece, contudo, muito decente. É mesmo uma questão de decência e não de lógica evitar o paradoxo. Podemos encurtar os textos até que subsista uma única frase, plena de conteúdo. No entanto – esta é a minha proposta para hoje, para amanhã encontrarei outra – a comunicação com o máximo de conteúdo deverá ser apenas uma palavra, uma palavra plena. Ora, por que razão se escreve e se fala tanto? Porque essa palavra se perdeu, ninguém sabe dela. Por isso, escreve-se e fala-se sem parar, como se se estivesse num ritual mágico que, a certa altura, nos faria descobrir a palavra perdida, aquela que sendo proferida, nos indicava o caminho para estarmos quietos e calados. Também eu não a encontrei, por isso vou escrevendo coisas mais ou menos idiotas, na expectativa de que ela – a palavra perdida – me caia no colo, eu a peça em casamento, ela aceite e sejamos felizes para sempre, na quietude do silêncio de um amor eterno. Ite missa est, diria então por não saber estar calado.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Novela romântica

Hoje, para aproveitar o autor estar distraído a comentar a final de ontem com os amigos, cometo uma infracção à conduta de narrador, a qual, diga-se, me foi imposta. Vou infringir a proibição terminante de falar de política. A política, através do Estado, lida positivamente com dois tipos de acções. Em primeiro lugar, as que são proibidas, como matar ou roubar. Em segundo lugar, as que são obrigatórias, como conduzir pela direita ou pagar os impostos.  Estes tipos de acções são obrigatórios. Melhor: num caso, é obrigatório não as realizar; noutro, é obrigatório realizá-las. E as acções livres, a política lida com elas? Sim, de duas maneiras. Uma, para as punir. Eu tenho a liberdade de matar outra pessoa ou de fugir aos impostos. Porém, isso terá  consequências, mais ou menos penosas. A segunda maneira de a política – isto é, o Estado – lidar com as acções livres é ignorá-las. O Estado não quer saber das acções que não estão nas categorias de proibidas e de obrigatórias. São acções sem consequências políticas. Contudo, o Estado relacionasse com estas acções de uma maneira a que poderíamos chamar geográfica. Traça as fronteiras que delimitam esse país que são as acções que o Estado ignora. Há Estados que pretendem ignorar muitas das nossas acções. Outros, porém, são mais curiosos sobre o que fazemos e diminuem o território desse país. Há duas condições de possibilidade da felicidade humana que dependem da política. A primeira é que ela impeça que os outros exerçam sobre nós qualquer tipo de coacção. A segunda é que a ignorância do Estado seja a mais ampla possível. Dito isto, podemos considerar que o Estado é bom por aquilo que sabe, impedindo-nos de violar os direitos uns dos outros, e também é bom pela sua ignorância. O saber e a ignorância do Estado não se confundem com a nossa felicidade, mas tornam-na possível. O facto de sermos felizes ou infelizes, desde que o Estado cumpra o seu papel e ignore aquilo que deve ignorar, não é um problema dele. É nosso, do nosso talento e da nossa fortuna. O principal equívoco em que alguém pode cair é pensar que o Estado tem o papel de o tornar feliz. É para isso impotente, embora não o seja para tornar qualquer um infeliz. Esta é uma crónica política de inclinação sentimental. A felicidade foi introduzida para ludibriar o autor. Se me perguntar quem me deu autorização para falar de política, perguntar-lhe-ei o que está ele a dizer. Apenas narrei uma história sobre a felicidade e infelicidade, quase uma novela romântica, a que só faltou o suicídio de um jovem tomado por males de amor.

domingo, 19 de julho de 2026

Divagações de domingo

As cores das estações. João Barrento traduziu assim Georg Trakl: O tactear dos verdes degraus do Verão e, no verso seguinte Caiu suavemente no silêncio castanho do Outono. Pena que o poeta não escrevesse, no mesmo poema, sobre o Inverno e a Primavera. Que cores lhe atribuiria? Como alguém que pertence à Mitteleuropa, Trakl associa o Verão e o Verde, coisa que eu nunca faria. Sou, porém, um europeu do Sul e Trakl do Centro, embora a minha alma pertença mais a essa Mitteleuropa do que a este Sul onde o meu corpo nasceu. Sofro de um dualismo ontológico. Mais radical do que o de Descartes, que se limitava a separar corpo e alma. Tenho uma alma nascida na Mitteleuropa e um corpo nascido nessa Europa do Sul, que é já uma África em potência e, não poucas vezes, em acto. Voltemos ao verso O tactear dos verdes degraus do Verão. Trakl escreveu: Tasten über die grünen Stufen des Sommers. A tradução introduziu um elemento prosódico, uma aliteração, que não estava presente no verso original. A repetição da consoante ‘v’ em verdes e Verão dá uma musicalidade que não está presente no original. A do original de Trakl é dada por uma assonância, com a repetição de “ü” em “über” e em “grünen”. Será que estamos perante o mesmo verso. Não estamos, apesar da tradução ser praticamente literal. A poesia não depende apenas do sentido presente nos versos, mas também, e fundamentalmente, do seu ritmo musical. João Barrento, o tradutor, acaba por escrever, em cada poema traduzido, um novo poema, completamente inédito. Perdi-me. Queria eu falar das estações do ano e das cores que se lhe associam e comecei a divagar sobre a prosódia e a tradução, eu que não sou tradutor e tenho o ritmo de uma estátua de pedra cravada no solo. Melhora fora que falasse das quatro estações. Dessas tenho um saber de experiência feito.

sábado, 18 de julho de 2026

Old passions die hard

Como tenho estado com pouca predisposição para o que quer que seja, estive a fazer uma contabilidade, embora não tivesse chegado a quaisquer números, dos jogos de futebol que tenho visto desde o início deste Mundial. Sei que ultrapassaram largamente  os que vi em qualquer dos mundiais a que prestei atenção, o primeiro dos quais foi o de 1966, com um até agora inultrapassado, por Portugal, terceiro lugar. O que vale é que, neste momento, faltam apenas dois jogos, e esta pequena paixão tardia acabará por morrer ao virar da folha do calendário. Por falar em paixões tardias, é Céfalo, no início da República, de Platão, que recorda a palavra de Sófocles, o grande tragediógrafo grego. Alguém terá pergunta ao autor de Antígona o seguinte: Como te sentes, ó Sófocles, em relação aos prazeres do amor? Ainda és capaz de te unir a uma mulher? Ao que ele respondeu: Cala-te, homem! Com a maior das alegrias escapei disso, como quem foge de um amo louco e selvagem. Ora, segundo o texto de Platão, Céfalo estaria a chegar à idade em que poderia subscrever as palavras de Sófocles. O texto da República, porém, não esclarece um ponto essencial. Que idade teria Céfalo quando cita Sófocles – Céfalo afirma que estava presente no momento da afirmação – e qual seria a do poeta trágico quando a proferiu. As coisas importantes escapam não poucas vezes ao filósofos. Ora, para preencher a lacuna, consultei o inevitável ChatGPT. Não tinha uma informação precisa, mas depois de alguns cálculos, mais ou menos verosímeis, adiantou estimativas que devemos aceitar. Sófocles teria cerca de 85 anos. Não sabemos, porém, quantos anos antes  se libertou ele desse amo louco e selvagem. Já Céfalo, aquando do diálogo que constitui a República, teria 75 anos. A idade, se assentirmos no que dizem gregos tão ilustres, traz a morte das grandes paixões, aquelas que unem um homem a uma mulher, mas será que ela dissolve do mesmo modo as pequenas, as que não são selvagens nem loucas, como ver jogos de futebol? Pode acontecer, porém, outra coisa. É que tanto Céfalo na resposta que dá a Sócrates, como Sófocles na resposta que dá a um interlocutor que Platão não regista, mas que uma tradição afirma ser outro grande trágico, Eurípides, podem estar a ficcionar. Há um título de um álbum, de 1976, do grupo alemão de rock Triumvirat que dá uma resposta a esta desconfiança: Old Loves Die Hard. E a questão não é apenas que os velhos amores custem a morrer. O título do álbum joga com uma expressão inglesa que lhe dá um acréscimo de sentido old habits die hard. E as paixões são hábitos, velhos hábitos difíceis de morrer. Deixemos esta conversa de velhos e preparemo-nos para ver a Final da Taça do Canal da Mancha entre as infelizes selecções de Inglaterra e de França. Hoje, perguntaram-me que selecção apoiava. Respondi: Que ganhe o melhor, e se não for possível, então que ganhe o pior.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Antecipação

Não tarda e troco o calor daqui pelo da capital. Gostaria que fosse uma troca perdulária, mas as últimas experiências em Lisboa não têm sido simpáticas. Calor e mais calor. A Península é uma África que não se reconhece como tal, mas que tem no horizonte tornar-se um deserto. Não é que eu saiba alguma coisa dessas transformações geofísicas, nem que queira vir a saber. É apenas o sentimento de que as coisas estão a mudar mais rapidamente do que deviam. Ora, a velocidade raramente é benévola. Decisões muito rápidas dão desastres tão grandes que se pensa como não foram antecipados. A resposta é simples: a culpa é da velocidade. Ora, o clima também anda veloz. Um dia acordamos, o Alentejo e até o meu pobre Ribatejo são um deserto, e Lisboa a capital de uma país, ele mesmo, desértico. Nas ideias, nas pessoas e em lugares habitáveis. É a antecipação dessa Lisboa que me preparo para visitar. Por obrigação. E o que tem de ser tem muita força. Já há muito que não me deixava tentar pela sabedoria popular, logo eu que trago comigo um imenso reportório de ditados, máximas e lugares-comuns.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Uma vocação

Peguei no estojo dos meus óculos e constatei que ele apresenta já sinais de degradação. Não é apenas a mola que mantinha as duas partes unidas que deixou de funcionar. Também o material que o cobre, onde se encontra imprensa a marca, está desgastado. Contudo, olho para ele e ainda o reconheço como o estojo dos meus óculos. Isto, talvez por estar entregue a uma vida de ócio, recordou-me uma eventual oposição entre o pensamento grego e o chinês. Aristóteles, perante o estojo, faria a pergunta: o que é esta coisa? Se dermos crédito ao Livro das Mutações (I Ching), a preocupação não é as coisas mas as situações. A pergunta seria: em que transformação esta situação se encontra? Em Aristóteles pergunta-se pela essência da coisa. A essência de um estojo seria aquilo que faz com que um estojo seja um estojo e não um gato ou uma cadeira. Seria imutável. Para o pensamento chinês, se o consigo interpretar, o estojo é apenas uma situação da matéria que está em transformação. Talvez a ciência moderna esteja muito mais próxima do I Ching do que da Física e da Metafísica de Aristóteles. Para ela, as coisas não têm uma essência, encontram-se em contínua transformação. Procura a legislação que determina essas transformações. Contudo, o desenvolvimento da ciência moderna, desde o século XVII até aos nossos dias, nunca conseguiu aniquilar por completo a nostalgia das essências aristotélicas ou das Ideias platónicas. Elas são uma sombra que paira sobre o mundo ocidental. Se eu pensar sobre a essência do estojo dos meus óculos, não me preocuparei muito com ela. Mas se pensar na essência que me faz ser aquilo que sou, sinto uma vertigem resultante do choque de poder ser apenas uma situação que está em transformação, sem que sob ela exista uma essência permanente. Serei um ser impermanente, mas que traz em si uma vocação para a permanência.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Rituais

Encontram-se nos mais inesperados lugares sinais de democratização do gosto. Segundo Ruth Benedict, O Crisântemo e a Espada, um dos pequenos prazeres do corpo, no Japão, é o banho quente. Para o mais miserável produtor de arroz e para a mais humilde criada como para o aristocrata rico, o banho diário em água extremamente quente faz parte da rotina de fim de tarde. Aqueles a que tudo separa são unidos por este ritual. Este nada tem que ver com a higiene corporal, pois esta deve ser realizada antes da entrada no banho quente. Uma dúvida surge ao leitor: será que o rito democratizante existe porque ainda todos se reconhecem como pertencentes a uma comum humanidade, ou existirá para que todos sejam obrigados, apesar das resistências que possam ter e por estranho que socialmente lhes pareça, a reconhecer que fazem parte ainda de uma só espécie, que entre eles há uma fraternidade que o tempo, a fortuna e os talentos parecem apostados em dissolver. Talvez tudo isto esteja errado e o banho não seja um ritual de inclusão, mas de exclusão. Seria um sinal de identificação de todos os japoneses, mas excluiria todos os outros, esses não japoneses que desconhecem a arte do banho e o prazer do corpo que lhe está associado. Será essa uma das características de qualquer ritual, incluir e identificar os que o praticam, por estranhos que sejam, e excluir aqueles que o não praticam, quão semelhantes possam ser. E nisto – o ritual – seria uma imagem da vida, que não será outra coisa do que um jogo de inclusões e de exclusões. O pior que pode acontecer a um jogador é ser excluído do jogo.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Frivolidades

São sete da tarde. Acabei de chegar da praia. Uma festa. Não se imagine, porém, que foi a comemoração da tomada da Bastilha. Aos franceses o que é dos franceses. Talvez fosse a companhia de uma das netas que me levou a ficar até a estas horas na praia. Diga-se, para se ser verdadeiro, que estava um dia de praia excepcional, isto pelo parâmetros daqueles que gostam de praia. Quase fui ao mar, mas tinha relógio – parece que é à prova de água, mas não acredito – e telemóvel no bolso dos calções. Podia tê-los guardado, mas esqueci-me e, depois, não me apeteceu voltar ao lugar onde as coisas aguardavam o nosso regresso. Preparo-me, agora, para ver o França – Espanha, veremos se o 14 de Juillet é funesto para os franceses ou, pelo contrário, inspirador. Por mim, sou rigorosamente apartidário. Que ganhe o melhor ou, então, o pior. Um dia de frivolidades, mas estas são a minha especialidade. Tenho de ir tomar banho antes que a bola comece a rolar.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Tempo cruel

O mundo é de uma crueldade atroz. Não, refaço a proposição. O tempo é de uma crueldade atroz. Peguei num romance português de 1964. Nas badanas, estavam excertos de críticas de duas obras anteriores do romancista. Os autores pertenciam à nata da crítica portuguesa dos anos cinquenta e sessenta do século passado. Segundo essas notas seleccionadas com esmero pelo editor, estar-se-ia perante um extraordinário escritor. Em 1964, não tinha idade por me interessar nem pela crítica literária, nem pelos seus objectos. Sei apenas que nunca o nome do autor chegou alguma vez aos meus ouvidos. Foi há pouco tempo que o descobri num alfarrabista, espólio de uma falência editorial. Ninguém sabe quem ele é. O tempo desfez o génio literário e arrastou com ele todos os críticos e a crítica daqueles tempos. Se não houvesse tempo, o génio do autor não se dissolveria e a perspicácia dos críticos permaneceria contra ventos e marés, mas o tempo existe e não é dado à piedade.

domingo, 12 de julho de 2026

Sem consciência

A certa altura da entrevista concedida ao Público, László Krasznahorkai diz: Não me movo por qualquer tipo de consciência ou intenção deliberada quando me sento para escrever. Trago a citação porque é essa a experiência deste narrador, mesmo quando os seus textos, noutros lugares que não este, deveriam ter a seriedade de um plano, o apoio de um questionário e a tranquilidade de uma tese. Sento-me e começo a escrever o que o acaso traz. Isto é uma imensa vantagem, pois o acaso está em qualquer lugar ou em qualquer tempo. Uma coisa observada no mundo, um pensamento ou imagem que atravessa a consciência, a vontade de contar uma mentira, o desejo acendido pelo corpo de uma mulher – não devia escrever isto aqui, sempre há que preservar a compostura e a imagem de um velho monge que medita as bem-aventuranças. Por vezes, os assuntos cruzam-se sem nexo aparente, mas quando se escreve borbulham preocupações, cruzam-se, negam-se. Só isso. Bem, há mais qualquer coisa. Há muitos anos, há décadas, descobri uma trivialidade: tudo tem que ver com tudo. Um assunto pode conectar-se com um outro que, dir-se-á, nada tem que ver com ele. Isso, porém, é uma ilusão. Os assuntos residem todos na nossa consciência, mesmo aqueles mais transcendentes, e nela se tocam, se amparam e crescem até que sejam projectados para o mundo pela escrita, pela fala, por sinais de fumo, por notas musicais ou mesmo pelo encolher dos ombros. Saem da consciência sem que a consciência tenha deliberado sobre a sua saída. Não há coisa mais inconsciente em mim do que estuporada da minha consciência.

sábado, 11 de julho de 2026

Desperdiçar tempo

Depois de ver um conjunto de vídeos numa rede social, pensei que é difícil ser um adepto de futebol racional e esclarecido. O que mostram esses malfadados vídeos? Situações em o árbitro deveria assinalar castigos da marca da grande penalidade, para falar como um entendido, mas que, apesar da ajuda da tecnologia e de árbitros a que chamam VAR, não o faz. Uma hipótese que me ocorreu é que esses vídeos sejam fabricados pela Inteligência Artificial, mas, depois de pensar melhor, chego à conclusão de que não, pois também eu os vi, aquando da transmissão em directo desses jogos. A não ser que também os jogos sejam apenas criação da IA, sem que saibamos disso. Ora, se pusermos de lado a hipótese de fabricação artificial dessas imagens, o que descobrimos é uma derrota sem apelo das Luzes e, com essa derrota, a da razão e da verdade. Aquilo que deveria servir para iluminar e trazer a verdade é fonte de obscuridade. Talvez o futebol não seja mais do que um dispositivo construído para nos conduzir a uma Idade das Trevas, aniquilando a verdade do que se vê. Eu que estava tão empenhado em seguir este Mundial até à sua conclusão começo a duvidar que o faça. Sempre sou, quando sou, um narrador iluminista, educado na dura disciplina kantiana, aquela que se expressa em Sobre um suposto direito de mentir por amor à humanidade. Em momento algum a mentira é um direito. Logo, avaliações erradas de episódios de um jogo de futebol falseiam os resultados e permitem que a mentira determine como lei o resultado de uma competição. O que transforma o jogo, com as suas paixões, numa fábrica de superstições. Dir-se-á que é apenas um jogo, no qual uns quanto rapazolas correm atrás de uma bola e lhe dão pontapés quando a encontram. É verdade, mas mesmo o espancamento de uma bola deveria obedecer ao princípio da verdade. Estou eu a protestar contra a FIFA, o VAR e os árbitros? Não. Apenas mostro ao leitor distraído uma das modalidades que uso para desperdiçar o meu tempo narrativo.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Vitamina D

Há dias que, por aqui, não se vê o sol. Um céu de cinza, mas uma temperatura razoável. Depois de falhar vários vezes, voltou hoje, há pouco. Veio cintilante, a convidar para a praia. Penso no assunto, analiso as possibilidades e escolho o bar adequado para esta hora. Consta que a luz solar faz bem à vitamina D. Se não a ela, a quem tem falta. No outro dia descobri que estava quase em défice. Como não gosto de estar em dívida sejam com quem for ou com o que for, vou amealhar vitamina D, para pagar ao corpo aquela que lhe falta. Isto de ter um corpo sai caro, mas a alternativa, não o ter, não me parece simpática. Sem corpo não se corre riscos. Com ele corre-se grandes riscos, entre eles o de o perder. Olho para a rua e penso que tenho de pagar a dívida ao corpo que me transporta e me permite escrever as maiores idiotices que me ocorrem. A culpa das idiotices não é do corpo, por falhado que esteja em vitamina D, mas do espírito, do meu espírito. Talvez também ele precise de apanhar sol e banhos de mar, ou de observar as sereias e deixar-se levar pelos seus cantos. A verdade é que acabei de acordar de um sono involuntário, onde um sonho também involuntário me trouxe a presença de alguém que não conheço, mas que tem o nome, o corpo, o modo de ser de alguém que conheço, mas numa versão com menos idade. Uma sereia, por certo, cujo canto abriu uma brecha num corpo a precisar de vitamina D.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

A minha casa

Estou com um espírito de adolescente em férias, embora tenha alcançado o estatuto de estar em férias contínuas, bênção que não cai sobre adolescentes. Bem o sei. O espírito viaja entre filmes e leituras, embora o corpo se possa entreter com outros eventos, que não vêm ao caso. O romance de Benito Pérez Galdós, Fortuna y Jacinta, promete ocupar-me largas horas com as suas mil e tantas páginas. Será o ócio que me leva a coscuvilhar na Madrid do século XIX e num triângulo amoroso entre Juanito Santa Cruz, Jacinta e Fortunata. Podemos afirmar, sem medo de errar, que Fortunata y Jacinta está para Espanha como Os Maias está para Portugal. São os dois grandes romances realistas ibéricos.  Os meios sociais, contudo, são diferentes. O centro social do romance de Eça de Queirós é a aristocracia, a família dos Maias, enquanto o do romance de Pérez Galdós é a burguesia mercantil e as classes populares. Esta leitura do romance espanhol é cruzada com o cinema. Vi a adaptação cinematográfica, por Sidney Lumet, de O Crime do Expresso Oriente, de Agatha Christie. Pensei, porém, que há coisas mais interessantes em que gastar o tempo. Por isso, comecei – vejo os filmes por episódios, digamos assim – a ver O Beijo, do dinamarquês Bille August, baseado num romance de Stefan Zweig, Ungeduld des Herzens. No filme de Lumet, apesar da excelência da realização, não gostei do Poirot proposto no filme. Excessivamente histriónico, pareceu-me. Pelo menos, não é o Poirot que imaginava no tempo em que lia os romance de Agatha Christie. Ao começar a ver O Beijo, senti-me de imediato em casa. A casa, a minha casa, é o cinema europeu, com uma certa inclinação para o mundo escandinavo. Inclinação essa que está a contaminar-me na literatura. Por falar em casa, o mundo nórdico é mais a minha casa do que o mundo de Madrid, apesar da proximidade. Gosto muito de Espanha, mas nunca a consegui pensar como um lar onde me acolhesse. A não ser na Galiza, mas a Galiza não é Espanha. Agora, visto que excedi em muito o que queria escrever, vou fazer uma caminhada como pena pela imoderação.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Aquilo que se perde

Por vezes, tento recuperar uma face que se perdeu no passado. Era uma pessoa conhecida, mas que depois desapareceu levada pela vida e pela morte. Sinto necessidade de a reaver para a integrar numa história que estou a contar a mim mesmo Aquele rosto, outrora tão definido, é agora uma zona obscura, um buraco negro onde a luz daquelas imagens antigas se perde. Muitas vezes, vejo os gestos dessa pessoa, o modo como caminha, a voz que lhe sai da boca ou, pelo menos, a que ressoa nos meu ouvidos. Fico desolado, como se algo me tivesse sido roubado. Outras vezes, o objecto perdido é um nome. A imagem da pessoa está completa na minha memória, mas o nome desvaneceu-se. Quando se combina a perda da face e do nome, começo a desconfiar que esse alguém nunca existiu. Estará a ser imaginado por mim naquele instante. Não há motivo de desconfiança, penso, e recomeço a busca de rosto e nome que se foram. Estes episódios não acontecem nem ao adormecer, nem ao despertar. Vêm até mim quando estou bem acordado. Como Descartes, poderão argumentar que não existe qualquer critério fiável para distinguir o sonho da vigília. Concedo a dificuldade, mas há uma crença inabalável em mim de que neste momento não estou a sonhar, e que o tormento do desaparecimento de faces e nomes não é um pesadelo. Escrevo, logo estou acordado, mesmo que me digam que apenas sonho estar acordado a escrever. Não sou Descartes, o que qualquer um se aperceberá ao primeiro olhar, por isso não tenho necessidade de demonstrar a existência de Deus para me certificar, por ínvios caminhos, de que não estou a sonhar. Desconfio que se o fizesse, Deus ficaria irritado comigo. Estar-me-ia a servir dele para os meus interesses mais mesquinhos, como provar ao leitor que não estou a delirar.

terça-feira, 7 de julho de 2026

Dallas não é Aljubarrota

Não lembra a ninguém ir disputar a batalha de Aljubarrota em Dallas. É a mania de que somos modernos. Se é para derrotar Espanha, o jogo deve ser marcado para Aljubarrota, ali mesmo ao lado da Batalha. Se a coisa não estiver a correr bem, Fátima não é muito longe. Não se compreende como a Federação Portuguesa de Futebol não pediu os bons serviços do presidente norte-americano. Uma palavra dele e o jogo disputava-se mesmo em Portugal. Falta de organização de um país da Europa do Sul. Fomos derrotados, a ala dos namorados falhou e a dos casados, em primeiras e segundas núpcias, não fez melhor. Também não lembra ao diabo ter por condestável das nossas tropas um castelhano. É simpático, um tipo bestial para ir picar ao entardecer, mas de guerras parece não perceber nada. Não sabe quem foi Nuno Álvares Pereira e muito menos D. João I. Quase que estou triste, mas não completamente. A única coisa que temo é que, um dia destes, com o desvario que anda pelo mundo, os castelhanos se lembrem de entrar por aqui a dentro e reivindicar a coroa de Portugal, da qual foram despojados quase, quase há quatrocentos anos. Sempre podemos dizer que somos uma República e um castelhano não se pode candidatar à Presidência. Talvez isto não seja argumento para um castelhano monárquico, como ontem, nessa malfadada Dallas, o nosso jogo de passa para o lado e passa para trás não foi argumento. Aliás, nada foi argumento. Os portugueses além da matemática têm um problema com a lógica e preferem as falácias aos raciocínios válidos, quero dizer jogar como artistas de circo em vez de meter golos, usando poucas, mas verdadeiras premissas que sustentariam um argumento não apenas válido, mas também sólido e mesmo cogente. Só contra o Usbequistão é que Portugal apresentou argumentos cogentes, nos outros jogos foram válidos, mas não convenceram ninguém e contra a Espanha, nem cogente, nem sólido, nem válido foi o argumento. Um problema de lógica aliado à falta de organização da nossa Federação que, como se disse acima, permitiu que o jogo se jogasse em Dallas e não em Aljubarrota. Continuarei como adepto atento desde Mundial, mas ainda não tenho selecção preferida. Nada de precipitações.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Anjos e grandes-penalidades

Continuo em maré de futebol. Faltar-me-á tema, por certo. Há aquele romance de Peter Handke, que Wim Wenders transformou em filme, com o curioso título de A Angústia do Guarda-Redes antes do Penalty. Quando vejo um penalty, tento descortinar essa angústia que tomaria conta do guarda-redes, mas, para dizer a verdade, não a vejo. Handke enganou-se, pois a angústia está toda do lado daquele que vai marcar o penalty. Ele olha para o guarda-redes e sente o peso de falhar aquilo que nunca se poderá falhar. Caso o jogador fosse letrado, amante de poesia, deveria questionar se aquele guarda-redes é um homem ou um anjo. Como os anjos, também os guarda-redes voam. Então perguntar-se-ia se os versos de Rilke, no início da segunda elegia de Duíno, descrevem aquele que deve derrotar com um pontapé bem colocado. Cada Anjo é terrível. E no entanto, ai de mim, / invoco-vos, ó aves quase mortíferas da alma, / sabendo quem sois. Aqueles guarda-redes que voam podem ser anjos e trazem neles o terrível, a ameaça de morte para a alma do chutador. Ele treme e sente a angústia. O seu pontapé sai propício para o anjo apanhar a bola e desferir nele, na sua alma de pecador, pois pecar é falhar o alvo, o terrível castigo do penalty falhado. Talvez nem todos os guarda-redes sejam anjos, mas alguns sê-lo-ão de certeza absoluta. Disfarçam-se de homens, mas voam, desferindo golpes mortais nos avançados que julgam, como Jacob, poder lutar com um anjo. Não podem.

domingo, 5 de julho de 2026

Calar-se

Há dias falei por aqui no romance policial A Promessa, de Friedrich Dürrenmatt. Como informei na altura a obra tem por subtítulo Requiem pelo romance policial. Pretenderia ser assim um anti-romance policial. Há um argumento implícito que atravessa a obra. O romance policial tem um defeito estrutural: ele coordena a narrativa de um modo lógico. A narrativa não será outra coisa do que o encadeamento das descobertas até se chegar à conclusão, à descoberta do autor do crime. Ora, o narrador, o doutor H., um polícia reformado pretende demonstrar a um autor de romances policiais – eventualmente, ao próprio Friedrich Dürrenmatt – que a vida não é assim, que nela pode intervir aquilo que os antigos chamavam fortuna, a qual não obedece a qualquer esquema lógico. O romance é, então, a demonstração destas premissas. No entanto, o autor parece não ter consciência da impossibilidade da sua tese. Aquele romance, ou qualquer outro, devido à estrutura tanto da linguagem como da narrativa, é sempre a imposição de uma racionalidade sobre uma matéria-prima verbal. A fortuna, mobilizada para provar a tese do doutor H., inscreve-se naquela narrativa com uma precisão lógica e racional. Na palavra logos, os gregos pensavam tanto o discurso como a razão. Isso não acontecia por acaso, mas porque as duas coisas, linguagem e razão, estão intrinsecamente ligadas e toda a linguagem, mesmo a mítica e a poética, é um ordenamento racional do mundo. O que escapa à razão, escapa também à linguagem e vice-versa. Por coisas como estas terá Ludwig Wittgenstein encerrado o Tratactus Logico-Philosophicus do modo mais sensato que se possa imaginar: Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar. Por mim, calo-me.

sábado, 4 de julho de 2026

Adepto consumado

Estou um adepto consumado do futebol. Ontem fiquei a ver o jogo de Cabo Verde com a Argentina até ao dia de hoje. Os cabo-verdianos foram extraordinários e, como as árvores, morreram de pé. Isto é uma reminiscência de uma peça de teatro que a televisão, no tempo em que só havia um canal, que começava a trabalhar por volta das sete da tarde, transmitiu, uma e outra vez, com a actriz Palmira Bastos. Voltando à minha condição de adepto. Tenho uma idiossincrasia quando vejo o futebol. Retiro o som e oiço outra coisa. Pode ser música ou um vídeo do Youtube sobre um assunto que me interesse. Há coisas insuportáveis. As piores são os Rónaldos e os Féliks. Ronaldo, que começa por ser Cristiano, lê-se, em português de Portugal, Ru-nál-du. Quanto ao João Félix, eu que tive um tio-avô Félix, em português de Portugal, é Félis, como lápis. Um antigo ministro chama-se Bagão Félix e ninguém lhe chama Bagão Féliks. Parece que a desculpa dos comentadores da bola é que o jogador diz que os pais sempre lhe ensinaram que o seu nome se pronunciava Féliks. Fiquei surpreendido com a explicação, mas depois achei que era uma emanação das liberdades individuais. Cada família ensina os filhos a pronunciar as palavras como desejar e isso torna-se a norma, quase posso dizer, tendo em conta a importância dos comentadores de futebol, a norma culta da língua. E teremos tantas normas cultas quanto a capacidade inventiva das famílias. Féliks, Félis, Feliz, e assim por diante. Também haverá Rónaldo, Ronaldo (Ru-nál-du), Rónaldó e tudo o que os pais quiserem. Seja como for, tenho pouca paciência para os linguistas da bola e para a criatividade das famílias. Chopin e Liszt parecem-me bons para acompanhar o saltitar da bola, mas também uma entrevista a Emmanuel Todd, uma discussão sobre a Fraternidade Sacerdotal S. Pio X e o cisma na Igreja ou uma conferência sobre Hegel. O importante é que a bola role e que Portugal, no próximo jogo, mesmo cheio de Rónaldos e Féliks, utilize a táctica do quadrado, a padeira e a ala dos namorados, enviando os castelhanos para Castela. Seja como for, com os castelhanos enviados para Castela ou os portugueses para a Lusitânia, tornei-me um adepto de Cabo Verde.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Bastou o título

Há múltiplas razões, ou desculpas, para comprar um livro. Eu tenho várias, entre elas “porque me apetece”. Também compro livros sem razão ou com razões tão secretas que nem eu as conheço. Contudo, há pouco fui levantar um livro, encomendado há dias, e cuja razão principal foi o título: O Crisântemo e a Espada. É um belíssimo título, que só por si merece a compra. Devemos, porém, desconfiar das razões que apresentamos para nós próprios. A autora é uma conhecida antropóloga cultural, Ruth Benedict que também escreveu Padrões de Cultura, publicado há muito em Portugal pela Gulbenkian. Ora, além da autora, há o subtítulo: Padrões da Cultura Japonesa. Para os ocidentais – pelo menos para mim – as culturas orientais como a chinesa, a coreana, a vietnamita, a indiana e a japonesa são mistérios. Como todos os mistérios, exercem sobre qualquer um grande atracção. Para mim, talvez acima de todas as outras, esteja a japonesa. O Zen, a música tradicional e o grande cinema japonês são manifestação de uma grandeza que não sei medir, mas que gostava de compreender. Essa, dir-se-á, é a grande razão para a compra do livro. Em aparência, sim, mas só em aparência. A decisão estava tomada antes de saber de que tratava a obra. Bastou o título.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Patriota da bola

Mais logo, a partir da meia-noite vou ser um patriota da bola. Espero aguentar a pé firme até ao começo do jogo de Portugal com a Croácia. E, animado pela fé, hei-de ver o desafio sem adormecer, mesmo que Portugal aposte naquele tipo de futebol soporífero com que adormeceu o Congo, a Colômbia e a si mesmo. Não sou um patriota da bola completo pois não tenho uma camisola da selecção, nem uma bandeira de Portugal, daquelas com pagodes chineses no lugar de castelos, nem um simples cachecol com as cores nacionais. O que mais se aproxima é uma toalha de banho encarnada, mas falta-lhe o verde. Por isso, não a posso usar com símbolo de patriotismo futeboleiro. Estive hoje todo o dia em Lisboa, na baixa e em Campo de Ourique. Enquanto me tentava refugiar do avassalador ataque de calor, com os termómetros das farmácias a marcarem 39 graus, cogitava que Portugal não se iria safar desta. Não me refiro à vaga de calor, mas á eliminação pelos croatas. Não vi qualquer sinal de interesse pelo jogo, por Portugal, pela bola, por bandeiras e cachecóis. Mau presságio, pensei de mim para mim. Depois, relativizei a suspeita. Com aquela temperatura, nem os maiores patriotas da bola se afoitam a expressar qualquer sentimento, quanto mais o tórrido sentimento de amor pátrio pela selecção. Talvez, e esta é uma hipótese falsificável (logo, terá valor científico), o patriotismo futebolístico seja inversamente proporcional à temperatura. Quanto mais desce esta, mais sobe o ardor no apoio aos nossos. O pior é que isto também é válido para os patriotas do outro lado. Ardores contra ardores dão-me a esperança de não ressonar antes da primeira pausa para hidratação.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Uma poética

Navego entre dois livros, O Reino, de Emmanuel Carrère, e A Promessa, de Friedrich Dürrenmatt. De um lado, o assunto é Paulo de Tarso, conhecido, nos dias de hoje, como S. Paulo. O escritor francês não escreve uma biografia de um dos pais fundadores daquilo que veio a ser conhecido como Cristianismo. Imagina esse Paulo a partir do texto de Lucas, caso seja dele, Actos dos Apóstolos e das cartas do próprio Paulo. Já a obra do escritor suíço é um romance policial, mas possui como subtítulo Requiem pelo romance policial. Em ambos os casos, estamos no domínio do religioso. Paulo e uma missa dos mortos. Escrevi acima que navego entre dois livros. Isto significa que ambas as obras são margens pelas quais deslizo no rio do tempo. Esta imagem heraclitiana está explorada até ao tutano, mas, como reconheço muitas vezes, sou falho de imaginação. Por exemplo, nunca teria imaginação para imaginar S. Paulo. Mas se tivesse alguma e fosse obrigado a escolher uma personagem do Novo Testamento, escolheria S. João. Ter escrito o Evangelho com o seu nome e o Apocalipse é obra. Ou talvez não. A tradição cristã diz que foi a mesma pessoa que escreveu ambos os livros. O consenso académico diz que foram escritos por pessoas diferentes. É este o problema da academia. Encontra razões – muitas vezes, sólidas – para minar a tradição. Platão, na República, a certa altura fala da nobre mentira. Este contaria uma história mítica com a finalidade política de manter a unidade da comunidade, uma unidade fundada na aceitação do seu lugar na sociedade. Hoje, chamar-se-ia a esta nobre mentira ideologia. Voltando a João e à tradição cristã. Muitas narrativas cristãs são nobres mentiras, servem para manter a comunidade coesa e para que a verdade, aquela que é fundamental, possa ser transmitida. A tradição não é uma historiografia, mas uma estratégia de transmitir algo considerado essencial através de produtos da imaginação. Dito de outra maneira, a tradição é uma poética.

terça-feira, 30 de junho de 2026

O melhor é ignorar

O tempo é um imenso cemitério. Sem contemplações, vai sepultando, um a um, os meses e os anos. Nunca se cansa e é inexorável. Sim, é verdade que, de quatro em quatro anos, hesita perante Fevereiro. Não sei que argumentos este lhe dará, nessa altura, para que lhe seja concedido mais um dia. Mas nunca mais do que isso. Este Junho está prestes a desaparecer. A pergunta que cada um deverá fazer a si próprio é a seguinte: o que fizeste deste Junho que te foi dado? O melhor, porém, é esquecer a pergunta. Razões para isso? Duas. Em primeiro lugar, porque a resposta pode ser muito desagradável, que não se tenha feito grande coisa com este mês que habita duas estações. Depois, porque a pergunta é daqueles que causam ansiedade. Lembra-nos que o tempo nunca pára de passar e que cada vez temos menos. Ora, vivemos num mundo que não gosta de realidades desagradáveis nem de situações de ansiedade. A solução será não fazer perguntas e esperar que chegue Julho, para depois vir Agosto e assim sucessivamente. Não conseguimos parar o tempo com as mãos. Ignoremo-lo.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Falta de sereias

Hoje fui à praia. Caminhei pela areia à beira-mar, sentei-me e até, por instantes, me deitei ao sol. Parece que tenho de abandonar a resistência ao contacto, fora do espaço restrito de bares e esplanadas, dessa sólida instituição do mundo moderno. A aversão à praia tem alguns anos, mas não é muito antiga. Ainda tinha prazer de estar lá com as minhas netas. Depois, elas foram crescendo, eu fui envelhecendo, e a combinação de areia, sol e pessoas começou a causar um desgosto cada vez mais profundo. Por enquanto, pensei na ida de hoje, a coisa está aceitável, pois não existe uma multidão. Tomei, contudo, a decisão de lá ir como se fosse o pagamento de uma promessa, que não fiz, ou uma terapia para qualquer coisa que seja tratável com praia, sempre há-de haver alguma coisa que exija esse tratamento. Devia escrever sobre as idas, as possíveis idas. Compor uma epopeia, em que seria o herói, um Ulisses, mas há um problema. Faltam-me as sereias, e sem elas não há epopeia que se aguente.

domingo, 28 de junho de 2026

O bem, o belo e o terrível

Talvez a beleza seja sempre terrível. Consta que Platão terá dito que as coisas belas são difíceis. Deveria antes ter dito que são terríveis. Veja-se a segunda estrofe do poema Im Osten (No Leste), de 1914, de Georg Trakl, na tradução de João Barrento: De sobrolhos desfeitos, braços de prata, / A noite acena para os soldados moribundos. / À sombra do freixo outonal / Soluçam os espíritos dos que caíram mortos. A beleza do poema, que a tradução não trai, é uma encenação do terrível. Será por isso que as mulheres verdadeiramente belas, que não devem ser confundias com as convencionalmente belas, surgem envoltas num véu que, ao mesmo tempo, esconde e manifesta um perigo. Não que sejam agentes dos poderes do mal. Pelo contrário. Reflectem algo de divino e, por isso, de bom. O bem, todavia, é tão excessivo para os mortais que muitas vezes lhes surge como um perigo, como terrível, como beleza. No poema de Trakl, não é a guerra que é bela, mas o poema onde ela se declina. Esse poema, como uma mulher bela, traz consigo a sombra do terrível, que se projecta sobre nós e nos deixa perplexos, perdidos entre o fascínio e o temor.

sábado, 27 de junho de 2026

O que é a verdade?

Claro que temos o dever moral de nos preocuparmos com a verdade, embora não seja fácil saber o que significa esse significante. Contudo, e talvez porque ela vive em estreito concubinato com vários significados, temos de ser maleáveis e não fazer de tudo uma gesta em defesa da honra perdida da donzela. Há pouco, estava a passear pelo antigo Twitter, agora reduzido a um mero X, como se fosse a incógnita de uma equação, e deparei-me com um vídeo curioso. Num jardim zoológico, separados por uma grade estavam um leão e um gato. O leão, com problemas de afirmação, soprou para o gato e aproximou o focinho das grades. O gato, porém, deu-lhe uma sapatada nesse mesmo focinho e o pobre bicho amainou e encolheu-se. Vendo isto, para não deixar a espécie mal vista perante um longínquo primo, a leoa veio pôr o gato na ordem. Rugiu e soprou enquanto aproximava o focinho, agora o dela, das grades. O gato deu-lhe o mesmo tratamento e ela, a rainha da selva, retrocedeu espantada e virou as costas ao primo. É evidente que o vídeo é concebido pela Inteligência Artificial e aquilo que vemos não reproduz nenhum acontecimento. Ora, os comentadores foram implacáveis a denunciar a falsidade da peça. Houve mesmo quem afirmasse que o focinho dos leões não podia passar entre grades. É esta gente, falha de maleabilidade, que e é incapaz de se deixar tocar por uma imaginação desejosa de refazer a ordem do mundo. Não é possível um pequeno gato pôr em sentido um casal de leões? Não é, mas devia ser. A reivindicação da verdade neste caso é apenas sintoma de falta de imaginação. Podemos imaginar um mundo possível em que os gatos não tenham medo dos leões. Talvez, pensei, o vídeo nem tenha sido produzido pela IA, mas tenha sido filmado num desses mundo possíveis, onde os pequenos gatos se entretêm a pôr enormes leões na ordem. O que sabemos nós de mundos possíveis?

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Tentação e queda

Resoluções de fraca intensidade. Refiro-me às minhas. Tinha decidido fazer um jejum mais ou menos prolongado de compra de livros. Necessitei, porém, de ir à FNAC comprar uns livros de fotografia de Sebastião Salgado para oferecer. Ofertas não estavam incluídas na penitência. Descobri, de imediato, que afinal a minha decisão não era uma decisão, mas um desejo vago de me santificar pela renúncia. Cedi à primeira – e a mais vergonhosa, diga-se – tentação. Um livro de fantasia, imagine-se. Trata-se de Os Túmulos de Atuan, o segundo volume do ciclo de Terramar de Ursula Le Guin. Este ciclo vem, não poucas vezes, indicado como literatura juvenil. Não argumento. Tinha lido há muitos anos os 3 volumes iniciais publicados na colecção de ficção científica dos Livros do Brasil. Lembro-me de ter gostado. Quando a Relógio d’Água, em 2024, publicou Um Feiticeiro de Terramar, o primeiro volume da saga, comprei-o de imediato e li-o, ainda com prazer. Fiquei a aguardar a continuação da publicação. Já desesperava. Gostava que a editora fosse mais rápida na publicação do conjunto, seis volumes, pois pelo ritmo actual ainda demorará oito anos para chegar ao fim. Caído na primeira tentação, o caminho estava aberto para outras. Havia que compensar com seriedade intelectual a queda juvenil. Não resisti a Cenas de Uma Infância, de John Fosse, e ao novo romance de Thomas Pynchon, Caso Fantasma. Leitura de intelectual sério. Ainda pensei, culpa do suplemento Ípsilon do Público, comprar o romance de Patrícia Portela, Hoje, 3 de Maio. Não comprei. Não foi, porém, uma renúncia. Não havia ou não o vi, apesar de o ter procurado. Quando cheguei ao carro pensei que talvez não tivesse vocação para a santidade, caso esta implique a renúncia. Para jejum, bastou ontem movido por causas médicas, disse para com os meus botões, que na altura eram apenas três, um nas calças e dois no pólo.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Que dia

Tem chovido bastante. Aguaceiros, por vezes, muito fortes, mas não ouvi trovejar. Ainda não saí de casa, nem comi, mas bebi, bebi bastante. Água e uma mistela resultante do casamento entre água, mais uma vez, é um pó inventado em algum laboratório do inferno. Assim, desde as seis da manhã, a fraqueza caiu sobre a imaginação, que já de si é pouca. Ao menos que chova. Daqui a pouco saio para me pôr nas mãos de uma médica que não conheço, mas, como estarei anestesiado, não me interessa o seu aspecto. Não é com a beleza que sonho, mas com uma bela refeição e um bom vinho. Para ajudar a passar o tempo, pus-me a ver um filme de Joseph L. Mankiewicz, Bruscamente, no Verão Passado, com Katharine Hepburn e Elizabeth Taylor. Uma óptima companhia.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Bola, Pátria, Vergonha

Reconheço. Ontem gostei mais de ver jogar Portugal. Os usbeques não serão uma potência do pontapé na bola, mas isso não invalida o juízo de gosto feito atrás. Note-se uma coisa para aclarar o valor das minhas afirmações sobre futebol. Porventura, sobre todo o resto. Eu faço juízos de gosto. Não faço juízos estéticos, juízo técnicos, juízos cognitivos. Dito de outra maneira, não faço juízos avaliativos. Expresso um sentimento meramente subjectivo, sem que por detrás dele exista capacidade para fundamentar com conhecimento um juízo de avaliação. Gosto ou desgosto de um jogo do mesmo modo que gosto de laranjas e detesto figos. Sobre laranjas e figos, nunca pensei. Saboreei e isso bastou. No outro dia vi um jogo de que gostei bastante, o Uruguai – Cabo Verde, mas também vi outro de que não gostei, o Argentina – Áustria. Razões para isso? Não tenho razões universais. Não tenho capacidade para avaliar o jogo do ponto de vista da beleza ou da técnica. Falta-me conhecimento. O que me leva então a fazer as afirmações que fiz? Bem, o jogo entre o Uruguai e Cabo verde soube-me a um boa laranja. Já o da Argentina e da Áustria soube-me quase a figo. Era um pouco melhor, mas, mesmo assim, longe de uma boa laranja. Olho para o que escrevo e penso: este narrador está a ficar um adepto. Não, mas temos de acompanhar o espírito do tempo, e o tempo, além de quente, está impregnado de bola. Contudo, há uma coisa a que não consigo converter-me, aos comentadores dos jogos. Então quando joga Portugal, tudo aquilo desaba num patriotismo sem pés nem cabeça, numa gritaria absurda como se isso fosse a mais alta expressão de patriotismo. O dissidente polaco Adam Michnick e o historiador italiano Carlo Guinzburg propõem uma visão do patriotismo mais funda, baseada na vergonha. Michnik: O patriotismo define-se pela medida de vergonha que uma pessoa sente pelos crimes cometidos em nome do seu povo. Por seu lado, o italiano escreve logo no início de Il Vincolo della Vergogna: Há muito tempo apercebi-me subitamente de que o país a que pertencemos não é, como quer a retórica, aquele que amamos, mas aquele de que nos envergonhamos, ou de que nos podemos envergonhar. A vergonha pode ser um laço mais forte do que o amor. Verifiquei esta hipótese junto de amigos provenientes de diversos países. Tanto Michnik como Guinzburg tornam manifesto que sentir vergonha por um acto da sua comunidade expõem um laço de pertença muito mais profundo do que as exibições vulgares de patriotismo, aquele de que o Dr. Johnson dizia: O patriotismo é o último refúgio de um canalha. Esta deriva sobre o patriotismo, dirá o leitor, nada tem que ver com o futebol e o juízos de gosto sobre ele. Talvez tenha, pois assim como se qualifica como bom o jogo de que se gostou, também reconhecemos como nossa a pátria que nos desgostou. Podemos transformar o sentimento da vergonha num juízo de gosto, no caso de desgosto. E ouvir a retórica patrioteira incrustada no bico de uma chuteira causa-me, além de desconforto, vergonha.

terça-feira, 23 de junho de 2026

Uma patologia desconhecida

Pode-se pensar no assunto em analogia com uma prescrição médica. Imaginemos que se vai ao médico e ele receita, durante três ou quatro semanas, a toma diária de um medicamento. É o que me acontece agora com o Mundial de Futebol. Vejo um jogo por dia. E, como deve acontecer com a medicação, se falho um dia, não vejo dois no outro. O problema, e há sempre um problema que espera por nós ao virar da esquina, é que a analogia ainda contém uma outra coisa. Enunciemo-la em forma de pergunta: Se tomo um medicamento diariamente para resolver uma situação patológica, qual será a patologia que pretendo curar ao ver um jogo de futebol diário? Quando enunciei, pela primeira vez, esta interrogação, pensei em várias possibilidades. Nenhuma, porém, me pareceu ser tratável com jogos de futebol. Um leitor precipitado dirá: não é possível que jogos de futebol tratem doenças, nem do foro psiquiátrico. Isto, porém, é apenas uma presunção. A minha resposta – provisória e falsificável como todas as afirmações científicas – é a seguinte: se os jogos de futebol são fármacos, então é necessário que exista pelo menos uma doença  a que essa medicação seja aplicada. O facto de não a conhecermos, não significa que não exista. Talvez esta proposição não seja muito falsificável. Aqui joga-se um drama epistemológico entre a falsificabilidade e a falácia dita argumentum ad ignorantiam. Mas não vou contar a história desse drama, pois é tão maçadora quanto a forma de Portugal jogar.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Heteropessimismo

Ouvi hoje pela primeira vez o termo heteropessimismo. Não é novo, terá surgido em 2019, mas sou lento na actualização. Descobri, com este episódio, de que estou sete anos atrasado. Sou uma pessoa serôdia, digo para mim mesmo. Em linguagem do campo, há as colheitas temporãs e as serôdias. Eu sou do tardio, nada de precocidades. Pelo contrário. Voltemos ao heteropessimismo. É um sentimento essencialmente feminino. Não sem razão. Mulheres sentem que evoluíram social e emocionalmente de forma muito mais rápida do que a maioria dos homens. Quando descobri o novo termo que me ilumina neste texto, alguém diz que as mulheres vivem nos dias de hoje e os homens estão no século passado, nos anos 80. Discordei, claro. Muitos homens vivem no século XIX e, no fundo, têm uma visão das mulheres não muito diferente dos talibans. Isto é um drama para as mulheres. Não encontram um parceiro à sua altura, com quem possam compartilhar a vida. Por muito estranho que possa parecer, o principal problema político dos dias de hoje é o estatuto da mulher. É este estatuto que leva os homens a escolherem o primeiro idiota que lhes aparece pela frente com um discurso de apologia de putativas virtudes másculas. No fundo, o que se deseja é reduzir as mulheres à dimensão dos homens: crianças grandes, que julgam que a vida é uma adolescência eterna. Não devia escrever sobre estas coisas. Sou um mero narrador cujo autor lhe proíbe os assuntos políticos. Contudo, o que me mobilizou não foi a política mas a descoberta de uma palavra nova. Aumentar o vocabulário é aumentar o mundo onde se vive.