segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

O rancor e a longa vida

Ao abordar uma tese famosa de Martin Heidegger, Peter Sloterdijk escreve: mas lembra também (a tal tese) a guerra civil que nunca se apaziguou, desde a época de Platão, entre a filosofia e o pensamento ordinário. Traduzo de uma edição em francês, o que me deixa perante um problema: que expressão alemã foi traduzida por pensamento ordinário. O pensamento não filosófico e não científico, aquele que usamos no quotidiano, pode ser catalogado de diversas maneiras: ordinário, vulgar, comum. Ora estes termos não designam a mesma coisa. Um pensamento ordinário é aquele que está dentro de uma ordem natural de coisas (neste caso, de pensamentos). Por seu lado, um pensamento vulgar é aquele que diz respeito ao vulgo, um pensamento popular, mas que, por isso, não seria o pensamento da elite. Por fim, um pensamento comum é aquele que é partilhado por uma comunidade. Apesar destas formas de adjectivar o pensamento não filosófico-científico serem tomadas por sinónimas, dificilmente elas designarão a mesma coisa. Ora, isto tem uma consequência. Nessa velha guerra civil, talvez a filosofia tenha escolhido por inimigo um fantasma. O qual se passeia por aí e se mostra como sombra, mas que, na verdade, não se sabe muito bem o que é. Será por isso que a filosofia, passado 2 600 anos da sua emergência, ainda se mantém viva. Se nessa guerra civil tivesse defrontado um inimigo claro e distinto, talvez o tivesse derrotado e aniquilado, o que seria, ao mesmo tempo, o seu fim. Deixaria de ter função. Assim, tem um motivo para estar viva: tem um inimigo que deve derrotar, mas, na verdade, não sabe quem é. Mantém um rancor que desconhece o seu objecto, mas que dá energia para uma longa vida.

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