sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Humores

Já estamos no segundo dia de 2026 e ainda não consegui perceber qual a diferença com os dias de  2025, para que o ano tenha direito a um novo nome. Os nomes servem para diferenciar e quando algo não é diferente, então não se lhe deve reconhecer a diferença com nova designação. Aqui chegados, podemos entrar na velha polémica entre os seguidores de Heraclito (Heraclito e não Heráclito) e os sequazes de Parménides. Os primeiros gritarão que tudo muda, ninguém se pode banhar duas vezes na mesma água do mesmo rio. Os outros encolherão os ombros e erguerão cartazes dizendo o devir é uma ilusão, o ser é e não pode não ser. Quando me sentei para escrever o que estou a escrever decidi ser um correligionário, por hoje, do velho eleata, isto é, de Parménides. Amanhã, cansado da imobilidade do ser, talvez me converta à doutrina do efésio, ao πάντα ε (tudo flui). Assim, hoje nego a mudança do ano, porque nada flui. Amanhã, recomposto destes dias, reconhecerei que afinal estes dias de 2026 são mesmo diferentes dos que deixámos em 2025. Ofereço, deste modo e para comemorar o Ano Novo, uma grande tese ao mundo: a filosofia é uma questão de humores. Ora, como estes são volúveis, a mesma pessoa pode ter diversas filosofias, para usar, como o corpo usa diversas camisas, em conformidade com estado desses humores, ou do clima, ou de outra coisa qualquer à sua escolha. Contudo, há aqui um problema. Os humores, como se sabe desde a antiguidade, são líquidos orgânicos – sangue, bílis, atrabile e fleuma – e todos os líquidos têm uma queda para o fluxo e para o movimento. O que implicaria que possuir um humor parmenídio seria uma contradição. Era como se afirmasse que tudo flui imóvel. Há, porém, uma explicação que salva esta contribuição para o bem da humanidade. Por vezes – quem nunca sentiu isso? –, a fleuma congela e até o temperamento mais bilioso se imobiliza como o Ser de Parménides. Nessa hora, ninguém crê no movimento, nem tem pressa para chegar a qualquer sítio, pois não há sítio para ir. É o que acontece comigo no dia de hoje. Sou um adepto da imobilidade, fustigo as ilusões dos sentidos e concordo com a razão quando esta afirma que toda a coisa é igual a ela mesma. Coisa em que, noutros dias, não creio por um instante sequer.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.