terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Desajustes

Depois de ter adormecido e acordado, em frente ao computador, recordei-me de um estranho pensamento que se insinuava em mim, para que eu o admitisse como verdade. Não teria vinte anos. Os seus contornos são difusos, mas relacionava-se com uma certa gratidão metafísica — adjectivação que agora me ocorre, mas não naqueles dias — por acreditar em certas coisas em que então acreditava, pois, mais do que verdadeiras, o que me parecia óbvio, elas eram justas, quero dizer, ajustadas à realidade. Era uma gratidão por uma dádiva moral que me inscrevia no campo dos justos. Depois, foram-se desajustando. Aos meus olhos, pois, sei-o bem, à realidade nunca o foram. Não sei se o retorno deste pensamento, em modo de rememoração, se deve ao carrossel do sono e da vigília, com os seus tempos de penumbra, ou à imagem da cidade que a chuva persistente torna difusa, fazendo com que tudo se torne menos ajustado à realidade do que seria de esperar. Preciso de ir caminhar, mas a minha necessidade não está ajustada à disposição do clima.

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